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  • Crítica | Maldoror (Festival de Veneza)

    Filme belga traz a tona história de crime real com toque ficcionalizado, mas perde a mão com longa duração Foto: Divulgação Na Bélgica, em 1995, o jovem policial Paul Chartier fica obcecado com o caso de duas jovens desaparecidas. Quando ele é recrutado para fazer parte da Maldoror, uma unidade secreta para monitorar homens com antecedentes criminais em casos de abusos de menores, e a operação falha por conta de erros dos seus superiores, Paul embarca em uma jornada de caçada e culpa também para desmascarar os envolvidos no caso. Exibido no Festival de Veneza, essa é a trama principal do filme Maldoror, coprodução da Bélgica e da França, que conta uma história real que se entrelaça em uma trama política e social do país belga. Na época dos fatos, a polícia funcionava de forma subdividida, existindo assim a ‘Gendarmerie’, algo equivalente a guarda municipal na atualidade brasileira. Assim, esses núcleos policiais não trabalhavam de forma integrada, sendo um grande problema em casos de grande complexidade, como no sequestro de várias jovens de forma sequencial nos anos 90. Dirigido por Fabrice du Welz, fica claro que a intenção é dar luz a esse fato histórico e triste da Bélgica e explorar essa história real sob uma ótica ficcional. Além de denunciar e expor esses crimes de sequestro, abuso e violência contra menores, o filme também expõe as falhas na polícia e na justiça criminal do país, com referências claras a longas como Zodíaco e Memórias de um Assassino. Focar no personagem fictício de Paul Chartier, um jovem adulto com uma vida problemática, mesclando com essa história real tem seus erros e acertos. Foto: Divulgação Paul é um personagem complexo, em alguns momentos irritante pela sua insistência, deixando sua própria família de lado. Inclusive, um dos núcleos mais interessantes do filme é a família da esposa de Paul, mesmo que pouco explorada. Mesmo com sua complexidade, não sei se ele é o personagem ideal para liderar essa história feita para colocar sob a luz do público esse crime bárbaro. Alguns outros fios narrativos aqui se perdem e o filme, em certo ponto, parece não saber se quer ser um drama, um true crime ou um suspense policial. Muito disso acontece pela sua longa duração, de quase 2h33 minutos, que em muitos momentos torna a trama mais lenta e arrastada e em outros mais frenética, despontando com bons momentos de ação, mas não convencendo no drama. Com uma boa direção de arte e também boas atuações, Maldoror tem um saldo positivo mesmo com os problemas e traz uma luz e dá voz a um dos casos mais tristes da Bélgica. Nota: 3/5

  • Crítica | Estômago II - O Poderoso Chef

    Continuação é simpática, mas se perde em meio as caricaturas e as autorreferências Foto: Divulgação Nesta nova história, que se passa dezesseis anos após os acontecimentos da primeira, Raimundo Nonato (João Miguel) conseguiu conquistar uma posição confortável se aproximando dos poderosos da prisão, por meio do seu inigualável talento para a culinária. Ele cozinha para o diretor do presídio, para o líder dos detentos, Etecétera (Paulo Miklos), e para os carcereiros, com requintes de alta gastronomia. Mas, a chegada do mafioso italiano Benedetto Caroglio (Nicola Siri) à prisão vai abalar as estruturas e colocará o chef no epicentro de uma feroz disputa de poder. O novo longa-metragem do diretor Marcos Jorge segue os passos do primeiro em relação ao tom bem-humorado e a tentativa de criar o suspense motivador que liga as duas histórias. Na primeira parte ele acerta, na segunda erra o tom e não consegue harmonizar. O arco narrativo do personagem Caroglio, infelizmente o novo protagonista, disputa tempo com o arco da prisão, onde o personagem Raimundo Nonato “Alecrim” fica escanteado e perde espaço para o personagem de Paulo Miklos. O Alecrim se reduz à motivação para esses outros personagens e vira o elo que tenta ligar suas histórias. Usei “infelizmente” porque o carisma do filme e a identidade do roteiro estão intrinsecamente ligados ao personagem de João Miguel, um dos grandes acertos da primeira produção. Foto: Divulgação Para além disso tem a questão da representação caricata da família mafiosa que é exatamente o que se espera de uma representação de família italiana mafiosa por uma lente humorística brasileira. Não é categoricamente ruim, mas não imprime qualquer traço criativo que justifique a escolha e as decisões tomadas para inflar o texto tanto a ponto de romper com o antigo protagonista como aconteceu. Entre os novos nomes do elenco se destacam os italianos Nicola Siri e Marisa Laurito que conseguem ter os melhores momentos em cena, os demais ou não tem personagens que demandem muita expressividade ou realmente estão abaixo do mínimo esperado para um resultado positivo. Ainda assim, o filme diverte, como falei no início, mesmo que as custas dos traços do anterior. Do primeiro para cá o cinema gastronômico já viu várias outras produções que conseguiram usar o alimento como meio ou mensagem de forma a serem lembrados pelas suas abordagens, e por mais que Estômago 2 não deixe uma marca forte como seu antecessor, ao menos consegue satisfazer enquanto pode ser degustado. Nota: 3/5

