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  • Foto do escritorFilipe Chaves

Crítica | True Detective: Terra Noturna (4ª temporada)

Em sua melhor temporada desde a primeira, a série honra seu legado com uma identidade própria

Foto: Divulgação


Quando estreou dez anos atrás, True Detective foi sucesso imediato de crítica e público e não foi à toa. Estrelada por Matthew McConaughey e Woody Harrelson, a temporada foi excelente e marcou época, logo sendo transformada em uma série antológica pela HBO. As duas que vieram em seguida, no entanto, não conseguiram fazer jus à franquia. A segunda foi uma bagunça pretensiosa, que só foi tomar forma nos últimos episódios e com um resultado nem tão interessante assim, mesmo com um ótimo elenco encabeçado por Colin Farrell, Rachel McAdams e Vince Vaungh. Me pareceu que Nic Pizzolato, o então showrunner, queria fazer o famigerado “filme de oito horas” e esqueceu que na primeira, ele fez televisão de qualidade. A terceira, estrelada por Mahershala Ali, foi boa, mas não mais que isso e pouco memorável, tanto que a série ficou no limbo até o anúncio desta nova leva de episódios. Finalmente chegamos à quarta, intitulada Terra Noturna, que deu um novo fôlego à antologia, sob o comando de Issa López, e tendo Kali Reis e a vencedora do Oscar Jodie Foster como protagonistas.


Desta vez, estamos em Ennis, uma pequena cidade do Alaska, onde um grupo de oito pesquisadores desapareceu. A patrulheira Evangeline Navarro (Reis), tenta convencer a detetive Liz Denvers (Foster), que o caso está ligado ao assassinato não solucionado de uma ativista local chamada Annie K (Nivi Pedersen), que ocorreu há seis anos. Com uma trilha sonora carregada de Billie Eilish – que combina perfeitamente com o tom adotado aqui – e ambientada durante os quinze dias de noite, fenômeno natural onde não há qualquer luz solar, a temporada possui uma atmosfera gélida e sombria, e se antes, em seu ano de estreia, houve um flerte com o sobrenatural, López resolveu o abraçar de vez o terror, onde a cinematografia soturna contribui ainda mais na imersão. Excelente escolha, que trouxa uma renovação necessária e cria uma identidade própria, sem que desonre a premissa original da produção, que tem um foco essencial na complexidade de seus personagens, para além do caso investigado.

Foto: Divulgação


A essência de True Detective, e o que a destaca estre tantas outras séries e minisséries do gênero policial, é justamente este estudo mais aprofundado de seus protagonistas, e aqui não poderia ser diferente. Denvers e Navarro são duas mulheres distintas em tantos aspectos, mas igualmente cheias de camadas. Teimosia, coragem, problemas familiares e perdas traumáticas não são exatamente novidades quando se fala em seriados do tipo, mas a forma como a direção e o roteiro escolhem lidar com eles é crucial para que não seja mais do mesmo. Ainda que parta destes clichês, o desenvolvimento consegue emocionar. Jodie Foster está simplesmente irretocável no papel da chefe policial veterana, que sempre quer se fazer de durona pelos calos que a vida já lhe deu, mas quando finalmente se permite confiar em alguém, se desarma um pouco. Kali Reis, fantástica também, usa da sua força física para excomungar seus traumas e sua própria crise de identidade. De origem indígena, a moça pouco sabe de sua ancestralidade e isto está diretamente conectado com vários temas abordados durante os seis episódios. Ainda temos excelentes coadjuvantes que merecem destaque, como Finn Bennett, na pele do policial novato Peter Prior, que tem uma admiração enorme por Liz e uma certa ingenuidade que vai sendo moldada com o passar do tempo. O ator está ótimo com toda a confusão mental em que seu personagem se encontra em determinado ponto, principalmente nas cenas que divide com John Hawkes, que faz seu pai Hank, também policial e desafeto de Denvers. E Fionna Shaw, maravilhosa no papel da misteriosa Rose Aguineau, que poderia ter aparecido mais. Não é que a série a tenha deixado de lado, mas é sempre bom ver Shaw em cena.


Em meio ao caos da investigação, terror, da ação, das reviravoltas, e dar a devida atenção a seus personagens, poderia parecer que a narrativa não sabia aonde queria chegar. Leve impressão inicial, pois com uma direção segura e os belíssimos diálogos de Issa López e sua equipe de roteiristas, tudo culmina no espetacular episódio final. Carregado de suspense e tensão, enquanto Denvers e Navarro atravessam corredores congelados e claustrofóbicos, López brinca com as expectativas do telespectador ao começar a desvendar o caso. Enquanto as detetives juntam as peças, desabafos verdadeiros vão acontecendo quando elas finalmente se encontram prontas para enfrentarem seus fantasmas – com o perdão do trocadilho –, o que dá dignidade para toda a construção que vimos das duas até ali. Com o quebra-cabeça faltando poucas peças, a principal já estava na mesa e não poderia ser mais satisfatória e surpreendente. Se conecta com as várias tramas da temporada de maneira imprevisível, mas não só pelo choque gratuito, e sim porque faz sentido, ainda mais em uma temporada protagonizada por mulheres, que versa tanto sobre ciência e o sobrenatural. A cena final é linda e ambígua, deixando margem para várias interpretações, como a série sempre fez. Há algumas perguntas deixadas sem resposta, mas o que é a vida sem um pouco de mistério? O que é a arte sem nos deixar questionamentos?


Nota: 4,5/5

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