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  • Foto do escritorFilipe Chaves

Crítica | Reservation Dogs (3ª temporada)

Não era fácil, mas a série consegue se superar e termina com sua melhor temporada

Foto: Divulgação


Já tive algumas séries como “a melhor do ano” desde janeiro. Primeiro veio The Last of Us com sua ótima temporada de estreia. Depois chegou Succession com seu último ano e encerra com chave de ouro. Em seguida, a 2ª de O Urso chegou com o pé na porta com toda intensidade. Após ela, achei que ninguém tomaria seu posto ali no meu primeiro lugar, mas veio a 3ª e última temporada de Reservation Dogs, que me causou uma certa estranheza em seus dois primeiros episódios, mas uma estranheza boa, porque eu tinha confiança de que os roteiristas sabiam aonde queriam chegar. Pensei que mais uma vez iam separar os personagens, com Bear (D’Pharaoh Woon-A-Tai) convenientemente perdendo aquele ônibus. Não só contribui para jornada individual dele, como ainda nos apresenta outras importantes personas daquele mundo. No segundo episódio, conhecemos um indivíduo, digamos, peculiar, que mostraria a que veio em episódios futuros e que conversam perfeitamente com o que a temporada quer de fato manifestar: o senso de comunidade dos povos originários.


No espetacular terceiro episódio, a série usa do surrealismo para contar mais um triste capítulo da história dos nativo-americanos através da figura mística da Deer Lady, aqui interpretada pela fantástica Kaniehtiio Horn. Bear a acompanha em um plano quando o caminho dos dois se cruza por acaso. Entre belos diálogos, vamos acompanhando flashbacks da infância dela, presa nos internatos idealizados pelo governo nos séculos 19 e 20 para tentar apagar a cultura nativa de crianças indígenas nos EUA. É de uma crueldade tamanha, e o episódio tem uma certa delicadeza ao mostrar isso, mesmo que não esconda a brutalidade. Não vou adentrar em detalhes para não dar spoilers, mas saibam que é um dos melhores episódios que eu já vi na vida. Ao fim dele, Bear retorna a Okern para se reencontrar com sua mãe e os amigos.


Os dois episódios seguintes são mais leves. No quarto, por exemplo, os Rez Dogs são punidos por terem ido à California sem autorização. É sempre uma delícia vê-los juntos e ressaltar a química desse elenco maravilhoso. As interações entre eles são sempre tão genuínas, graças ao texto brilhantemente escrito. No quinto, temos outra viagem ao passado, com uma clara homenagem ao clássico Jovens, Loucos e Rebeldes de Richard Linklater. Conhecemos as versões adolescentes de alguns anciões da comunidade, em pouco mais de 20 minutos que passam voando. Por mais que pareça de início, nada está desconectado na temporada e o formato mais episódico, funciona como peças de um quebra-cabeça maior. Particularmente, adoro essa estrutura e como ela foi honrada aqui.

Foto: Divulgação


Nos episódios seguintes, o foco é maior em alguns personagens mais específicos, como já vimos nos anos anteriores. No sexto, Cheese (Lane Factor) toma os holofotes com interessantes questionamentos sobre o amadurecimento e como ele pode estar se afastando dos amigos mesmo sem querer. No sétimo, Rita (Sarah Podemski), a mãe de Bear, vive um dilema sobre se mudar ou não e recebe a visita de Cookie (Janae Collins), a falecida mãe de Elora (Devery Jacobs). De início, não me apeteceu tanto, mas acabou se tornando um dos mais emocionantes da temporada e que trouxe alguns desfechos necessários. No excelente oitavo, a equipe tem um resgate a fazer e uma narrativa não linear oscila entre “depoimentos” prestados a Big (Zahn McClarnon) e o plano em si, deixando tudo ainda mais dinâmico. Engraçado e comovente, une tudo que Reservation Dogs faz de melhor, com grande contribuição de Willie Jack (Paulina Alexis) para isso. No penúltimo da série, que foi escrito pela própria Devery Jacobs, Elora finalmente conhece seu pai, interpretado por ninguém menos que Ethan Hawke. O contato inicial, claro, é esquisito, mas as barreiras vão sendo quebradas através da delicada escrita de Jacobs, e as performances irretocáveis dos dois, em mais um episódio de encher os olhos.


Tentei ao máximo evitar spoilers, mesmo falando um pouco de cada episódio. Acho que algumas surpresas devem ser descobertas quando assistidas para uma experiência mais profunda, que se assemelhe com a minha. O final da série é poderoso, unindo tudo o que vimos até então, como é sintetizado na estupenda cena com a participação da sempre sensacional Lily Gladstone. Aliás, união é a palavra da temporada. O senso de comunidade que eu citei no começo, a certeza que a vida é um eterno ciclo, de idas, vidas, chegadas e partidas, o respeito pelos mais velhos e pelo o que eles têm a ensinar e passar de geração para geração, são temas que permearam a série inteira, e honrar isso em seu último ano foi a escolha mais certa da equipe de roteiristas liderada por Sterlin Harjo.


A produção não teria a qualidade que tem se não fosse feita de indígenas por trás e na frente das câmeras. A visão de quem tem a vivência é o seu diferencial e maior trunfo. O elenco é um achado e eu só espero que eles tenham muito mais oportunidades, pois talento aqui não falta, seja no humor ou no drama. Vale exaltar também a arrasadora trilha sonora que marca os episódios e as escolhas das músicas, que casam perfeitamente com os momentos. Se Reservation Dogs tem algum defeito, eu não encontrei. O que eu achei que seria um, acabou contribuindo para deixar tudo ainda melhor. São três temporadas irretocáveis e imperdíveis, onde o riso frouxo dá lugar às lágrimas com facilidade sem jamais se perder no tom, com personagens carismáticos e muito bem desenvolvidos, em uma das melhores produções do século e que você não deveria deixar passar batido.


Nota: 5/5


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