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Entrevista | “Imaginar futuros possíveis é um ato político”, diz Eliza Capai sobre 'A Fabulosa Máquina do Tempo'

  • Foto do escritor: Gabriella Ferreira
    Gabriella Ferreira
  • 29 de jul.
  • 9 min de leitura

Com estreia nos cinemas nesta quinta-feira (30), filme mistura infância, fantasia e realidade para refletir sobre desigualdade, sonhos e resistência.

Imagem: Divulgação
Imagem: Divulgação

Depois de emocionar o público em uma premiada trajetória por festivais nacionais e internacionais, incluindo a estreia mundial na mostra Generation do Festival Internacional de Cinema de Berlim, A Fabulosa Máquina do Tempo chega aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (30). Dirigido por Eliza Capai, o documentário acompanha meninas de Guaribas, no interior do Piauí, que transformam a imaginação em ferramenta para projetar futuros possíveis, enquanto lidam com questões como pobreza, desigualdade e machismo estrutural. 


Fugindo da linguagem documental mais convencional, o filme aposta na brincadeira, na fantasia e no olhar infantil para construir uma narrativa tão sensível quanto política. Em entrevista ao Oxente Pipoca, Eliza Capai falou sobre o processo criativo da obra, a emocionante experiência de levar três das protagonistas para a estreia em Berlim e a importância de imaginar futuros mais esperançosos em um momento marcado por tantas distopias.


Leia a conversa completa abaixo: 


Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): Oi, Eliza. Aqui é a Gabriela, do Oxente Pipoca. Eu sou de Aracaju, mas estou falando aqui de Fortaleza. É um prazer estar falando com você. Eu assisti ontem ao documentário e amei. Eu tenho um fraco, assim, por documentários e, principalmente, por esses documentários que quebram essa perspectiva de documentário tradicional. E eu acho que ele faz isso muito bem. Eu queria saber: em que momento você percebeu que dava para falar sobre o futuro e trazer esses problemas do passado nesse estilo de narrativa, essa narrativa mais diferente?


Eliza Capai: Existia um desejo, acho que desde o começo do projeto, de que as questões densas e sociais que o filme aborda, né, que é a saída da miséria, o rompimento com o machismo estrutural, que fossem pelo olhar das crianças.


E aí eu e a Carol Quintanilha, que é a fotógrafa e parceira criativa, a gente começa a pensar como falar sobre isso de uma forma lúdica, de uma forma infantil, no melhor sentido da palavra infantil, né. Eu já tinha feito um documentário sobre esses temas que era mais um documentário tradicional, com muita entrevista, e eu queria fazer outra coisa.


E aí é a partir da brincadeira com essas meninas, a partir da observação delas, que a gente vai entendendo esses caminhos, né. A gente tem algumas decisões estéticas que eu acho que ajudam bastante. A Carol estava sempre com uma lente de 50 mm, com a íris muito aberta, que dá aquela coisa do foco estar só num lugar. E isso é uma tentativa de captar como essas crianças veem o mundo, esse foco infantil que está presente ali na situação.


O cenário é deslumbrante, porque Guaribas está ali no meio da Serra das Confusões, que é lindíssimo, aquele céu azul, aquelas nuvens desenhadas, né. Então a gente teve essa ajuda geográfica do lugar em si.


E a gente foi sacando que, quando as crianças descobriam alguma coisa, principalmente nas entrevistas com as mães... O filme começa com uma oficina de vídeo com 15 meninas. E a gente foi vendo que, quando elas descobriam alguma coisa, principalmente nas entrevistas com as mães... Então, a Sofia descobre que criança também morre. Quando termina a entrevista, ela vai para o pátio no fundo da casa dela, da família, assim, né, as primas moram no mesmo terreno, e ela começa a brincar de pedir para a prima não matar ela. Quando ela morre, ela se transforma em zumbi.


E a gente fala: "Nossa, o jeito que ela está processando essa informação duríssima que ela acabou de ter, de que ela pode morrer a qualquer minuto...". Ela vai brincar sobre isso. É a forma dela controlar, dela organizar essa informação.


E a gente entendeu que a gente tinha que brincar, que o caminho possível era a brincadeira. A gente já tinha levado alguns elementos futuristas, tipo um capacete de astronauta, papel laminado para fazer coisas, e é ali, na brincadeira com elas, que a gente vai entendendo.


Eu tinha estudado muitas referências. Referências de filmes de criança, de filmes de sertão e de futurismos, futurismo em geral, e também de afrofuturismo. E aí, a partir disso, a gente entra na brincadeira com elas e faz esse filme, que é uma grande brincadeira, né?


Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): E uma coisa que eu acho muito legal é justamente isso: a câmera não acompanha só as meninas. Ela realmente trata elas como protagonistas da história. São elas que contam tudo para a gente, que amarram a narrativa. Eu fiquei encantada com elas. Depois fui olhar o seu Instagram e vi que algumas acompanharam a exibição em Berlim. Queria que você contasse um pouquinho como foi essa experiência de levá-las para o festival e de elas verem a recepção do filme. Imagino que tenha sido uma experiência muito divertida.