  • Crítica | Pisque Duas Vezes

    Suspense é pop comercial assumido e sólido, apesar dos furos no texto Foto: Divulgação Quando o bilionário da tecnologia Slater King (Channing Tatum) conhece a garçonete Frida (Naomi Ackie) em seu baile de gala para angariar fundos, a atração entre eles é inegável. Ele logo faz a Frida um convite irresistível: juntar-se a ele e seus amigos numas férias dos sonhos em sua ilha particular. É o paraíso. Noites selvagens se misturam a dias ensolarados, e todos estão se divertindo muito. Ninguém quer que a viagem acabe, mas como situações estranhas começam a acontecer, Frida também começa a questionar, sobretudo, a sua realidade. Há algo de errado com este lugar, e ela vai ter que descobrir a verdade se quiser sair viva dessa grande e estranha festa. Dando uma nova roupagem ao estilo de suspense criado pelo romance The Body Snatchers, de Jack Finney, a história de Pisque Duas Vezes funciona muito bem cena à medida em que vai sendo desdobrada, mas muito desse bom resultado se dá mais pela execução do que pela ideia em si. O primeiro filme de Zoë Kravitz como diretora – onde também é roteirista – mostra bastante identidade ao desfrutar de vários recursos visuais para dar vida ao argumento, especialmente o trabalho com cores, sempre vivas e brilhantes, e formas. Outra ferramenta que soma à experiência sensorial é o som. O desenho de som é bem construído e aplicado. A trilha sonora, original e preexistente, é esperta e dinâmica. E todos esses acertos servem como um excelente invólucro para um roteiro que usa sua principal motivação como o maior tapa-buraco da narrativa, sendo usada apenas quando convém e como convém. Mas para além dos truques e dos clichês (que acabam por limitar as possibilidades de ir além do esperado), é um texto sagaz e que tem seu valor social bem discutido. Foto: Divulgação A atriz britânica Naomi Ackie está deslumbrante numa atuação que parece sempre nova, todas as vezes em que aparece ela consegue surpreender de alguma forma positiva. Todo o elenco inteiro feminino é na verdade outro ponto forte da produção. E o encantador Channing Tatum sustenta bem a figura misteriosa de seu personagem passeia entre o bobo apaixonado e o antagonista autoexplicativo. Pisque Duas Vezes é um desbunde no melhor dos sentidos. É pop, é atual, é engraçado, é sangrento, é sexy, é inusitado e é bem capturado. Dependo da carga cultural do espectador vai ser possível perceber quais referências Kravitz usou e onde usou (e ela usa muitas), mesmo assim ela consegue compactar essas ideias e propostas anteriores e transformar num filme que tem bastante potencial para virar um cult. Nota: 3,5/5

  • Análise | A Qualidade das Séries Atuais Vale o Longo Tempo de Espera Entre as Temporadas?

