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  • Foto do escritorVinicius Oliveira

Crítica | Belas Promessas

Para que (e quem) serve a política?

Foto: Divulgação


Todos nós conhecemos aquele velho dito: “se quer descobrir a verdadeira natureza de um homem, dê-lhe poder”. Mas e quando a mera possibilidade de poder já é o suficiente para desnudar a natureza de uma pessoa? É o que mostra Belas Promessas, dirigido por Thomas Kruithof e estrelado por Isabelle Huppert e Reda Kateb.


Huppert interpreta Clémence Collombet, prefeita de uma cidade suburbana e empobrecida nos arredores de Paris, enquanto Kateb dá vida ao seu assessor, braço direito e amigo, Yazid Rabbi. Prestes a terminar seu segundo mandato e sem interesse em concorrer a um terceiro, Collombet se concentra em tentar salvar os Bernardins, um decadente conjunto habitacional no qual residem diversos imigrantes. Contudo, ela recebe a proposta de ser ministra do atual governo francês, e as consequências desse convite logo afetam não só a ela, como a Yazid e à própria cidade.


Os minutos iniciais capturam muito bem a química da dupla principal, com Huppert e Kateb rapidamente nos convencendo da camaradagem e amizade de anos que os personagens possuem. Ela, uma das melhores atrizes de sua geração e de seu país (senão a melhor) está soberba como sempre, interpretando uma mulher que a princípio se mostra íntegra e de fato preocupada com as necessidades dos seus cidadãos, mas passa por uma gradativa e dúbia mudança após receber o convite para ser ministra, apresentando um lado mais ambicioso e traiçoeiro. Há uma nítida diferença entre a Clémence da primeira metade do filme e a da segunda, identificada pela forma como Huppert traz diferenças sutis na composição da personagem, que nos fazem perguntar: será que ela sempre foi assim e não percebemos antes?

Foto: Divulgação


Mas apesar do brilhantismo habitual da atriz, diria que o dono do filme é Kateb, que traz uma performance tão (se não mais) complexa, com um personagem que parece ter tanto a guardar para si mesmo enquanto trabalha com e para os outros, mas também vai se desnudando e encontrando sua própria voz conforme o filme avança. A sua conexão pessoal com os Bernardins — tratada no início do filme como um passado do qual quer se desapegar e depois como a sua tábua de salvação — permite que ele e Clémence troquem de lugares no decorrer da narrativa.


Apesar desses vários pontos positivos, o roteiro falha em tentar incorporar alguns pontos que no fim das contas soam um tanto deslocados, como a subtrama do jovem que se choca com Yazid e dos sublocatários ilegais. Já o final soa um tanto otimista demais para o que foi apresentado antes — embora às vezes seja bom nos lembrarmos de que a política, quando bem-feita, pode mudar para melhor as vidas dos cidadãos.


Ainda assim, Belas Promessas consegue trazer uma abordagem sóbria e realista sobre as maquinações políticas, evitando as tramoias e conspirações típicas em produções hollywoodianas para mostrar uma política mais mundana e cotidiana, ainda que em certos momentos beba da inspiração dos thrillers políticos da Nova Hollywood dos anos 1970, como “Todos os Homens do Presidente”. Ao nos aproximar de um microcosmo tão relacionável — apenas uma prefeita e sua pequena cidade —, a obra consegue ser exitosa em sua proposta, muito também por mérito das ótimas atuações de Huppert e Kateb.


Nota: 4/5

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