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Crítica | O Urso (5ª temporada)

  • Foto do escritor: Vinicius Oliveira
    Vinicius Oliveira
  • 27 de jun.
  • 4 min de leitura

Série ousa mexer em sua fórmula sem, no entanto, perder sua essência e assegura um final coerente com sua jornada.


Divulgação


É uma pena o quanto O Urso perdeu muito do seu apreço por parte do público e da crítica em face da discussão sobre se ela é uma série de drama ou comédia e em quais categorias devia ser nomeada no Emmy. Como apontei na minha crítica da quarta temporada, essa discussão é francamente estúpida e se tornou tão desproporcional que é lamentável ver a série chegar à sua quinta e última temporada com apenas uma fração do reconhecimento e aclamação que possuía nas primeiras.


Mas em alguma medida essa perda de reconhecimento parece ter feito algum bem à série. Longe de ter que provar algo no cenário atual da TV e de suas premiações, ela entrega um último ano que se mantém fiel à sua essência enquanto faz algumas modificações perceptíveis em sua estrutura. A primeira delas é que praticamente todos os episódios são ambientados em um único dia – um dia no qual Chicago está se acabando em chuva – logo após o final da temporada passada, no qual Carmy (Jeremy Allen White) anunciou sua saída do The Bear e que a gestão do restaurante passaria para Syd (Ayo Edebiri), Natalie (Abby Elliott) e Jimmy (Oliver Platt).


A partir dessa decisão de Carmy, a temporada redireciona seu foco para Syd, que assume o posto de liderança não só do restaurante, mas da própria série. Isso não significa que White seja escanteado, mas é perceptível que seu arco foi em grande parte “resolvido” na quarta temporada e o que temos aqui é uma passagem de bastão. Claro que isso não se dá de maneira harmoniosa – não seria O Urso se ocorresse dessa forma – mas o protagonismo que Syd assume durante os episódios se dá de maneira progressiva (mesmo com a temporada ocorrendo quase toda em tempo real) e muito orgânica. É um reflexo do próprio arco que a personagem foi tendo ao longo da série, e Edebiri segura as pontas com seu talento de sempre, nunca deixando de lado as nuances da personagem – que tem inseguranças e dúvidas e não deixa de cometer erros – mas cravando de uma vez por todas que é um dos nomes mais importantes da sua geração.


Aliás, um dos maiores acertos da temporada é justamente de pegar os arcos nos quais seus personagens foram trabalhados e resolvê-los com bastante coerência perante o que foi apresentado deles nas temporadas passadas. Vemos Tina (Lisa Colón-Zayas), que abre a temporada numa cena singela, assumir uma posição de liderança junto a Syd na cozinha; Marcus (Lionel Boyce) lutando contra a pressão pelo prêmio que ganhou e a autossabotagem, mas se definindo como um chef talentoso, dedicado e sensível; Natalie (Abby Elliott) buscando uma forma de conciliar a maternidade com o trabalho que tem assumido no The Bear; Richie (Ebon Moss-Bacharach) entendendo e abraçando seu lugar como gerente e “cola” entre a equipe e os clientes, mesmo quando toma decisões à primeira vista irresponsáveis. Até personagens menos trabalhados e mais “esquemáticos” dentro da narrativa, como Neil Fak (Matty Matheson), Ebraheim (Edwin Lee Gibson), Gary (Corey Hendrix), Luca (Will Poulter) e outros conseguem espaço para brilhar.


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Ao focar-se num único dia, que definirá o futuro do restaurante e dos personagens, O Urso se afasta de alguns excessos das temporadas anteriores – como os convidados especiais, reduzidos a uma ou outra cena muito pontual – enquanto abre mão de algumas de suas características mais marcantes – como as várias músicas licenciadas – para entregar uma narrativa focada, intensa e ansiosa (é claro), mas que mostra a progressão que a série e os personagens tiveram. Embora o caos de sempre esteja presente, ele é conciliado com momentos de respiro, como se a temporada buscasse equilibrar o frenesi da sua primeira temporada com o tom gradativamente mais reflexivo das posteriores.


Com isso, a série consegue trazer certa leveza ao caos, sobretudo perante o humor – que, veja só, sempre fez parte dela! –, como atestado nos finais hilários do primeiro e terceiro episódio. E ainda que alguns elementos soem deslocados – em especial o uso dos Faks como alívio cômico em excesso nos primeiros episódios e a subtrama envolvendo Jimmy, Computer (Brian Koppelman) e sua sobrinha Cheese (Elsie Fisher) – o saldo geral é de uma temporada que avança inexoravelmente a um final coerente e satisfatório não só para ela, mas para uma série como um todo. Nesse sentido, o penúltimo episódio representa um clímax onde todos os pontos fortes de O Urso estão presentes, mas que registra o quanto seus personagens cresceram e a sintonia desenvolvida entre eles. Já o último episódio, com seu tom agridoce de despedida, coroa tudo que eles viveram até então, com as devidas recompensas e a certeza de que, para onde quer que eles forem, ficarão bem.


Porque, mesmo com os percalços que possa ter tido em sua jornada, O Urso sempre encontrou força nos seus personagens e no amor que nos fazia sentir por eles. Sem dar maiores spoilers, mas há uma cena entre Carmy e Syd no último episódio que me levou completamente às lágrimas, e isso só é possível porque, mais do que o que aconteceu nela, temos todo o background desse percurso de anos desde o primeiro momento em que se encontraram, um mentor e sua protegida que se tornaram iguais e chegaram aonde estão aos trancos e barrancos, mas com um intenso e genuíno vínculo forjado entre eles.


Portanto, a última temporada de O Urso nunca nos deixa esquecer do quanto nos importamos com seus personagens, do quanto lamentamos por seus erros e do quanto celebramos suas conquistas. É um final mais do que digno para uma série que por vezes ameaçou dobrar sob o peso do seu próprio sucesso, mas forjou seu próprio caminho e identidade e o levou até o fim, sabendo mudar no que queria sem perder sua essência e coerência. E ainda que a saudade deixada vá ser inevitável, é um prazer vê-la sabendo terminar no momento certo, como uma boa refeição que nos encanta e fica guardada em nossa memória. Adeus, chefs.


Nota: 4.5/5

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