    O que antigamente era uma exceção, hoje virou uma regra, e parece não haver mudança no horizonte Foto: O Senhor dos Anéis: Os Anéis de Poder (Prime Video)/ Only Murders In The Building (Hulu)/ Slow Horses (Apple TV+)/ Hacks (Max)/ Abbott Elementary (ABC)/ The Boys (Prime Video)/ Stranger Things ( Netflix)/ A Casa do Dragão (HBO) É claro que existem séries boas hoje em dia, mas é inegável que são exceções em um mar de mediocridade. Com a quantidade de streamings, a oferta aumentou muito e quase toda semana surge algo “imperdível” que ninguém lembra na semana seguinte. Se fizer algum sucesso, pode ser renovada, mas os novos episódios só chegarão em prováveis dois anos. Não é um fato novo, mas o problema é que virou a regra. Nos Estados Unidos, o que predominava até os anos 2010 era a chamada “Fall Season”, que começava em setembro e ia até maio do ano seguinte. A grande maioria das séries que você conhece por terem seus 20 e tantos episódios, eram exibidas neste período. Ainda é assim que a tv aberta norte-americana funciona, mas com o advento da TV a cabo já em meados dos anos 2000 e do streaming nos anos 2010, ela foi perdendo cada vez mais espaço. Com o fim de This is Us, hoje somente Abbott Elementary ganha destaque nas premiações. Ainda há Grey’s Anatomy e Lei & Ordem: Unidade de Vítimas Especiais no ar, séries outrora aclamadas, mas são procedurais e é o que não falta na tv aberta. As emissoras abertas não arriscam mais em aprovar roteiros inovadores e que demandem muita atenção. Algo como Lost, que foi exibida na ABC de 2004 a 2010, jamais estrearia no canal agora. Iria para algum streaming, com temporadas de oito episódios a cada dois anos. Felizmente estreou na época certa. A tv a cabo, com Família Soprano, na HBO, já se utilizou desta “janela” de dois anos, sendo o maior tempo entra a 5ª temporada, que estreou em 07 de março de 2004 e a parte um da 6ª e última em 12 de março de 2006. A Escuta também passou por isso com um espaço maior entre as temporadas 3, 4 e 5. Mas percebam que estamos falando de duas das séries mais aclamadas da televisão, com roteiros super trabalhados em nuance e camadas de personagens e histórias extremamente complexas. Eram exceções, mas hoje, até algo como Minha Vida com a Família Walter, série adolescente da Netflix, que parece ter o orçamento de uma coxinha e um guaraná, também passa dois anos ou mais entre uma temporada e outra. Há de se mencionar que a pandemia e as recentes greves de atores e roteiristas afetaram dezenas de produções, mas ainda assim, as gravações da 2ª temporada começaram há algumas semanas. Tanto tempo para escrever dez episódios de uma trama de triângulo amoroso em uma cidadezinha com todos os clichês possíveis? A WB e CW produziam umas 10 ou mais com 20 e tantos episódios por ano. Com essa “moda”, as grandes produções, que precisam de efeitos especiais e um tempo maior de pós-produção, como A Casa do Dragão, Stranger Things, O Senhor dos Anéis: Os Anéis de Poder ou The Boys realmente fazem um trabalho visual mais apurado, mas parece que é a única preocupação. A televisão é famosa por ter orçamentos menores e caprichar nos roteiros, mas com essas citadas, o caso é o contrário. Orçamentos estratosféricos nos levam a espetáculos visuais vazios, onde o desenvolvimento do enredo ou dos personagens ficam em segundo plano, prezando apenas pelo próximo grande