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Entrevista | “É um filme de amadurecimento em três idades diferentes da vida”: Anne Pinheiro Guimarães e Théo Medon falam sobre “Pequenas Criaturas”

  • Foto do escritor: Giulia Meneses
    Giulia Meneses
  • há 2 dias
  • 7 min de leitura

Diretora e ator do longa, que estreia nos cinemas em 23 de julho, falam sobre a ambientação na Brasília dos anos 80 e as diferentes perspectivas geracionais na forma de vivenciar o mundo. 

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Após conquistar o prêmio de Melhor Longa-Metragem de Ficção na Premiere Brasil, principal mostra competitiva do Festival do Rio 2025, o novo filme de Anne Pinheiro Guimarães, Pequenas Criaturas, estreia nesta quinta-feira nos cinemas brasileiros. Ambientada na capital federal dos anos 80, a trama apresenta Helena, protagonista vivida por Carolina Dickmmann, e os seus filhos André (Théo Medon) e Dudu (Lorenzo Mello). 


Logo após a mudança, o patriarca da família, vivido por Michel Melamed, embarca em uma viagem de negócios e deixa a esposa e filhos diante do desafio de encontrar seu lugar em uma cidade completamente nova. Enquanto Helena tenta conciliar a responsabilidade de reconstruir a vida da família em uma Brasília futurista com a busca por um novo sentido para si mesma, os filhos atravessam diferentes fases do amadurecimento: André vive os conflitos da adolescência, enquanto Dudu desbrava a cidade com o olhar explorador da infância. Leia a crítica aqui. 


Em entrevista ao Oxente Pipoca, a diretora Anne Pinheiro Guimarães e o ator Théo Medon falaram um pouco sobre a representação de Brasília em 1986 - em espaço distante do aspecto político que a acompanha - como a mudança para uma nova cidade desperta transformações íntimas em diferentes gerações, além de destacar o processo de construção dos personagens e a sensibilidade que atravessa a narrativa. Confira a entrevista completa abaixo: 


Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Anne, o filme acompanha uma mudança de cidade sob o olhar de diferentes membros da família. Como foi que surgiu essa ideia de explorar esse momento de transição com perspectivas tão distintas?

 

Anne Pinheiro Guimarães: Olha, a resposta são duas. Eu comecei a pensar nessa história quando eu tive a minha primeira filha. Quando me tornei mãe, eu já tinha perdido a minha mãe. O filme é uma despedida dela. Comecei a pensar na maternidade de uma forma diferente. Comecei a pensar nela como mulher. Eu sempre pensei na minha mãe como a mãe, com esse olhar.

 

Comecei a pensar na infância, tendo a minha filha ali. Antes de ter filha, a gente não pensa em criança. Comecei a pensar nas minhas memórias de infância. Eu nasci e morei em Brasília. Nasci lá, fui embora, voltei. Depois que eu escrevi o roteiro, me dei conta que eu voltei com a idade do Dudu e fui embora com a idade do André. É um pedaço da vida que é muito marcante sobre quem nos tornamos depois. Tudo que acontece nesse intervalo é muito marcante de quem a gente se torna.

 

A coisa do chegar e ir embora... Eu sou filha de diplomata. Tive que chegar nos lugares e ir embora muito na vida. É um negócio muito difícil de fazer. Chegar é muito difícil, ir embora também é difícil. E chegar em Brasília, que é uma cidade muito única, muito diferente, muito difícil de você entender. Ali não tem calçada, não tem onde encontrar as pessoas. Tem uns códigos muito distintos. Como é que foi isso para a minha mãe? Meu pai viajava muito, enfim. É uma resposta prolixa e complexa, mas é isso.

 

Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Embora seja um drama familiar, o filme também aborda diferentes fases da vida. A infância, a adolescência, a vida adulta ali um pouco. Como foi equilibrar essas experiências sem que uma sobreponha a outra?

 

Anne Pinheiro Guimarães: Olha, eu pensei muito... Pequenas Criaturas, de certa forma, é também bastante um filme de amadurecimento em três idades diferentes da vida. Claro que a gente amadurece muito quando a gente sai da pequena infância para a infância mesmo, que é o personagem do Dudu. A gente começa a ver o mundo como ele é. Ele tem um amigo imaginário, por exemplo, então ele vai deixando para trás a infância dele.

 

O André é o adolescente, onde ele vai aprendendo. Na verdade, ele começa a sacar a mãe dele. Ele começa a entender que tem alguma coisa a mais acontecendo. Ali na laje tem uma conversa onde ele fala: “Eu queria mesmo era saber o que está acontecendo de verdade”. Porque ele começa a entender que as relações, os sentimentos, as pessoas e tudo que está acontecendo em volta dele é muito mais complexo do que ele achava até então. Então, isso é um amadurecimento de olhar. Fora as outras coisas que ele também vai aprendendo.

 

E para a Helena é um amadurecimento na meia-idade mesmo. É um despertar do feminino que pode acontecer um pouco antes, um pouco depois. Pode também nunca acontecer, mas é uma coisa muito feminina onde ela toma essa rasteira no começo do filme. Ela começa a se dar conta, como ela fala, que ela meio que fez as coisas sem querer até então. A maternidade é um rolo compressor também. Você tem que dar conta de tanta coisa.

 

Você tem que parar de querer as coisas só para você. Você passa a dar conta das coisas e ali ela acorda para isso. E é um amadurecimento para ela também. Não é um filme sobre traição, sobre uma separação. É sobre, na verdade, o despertar dela como mulher para o desejo dela. E não é um desejo sensual, erótico. É o desejo do que eu quero, o que eu vou escolher. Ela diz que está fazendo tudo sem querer. É sobre as escolhas. Isso é uma questão bem feminina. Então, sim, amadurecimento em três fases.


