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  • Foto do escritorVinicius Oliveira

Crítica | Império da Luz

Um filme que tenta ser várias coisas e falha em quase todas elas

Foto: Divulgação


Na esteira de longas autobiográficos e/ou descritos como “cartas de amor ao cinema” (um termo que cada vez menos me soa um elogio), Império da Luz traz um Sam Mendes se rendendo à nostalgia, evocando o início turbulento dos anos 1980 na Inglaterra para interconectar uma série de temas: um estudo de personagem da protagonista vivida por Olivia Colman, as tensões raciais do período e uma ode ao poder transformador do cinema.


Colman dá vida a Hilary Small, a gerente de um cinema decadente, o Empire, localizado numa cidade costeira. Pelos primeiros 15 minutos somos apresentados à deprimente vida de Hilary: ela esteve internada em um hospital psiquiátrico, está tomando remédios para controlar as oscilações de humor, tem um caso com seu chefe e, mesmo trabalhando num cinema, não vê os filmes exibidos. Tudo muda quando ela conhece o novo funcionário, Stephen (Micheal Ward), um filho de imigrantes negros caribenhos, e o romance aflora entre os dois, embora ameaçado pelas instabilidades emocionais de Hilary e a tensão racial que afeta duramente o rapaz.


Norteado inicialmente pelo drama romântico do casal, Império da Luz não demora a tentar ser outras coisas, conforme mostrado no parágrafo inicial. Mas o roteiro, assinado pelo próprio Mendes, logo revela suas vulnerabilidades, como se ele tentasse equilibrar várias bolas no ar e deixasse quase todas cair no chão. A premissa sugere a tal “carta de amor ao cinema”, o que é amplificado pela locação, magistralmente trabalhada pela direção de arte para retratar tanto a opulência quanto a decadência do Empire, bem como pela fotografia do sempre brilhante Roger Deakins (embora sua abordagem mais estilizada pareça fora de lugar aqui). Entretanto, o filme está sempre se recusando a mostrar os filmes em exibição, mesmo os mencionando aos montes, o que soa uma decisão no mínimo incoerente. Embora seja apresentada a justificativa de que a protagonista não assiste esses filmes, logo fica claro que é uma desculpa rasa para forçar uma certa catarse que vem no último ato (a qual não pude deixar de associar com a controversa cena final de Babylon, esta muito mais coesa com o filme em questão).

Foto: Divulgação


Aliás, “raso” é um adjetivo pertinente para o filme, o que é esperado dada a quantidade de temas que quer abordar sem nunca se aprofundar de fato neles. A abordagem do racismo é simplesmente desastrosa: tal qual Green Book, a escolha de tratá-lo pela ótica da personagem branca, tratando-a como ingênua e ignorante a respeito dos males do preconceito — enquanto trata o personagem negro mais como um totem do que como uma pessoa de verdade em alguns momentos — se revela uma decisão covarde de um homem branco e privilegiado, que parece ter descoberto apenas recentemente que é branco e privilegiado. Da mesma forma, há algum interesse em trazer também uma discussão sobre desigualdade de gênero, mas esta fica limitada a frases vociferadas pela personagem de Colman e pelo antagonista medíocre vivido por Colin Firth, sem nunca ir além disso. É nítido que o viés habitualmente estilizado de Mendes trabalha contra sua própria obra, revelando uma abordagem higienizada e embelezadora dos temas que se propõe a discutir.


A única razão pela qual o filme não chega a ser um desastre completo é a força das atuações de Colman e Ward. Ela é uma das melhores atrizes de sua geração, e consegue fazer o que o roteiro é incapaz de dizer, incorporando as diversas facetas da sua personagem desequilibrada e trágica. Seus momentos explosivos e desvairados poderiam soar como caricaturais e forçados na mão de atrizes menos talentosas, mas nas mãos dela soam poderosamente naturais e críveis. Já Ward traz uma performance mais contida, mas que consegue se elevar para além do papel de totem que lhe é imposto pelo roteiro. Ainda assim, se é para vê-lo como um imigrante afro-caribenho fã de reggae na Inglaterra dos anos 1980, recomendo assisti-lo em Lovers Rock, de Steve McQueen, um filme que faz muito mais jus ao seu talento e carisma do que este aqui.


Na safra de filmes feitos para premiações (os famosos “Oscar baits”), Império da Luz é um dos mais dolorosamente óbvios que vi em muito tempo. Em tese, tem muito ao seu favor — um diretor, equipe de produção e elenco oscarizados, além de temas que demonstram ser relevantes e a tal capacidade “metacinematográfica” que é irresistível a Hollywood. Mas, embora Colman e Ward brilhem e deem seu melhor, eles não podem fazer o filme ser mais do que é: uma obra rasa, ingênua e malconduzida, que na tentativa de dizer algo sobre vários assuntos pertinentes acaba dizendo pouco ou quase nada além do que saibamos e que já não tenhamos visto em obras melhores. É um filme cheio de boas intenções, mas parafraseando o velho ditado: de boas intenções as premiações estão cheias.


Nota: 2/5

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