acontecimento que será comentado nas redes sociais por uma semana ou pouco mais que isso, já que gera o choque, mas não o impacto. Stranger Things começou quietinha até virar o fenômeno que virou, mas tinha um roteiro que se importava com seus personagens e isso era evidente porque fazia com que nos importássemos com eles. A melhor trama da mais “recente” – que estreou há dois anos – temporada é a focada nos personagens que estão em Hawkings e a cena em que Max (Sadie Sink) foge do Vecna ao som de “Running Up That Hill” é marcante e lembrada até hoje, justamente por anteriormente haver uma construção dela, foi estabelecida uma conexão personagem-telespectador. Alguém lembra de outra cena? Pois é, eu também não. Lembro de episódios excessivamente e desnecessariamente longos. A demora faz a audiência perder o foco e o desejo pela trama, ainda mais quando o que vemos em tela é decepcionante depois de tanta espera. Uma das melhores coisas das séries de 20 e tantos episódios por ano, era passar tanto tempo com aquelas pessoas, ou até com os 13 habituais das produções da TV a cabo, que pelo menos eram anuais, existia um compromisso e respeito com o espectador que em retorno dava fidelidade. Hoje, oito episódios medianos a cada dois anos ou até mais, a gente mal lembra quem é quem e pelo quê ou contra quem estão lutando. Geralmente, acontecia alguma coisa nos bastidores para que houvesse o atraso, mas hoje, acontece a renovação e o aviso é de que teremos que esperar mais dois anos. Ninguém fica órfão porque é tanta coisa para assistir, mas qualidade e quantidade nem sempre andam de mãos dadas. É esse o intuito então? Apresentar coisas medíocres para que ninguém fique ansioso por esperar tanto? O problema é que quando voltam, o sentimento é quase de indiferença. Quem muito se ausenta, uma hora deixa de fazer falta. É bom saber que O Urso, Slow Horses e Only Murders in the Building têm esse compromisso com quem as assiste e ainda vale mencionar Hacks e Entrevista com o Vampiro, que já estão com novas temporadas em produção e a expectativa é que estreiem ano que vem também. Obviamente que não é escolha dos roteiristas demorar tanto, e sim dos estúdios. Se com prazos apertados no passado tínhamos temporadas brilhantes, por que hoje com tanto tempo, recebemos coisas tão básicas? Não me parece uma conta justa, principalmente em séries iniciantes que mal formam um vínculo com o telespectador. Me importaria de esperar dois anos por Família Soprano por amar a série e ter a confiança de quem me entregariam o melhor que pudessem quando voltasse. Mas hoje, com séries que eu apenas gosto? Se parece que eles não se importam, por que eu deveria? Não é à toa que a procura por séries antigas e já finalizadas é enorme. Lost chegou há duas semanas à Netflix e desde então estava no TOP 10 da plataforma. O mesmo pode ser dito de Prison Break, que está no TOP 5 da Netflix dos EUA e acabou de chegar na filial brasileira. São produções perfeitas? Não, principalmente Prison Break, que decai drasticamente em relação ao começo, mas pelo menos as pessoas vão assistir sabendo que existe um começo, meio e fim ali à disposição. É uma alternativa e a melhor coisa que o streaming pode nos proporcionar: acesso mais fácil a produções do passado, enquanto nos distraímos com a demora pelos “fenômenos” atuais. Vale a pena? Aconselho a manter as expectativas baixas.

