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Crítica | Missão: Impossível - Acerto de Contas Parte 1

Hosanna Almeida

13 de jul de 2023 · 3 min de leitura

O inimigo agora é outro

Foto: Divulgação


Tom Cruise é um exibido. E a essa altura, depois de seis filmes da bem-sucedida franquia Missão: Impossível, já não há quem não esteja completamente ciente do que aquele homem, em total plenitude das faculdades mentais — e eu imagino sim que é difícil acreditar nesta última parte, já que voluntariamente o homem se lançou do topo de uma montanha abrindo o paraquedas tardiamente e chamou de a maior acrobacia da história do cinema — pode fazer diante de uma câmera. E ele fará, sem hesitação. É neste limite difuso da teimosia obstinada que se entrelaçam as personalidades do ator e do personagem, Ethan Hunt, já conhecido pela qualidade de herói contemporâneo: elegantemente altruísta, distraidamente sedutor e abnegadamente convicto. Quem não deseja um companheiro-de-absolutamente-qualquer-coisa assim?


Nesta primeira parcela do sétimo filme da franquia, com ares de fechamento ou soft reboot, temos uma IMF restituída, um personagem de antiquíssima data que retorna à centralidade do enredo pela importância no lore cinematográfico da obra (Kittridge), os parceiros inseparáveis e cheios de carisma e ai de alguém que toque na vida deles (Benji e Luther), a figura da femme fatale (Ilsa Faust) que, diferentemente de 007 [não é um shade] não está aqui unicamente para servir aos desejos do personagem principal, e é sim, parte importante da trama, mesmo que receba um tratamento um tanto… traumático; há também o surgimento de outra figura feminina levemente maliciosa, safa, irônica, cobra-criada, ultrajante e que carrega consigo um frescor diferente, e claro, o vilão. Não há Missão: Impossível sem 1) a bendita missão que muito frequentemente não será feita por ninguém a não ser por este homem e sua equipe minguada, e 2) a figura vilanesca. E aqui o salto foi dado.

Foto: Divulgação


Na história do cinema e da literatura, e essas trajetórias se interseccionam repetidas vezes, muito se especula a respeito de inteligências artificiais e seus avanços diante de uma humanidade que avança a passos largos à sua própria extinção. É normal, também, que as obras tensionem a relação humanidade x IA partindo da ideia da subjugação: nós as criamos - elas nos sobrepõem - somos dominados. Há o bônus em que acabamos por fazer alguma espécie de trabalho braçal forçado, numa eterna vassalagem pós-contemporânea. Mas este não é mais o tempo de disputar força braçal. Este é o tempo dos deepfakes (que estabelece uma relação interessante com as máscaras vívidas de disfarce que são marca nos filmes da saga), da chamada era da pós-verdade onde nenhuma imagem ou vozes de políticos, ou até mesmo de cantores está à salvo da manipulação. A grande vilã, autodidata, senciente e incapturável chama-se A Entidade, e só pode ser controlada através da união de duas chaves perdidas num submarino (sim, você pensou, e eu pensei também) russo no fundo do oceano. Ao que vencer, e vencer quer dizer necessariamente conquistar a chave, será concedido o acesso ao código-fonte da IA, permitindo o total controle do deus composto de zeros e ums. Foi dada à largada à corrida internacional pela coleira da IA, e Gabriel (Esai Morales), figura que foi inserida no passado de Ethan Hunt para que tivéssemos a sensação de que ele sempre esteve lá, foi escolhido pela Entidade para ser seu cavaleiro pessoal do apocalipse.


É neste cenário de urgência que as 2h 43min passam num susto, e a experiência IMAX acrescenta densidade à catarse, provocando cãibras nos dedos dos pés pela tensão e suor nas palmas das mãos, dentro deste ritmo fílmico que por si só funciona como um sacudir convulsivante para cardíacos, ansiosas, e que, honestamente, tiraria do eixo personalidades semelhantes às de monges tibetanos. Tom Cruise é realmente um exibido, e ele conseguiu. De novo.


