Santo (Festival do Rio 2026)

há 3 horas
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Narrativa intensa e carregada de sentimento é ilustrada com requinte visual cheio de texturas, e elenco vibrante.

Um acidente de trânsito aproxima dois jovens entregadores em São Paulo. Yuri (Pedro Tófani), descolado e provocativo, e Davi (João Pedro Mariano), um evangélico trabalhador, se costuram entre os extremos da religião e da liberdade que a rua traz.
Em um curta-metragem, mais do que em qualquer outro tipo de produto audiovisual, cada segundo é caríssimo. Por isso, o apelo visual precisa ser tão instigante quanto a história que se pretende contar, sem depender exclusivamente do texto para conduzir o espectador. Em “Santo”, porém, imagem e palavra caminham juntas. A narrativa estrutura um universo visual cheio de personalidade, no qual as texturas, as cores e os enquadramentos não servem apenas de ornamento, mas ajudam a dar forma aos sentimentos e às contradições dos protagonistas.
A escolha por filmar em película Kodak 16 mm acrescenta organicidade a essa construção, com uma paleta de tons claros e cores tórridas, cuidadosamente desenhadas. Há uma materialidade nas imagens que aproxima o espectador daquele universo e torna a experiência diegética ainda mais sensorial. No roteiro, a religião permeia a narrativa e orienta a maneira como Davi enxerga o mundo, até culminar em um apocalipse que encerra a vida dos personagens como eles a conhecem. Não por acaso, o final também funciona como começo dessa história, ou pelo menos de um novo momento. O fim dos tempos chegou e, seja de maneira metafórica ou não, representa tanto uma ruptura quanto a possibilidade de um novo início.
João Pedro Mariano é um dos nomes em ascensão no cinema brasileiro e vem construindo, em pouco tempo, uma filmografia variada e marcante, sem passar despercebido pela crítica e pelo público. Aqui, seu personagem, em constante transformação, conduz o enredo entre momentos de incerteza e demonstrações de coragem. Pedro Tófani é uma revelação primorosa. Yuri parece mais autoconsciente e bem resolvido do que Davi, e Pedro transmite essa segurança no olhar e na fala, com uma naturalidade de quem tem muitos anos na carreira de ator profissional. Talvez o que faça falta seja mais momentos de intimidade entre os dois protagonistas, com diálogos que aprofundem a relação para além do momento-chave no closet. Algumas falas parecem cumprir a função de apresentar as nuances desses personagens, mas nem sempre encontram espaço para aproximá-los ou dar um acabamento melhor a seus percursos. Ou talvez seja apenas eu querendo mais.
A diretora Malu Alves tem experiência notável com trabalhos curtos no audiovisual, mas torço para que em breve ela direcione seu leme para médios e/ou longas-metragens porque seu talento, criatividade e desenvoltura técnica estão clamando por uma durações maiores, e eu também. Estarei acompanhando atentamente.
Nota: 4,5/5



















