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  • Foto do escritorHosanna Almeida

Crítica | Mato Seco em Chamas

No western distópico de Adirley Queirós e Joana Pimenta, o futuro é revolução e não demora.

Divulgação: Vitrine Filmes


Você pode não enxergar, mas eu sei que dos olhos de Joana Darc Furtado, temida e conhecida como Chitara, cintilavam as mesmas chamas ardiam pelo chão. Como o poder de uma profecia, ela assiste ao fogo, enquanto duas outras mulheres provam a eficiência da gasolina ao incendiar outro pequeno canto de terra batida. A presença da colônia de motoboys ao redor não intimida nem quando um deles passa uma informação sobre a liberdade de alguém como uma ameaça à liderança dela. Sem hesitação, ela se opõe em poucas palavras: “nós aqui tá se fudendo pra recado de cadeia, parceiro”, e o recado foi dado e compreendido. A resposta, um tímido “pode crer” precede o ruído de adeus dos motores. Nas primeiras impressões, a trama parece se desenrolar em torno dessa gangue composta apenas por mulheres, liderada pela notável Chitara, num ponto clandestino de extração de gasolina. Mas não deixe que a primeira impressão vença a percepção. Neste mundo tudo é real, até a ficção.


É na 2ª maior favela do país, lar real de Chitara, Léa, Andréia e Michelle Bolsonaro, que os idealizadores de Mato Seco em Chamas criam um espécie de faroeste — com direito a tudo o que caracteriza o gênero: muitas armas, cenários áridos, disputas por território e comando e muitos planos abertos — matriarcal que luta, discute e expõe, nas perspectivas reais e ficcionais, as condições precárias da comunidade de Sol Nascente. É esse hibridismo presente na obra que a torna mais instigante de acompanhar. A fissura na linguagem fílmica, que é do savoir faire de Adirley, chacoalha a ordem costumeira: a realidade, que fica “fora das câmeras”, e protege a vida pessoal dos atores, aqui é o lastro onde o filme se estende, seja nome próprio, características e experiências pessoais da vida de cada mulher, expressões de gênero, linguajar, sexualidade, etc. Já a ficção, que “pertence” a tudo o que acontece diante do enquadramento das lentes, no longa compõe os detalhes: o local e a extração de gasolina ou o PPP- Partido do Povo Preso que tem como um de seus lemas assistir às pessoas que foram encarceradas em seu processo de ressocialização. (Este último bem que podia ser verdade.)


Quando a Força Nacional, munida de tecnologias especiais e recitando uma frase bastante familiar, entra em Sol Nascente decretando toque de recolher com o intuito de subjugar a comunidade e tomar o local de extração de petróleo, a gangue de Chitara ensaia sua insurgência contra a demonstração de autoritarismo. E como se não bastasse, em meio ao clima de tensão, o mais alto cargo da democracia brasileira é preenchido por uma figura já conhecida - que agora já pertence ao nosso passado. Neste momento, imagens reais da manifestação pró-ex-presidente preenchem a tela. Adirley e Joana, com muita gana e sensibilidade, constroem um filme que se inclina para múltiplas discussões sem parecer forçado, monótono ou repetitivo. As muitas ambiguidades da vida na periférica estão presentes no filme e não há vergonha ou impedimento, é exatamente o oposto. Seja no Distrito Federal, aqui na Bahia, ou em qualquer lugar do país, a mensagem é a mesma: nós, a periferia, somos a chama da revolução.


Nota: 5/5

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