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  • Foto do escritorDavid Shelter

Crítica | Assassinos da Lua das Flores

Scorsese traz para as telas história quase esquecida pelo tempo

Foto: Divulgação


Algumas personalidades do cinema mundial são tão lendárias que me deixam meio aflito de receber a missão de escrever algo sobre algum trabalho delas. Quando Painho (título carinhoso do OP para Meu Pai), com o incrível Anthony Hopkins, foi lançado e fiquei incumbido de trazer um texto sobre, passei um tempo ansioso e pensando: "o que um mero mortal como eu teria para falar de alguém tão grandioso?", mas depois de assistir três vezes eu consegui. Com Martin Scorsese o sentimento é o mesmo, mas aqui estou eu, pois Assassinos da Lua das Flores vinha me deixando na expectativa já há algum tempo, e após ter lido o livro e conhecido a história dos Osage, eu não queria perder a chance de apreciar esta obra e tentar agraciar com minhas singelas palavras.


Partindo do princípio, o longa é baseado no livro homônimo, que é um levantamento histórico feito por David Grann sobre o período em que o povo Osage foi enxotado para o desértico Oklahoma. Lá então se descobriu que as terras eram ricas em petróleo, fazendo deles as pessoas com maior poder aquisito e também alvos dos ataques da ganância do homem branco. Se tratando da produção, ela é respeitosa com os fatos, mas, como uma adaptação, percorre alguns caminhos diferentes sem, no entanto, tirar a essência da trama. Apesar de retratar o povo Osage e todo o complô envolvendo assassinatos de vários deles, o enredo gira em torno principalmente de Mollie (Lily Gladstone) e sua família, que são o alvo de Bill Hale (Robert de Niro), por intermédio de seu sobrinho, Ernest (Leonardo DiCaprio).


Com três horas e meia de duração, Scorsese nos guia de volta ao passado em território norte-americano, e acompanhamos um pouco a história no decorrer dos anos 1910/20/30. Aqui há um ponto em que pode gerar uma sensação no telespectador de estar perdido no tempo, pois a passagem cronológica não se dá de maneira clara em tela. No entanto, isso não se torna um agravante para a história geral, pois a abordagem e a condução fazem com que o público fique atento a cada evento ali mostrado.

Foto: Divulgação


Um dos pontos positivos da duração, é que ela nos proporciona performances mais duradouras, mesmo de quem é coadjuvante. Com três figuras mais recorrentes, Mollie (Gladstone), Bill (De Niro) e Ernest (DiCaprio), o roteiro e a direção nos dá a oportunidade de apreciar com calma o trabalho de cada um em tela para o desenvolvimento de seus personagens. Por mais que DiCaprio seja o protagonista de fato, Lily Gladstone é uma presença marcante na primeira parte do filme. Ela conduz sua personagem de forma que hipnotiza quem assiste, com uma força e uma leveza ao mesmo tempo, nos dando uma Mollie Burkhart fácil de se gostar e complexa de se compreender. O único ponto negativo é não termos mais tempo de tela para apreciá-la em cena, pois ela é realmente fenomenal.


DiCaprio é por si só um grande ator, mas, com o ambíguo Ernest, seu trabalho parece se amplificar ainda mais, e ele faz parecer tão fácil e tão natural, que mesmo o personagem sendo o que é, a atenção fica presa ao seu desempenho e suas emoções. Bill Hale, é um velho branco arrogante e frio, que se mostra como um amigo salvador dos Osage quando, na verdade, só quer tomar tudo que eles têm e manipulá-los para que permaneça no pedestal em que se colocou, e a longevidade do longa também dá tempo para que De Niro se agigante próximo ao fim neste personagem.


Das questões técnicas da produção não há do que reclamar, tudo se encaixa com perfeição, mas tiro um espaço para falar da trilha que é conduzida no decorrer do tempo. É uma trilha contínua que dá uma sensação de constante movimento mesmo quando a cena está parada em apenas um diálogo. Carregada de ação, suspense e um tom nostálgico do passado, ela dá o encaixe perfeito para a história continuar passando. Outro ponto é a direção de arte e o cuidado em retratar o povo Osage, suas vestimentas e seus costumes em situações como enterros e casamentos, a atenção com os detalhes nos faz imergir, mesmo que por pouco tempo, na forma de vida que eles levavam.

Foto: Divulgação


Quanto ao roteiro, é claro que uma adaptação não seria fiel à obra original, e é aqui que se nota a mão boa de quem escreveu o texto para o cinema, pois é nessa condução e nas escolhas feitas que vemos como tudo funciona, e Roth junto a Scorsese souberam como podar e modelar a história para as telas, por mais que algumas informações tenham faltado. Já em relação a Martin Scorsese na direção, não tenho o que falar se não que ele permanece o incrível diretor que já era, com o adendo de saber avançar no tempo e conseguir se aperfeiçoar e mostrar seu trabalho sempre da melhor forma possível.


Por fim, também é bastante gratificante poder ainda ver em tela, mesmo que por pouco tempo, Brendan Fraser e Jesse Plemons, ambos chegando já na reta final, mas agregando mais peso ao filme. Apesar das qualidades, pode haver um certo cansaço pelo tempo total, mas nada que atrapalhe no entendimento da obra. Assassinos da Lua das Flores chega em 2023 já sendo um dos melhores do ano, e é sempre motivo de agradecimento poder assistir a um cineasta tão renomado e querido nas telas do cinema.


Nota: 4,5/5

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