  • Crítica | Alien: Romulus

    Filme relaciona mito romano com universo Alien para abordar irmandade, luta de classes e inteligência artificial Foto: Divulgação Segundo a mitologia da Roma Antiga, os irmãos Rômulo e Remo são responsáveis pela fundação da cidade italiana, a lenda diz que os irmãos após terem sido abandonados acabaram sobrevivendo graças a uma loba que os alimentou como se fossem seus próprios filhotes. Embora surja um grande conflito entre os irmãos onde Remo é morto, enquanto Rômulo, por sua vez, sobrevive. Em Alien: Romulus a história é ambientada dentro da Estação Espacial Renaissance, uma nave que era usada pelos humanos para realizar experimentos de bioengenharia com o patógeno dos xenomorfos, com o propósito de criar um composto químico com grande poder de regeneração que resultaria numa espécie de “humano perfeito”. O tema da mitologia romana envolve a fundação de algo forte e duradouro, mesmo que isso resulte de circunstâncias adversas e desafiadoras, ressoando na luta pela sobrevivência e da criação de novas civilizações, o que acaba sendo um tema recorrente na franquia Alien. A disputa entre os irmãos Rômulo e Remo é um tema central no mito que os leva à tragédia, já em Alien: Romulus o tema é ilustrado pelos personagens Rain (Cailee Spaeny) e Andy (David Jonsson), de forma que Andy é um ser "sintético", uma espécie de androide que é encontrado em um lixão pelo pai de Rain, o qual ela considera como irmão. Após a morte dos seus pais, Andy segue em sua programação uma diretriz central: “fazer o que é melhor para Rain”, que acaba conflitando com o motivo pelo qual foi programado: servir aos interesses do corporativismo. A irmandade é o tema central que acompanha toda a narrativa de Alien: Romulus, e é posto de forma muito sutil através de planos detalhes, seja em um toque de mão no ombro ou de uma mão na barriga. Mas para além dos simbolismos, o diretor Fede Alvarez (Evil Dead, 2013) é muito bem resolvido dentro das pretensões de um blockbuster, onde ele usa o seu estilo gráfico e violento para ilustrar um grupo de jovens e um androide que invadem uma estação espacial, com o objetivo de roubar leitos de criogenia que podem levá-los a um sistema solar bem longe do planeta que eles trabalhavam como operários dentro de um regime abusivo. Tudo funciona dentro de um estrutura gameficada conforme os personagens vão explorando a estação especial, como os locais de “respawn” dos xenomorfos, os diferentes tipos de armas que eles vão encontrando no caminho, os trajes que se adaptam a cada “fase”, um androide que dá instruções como uma espécie de NPC, e o modo que eles descobrem pouco a pouco como lidar com as diferentes ameaças. Se no jogo Alien: Isolation há uma mecânica em que aprendemos a ter um comportamento mais furtivo a fim de evitar ir ao encontro da ameaça na posição de um espectador ativo, em Alien: Romulus o terror é encarado de forma frontal e bastante visceral ainda que somos inseridos na posição de um espectador passivo. Foto: Divulgação De certa forma, o filme me desagrada um pouco quando faz seus acenos à franquia Alien um pouco batidos, com toda a estrutura formal que já é conhecida da franquia, além de se aproveitar dos fanservices, como a própria forma que caracterizam a protagonista como uma espécie de simulador da Ellen Ripley. Além dos coadjuvantes que são tão genéricos que você não se importa muito com eles quando se inicia a contagem de corpos. Eu particularmente aprecio quando um novo filme de franquia tenta trazer uma ideia original, mesmo que fuja um pouco das convenções que tornou a franquia um sucesso, como por exemplo Halloween III (1982). Mas ao mesmo tempo eu sinto que Alien: Romulus encontrou o equilíbrio entre estar inserido no universo alien mas ainda assim proporcionando novas ideias, o que acabou me lembrando um pouco Rogue One (2016), que está inserido dentro da franquia Star Wars, nesse sentido. Essas novas ideias ganham forma a partir do momento que Fede Alvarez utiliza de um terror mais frontal e visceral dos xenomorfos, inserindo diversas cenas de body horror, no qual o monstro é constantemente visível e é inserido no plano de forma que encaramos a ameaça olho a olho, e há uma autoconsciência de como a franquia se resolve pelas estruturas de um filme slasher de forma orgânica. É curioso observar que o filme acaba não só fazendo um comentário sobre o uso de inteligência artificial como acaba utilizando o próprio advento tecnológico ao utilizar da IA generativa para trazer inserir o personagem androide Rook no filme, personagem já conhecido da franquia interpretado pelo ator Ian Holm, já falecido. Ao mesmo tempo que esse mesmo personagem está programado com o único propósito de servir à companhia, custe o que custar. E isso é demonstrado até pelo personagem Andy, ao ter um chip do outro androide inserido em seu mecanismo, o que acaba conflitando com seu propósito inicial que o fazia mais humano. A corporação afirma querer "repovoar as colônias", mas na realidade está interessada apenas no benefício próprio. Em Metrópolis (1927), o androide é utilizado para provocar uma revolta e controlar os trabalhadores, em Alien: Romulus, os androides são programados para acima de tudo servir os interesses da corporação. São os interesses da corporação passando por cima da dignidade de uma classe operária que só luta por ter dignidade e por ter o seu lugar ao sol. Foto: Divulgação O que faz o filme de Alvarez se diferenciar dos demais filmes da franquia é a forma que o filme lida com sua textura, tanto do cenário como na forma que o bodyhorror é posto em cena, como um expoente de um terror Lovecraftiano que acaba levando pra uma dimensão sexual pela forma que os aliens se parasitam aos corpos humanos, como por exemplo o Alien que se agarra ao rosto de portando uma espécie de falo, além do casulo do xenomorfo que nos remete a um vagina, trazendo um aspecto orgânico dentro dessa relação de humano x alien. Além de tudo, Fede Alvarez propõe uma experiência de terror muito sólida por não se limitar ao terror apenas pela existência dos monstros, e sim de como a ameaça acaba evoluindo a cada estágio e os personagens precisam constantemente aprender novas formas de contornar a situação, mantendo o espectador em uma atmosfera de um terror bastante pé no chão, onde é possível se sentir imerso nas estruturas dentro de uma ópera espacial que brinca com a gravidade em diversos momentos bastante inventivos. O uso do vermelho já visto anteriormente em Evil Dead (2013), potencializa o tom de ameaça da trama. Por fim, Fede Alvarez preserva a franquia, não reinventa a roda mas ainda assim lida bem com os elementos de terror que está inserido desde o primeiro filme da franquia, embora não escape dos problemas comuns da franquia quando tem que lidar com momentos mais protocolares, o filme consegue criar uma identidade própria e encontra o equilíbrio entre a homenagem e o próprio estilo do autor. Nota: 4/5

