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  • Foto do escritorVinicius Oliveira

Análise | Halt and Catch Fire (2014-2017)

Uma ode aos sonhadores e uma das melhores e mais subestimadas séries já feitas.

Foto: Divulgação


Quando estreou na AMC em 2014, Halt and Catch Fire foi rapidamente comparada à Mad Men, a qual era a joia da coroa da emissora junto com Breaking Bad. Saía o mundo da publicidade em Nova York nos anos 60 e entrava o mundo da tecnologia em Dallas nos anos 80. Saía o misterioso e charmoso Don Draper (Jon Hamm) e entrava o misterioso e charmoso Joe MacMillan (Lee Pace).


Mas apesar dessas comparações, H&CF nunca pretendeu ser Mad Men. Sim, havia algumas similaridades, mas já durante a primeira temporada podia se ver um distanciamento, que aumentou progressivamente conforme a série tomou rumos inesperados que a tornaram uma das obras televisivas mais impactantes da década passada.


Além de Joe, um ambicioso ex-executivo de vendas da IBM, a série acompanhava Cameron Howe (Mackenzie Davis), uma programadora punk e rebelde muito à frente do seu tempo; o casal de engenheiros de computação Gordon (Scoot McNairy) e Donna Clark (Kerry Bishé); e John “Bos” Bosworth (Toby Huss), vice-presidente da pequena empresa de computação onde Gordon trabalha e que contrata Joe. Ao longo das suas quatro temporadas, porém, a série reformulou e desnudou esses personagens, estudando minuciosamente suas naturezas e relações conforme acompanhávamos a evolução tecnológica do início dos anos 80 aos meados dos anos 90.


Aliás, se há algo em que H&CF realmente se assemelha a Mad Men é em como o ambiente de trabalho – seja uma agência de publicidade ou uma empresa de computação – era apenas um pano de fundo para os desenvolvimentos pessoais e interpessoais dos seus personagens. Se a primeira temporada parecia apostar em Joe como mais um anti-herói complicado na linha de Don Draper, Walter White, Tony Soprano e outros, a série corajosamente mudou essa dinâmica ao apostar no protagonismo de Cameron e Donna a partir da segunda temporada e tornando ambas o verdadeiro coração da obra, mas sem se esquecer dos seus fascinantes protagonistas masculinos.


São personagens complexos, falhos e magnéticos, dotados de uma humanidade que poucas vezes a TV viu ser retratada de maneira tão genuína. Junte-se a isso a corajosa decisão de inserir saltos temporais que nos permitiam acompanhá-los por mais de uma década (a abertura da última temporada condensa três anos em um único plano-sequência) e temos a oportunidade de vê-los mudar, amadurecer, regredir e progredir.


Ao trazer a tecnologia e as mudanças enfrentadas por esta naquele período, H&CF toca em algo mais profundo: a mutabilidade e importância das conexões humanas. Entre jargões técnicos e sonhos construídos e destruídos, vemos pessoas profundamente solitárias que só crescem na medida em que se permitem ser vulneráveis umas com as outras, mesmo quando essa vulnerabilidade é traída. Se Joe à primeira vista parece o arquétipo de um tipo de protagonista masculino que à época já estava começando a saturar, não tarda para vermos outros aspectos de sua identidade que o complexificam e o tiram desse lugar comum (inclusive no que se refere à sua sexualidade, que é para mim um dos grandes diferenciais da série).

Foto: Divulgação

A união platônica e profissional de Cameron e Donna; a evolução desta de uma dona de casa para uma poderosa mulher de negócios, as tensões do seu casamento com Gordon (este por si só um personagem que evolui de maneiras impressionantes); a relação paterna desenvolvida entre Bos e Camerson: todos esses desenvolvimentos são apenas algumas amostras do cuidado e da sensibilidade com a qual a série trata seus personagens. Em uma de suas cenas mais emblemáticas, na terceira temporada, um personagem concebe um manifesto que, mesmo escrito em meados dos anos 80 dentro da linha do tempo da série, prenuncia nossa relação com as redes sociais e o quadro atual das relações interpessoais em meio à evolução desenfreada da tecnologia:


“Existe algo no horizonte. Uma conectividade massiva. As barreiras entre nós desaparecerão, e não estamos prontos. Machucaremos uns aos outros em novas maneiras. Venderemos e seremos vendidos. Iremos expor nosso eu mais frágil, apenas para sermos ridicularizados e destruídos. Seremos tão vulneráveis, e pagaremos o preço. Não seremos mais capazes de fingir que podemos nos proteger. É um perigo enorme, um risco gigante, mas vale a pena. Precisamos apenas aprender a cuidar uns dos outros. Então esta maravilhosa, nova conexão destrutiva não irá nos isolar. No fim, não irá nos deixar totalmente sozinhos."


Esse manifesto carrega a essência da própria série, de como ela é capaz de ler a nossa contemporaneidade mesmo se passando décadas atrás. H&CF sempre tratou seus protagonistas como sonhadores e visionários incorrigíveis que fracassaram muitas vezes, mas ainda assim persistiam em busca da próxima grande ideia (“the thing that gets you to the thing”, como era dito pelos personagens). Ironicamente, a série também viveu à margem da sua época, fosse pelas já referidas comparações com Mad Men no começo ou pela baixa divulgação e audiência que quase a fez ser cancelada mais de uma vez – e é um milagre que a AMC a tenha deixado durar até a quarta temporada, dando aos seus criadores a chance de terminá-la em seus próprios termos.


Da minha parte, só posso agradecer por tal milagre. Poucas séries ressoam tão diretamente comigo da forma como Halt and Catch Fire fez, criando indivíduos que eram como uma verdadeira família – mesmo nos seus piores momentos – e impossíveis de não amar, a despeito das suas falhas. Mesmo existindo à margem como seus personagens e nunca tendo recebido o devido reconhecimento, esta série merece toda a atenção possível e faz por merecer estar no panteão das melhores séries já feitas.


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