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  • Foto do escritorAianne Amado

Crítica | Beau Tem Medo

Três longas horas de crise de ansiedade alucinógena fazem o melhor pior filme dos últimos tempos

Foto: Divulgação


Como críticos, nosso papel é dar nossa impressão sobre a obra para que você, leitor, possa avaliar se vale a pena investir nela ou encontre considerações e explicações que validem ou não suas próprias impressões de algo em que já consumiu. Até aí tudo ok, parece simples. Mas e quando a opinião do crítico é “????”?


É com esse impasse que começo esse texto porque é com ele que tenho convivido desde que saí da sessão de Beau Tem Medo, novo filme de Ari Aster, criador dos também polarizantes Hereditário (2018) e Midsommar – O Mal Não Espera a Noite (2019). É difícil julgar arte porque o objetivo e o subjetivo podem facilmente se contradizer. Frank Sinatra tinha, objetivamente, uma das melhores vozes e interpretações musicais da história, mas suas canções não mexem tanto assim comigo. Da Vinci é, objetivamente, um gênio artístico e suas composições altamente complexas até hoje são estudadas, mas quando me vi de cara com a Monalisa não senti nada diferente. Beau Tem Medo é, objetivamente, uma grande produção cinematográfica, e eu detestei.


Vamos por partes. O filme se propõe a imbricar comédia, suspense e pitadas de terror ao contar as desventuras do personagem no título (Joaquin Phoenix), que tem toda razão em estar apavorado: o mundo é um caos e está todo contra ele. Desde seu nascimento, mostrado nos primeiros minutos do filme, tudo é muito conturbado e a grande razão para tanto estresse é o amor excessivo de sua mãe (Patti LuPone). Está claro que Aster tem alguma questão freudiana: a obsessão parental, sobretudo a materna, é tema central de muitas de suas direções até aqui, com destaque para Hereditário e o curta Munchausen. Me pergunto se a mãe dele se ofende assistindo o trabalho do filho.

Foto: Divulgação


Na terapia, Beau parece começar a ter insights sobre como essa relação pode estar sendo prejudicial a ele, mas não consegue ignorar o amor, a gratidão e o senso de responsabilidade que nutre pela sua genitora, tanto que marcou uma viagem no dia seguinte para celebrar ao lado dela o aniversário de morte do pai que nunca conheceu. É aí que tudo começa a dar errado (na história e no filme em si). Beau vive num mundo que parece com o nosso, mas muito mais violento. Sua vizinhança é infestada de loucos, criminosos e corpos, causando uma série de adversidades (não necessariamente realistas) que o impedem de chegar a tempo no aeroporto para a viagem. Desolado, ele liga para a mãe para dar a notícia e ela a recebe com uma resposta passivo-agressiva, insatisfeita com a desfeita dos planos. Outra série de adversidades faz com que seu prédio seja invadido pelos loucos da rua e ele fique trancado para fora. Quando enfim consegue voltar para os escombros do que foi o apartamento, outra série de adversidades o leva a descobrir que sua mãe, com quem queria se redimir, havia morrido. Em choque, vai tomar um banho e mais uma série de adversidades o faz ser atropelado nu por um caminhão.


E esse é só o primeiro ato. Exausto? Pois é, eu também.


O que segue são histórias similares em outros cenários. Beau tem a missão de chegar o mais rápido possível no velório da mãe, que deixou claro que só queria ser enterrada na presença do seu querido filho. Mas nada conspira ao seu favor, nunca. Ele é pseudo-sequestrado, perseguido, ameaçado, abusado, manipulado… tudo isso por personagens com a profundidade de um pires, que são loucos apenas por ser. O grau do absurdo vai aumentando a cada cena – e não de uma maneira convincente. Quando nos damos conta, um Beau que acabou de perder a virgindade está tirando de si uma mulher que morreu petrificada ao ter orgasmo. Algumas cenas depois está de cara com um pênis gigante e antropomorfo que estava escondido no sótão. Descobrimos que, num plot twist de novela mexicana, sua mãe estava viva e tudo não se passou de um jogo para testar o verdadeiro amor incondicional do filho. A esse ponto o filme já virou um circo e estou olhando o relógio, dois pensamentos gritando em minha cabeça: “a quem eu cobro essas últimas 3 horas da minha vida?” e “quem aceitou dar tanta verba para esse projeto”?