  • Crítica | De Volta aos 15 (3ª temporada)

    Último ano da série é divertido, emocionante e fecha com chave de ouro a jornada de Anita Foto: Divulgação/ Netflix Em várias críticas que já escrevi por aqui, eu sempre pontuo que não existe nenhum problema em gostar de clichês. E quando eles são bem apropriados e colocados na medida certa, tudo fica melhor ainda. Lá em fevereiro de 2022, na minha crítica sobre a primeira temporada de De Volta aos 15, pontuei que ela era “um dos maiores acertos para o público infanto-juvenil até então”, e agora, duas temporadas depois e com a sua conclusão sendo lançada nesta quarta-feira, 21, reafirmo o meu posicionamento e posso garantir que a série é sim, um dos maiores acertos da Netflix, não só para o público infanto-juvenil, mas, para qualquer um que goste de apreciar uma boa história. Neste terceiro e último ano, Anita (Maísa/Camila Queiroz) agora volta aos 18, dessa vez na faculdade, junto dos seus amigos e enfrenta um dilema com a questão da viagem no tempo, pois, após tentar apagar a sua conta no floguinho, ela parece não ter mais controle sobre as suas próprias viagens e fica indo e vindo no tempo, sem nenhum motivo aparente. Dessa forma, a protagonista precisa desvendar esse mistério para parar, de uma vez por todas, com as viagens no tempo que afetam o seu futuro. Sempre muito afiada no seu texto, essa terceira temporada de De Volta aos 15 é tão divertida quanto suas anteriores. Mesclando as boas peças do seu elenco com um roteiro muito criativo, que se aproveita muito bem desses jovens talentosos, os episódios passam tão rapidamente que a duração parece menor do que é de fato. Obviamente aqui o foco principal é fechar esse ciclo das viagens no tempo, dando não só uma boa conclusão para essa vertente da história, como também para todos os personagens da série. Foto: Divulgação/ Netflix Dar uma conclusão para sua história não deixa que De Volta aos 15 fique somente preso a isso. Aqui temos excelentes tramas abordadas, além desse eixo central da Anita, que funcionam muito bem como o que envolve as novas personagens, Jéssica (Emira Sofia) e Filipa (Larissa Manoela/Juliana Paiva). Tudo sempre colocado nas telas de forma séria e com responsabilidade, trazendo boas discussões e reflexões para quem está assistindo. Como falei antes, De Volta aos 15 reúne um elenco que parece estar sempre em seu melhor momento. Seja nos momentos mais divertidos ou nos mais dramáticos, muito de sua história se sustenta pela boa atuação desse elenco, que exala em cena uma boa química e entrosamento. Aqui vemos menos das versões do futuro desses personagens, mas, ainda sim, eles também se destacam quando aparecem. E quando eu pensava que a série não conseguiria mais me surpreender, ela vai lá e me deixa feliz por está errada. De Volta aos 15 fecha uma jornada de muitos acertos na Netflix com mais uma excelente temporada. Uma pedida perfeita para quem gosta de uma boa e cativante história, que conclui muito bem tudo que se propôs a apresentar nestas três temporadas. E com seus seis costumeiros episódios, a série com certeza soube entender o seu momento de parar e para em alto nível. Mas te garanto que vou sentir muita falta de toda essa turma. Nota: 4,5/5