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Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Theo, o André está vivendo esse momento de grandes mudanças. Uma nova cidade, novas relações, o primeiro amor. Como foi o processo de preparação para interpretar um adolescente vivendo ali nos anos 80? Teve alguma pesquisa sobre essa época? Algumas conversas com a Anne para construir esse universo?

 

Théo Medon: Foram muitas [preparações] para me familiarizar com o mundo, com videocassetes e com classificados e mobiletes. Tiveram muitas trocas de ideias com a própria equipe. Muitos deles viveram a vida, a adolescência nos anos 80. Então foi uma coisa que eu conversei muito. Eu acho que durante esse período de quase 50 dias que a gente passou gravando em Brasília, foi um período de total imersão no André, em todo esse mundo, mas também pela questão da forma de interpretação dele. Como é um tom muito bem definido de todo o elenco, essa interpretação no silêncio, essa pouca extravagância da expressividade, acho que é um tipo de interpretação que pede uma imersão de verdade no personagem, porque é uma coisa muito difícil de fazer. Expressar aquilo que você está sentindo, o que você está pensando, sem dizer.

 

Então, acho que requereu um grande processo de mergulhar na cabeça do André e realmente sentir tudo aquilo. Por isso eu até falo que, durante aquele tempo, eu fui mais André do que fui Théo. E eu acho que isso me ajudou bastante, além, claro, do acompanhamento, da ajuda de todos os conselhos da nossa grande preparadora, a Isabela Garcia, que foi um anjo nas nossas vidas, que é uma profissional incrível e um ser humano melhor ainda. Então acho que esse conjunto de fatores todo me ajudou a construir o André.

 

Giulia Meneses (Oxente Pipoca): O André, além de tudo, ele é o irmão mais velho, né? Eu como irmã mais velha observei muito da minha relação com o meu irmão ali, aquela puxada de orelha principalmente. Então, uma das coisas que mais me apeguei no filme foi a relação entre os irmãos. Como foi construir a sua relação com o Lorenzo Mello?

 

Théo Medon: Sou irmão mais velho também. Eu tenho uma irmãzinha que tem a exata diferença de idade do André e do Dudu. Só que é uma irmã, né? Isso é outra parada. Só que eu acho que tem coisas, cara, na nossa vida de ator, que você não tem como explicar. E o entrosamento entre eu e Lorenzo é uma coisa, sim, que eu acho que é inexplicável.

 

Anne Pinheiro Guimarães: Eles se tornaram irmãos. E são até hoje.

 

Théo Medon: É uma dessas coisas que você clica e acontece, sabe? A gente se conheceu antes nas preparações, com a Isabela e tal. E eu acho que foi uma coisa instantânea. Antes da gente se entender, enquanto André e Dudu irmãos, eu acho que aconteceu o Theo e o Lorenzo. E é a partir daí que a gente construiu essa relação de André e Dudu.

 

Tanto que até hoje, dois anos depois das gravações, a gente continua com essa mesma relação. Encontro ele, ele vem, fica, pula em cima de mim. Fica falando de mim, fica me zoando. Fica implicando comigo. Porque tudo que vocês viram na tela foi extremamente genuíno. Era o que acontecia. Fora dela, a diferença é que ele estava de Dudu e eu de André. Então são essas coisas, esses cruzamentos que a gente não tem como explicar. É o tipo de coisa que acontece mesmo.

 

Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Gente, Brasília costuma aparecer no cinema como um espaço político na maior parte do tempo. O filme propõe esse olhar mais do cotidiano sobre a cidade. Para você, Theo, e para você, Anne, como foi construída essa relação entre os personagens e esse cenário da cidade?

 

Anne Pinheiro Guimarães: A cidade, para mim, é fundamental. Para contar essa história, para mim, eu não poderia ter feito em outro lugar. A aridez de Brasília, os espaços amplos de Brasília. Hoje em dia é muito diferente, mas a Brasília dos anos 80 era uma Brasília muito vazia, muito mais vazia do que qualquer outra grande cidade do tamanho dela, que já era uma cidade grande nos anos 80, mas uma sensação de vazios muito maior.

 

Mas também, ao mesmo tempo, uma cidade muito bonita e muito imponente, com uma arquitetura muito, muito, muito peculiar. Mas é uma cidade sem calçada, é uma cidade onde a geografia da cidade pauta os relacionamentos. Então, Brasília é um personagem, é mais um protagonista da história. E, desculpa, só porque você falou em política...Brasília em 86, a grande parte da vida não é política. O que a gente conhece de Brasília é só aquilo que sai no Jornal Nacional. A grande parte da vida em Brasília é uma vida cotidiana, como em qualquer outro lugar, com todos os problemas normais da vida cotidiana.

 

Théo Medon: Acho bonito como a forma que os personagens enxergam a cidade também fala um pouco sobre o filme. A gente chega muito oprimido, se sentido muito preso, muito intimidado por aquele colosso, e a partir do momento que a gente começa a criar laços e começa a criar essa construção de uma nova família, enxergamos as coisas de outra maneira. Começamos a enxergar a beleza naquela cidade, que acho que é a mesma coisa que acontece com os personagens. Começam muito oprimidos, muito para baixo, e a gente vê esse desabrochar e essa maneira de enxergar a vida de outro jeito. Então, acho que ela se conecta de uma forma muito bonita com a história dos personagens também.

 


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