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  • Foto do escritorVinicius Oliveira

Entrevista | Diretor e atriz de “Amarela” falam do lançamento do curta-metragem no Festival de Cannes

Atualizado: 23 de mai.

André Hayato Saito e Melissa Uehara conversaram com exclusividade com o Oxente, Pipoca?

Foto: Divulgação


O Festival de Cannes nunca esteve tão brasileiro. São seis filmes nacionais concorrendo na 77ª edição do festival, dentre os quais Amarela, curta-metragem dirigido por André Hayato Saito que concorre à Palma de Ouro. Ambientado em São Paulo durante a final da Copa do Mundo de 1998, a obra acompanha Erika Oguihara (Melissa Uehara), de 14 anos, uma adolescente nipo-brasileira que rejeita as tradições de sua família japonesa e que está ansiosa para comemorar um título mundial pelo seu país. Em meio a tensão que progride durante a partida, Erika sofre com uma violência que parece invisível e adentra em um mar doloroso de sentimentos.


Em entrevista exclusiva concedida ao Oxente, Pipoca?, André Hayato e Melissa Uehara partilharam das suas experiências como pessoas nipo-brasileiras no audiovisual nacional, da importância de Amarela neste cenário e o impacto do filme estar concorrendo em Cannes. Curiosamente, ambos se encontram em extremos opostos da experiência com o audiovisual: André já dirige filmes desde 2003, quando fazia faculdade, enquanto Melissa – que chegou a fazer parte do The Voice Kids em 2020 – faz sua estreia nas telas com Amarela.


De acordo com Melissa, a proposta de Amarela dialoga com muitas situações que viveu enquanto nipo-brasileira. “Você cresce se sentindo diferente da maioria das pessoas que conhece, já que o raro seria ser asiático aqui no país. Eu era a única amiga asiática na escola, assistia televisão e nunca me identificava realmente com alguém”. A atriz destaca que um dos momentos em que se sente mais confortável é ao cantar, o que fazia com recorrência em colônias japonesas de que participou com a família. Porém, a participação em festivais como o The Voice Kids pouco dialogava com sua própria cultura, de modo que participar de Amarela representou um divisor de águas em sua vida.


“Eu participei do curta por indicação de uma amiga em comum que tenho com o André e na primeira vez que li o roteiro – ainda nem era o roteiro oficial – me identifiquei demais com a história, me tocou muito, porque para quem é nipo-brasileiro sabe que é assim. E acho que isso foi um dos motivos que me fez tentar esse projeto, já que nunca tinha feito nada relacionado com audiovisual antes, eu nunca tinha atuado em nada”, diz ela.

Foto: Divulgação


Já para André, Amarela representa a culminação de uma série de obras que levam as experiências nipo-brasileiras para o audiovisual. Trata-se de uma trilogia composta também por outros dois curtas-metragens: Kokoro to Kokoro e Vento Dourado. O primeiro aborda os laços de amizade entre sua avó paterna e sua melhor amiga japonesa; enquanto o segundo tem como personagem principal sua avó materna, Haruko Hirata, que aos 94 anos se encontra no limiar do existir e convive com a filha Sumiko, sua cuidadora há 18 anos. Ambos os curtas, assim como Amarela, nasceram de inquietações do diretor com o seu lugar enquanto descendente de japoneses no Brasil e da relação com a sua ancestralidade.


“Eu acho que a gente, como asiático no Brasil, carrega alguns estereótipos que são muito enraizados, que foram muitos espalhados e que a gente carregou por muito tempo em silêncio. Por isso que a sinopse [de Amarela] fala de uma de uma ‘dor silenciosa’. Dentro do cinema somos minoria, obviamente, e nos últimos anos que eu obtive mais consciência a respeito da minha raça, da minha identidade, de estar num set de filmagem e ter um olhar mais crítico sobre como nós somos representados”, diz André, que destaca o feito de ter uma equipe predominantemente amarela na produção do curta.


No que se refere a escolha por situar a obra na Copa do Mundo de 1998, o diretor destaca os sentimentos nacionalistas que envolvem a competição e faz uma provocação sobre o quanto esse “nacionalismo” pode também ser excludente: “Esse lugar da identidade nacional e cultural é algo no qual a gente se encontra bastante, mas é um patriotismo meio estranho, meio efêmero. Tá todo mundo igual e com a camiseta verde e amarela e tá todo mundo torcendo pelo país, e todos são ‘brasileiros’. Mas era comum ouvir perguntas do tipo: ‘você vai torcer pro Brasil ou pro Japão?’, porque a gente é afirmado como o ‘japonês’, o ‘chinês’ ou outros termos pejorativos”.


André chega a afirmar que por um tempo odiava ser considerado japonês e queria ser visto apenas como brasileiro, recorrendo então ao futebol como um instrumento de pertencimento. “Então eu senti que esse lugar poderia ser um plano de fundo para as dores que essa personagem sente, dores que as pessoas acham que tem a ver com o jogo ou a Copa em si. Mas na verdade tem muito mais camadas de dores ali silenciadas, que ninguém enxerga, então eu acho que teve essa coisa biográfica”, afirma ele.

Foto: Divulgação


Quanto à presença de Amarela em Cannes, André e Melissa mal escondem a empolgação e o orgulho pelo filme estar selecionado para concorrer no festival de cinema mais importante do mundo. “A ficha ainda não caiu que estou indo para Cannes me ver, eu ainda não vi o curta completo, mas estou morrendo de ansiedade pela experiência. O meu primeiro papel da vida ser protagonista de um curta que transmite uma mensagem tão importante e que agora também vai ser apresentado em Cannes, para milhares de pessoas, é uma honra enorme, um sonho”, diz a atriz.


Já André destaca as diversas demandas do festival que precisa atender – como trailer, release, press kit, a inserção de legendas em inglês e francês para a exibição, dentre outras –, mas revela sua animação para esse momento tão importante. “Não consigo nem acreditar nessa frase: ‘estamos concorrendo à Palma de Ouro’. E é muito legal se ver representado, levar essa diversidade não só para as telas, mas também na equipe [de produção]. A gente tá falando do lugar de fala específico dos asiáticos brasileiros, mas também é a oportunidade de ampliar os horizontes e empatizar com outras realidades, contextos, culturas e raças, e assim ir quebrando a cultura branca dominante na contação de histórias”, declara o diretor.


E o que virá depois de Cannes? André planeja seu primeiro longa-metragem, Crisântemo Amarelo, o qual será uma expansão da narrativa e das temáticas apresentadas em Amarela. A expectativa é de que ele e sua equipe obtenham os fundos necessários a tempo de contar com Melissa em idade hábil para reinterpretar sua personagem do curta. Fica aqui a nossa expectativa e torcida para que a projeção em Cannes assegure novas oportunidades para André, Melissa e outros profissionais nipo-brasileiros que atuam no nosso audiovisual e merecem contar suas próprias histórias.


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