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Crítica | RRR: Revolta, Rebelião, Revolução

Vinicius Oliveira

22 de set de 2022 · 3 min de leitura

Bromance e luta anticolonial no melhor blockbuster do ano.

Divulgação: RRR (Netflix)


Após assistir RRR, de S.S. Rajamouli, a impressão que fica é que ficamos muito mal-acostumados com a mediocridade da grande maioria dos blockbusters hollywoodianos. Se as mais de 3h de duração a princípio podem assustar, ao final fica a sensação de que dificilmente Hollywood saberia usar tão bem cada minuto dessa duração da forma como Rajamouli faz, entregando um filme que não nos permite descansar, mas num bom sentido.


O diretor também incorpora uma eclética mistura de gêneros. Sim, é um épico histórico situado na Índia dos anos 1920 dominada pelos britânicos, mas também é um filme de ação no melhor estilo brucutu dos anos 80; por vezes é quase um filme de super-herói, em outras é comédia, musical ou romance (bromance). Rajamouli dá a cada um desses gêneros seu espaço para brilhar, construindo uma trama bem-delineada em 4 atos distintos, no qual acompanhamos a relação tanto de amizade quanto de antagonismo entre os dois personagens principais, Komaram Bheem (N.T. Rama Rao Jr.) e Alluri Sitarama Raju (Ram Charan).


Divulgação: RRR (Netflix)


Bheem é um líder tribal que é encarregado de buscar uma menina de seu povo que foi sequestrada por um perverso governador britânico da administração colonial (Ray Stevenson). Já Raju é um policial que é visto como traidor por se juntar aos colonizadores, e é encarregado de se infiltrar em movimentos pró-independência para encontrar um misterioso líder revolucionário que é ninguém menos do que Bheem. O problema? Ambos se conhecem ao ajudarem num resgate e viram amigos sem saberem da identidade real um do outro. Assim, o filme se constrói na tensão de quando a verdade vai ser revelada e o que os dois protagonistas farão com sua amizade quando isso acontecer.


Toda essa tensão, contudo, é amenizada pelas escolhas estilísticas e de gênero que o filme abraça sem pudor. No entanto, se tudo soa hiperbólico, das cenas de ação (como a referida sequência do resgate, um ataque com animais aos colonizadores e o clímax) à sequência de dança onde Bheem e Raju humilham os britânicos, também nada soa gratuito. Muitas vezes o filme é brega e exagerado, mas é uma proposta que funciona dentro desse universo; afinal de contas nem sempre o cinema precisa ser demasiadamente realista, não é mesmo?


Divulgação: RRR (Netflix)


Contudo, há uma camada a mais que ajuda a diferenciar RRR: ambos os protagonistas são baseados em figuras históricas reais que atuaram combativamente na luta anticolonial da Índia contra os britânicos. Ainda que não haja nenhum registro de que os verdadeiros Bheem e Raju de fato se conheceram (o primeiro foi morto em 1940 e o segundo em 1924), Rajamouli adota uma ótica revisionista que engrandece o filme, não apenas ao unir as duas figuras, mas também no trato aos britânicos. Alguns podem reclamar que estes são tratados como vilões caricatos e unidimensionais, mas quantas vezes o cinema ocidental fez o mesmo com personagens indianos e asiáticos? É uma outra escolha visando um certo exagero, mas que condiz perfeitamente com o tom da obra.


RRR é uma demonstração perfeita do quanto nós, ocidentais, estamos muitas vezes condicionados a um modelo único de se fazer cinema. Trata-se de um longa impressionante do primeiro ao último segundo, que ainda por cima está embebido numa forte simbologia anticolonial que, mesmo com alguns exageros, ilustra bem as chagas da colonização no país. Porém, esse fator só eleva a fascinação com uma obra que se configura como o melhor blockbuster de 2022 e meu filme favorito do ano até o momento.