Eliza Capai: Foi. Quando a gente soube que o filme ia para Berlim, dentro da Generation, que é uma chegada muito linda para um filme, assim que recebemos a notícia eu falei para a Mariana Genescá, que é minha parceirona e produtora do filme: "A gente precisa levar uma das meninas". E ela falou: "Mas como a gente vai fazer? A gente não tem verba. É um documentário independente, não existia um orçamento para lançamento".


Aí, no domingo, ela me escreveu e falou: "Pensei numa coisa aqui. Amanhã a gente se fala". E eu respondi: "Então a gente pode levar três?". Foi meio isso. Eu pensei: "Cara, não dá para estrear esse filme, que está falando de meninas sonhadoras e de uma realidade econômica muito dura...". Apesar de o filme falar da saída da miséria, elas saíram dessa condição em relação às antepassadas. Elas têm uma vida que, como a Ana Vitória diz no filme, é "de berço de ouro". Mas não dava para eu ir como diretora, a Mariana ir como produtora, e elas não estarem ali.


A gente conseguiu um apoio e aí veio essa dura missão de escolher três, né? Porque levar três era deixar onze. Deu muita pena, mas era impossível conseguir levar todo mundo.


E foi uma magia. Berlim estava vivendo o inverno mais rigoroso das últimas décadas. Eu lembro que estava conversando com elas e preparando tudo. Falei: "Lá vai estar muito frio". Aí perguntei: "Agora aí está fazendo uns 30 e tantos graus. Quanto vocês acham que vai estar lá?". Elas responderam: "25". Eu pensei: "Ai, meu Deus". Então teve toda essa preparação para elas viverem várias primeiras vezes: o primeiro hotel, o primeiro avião...


E, para mim, o mais emocionante foi a primeira sala de cinema. Elas entraram no centro cultural de Berlim e era a primeira vez que estavam entrando num cinema. Tinha mais de mil pessoas assistindo ao filme. Elas distribuíram centenas de autógrafos. As crianças iam falar com elas. A gente foi a uma escola, porque os alunos tinham assistido ao filme e queriam entrevistá-las.


Acho que elas puderam ver, pelo olhar dos outros, a beleza da infância delas. Isso foi muito poderoso. Foi um ganho enorme de autoestima, obviamente para as três que estavam lá, mas acho que isso irradiou para todas. Depois a gente decidiu que, assim que pudesse... porque o festival É Tudo Verdade exige exclusividade da estreia brasileira... a sessão seguinte seria em Guaribas.


Então a gente fez o primeiro cinema na praça da cidade, numa parceria com o CineSolar. É um município de quatro mil pessoas e apareceram mais de seiscentas na sessão. Foi muito acima do que a gente imaginava.


Estavam todas elas sentadas na frente, morrendo de vergonha e morrendo de rir. No debate, perguntaram: "Como vocês estão se sentindo?". E todas responderam: "Com muita vergonha, com muito orgulho, muito felizes".


Eu acho que elas conseguiram se ver de uma forma diferente. Esse sentimento que você falou, de ter ficado encantada com elas, acho que elas também entenderam como elas são encantadoras a partir dessa nova perspectiva.

Imagem: Divulgação
Imagem: Divulgação

Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca): A gente vive um momento em que muitas narrativas sobre o futuro são marcadas pelo pessimismo. E, principalmente quando se fala do Nordeste, isso aparece bastante. Eu acho que A Fabulosa Máquina do Tempo consegue mostrar que pensar o futuro também é um ato político. Queria que você falasse um pouquinho sobre isso. Qual é a principal mensagem que você acha que o filme pode deixar para quem for assistir?


Eliza Capai: Obrigada por essa pergunta.


Eu até vou começar falando da sessão em Guaribas. No final, uma mãe falou uma coisa que me emocionou muito. Ela disse: "Guaribas era conhecida pela fome e agora Guaribas é conhecida pelo sonhar". Aquilo me marcou muito.


Foi mais para o final do processo do filme que eu entendi o que estava acontecendo com ele. Eu comecei a pensar nos filmes de futuro que eu assisti quando era criança. Eram filmes em que o ciborgue dominava o mundo, em que a inteligência artificial controlava tudo, em que o planeta aquecia tanto que começava a faltar água potável.


E aí eu pensei: "Gente, está dando certo". Esses sonhos distópicos que o cinema imaginou algumas décadas atrás... a gente está caminhando em direção a eles.


Então me parece muito claro, principalmente para mim, que faço documentário social, que a questão é: como a gente joga as sementes dos sonhos dos futuros que a gente quer viver, e não dos futuros que a gente teme? Porque a gente caminha em direção ao que conhece. É muito difícil caminhar em direção ao que a gente não conhece.


Então criar referências de futuros possíveis, utópicos, utópicos e possíveis, eu acho que é muito forte.


