top of page
Background.png

Crítica | Os Ruminantes

  • Foto do escritor: Vinicius Oliveira
    Vinicius Oliveira
  • 25 de jul.
  • 3 min de leitura

Documentário busca lançar luz sobre a união de dois dos maiores nomes da história do cinema brasileiro num filme (infelizmente) jamais feito.

Divulgação


A história do cinema está repleta de filmes sonhados por grandes realizadores que nunca chegaram a ganhar vida pelos mais diversos motivos, como o Duna de Alejandro Jodorowsky, It’s All True de Orson Welles (que seria gravado no Brasil) ou Watchmen de Terry Gilliam. No Brasil, um dos casos mais emblemáticos é a primeira versão de Cabra Marcado para Morrer, de Eduardo Coutinho, ainda que das cinzas deste tenha nascido um dos melhores documentários da história do nosso cinema.


Os Ruminantes, de Tarsila Araújo e Marcelo Mello, é um olhar sobre uma dessas obras jamais realizadas, neste caso A Hora dos Ruminantes, que seria dirigido por Luiz Sergio Person e corroteirizado por este e Jean-Claude Bernadet. Contando com entrevistas com Bernadet (numa de suas últimas aparições antes de sua morte no ano passado), Marina Person (filha de Luiz Sergio) e Sebastião Souza, o documentário disseca as aproximações entre os dois homens nos anos 60 após o sucesso do filme mais famoso de Person, São Paulo Sociedade Anônima, o trabalho conjunto de ambos em O Caso dos Irmãos Naves, o começo auspicioso da produção de A Hora dos Ruminantes – baseado no romance homônimo de José J. Veiga –, o fracasso em gravar o filme dentro do contexto da ditadura militar e os impactos desse fracasso sobre a carreira posterior de Person, prematuramente encerrada com sua morte num acidente de carro aos 39 anos.


Em certa medida, o processo conturbado e bruscamente interrompido de A Hora dos Ruminantes é apenas parte de uma reflexão que o filme traz a respeito da própria figura de Person, evidenciando sua distância teórico-ideológica dos cineastas do Cinema Novo, fator este que o aproximou de Bernadet. Alguns dos melhores momentos do filme vêm de anedotas compartilhadas pelos entrevistados, como o momento em que é contado sobre a breve incursão de Person no mercado publicitário e sua decisão de sair deste mercado da maneira mais hilária possível. Mas não deixa de haver um certo sabor agridoce pela presença dos dois em tela – Person em imagens de arquivo dos anos 60 e 70, Bernadet pelas câmeras de Araújo e Mello –, e é inevitável lamentar a perda de dois dos nomes mais importantes da história do cinema brasileiro, ainda que quase 50 anos separem suas mortes.


Divulgação


Justamente por isso, é de se imaginar que A Hora dos Ruminantes tinha tudo para ser um dos maiores filmes do nosso cinema, talvez até no nível de São Paulo Sociedade Anônima e O Caso dos Irmãos Naves. O que resta, entretanto, são as conjecturas, já que ao contrário da primeira versão de Cabra Marcado Para Morrer, este aqui sequer teve suas filmagens iniciadas, e talvez nisso resida o maior desafio de Os Ruminantes. Imagens de arquivo, como de outros filmes, e a voz em off de Tarsila Araújo ajudam a trazer um pouco à vida do roteiro concebido por Bernadet e Person e da sua proposta ousada e ambiciosa, mas o documentário constantemente luta contra a sua própria limitação de dar materialidade a este filme jamais feito.


Os melhores momentos relacionados a ele vêm de reflexões sobre seu impacto e posteridade, como as guinadas que Person deu em sua carreira dirigindo filmes “menos brilhantes”, ou a tentativa de outro diretor de adaptar o romance e que deu tão errado que fez com que o roteiro tivesse a pecha de “filme maldito”, ao ponto de Marina ser alertada por ninguém menos que Carlos Reichenbach para não gravar o roteiro do pai. Mas quando o documentário se centra no texto original em si, ou na possibilidade de que a mão da censura e da ditadura militar tenha intervindo na sua realização, ficam mais evidentes suas fragilidades. Além disso, a estrutura protocolar, fundamentando-se principalmente nas entrevistas (com algumas intervenções na imagem e na trilha nos momentos de “leitura” do roteiro e outros documentos), fazem com que ele permaneça preso a um certo lugar-comum da feitura de documentários.


Ao final, Os Ruminantes nos relembra de como homens como Luiz Sergio Person e Jean-Claude Bernadet fazem falta para o cinema brasileiro, seja para pensá-lo teoricamente ou para realizá-lo. Entre suas limitações e fissuras, ele também nos consegue apontar maneiras de enxergar o quão emblemático A Hora dos Ruminantes teria sido se chegasse a ver a luz do dia, mas ele próprio não chega a tanto.


Nota: 3/5

LEIA TAMBÉM NO SITE:

FILMES BRASILEIROS DE 2026

bottom of page