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  • Foto do escritorDavid Shelter

Crítica | Nada de Novo no Front (Im Westen Nicht Neues)

Desprovido de qualquer esperança e munido de muita qualidade, o filme prova que dá para fazer remakes que valem a pena

Divulgação: Netflix


O livro 'Im Westen Nichts Neues' teve sua primeira adaptação para o cinema lançada em 1930, chegando ao Brasil com o título 'Sem Novidade no Front', e retratando um período da primeira guerra, focando em alguns estudantes que eram convencidos por um professor muito nacionalista a se alistarem no exército. Quarenta e nove anos depois, em 1979, ele ganhou uma nova versão, dessa vez chegando por aqui como 'Adeus à Inocência' e com pouquíssimas diferenças do anterior. Em 2022, quase 100 anos depois do primeiro, uma nova versão é entregue; 'Nada de Novo no Front'.


Desta vez produzido pela terra natal do livro, a Alemanha, ele foi lançado pela Netflix no último dia 29, trazendo de volta os mesmos estudantes no período da primeira guerra que decidem se alistar ao exército alemão. Com uma visão mais contemporânea, a produção traz a mesma história dolorosa sob um olhar mais denso, tenso e desesperador. Com um foco mais direto em Paul, temos uma trama que se afunila para um fim de desesperança desde o seu início.


É inegável que a atualidade beneficie alguns aspectos de uma obra originalmente explorada num período em que o cinema estava saindo do mudo e entrando na era de filmes falados. Ao mesmo tempo há também um peso em se mexer com um clássico, coisa que a segunda versão não conseguiu sustentar, mas que nessa visão de Edward Berger tudo funciona. Com um tom bastante artístico, Berger transmite todo o clima de destruição com uma beleza estonteante. Usando de nuances marcantes, ele inicia o filme de forma poética e singela para logo em seguida entregar o caos que somente uma guerra repassa.

Divulgação: Netflix


A direção é, sem sombra de dúvidas, um dos muitos pontos fortes. O diretor transita entre tons e cenários com muita naturalidade, trazendo mais sagacidade para essa versão e um tom de urgência constantemente presente. Como dito antes, a contemporaneidade traz artifícios que contribuem para que um filme desse porte consiga suplantar todas as dificuldades enfrentadas em suas versões anteriores, mas não somente isso, pois, visto a quantidade de produções que costumam falhar, o mérito maior vai para a equipe que soube utilizar a modernidade para aperfeiçoar uma história desse nível.


O roteiro é outro ponto forte, trazendo uma densidade dramática muito superior aos seus antecessores, ele eleva a trama a um patamar surreal. Se utilizando de um personagem principal, o texto corre de maneira fluida, arrastando para esse epicentro todas as tramas subjacentes. Por se tratar de um roteiro adaptado, fica ainda mais nítido reparar as diferenças positivas mostradas nessa versão, ele se estende sem ficar cansativo, e ainda se recria e se remonta sem perder a coesão.


A trilha sonora é uma obra à parte. Filmes de guerra costumam quase sempre ter uma trilha bastante marcante, mas o que Volker Bertelmann trabalhou nessa não foi brincadeira. Sozinha ela já encanta e faz o ouvinte sentir as vibrações e a urgência das melodias, e em conjunto com a história ela cresce de forma absurda, colocando o telespectador num torpor ainda mais agravante enquanto assiste a cenas tão pesadas.

Divulgação: Netflix


Outro ponto que se faz necessário mencionar é a fotografia de James Friend. Ela faz com que o caos ganhe uma beleza visual imersiva, com quadros tão bem encaixados que o público fica hipnotizado por cada detalhe, e sente que não pode perder nada daquilo. Quando soma ela à direção e à trilha, o resultado é esse conjunto fenomenal. Outros dois aspectos técnicos muito bem acertados são a edição, que com maestria faz essa obra elevar ainda mais o seu grau de qualidade, e os efeitos incríveis e convincentes.


O austríaco Felix Kammerer, responsável por dar vida a Paul Bäumer, é quem fica a cargo de carregar a história ao seu redor, com companheiros de cena que vão o deixando no decorrer da caminhada e das mortes iminentes. O personagem vai ganhando um tom cada vez mais dramático com a passagem do tempo, e Kammerer sustenta de maneira louvável toda essa tensão e sofrimentos pelos quais Paul é submetido, e é perceptível no decorrer dos minutos de filme o quanto o ator se molda para entregar todas as nuances das perdas que ele sofre.


'Nada de Novo no Front' é um dos grandes acertos do ano. É um remake que se reinventa de maneira impecável, que deixa claro que ali não haverá nenhum final feliz e transmite com firmeza os horrores de uma guerra. Ele trabalha bem a dor, a angústia e a desesperança, e consegue fazer isso com um visual encantador. É uma produção muito bem feita e que teve cuidado do início ao fim em todos os seus aspectos. É garantia de telespectador vidrado enquanto o assiste já sabendo que ficará um leve vazio no peito ao acabar.


Nota: 4,5/5

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