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  • Foto do escritorVinicius Oliveira

Crítica | Loki (2ª temporada)

Ligeiramente acima do padrão atual da Marvel, mas não o suficiente

Foto: Divulgação


Falar da crise criativa da Marvel no cinema e na TV nos últimos anos é chover no molhado. Quanto mais seus filmes e séries são criticados e não obtêm os resultados financeiros esperados, mais fica claro que o pico da franquia se deu de fato em Vingadores: Ultimato e de lá para cá se observa uma nítida derrocada. Claro, ninguém diria que as coisas chegaram a tal ponto quando as primeiras produções televisivas saíram há dois anos, destacando-se entre elas a primeira temporada de Loki. Infelizmente, a segunda temporada, ainda que dotada de notáveis méritos, parece ser mais uma vítima da confusão que anda o MCU ultimamente.


Partindo diretamente do final do seu primeiro ano, onde vimos Aquele Que Permanece (Jonathan Majors) ser morto por Sylvie (Sophia DeMartino) e Loki (Tom Hiddleston) ser jogado numa espécie de versão alternativa da AVT, a temporada já nos mostra de imediato que não se trata de uma versão alternativa da agência, mas sim algum momento do passado, visto que o protagonista agora sofre de “deslizes temporais”, que o fazem transitar entre passado, presente e futuro contra sua vontade. Sob a ameaça de destruição da AVT e das linhas temporais ramificadas que passaram a surgir por causa da morte de Aquele Que Permanece, Loki precisa reunir seus aliados para deter esse cataclisma antes que seja tarde demais.


Apesar do senso de urgência, a temporada sofre de uma flagrante irregularidade que minimiza os riscos propostos pela narrativa quando lhe é conveniente, abrindo espaço para uma nova leva de personagens que pouco têm a acrescentar. Uma notável exceção é Ouroboros, que ganha uma interpretação simpática de Ke Huy Quan, mas que podia ser facilmente uma variante do seu personagem em Tudo Em Todo Lugar Ao Mesmo Tempo, servindo basicamente como um recurso didático para nos apresentar os conceitos pseudo-tecnológicos do universo (o famoso technobabble). Já Rafael Casal e Kate Dickie são introduzidos para nos dar uma perspectiva dos problemas da AVT, mas a série nem se esforça para compô-los adequadamente, o que fica mais nítido na forma como o personagem de Casal tem toda uma subtrama sugerida no segundo episódio que poderia amplificar as discussões da obra sobre determinismo e livre arbítrio, mas à qual não temos quase nenhum acesso.


Aliás, o ritmo irregular da temporada parece indicar não apenas um amontado de ideias mal trabalhadas e saltos que poderiam render episódios inteiros, mas também uma espécie de corte de custos, já que elementos como essa subtrama de X-5 (Casal) ou nas ações de Dox (Dickie) contra as ramificações ao final do segundo episódio nem de longe recebem o peso que lhes foram prometidos. Felizmente, o ritmo melhora aos poucos no decorrer dos episódios, enquanto na parte técnica a série continua a se sobressair: a trilha sonora de Natalie Holt é um destaque sempre, assim como a direção de arte retrofuturista da AVt e a própria direção geral dos episódios, em especial da dupla Justin Benson & Aaron Moorhead, que incorpora naturalmente esse retrofuturismo da obra.

Foto: Divulgação


Ainda assim, a temporada parece sobrecarregada por um fardo desnecessário, especialmente quando, ao a cortarmos até a medula, vemos o quão simples ela é. E veja: não trato a simplicidade como algo negativo, mas é como se a temporada desse mais voltas do que o necessário para preencher os seis episódios, ao mesmo tempo em que tira espaço de subtramas e performances que mereciam muito mais destaque. Destaco aqui a subutilização criminosa de Sophia DeMartino, Wummi Mosaku e Gugu Mbatha-Raw, três atrizes excelentes que são nitidamente escanteadas, mesmo dando o seu melhor naquilo que lhes é dado.


No que se refere aos demais coadjuvantes, Owen Wilson continua sendo um grande acerto ao fazer de seu Mobius uma figura tão carismática e fácil de torcer, mesmo que em determinados momentos sua química com Hiddleston seja danificada pelo panorama geral da temporada, enquanto Tara Strong, como Miss Minutes, consegue a proeza de transformar uma IA em forma de relógio no personagem mais perverso e odioso desse universo. Já no caso de Majors, seu retorno é comprometido tanto pela composição excessivamente caricatural do seu novo personagem (mesmo que exiba os seus talentos por ser tão diferente d’Aquele Que Permanece ou Kang) quanto pelos crimes por quais o ator vem sendo acusado fora das telas, que certamente criam uma sensação desconfortável ao vê-lo em tela, ainda mais quando se tem em mente o destaque que seu Kang viria a ter nessa nova fase do MCU.


O próprio Hiddleston parece em muitos momentos deslocado, não por culpa do ator, mas sim por causa dessas escolhas narrativas que atiram em tantas direções sem desenvolver adequadamente nenhuma. Veja a diferença flagrante entre o espaço que ele possui nos três primeiros episódios e nos três últimos, em especial a finale, que confere uma espécie de encerramento glorioso não apenas para o personagem nessa nova versão que vimos após Ultimato, mas para a própria trajetória do ator nesses mais de 12 anos interpretando Loki nas telas. Hiddleston aproveita cada oportunidade em que a câmera lhe dá atenção para explorar as muitas facetas do personagem, ainda que seu arco geral não se modifique tanto ao que já vimos na primeira temporada. Sua sequência final é uma daquelas para ficar guardada na memória, fazendo mais jus por ele em alguns minutos do que boa parte da temporada não foi capaz de fazer.


A segunda temporada de Loki acaba atolada sob um amontoado de ideias que geram resultados díspares. Ainda que se beneficie do seu relativo distanciamento em relação aos eventos gerais do MCU, ela perde um tanto do charme que a primeira temporada tinha por não saber direito que história está contando e fragmentá-la em atos que pouco conversam entre si. Ajuda que o elenco permaneça afiado — mesmo aqueles que não tem muito o que fazer — e os aspectos técnicos continuem a explorar uma centelha de criatividade e frescor que tanto falta a outras séries da Marvel, além de um belo final que se mostra coerente com a jornada do seu protagonista. No entanto, esses acertos não poupam a temporada de sofrer com a falta de foco e outros problemas que vêm assolando a franquia atualmente.


Nota: 3/5

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