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  • Foto do escritorVinicius Oliveira

Crítica | A Noite do Dia 12

Drama francês trata de misoginia e feminicídio com um olhar burocrático

Foto: Divulgação


Exibido no Festival de Cannes de 2022 e vencedor de seis prêmios César (o mais importante do cinema francês), A Noite do Dia 12 remete a filmes policiais como Memórias de um Assassino e Zodíaco ao se inspirar em um crime real que jamais foi solucionado para contar sua história. A diferença aqui reside no olhar que a obra adota para tratar dos seus temas centrais, a misoginia e o feminicídio.


Passando-se nos Alpes franceses, o filme tem como protagonista o policial Yohan Vivès (Bastien Bouillon), que assume o posto de chefe de polícia local e logo em seu primeiro dia de trabalho precisa investigar o assassinato da jovem Clara Royer (Lula Cotton-Frapier), que foi queimada viva. Ao lado de seu parceiro Marceau (Bouli Lanners) e colegas de trabalho, Yohan inicia uma jornada para identificar o culpado pela morte, mas se vê confrontado pelo excesso de pistas diante do quadro de ex-namorados de Clara, todos problemáticos e potencialmente abusivos e suspeitos.


Ao usar a sua primeira hora para desfilar esses prováveis suspeitos de matarem a jovem, A Noite do Dia 12 intenta um comentário pertinente sobre a internalização da misoginia na sociedade (seja ela francesa ou qualquer outra) e o feminicídio como sua consequência mais drástica. Cada um dos exs de Clara representa um aspecto dessa misoginia: do rapaz que ri ao mencionar a forma como ela morta, passando pelo imigrante que escreveu um rap onde afirma que a queimaria viva, até culminar em um homem violento que já foi indiciado por agredir a ex-esposa.


Ao desnudar a vida pregressa dela (que à primeira vista é enquadrada como uma jovem doce, amorosa e perfeita), há uma espécie de convite para sermos cúmplices da percepção que os próprios policiais — todos homens — têm de que ela “fez por merecer” ser morta por se envolver com “caras maus”, antes de buscar nos apontar o dedo para nossa culpabilização da vítima. O filme se ancora em Yohan como uma bússola moral, mas também não o isenta de carregar uma misoginia internalizada, vide a ótima cena em que ele é confrontado por Stéphanie (Pauline Serieys), amiga de Clara.

Foto: Divulgação


Mas ainda que traga uma temática tão relevante, A Noite do Dia 12 não deixa de derrapar em algumas escolhas narrativas que minam o impacto que busca causar. A escolha de usar o assassinato de Clara para refletir o drama e os conflitos pessoais de Yohan é compreensível, mas nunca há o suficiente para vermos o quanto esse caso assombra o protagonista, com Bouillon tendo pouco a fazer para expressar essa dimensão interna do seu personagem. Isso é ainda mais flagrante por vermos como o filme enquadra Marceau em relação ao caso, com Lanners entregando de longe a melhor atuação do filme inteiro e quase engolindo Bouillon no processo.


Além disso, para um filme que trata sobre a violência às mulheres, escolher uma perspectiva predominantemente masculina parece uma decisão quase retrógrada, ainda que nos ajude a ver as contradições de se ter uma força policial toda composta de homens lidando com um caso como esse quando estes homens também são eles machistas em algum nível. Porém, as contradições do filme em si ficam ainda mais evidentes com a inserção de duas personagens femininas — uma juíza e uma policial — no terceiro ato. Pode se tratar de um comentário contundente sobre a diferença de ter mulheres envolvidas nesse processo e como elas poderiam ter solucionado muitos aspectos do caso se estivessem envolvidas antes, mas também parece uma reflexão tardia do filme, como se este se lembrasse quase tardia demais que, para um filme sobre misoginia, só uma perspectiva masculina não é o suficiente.


Mesmo com a atemporalidade da sua proposta, A Noite do Dia 12 nunca vai além do básico e do burocrático para nos causar o impacto ou reflexão devidas em relação ao que discute. É um filme que carrega bons momentos isolados, mas no geral se mostra uma experiência morna, prejudicada pela forma como enquadra seus personagens diante do caso principal e como não consegue esconder o quanto é um filme feito por homens (e talvez para homens, acima de tudo).


Nota: 3/5

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