Nota: 5/5

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Crítica | RRR: Revolta, Rebelião, Revolução

22 de set. de 2022
3 min de leitura

Atualizado: 8 de out.

Bromance e luta anticolonial no melhor blockbuster do ano.

Divulgação: RRR (Netflix)


Após assistir RRR, de S.S. Rajamouli, a impressão que fica é que ficamos muito mal-acostumados com a mediocridade da grande maioria dos blockbusters hollywoodianos. Se as mais de 3h de duração a princípio podem assustar, ao final fica a sensação de que dificilmente Hollywood saberia usar tão bem cada minuto dessa duração da forma como Rajamouli faz, entregando um filme que não nos permite descansar, mas num bom sentido.


O diretor também incorpora uma eclética mistura de gêneros. Sim, é um épico histórico situado na Índia dos anos 1920 dominada pelos britânicos, mas também é um filme de ação no melhor estilo brucutu dos anos 80; por vezes é quase um filme de super-herói, em outras é comédia, musical ou romance (bromance). Rajamouli dá a cada um desses gêneros seu espaço para brilhar, construindo uma trama bem-delineada em 4 atos distintos, no qual acompanhamos a relação tanto de amizade quanto de antagonismo entre os dois personagens principais, Komaram Bheem (N.T. Rama Rao Jr.) e Alluri Sitarama Raju (Ram Charan).


Divulgação: RRR (Netflix)


Bheem é um líder tribal que é encarregado de buscar uma menina de seu povo que foi sequestrada por um perverso governador britânico da administração colonial (Ray Stevenson). Já Raju é um policial que é visto como traidor por se juntar aos colonizadores, e é encarregado de se infiltrar em movimentos pró-independência para encontrar um misterioso líder revolucionário que é ninguém menos do que Bheem. O problema? Ambos se conhecem ao ajudarem num resgate e viram amigos sem saberem da identidade real um do outro. Assim, o filme se constrói na tensão de quando a verdade vai ser revelada e o que os dois protagonistas farão com sua amizade quando isso acontecer.


Toda essa tensão, contudo, é amenizada pelas escolhas estilísticas e de gênero que o filme abraça sem pudor. No entanto, se tudo soa hiperbólico, das cenas de ação (como a referida sequência do resgate, um ataque com animais aos colonizadores e o clímax) à sequência de dança onde Bheem e Raju humilham os britânicos, também nada soa gratuito. Muitas vezes o filme é brega e exagerado, mas é uma proposta que funciona dentro desse universo; afinal de contas nem sempre o cinema precisa ser demasiadamente realista, não é mesmo?


Divulgação: RRR (Netflix)


Contudo, há uma camada a mais que ajuda a diferenciar RRR: ambos os protagonistas são baseados em figuras históricas reais que atuaram combativamente na luta anticolonial da Índia contra os britânicos. Ainda que não haja nenhum registro de que os verdadeiros Bheem e Raju de fato se conheceram (o primeiro foi morto em 1940 e o segundo em 1924), Rajamouli adota uma ótica revisionista que engrandece o filme, não apenas ao unir as duas figuras, mas também no trato aos britânicos. Alguns podem reclamar que estes são tratados como vilões caricatos e unidimensionais, mas quantas vezes o cinema ocidental fez o mesmo com personagens indianos e asiáticos? É uma outra escolha visando um certo exagero, mas que condiz perfeitamente com o tom da obra.


RRR é uma demonstração perfeita do quanto nós, ocidentais, estamos muitas vezes condicionados a um modelo único de se fazer cinema. Trata-se de um longa impressionante do primeiro ao último segundo, que ainda por cima está embebido numa forte simbologia anticolonial que, mesmo com alguns exageros, ilustra bem as chagas da colonização no país. Porém, esse fator só eleva a fascinação com uma obra que se configura como o melhor blockbuster de 2022 e meu filme favorito do ano até o momento.


Nota: 5/5

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