  • Crítica | Mais Pesado é o Céu

    Filme carrega no drama para narrar conto cruel de desesperança Foto: Divulgação Após acolher uma criança abandonada, Teresa (Ana Luiza Rios) conhece Antônio (Matheus Nachtergaele) e os dois iniciam uma jornada pelas estradas. O passado em comum, para eles, são as memórias de uma cidade submersa no fundo de uma represa. A vida é sonho, mas o futuro é a incerteza. Mais Pesado é o Céu é um road movie banhado num niilismo assustador, onde os personagens condenados a uma estrada-esteira tentam buscar propósito num caminho que sempre acaba por levá-los ao mesmo lugar de origem. Fisicamente e metaforicamente. A estrada se torna o não-lugar onde Teresa e Antônio estão condenados a uma punição recorrente que parece não se importar com quem seja, suas histórias ou o que os levou até ali, o que importa é o castigo. Toda essa carga, no entanto, parece arrastar o desenvolvimento da narrativa, que poderia variar situações, sem abandonar os lugares e a estrada, e ainda assim teria o mesmo impacto com um pouco mais de dinâmica. O casal de atores protagonistas dá vida – até onde é possível – a personagens que se agarram a tudo que aparece em seus caminhos como uma tentativa desesperada de validar suas existências. Com atuações cruas, Ana Luiza Rios e Matheus Nachtergaele constroem pessoas que apenas esboçam outros sentimentos além de desengano e desolação. No entanto, assim como a cidade que buscam está inundada, suas forças parecem comprimidas pela pressão do que se não pode ver, das mágoas incontáveis, da cadeia de sofrimentos, do céu que se desdobra impiedosamente encarando, em sua grandeza, a miudez de seus destinos. Foto: Divulgação Sempre com uma imagem em baixa saturação, onde mesmo os planos abertos de dias claros conseguem parecer densos e lúgubres, Petrus Cariry usa todos os recursos visuais que estão ao seu alcance para dar forma e peso à realidade sempre abarrotada de Mais Pesado é o Céu. Blocking, sombras, silhuetas e linhas, muitas linhas compõem a gestalt cinematográfica que funciona quase como uma cartilha bem ilustrada de como imprimir clareza e objetividade, sem cair na obviedade e no simplório. E essas muitas linhas horizontais e verticais enquadram, dimensionam, direcionam e aprisionam os personagens com uma inteligência de quem pega numa câmera com a certeza daquilo que está fazendo. Não espere um final feliz, não ache que vai ficar tudo bem, o diretor passa o filme inteiro nos apontando para um desfecho atroz, e além de atroz é abrupto. Não há esperança. No percurso marcado do longa-metragem é cada um por si e a estrada contra todos. Nota: 3,5/5