Eu fico muito feliz porque sinto que esse filme consegue fazer isso. Ele é um filme denso. Todas as questões sociais estão ali. O machismo estrutural está ali, o alcoolismo está ali, a complexidade do crescimento evangélico está ali, a miséria, a saída da miséria e a pobreza persistente estão ali.


Mas, ao mesmo tempo, a gente consegue olhar para esse passado, que eu acho fundamental. Se a gente quer futuros diferentes dele, a gente precisa encarar esse passado, pensar onde está e lançar esses futuros que a gente gostaria que essas meninas realmente vivessem. E que as próximas gerações também vivessem.


Então, resumindo, eu acho que imaginar o futuro é um ato extremamente político.


Gabriella Ferreira (Oxente Pipoca):É muito importante isso, porque a gente não sai do filme com aquele sentimento de pessimismo. Apesar de ele tratar, como você falou, de temas muito densos, a gente não termina pensando: "Meu Deus, que difícil". A gente termina pensando: "Meu Deus, eu acredito que essas meninas vão brilhar. Eu acredito que os sonhos delas são possíveis". Isso é muito bonito de ver.


Quando eu terminei o filme, eu fiquei emocionada, mas também fiquei pensando: "Caramba... é possível".


E, para encerrar, porque eu vi que estão faltando uns quatro minutinhos, vou fazer duas perguntas em uma. Depois desse mundaréu de festivais por onde o filme passou, o que você espera da recepção do público agora que ele está chegando às salas de cinema? Como você espera que as pessoas recebam o filme?


E a gente tem uma tradição aqui no Oxente Pipoca: eu sempre peço para os entrevistados indicarem um filme, uma série ou um documentário brasileiro que tenha inspirado você ou que seja um dos seus favoritos, sem ser o filme que a gente está conversando hoje.


Eliza Capai: Nossa, em geral essa pergunta demora cinco minutos para eu responder, porque meu cérebro associativo é lentíssimo. Eu tinha que abrir minha lista aqui de filmes, dos que eu estudei para fazer esse.


Bem, a gente está encerrando... quer dizer, vai continuar ainda. O filme teve uma história muito bonita em Berlim, tem feito uma carreira em festivais muito massa, e no Brasil também. A gente segue ainda por alguns festivais brasileiros, mas agora estreia comercialmente.


Dia 29 tem uma sessão em Recife, onde eu estarei com as meninas. Dia 30 em Brasília. Dia 1º em Teresina, onde eu, a Manu e a Ana Vitória estaremos conversando com a audiência. E aí o filme entra em cartaz em vários lugares.


O nosso desejo é que as pessoas possam assistir. A gente sabe o quanto é difícil levar o público para ver um documentário nacional no cinema. Não é exatamente um blockbuster. Mas existe esse desejo de que as pessoas possam viver o filme de forma coletiva, possam rir juntas, chorar juntas e experimentar essa magia que só o cinema proporciona.


O filme é uma brincadeira de fazer cinema. As meninas estão brincando de fazer cinema o tempo inteiro. Então eu acho muito apropriado que, quem puder, vá assistir no cinema.


Mas, na sequência da estreia, a gente começa a nossa campanha de impacto, que é uma coisa que eu e a Mariana Genescá fazemos em todos os nossos filmes. A gente entende que documentário social é para chegar nas pessoas.


Boa parte do nosso país não tem cinema. E boa parte das pessoas que vivem em cidades com cinema não tem dinheiro para acessar o cinema. Então a gente quer que o documentário seja horizontal.


Daqui a pouco a gente vai lançar, e quem tiver interesse pode entrar na página do Instagram do filme, porque já tem um link para se inscrever. A ideia é: quer organizar uma sessão? Pode ser em sala de aula, num cineclube, num domingo em família para discutir as eleições de 2026... onde quiser. Onde tiver mais de cinco pessoas, a gente entende como uma sessão coletiva.


É gratuito. A gente disponibiliza o filme gratuitamente para essas sessões. O objetivo é que o documentário sirva para suscitar essa conexão com a criança que a gente foi e com os sonhos que a gente tem. E não só os sonhos individuais, mas também esse sonho coletivo: que país a gente sonha construir junto?


Sobre a indicação... eu vi vários filmes. Vou citar um que foi uma inspiração para aquele momento da máquina do tempo, quando as meninas finalmente conseguem entrar e tudo começa a chacoalhar.


Foi Branco Sai, Preto Fica. Eu até confundi aqui na hora, porque estava pensando nos filmes do Adirley Queirós. Tem aquela cena da viagem, da trepidação, e eu achei aquilo genial porque é tosco e, ao mesmo tempo, maravilhoso.


Teve esse lugar de me inspirar no Adirley, porque eu acho que ele brinca muito com os gêneros. Ele fala que vai fazer documentário e faz ficção. E eu senti que, de alguma forma, também estava brincando com essa fronteira entre documentário e ficção. Foi uma grande inspiração.


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