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  • Foto do escritorVinicius Oliveira

Crítica | The Flash

O drama pessoal de Barry Allen se destaca em meio aos prós e contras de um filme de super-herói.

Foto: Divulgação


Sendo lançado no crepúsculo do atual e bagunçado universo da DC (e quiçá dos filmes de super-herói em geral), The Flash parece um filme lançado mais tarde do que deveria. Não é para menos: poucos longas dessa safra de heróis tiveram uma produção tão conturbada, marcada por trocas de diretores, adiamentos, as diversas mudanças tonais e de gestão do universo cinematográfico da DC e mais recentemente por todas as polêmicas envolvendo Ezra Miller e sua determinação em gabaritar o Código Penal. Portanto, não chega a ser uma surpresa a decepção financeira que o filme mostrou em seu final de estreia, potencializada por uma cada vez mais inegável fadiga do público com o gênero. Mas será que ele é tão terrível assim mesmo?


Se inspirando no elogiado arco dos quadrinhos Flashpoint, o longa segue Barry Allen/Flash (Miller) descobrindo que é capaz de usar seu poder de supervelocidade para voltar no tempo. Portanto, ele decide retornar ao dia do assassinato da sua mãe Nora (Maribel Verdú) de forma a evitá-lo e também garantir a liberdade do pai Henry (Ron Livingston), injustamente condenado pelo crime. Não é preciso dizer, porém, que tal ação muda drasticamente a(s) linha(s) do tempo, fazendo com que Barry se veja preso numa versão da realidade onde sua mãe está viva, mas ele é forçado a lidar com seu eu mais jovem e imaturo, e pior: onde não há super-heróis devido à sua interferência no passado e a Terra está indefesa contra o ataque do General Zod (Michael Shannon).


Durante a sua primeira meia-hora, The Flash se revela um filme dotado de bastante personalidade e espírito próprio, mérito tanto da direção de Andy Muschietti, dos tons dramáticos e épicos pintados pela trilha sonora de Benjamin Wallfisch e, sobretudo, pelo timing certeiro que Miller confere ao protagonista, seja no humor ou no drama. Mesmo as participações protocolares de outros personagens da DC não afetam a ênfase dada ao drama pessoal de Barry; de fato, embora nas aparições do Batman do Ben Affleck é perceptível o CGI atuando em seu lugar, sua curtíssima participação como Bruce Wayne ainda serve ao propósito temático da obra, ao sintetizar aquilo que Barry terá de aprender a duras custas até o final: a tragédia de perder sua mãe o moldou e não é maior do que a tragédia de alterar o curso da história.

Foto: Divulgação

Assim, mesmo quando dispara para diversos lados e incorpora alguns dos piores vícios dos filmes contemporâneos de super-heróis, The Flash carrega dentro de si uma história de amadurecimento – e até mesmo de origem, ainda que tardia. Os seus melhores momentos se dão justamente quando trazem essa jornada para o primeiro plano, seja no primeiro ato ou nas interações entre os dois Barrys após a morte de Nora ser evitada. Ainda que o Barry mais jovem seja por vezes irritante para além do tolerável e não passe por um arco de transformação tão profundo quanto sua contraparte que já conhecemos, Miller consegue nos convencer adequadamente de que estamos assistindo duas versões tão semelhantes e diferentes de um mesmo indivíduo – um trabalho que por vezes é ameaçado pelo CGI esquisito quando ambos estão em cena, mas que felizmente se sobressai.


Até a posterior inclusão do Batman de Michael Keaton no longa consegue conversar com essa proposta central, mesmo quando o personagem é reduzido às suas falas icônicas dos filmes de Tim Burton. Pena que o mesmo não pode ser dito da Supergirl de Sasha Calle, que se mostra uma personagem subutilizada e unidimensional. Fica nítido que a única justificativa para sua inserção na obra se deu pela impossibilidade de trazer Henry Cavill de volta com a Superman, dada a complicada relação existente entre o ator e a DC nos últimos anos.


Aliás, é justamente a partir do momento em que a narrativa se volta para o resgate da Supergirl que The Flash começa a perder força, culminando num terceiro ato inferior e que mostra como as interferências do estúdio minaram tanto do potencial do filme. Nem mesmo o retorno de Michael Shannon como Zod empolga, e não é difícil entender porque o ator foi abertamente crítico da sua participação neste filme em comparação ao trabalho que pôde fazer 10 anos atrás em Man of Steel. Mesmo as cenas que mostram os tantos universos audiovisuais da DC ao longo do tempo acabam se revelando paradoxalmente vazias, visto que precisam apostar mais no legado da editora na TV e no cinema em geral do que no confuso e irregular universo construído na última década. É só quando retorna ao peso dramático das escolhas e da trajetória pessoal de Barry que o filme volta a se reerguer.


Há em The Flash diversos elementos que se sobressaem o suficiente para distingui-lo, incluindo o CGI – que, à despeito de algumas críticas feitas aqui, consegue se encaixar muito bem ao longa em sua artificialidade intencional, que se mostra uma lufada de ar fresco em meio ao hiper-realismo dos blockbusters atuais. Mas trata-se de um filme que sofreu com influências externas que certamente alteraram muito da sua proposta original, dando a ele a tarefa ingrata de encerrar um universo que sempre pecou pela falta de coesão. É justamente quando se volta para o arco particular de seu protagonista que é possível ver em The Flash aquele filme que foi tão veiculado como um dos maiores de super-heróis de todos os tempos.

Nota: 3.5/5

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