Foto: Divulgação


Porque se há um mérito em Beau Tem Medo é o de super produção. É um filme que grita “orçamento milionário!” na cara do espectador. A montagem brinca habilmente com a demora e a aceleração para criar o suspense. O som diegético muitas vezes se confunde com a trilha, assinada por The Haxan Cloak, gerando uma constante sensação de agonia, que nos lembra que nada está bem. A direção de fotografia de Pawel Pogorzelski é um show de criatividade, equilibrando beleza, desconforto e humor em planos não tão usuais – sem falar da luz que, como nos demais filmes de Aster, possui importância ímpar. A direção de arte, encabeçada pela designer de produção Fiona Crombie, é fascinante, caracterizando personagens e ambientes numa riqueza de detalhes incrível, do tipo que você conseguiria decifrar a história só de olhar frames ordenados. Assim como Beau, um homem passivo e desmotivado mas que tenta encontrar o amor pela vida, suas roupas são neutras mas bem cuidadas e seu apartamento é vazio mas devidamente limpo e organizado. Já sua mãe, que se considera a pessoa mais importante da vida do filho, usa roupas pomposas e mora numa mansão luxuosa inundada por fotos e lembranças, dignas de quem não consegue desapegar. Até o roteiro tem mais pontos positivos que negativos, se conseguirmos considerar isoladamente cada ato. E tudo isso, claro, liderado pela cereja do bolo: a atuação brilhante, primorosa, irretocável de um Joaquin Phoenix que, contraditoriamente, ao retratar uma pessoa insegura sobre tudo, nunca esteve tão seguro de si.


Sim, todos os aspectos de Beau Tem Medo são de primeiríssima qualidade, um deleite para o público… mas não funcionam como longa. Não coincidentemente, quando saí do cinema, ao pesquisar mais sobre o filme, vi que ele deriva de um curta de mesma proposta. “Se fosse um curta eu ia gostar”, pensei, “quem sabe uma série antológica”. Porque na verdade, o filme em si parece uma sucessão de curtas ou esquetes sombrias de um programa de humor que ninguém acha tanta graça, mas também não consegue tirar os olhos da tela. Cada sequência (diferenciada principalmente pelo local) se difere bastante da outra, Beau e o mundo desproorcionalmente violento sendo os únicos vínculos entre elas.


Fica nítido que, diferente do medo/terror que Ari Aster quis evocar nos seus filmes anteriores, neste o sentimento que ele mirou foi a ansiedade. O filme é uma grande crise de aflição e angústia, e nisso ele foi bem certeiro em sua direção. Parece, de fato, que estamos vivendo na mente de alguém que está passando por um ataque de pânico no meio de uma sessão de ayuasca. O problema é que ninguém aguenta três horas de ataque de pânico psicodélico. Eventualmente cansamos, nos dessensibilizamos do caos e nos irritamos com o exagero. Se no início franzimos o cenho, positivamente espantados diante do absurdo, com o tempo cada novo problema ilógico passa a ser um revirar de olhos, até nos perguntarmos “por que Beau não se mata logo?”.


Cento e setenta e nove minutos de overdose visual e sonora depois, o final do filme conclui apressadamente o que já sabíamos, literalmente, desde o primeiro minuto: Beau é uma pessoa passiva e sua mãe, louca. Tanto investimento (meu, do meu emocional, do estúdio e da produção) para nada. Vai ver o “????” que estava na minha cabeça era pensando como um filme tão bom conseguiu ser tão, mas tão ruim.


Nota: 2/5

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