Nota: 4,5/5

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Crítica | Missão: Impossível - Acerto de Contas Parte 1

13 de jul. de 2023
3 min de leitura

Atualizado: 8 de out.

O inimigo agora é outro

Foto: Divulgação


Tom Cruise é um exibido. E a essa altura, depois de seis filmes da bem-sucedida franquia Missão: Impossível, já não há quem não esteja completamente ciente do que aquele homem, em total plenitude das faculdades mentais — e eu imagino sim que é difícil acreditar nesta última parte, já que voluntariamente o homem se lançou do topo de uma montanha abrindo o paraquedas tardiamente e chamou de a maior acrobacia da história do cinema — pode fazer diante de uma câmera. E ele fará, sem hesitação. É neste limite difuso da teimosia obstinada que se entrelaçam as personalidades do ator e do personagem, Ethan Hunt, já conhecido pela qualidade de herói contemporâneo: elegantemente altruísta, distraidamente sedutor e abnegadamente convicto. Quem não deseja um companheiro-de-absolutamente-qualquer-coisa assim?


Nesta primeira parcela do sétimo filme da franquia, com ares de fechamento ou soft reboot, temos uma IMF restituída, um personagem de antiquíssima data que retorna à centralidade do enredo pela importância no lore cinematográfico da obra (Kittridge), os parceiros inseparáveis e cheios de carisma e ai de alguém que toque na vida deles (Benji e Luther), a figura da femme fatale (Ilsa Faust) que, diferentemente de 007 [não é um shade] não está aqui unicamente para servir aos desejos do personagem principal, e é sim, parte importante da trama, mesmo que receba um tratamento um tanto… traumático; há também o surgimento de outra figura feminina levemente maliciosa, safa, irônica, cobra-criada, ultrajante e que carrega consigo um frescor diferente, e claro, o vilão. Não há Missão: Impossível sem 1) a bendita missão que muito frequentemente não será feita por ninguém a não ser por este homem e sua equipe minguada, e 2) a figura vilanesca. E aqui o salto foi dado.

Foto: Divulgação


Na história do cinema e da literatura, e essas trajetórias se interseccionam repetidas vezes, muito se especula a respeito de inteligências artificiais e seus avanços diante de uma humanidade que avança a passos largos à sua própria extinção. É normal, também, que as obras tensionem a relação humanidade x IA partindo da ideia da subjugação: nós as criamos - elas nos sobrepõem - somos dominados. Há o bônus em que acabamos por fazer alguma espécie de trabalho braçal forçado, numa eterna vassalagem pós-contemporânea. Mas este não é mais o tempo de disputar força braçal. Este é o tempo dos deepfakes (que estabelece uma relação interessante com as máscaras vívidas de disfarce que são marca nos filmes da saga), da chamada era da pós-verdade onde nenhuma imagem ou vozes de políticos, ou até mesmo de cantores está à salvo da manipulação. A grande vilã, autodidata, senciente e incapturável chama-se A Entidade, e só pode ser controlada através da união de duas chaves perdidas num submarino (sim, você pensou, e eu pensei também) russo no fundo do oceano. Ao que vencer, e vencer quer dizer necessariamente conquistar a chave, será concedido o acesso ao código-fonte da IA, permitindo o total controle do deus composto de zeros e ums. Foi dada à largada à corrida internacional pela coleira da IA, e Gabriel (Esai Morales), figura que foi inserida no passado de Ethan Hunt para que tivéssemos a sensação de que ele sempre esteve lá, foi escolhido pela Entidade para ser seu cavaleiro pessoal do apocalipse.


É neste cenário de urgência que as 2h 43min passam num susto, e a experiência IMAX acrescenta densidade à catarse, provocando cãibras nos dedos dos pés pela tensão e suor nas palmas das mãos, dentro deste ritmo fílmico que por si só funciona como um sacudir convulsivante para cardíacos, ansiosas, e que, honestamente, tiraria do eixo personalidades semelhantes às de monges tibetanos. Tom Cruise é realmente um exibido, e ele conseguiu. De novo.


Nota: 4,5/5

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