  • Crítica | Borderlands: O Destino do Universo Está em Jogo

    Insosso, sem inspiração e repetitivo, o filme nada tem de relevante Foto: Divulgação Uma infame fora da lei forma uma aliança inesperada com uma equipe de heróis. Juntos, eles lutam contra monstros alienígenas e bandidos perigosos para encontrar uma garota desaparecida que detém a chave para um poder inimaginável. Imagine que O Quinto Elemento (1997), Guardiões da Galáxia (2014), Mad Max: Estrada da Fúria (2015) e Esquadrão Suicida (2016) entram num bar e após ficarem completamente ébrios começam a apontar os defeitos uns dos outros. Parece que foi exatamente assim que nasceu o roteiro de Borderlands que adapta uma franquia de jogos, mas que não tem a menor personalidade nem a peita de romper com tudo que veio sendo fabricando em série nos últimos 20 anos. Foto: Divulgação É mais uma adaptação de jogos feita por Hollywood sem boa vontade e ousadia de criar algo minimamente memorável. A aventura não rem ritmo, não tem carisma, não tem graça e não tem qualquer propósito. Todas as piadas já foram feitas em outros filmes, toda ação é copiada, a direção de arte é quase um plágio dos filmes citados anteriormente, os efeitos visuais oscilam na qualidade, nada dialoga com nada e não tem alicerce para passar verdade alguma. O desinteressante roteiro já inicia suprimindo informações, assumindo outras e o espectador que se vire para comprar a ideia que ninguém parece disposto a vender. As fracas motivações não justificam as cansadas ações e o desfecho não é absolutamente nada além do esperado. Foi um exercício de muita paciência tentar me importar e até mesmo concentrar nas intermináveis 1h40 de duração que conseguem desperdiçar talentos como Cate Blanchett da forma mais preguiçosa possível. Honestamente, lembro pouquíssimo do que vi e me pergunto se vendo uma segunda vez algo conseguiria fixar na mente. Infelizmente não saberei tão logo porque não me vejo passando por esse constrangimento outra vez. Nota: 1,5/5

  • Crítica | Armadilha

    M. Night Shyamalan ri dos seus próprios absurdos... mas só até certo ponto Foto: Divulgação Ame-o ou odeie-o, M. Night Shyamalan é plenamente consciente do tipo de cinema que faz, o que, por si só, já é um tipo de mérito, visto o quanto é rara tamanha autoralidade (por mais divisiva que seja) num cenário escasso de ideias originais como a Hollywood mainstream contemporânea. Da minha parte, não vi tantos filmes dele para me posicionar como um defensor ou detrator seu, mas considerando o que já assisti da sua filmografia, pode se dizer que Armadilha sintetiza bem as virtudes e defeitos do seu cinema. Aqui, temos Cooper (Josh Hartnett), um pai atencioso e amoroso que leva sua filha Riley (Ariel Donoghue) ao show da sua artista favorita, Lady Raven (Saleka Night Shyamalan, também conhecida como filha do diretor). Porém, a excessiva força policial na arena onde o show está sendo realizado logo desperta a atenção de Cooper, que descobre que o concerto é uma armadilha (ba dum tss) para capturar o serial killer conhecido como Açougueiro. O problema? Cooper é o Açougueiro. Antes que você me xingue pelo spoiler, essa revelação não só é feita com menos de 10 minutos de filme, como foi ostentada em todo o material promocional do filme. Sei que em se tratando de Shyamalan, plot twists são quase sinônimos dos seus filmes, mas não é o caso aqui, pois importa muito mais saber como Cooper vai conseguir escapar do que o fato dele ser um serial killer. E nisso o longa se sai muito bem, construindo uma atmosfera primorosa de dúvida e tensão conforme acompanhamos o ponto de vista do protagonista e seus esforços mentais para não ser pego ao mesmo tempo em que tenta ocultar a verdade de sua preciosa filha. A decisão de manter o longa quase sempre do ponto de vista de Cooper (ao menos na primeira hora — mais sobre isso à frente) é um toque de mestre de Shyamalan, que brinca com as expectativas dos espectadores quanto a saídas, objetos, obstáculos e tudo mais que pode ajudar ou atrapalhar o personagem a escapar. Diga o que quiser do homem, mas ele é um diretor como poucos: o nível de subjetividade alcançado través da câmera e da encenação nos torna quase cúmplices de Cooper — e certamente muitos moralistas vão chiar, achando que o filme “passa pano” para as ações do personagem. Mas ao adotar um tom deliberadamente cômico, a direção de Shyamalan converte a tragédia e o suspense em farsa e espetáculo, abraçando o absurdo e a autoconsciência com um esmero que, imagino eu, vai ser duramente criticado por muitos, mas é onde reside a força do filme. Foto: Divulgação É justamente por isso que quando Armadilha se afasta da perspectiva de Cooper (e, não coincidentemente, do tom farsesco e cômico), ele enfraquece nitidamente. O roteiro de Shyamalan resvala nas muitas conveniências; não que elas não existissem antes, mas eram amparadas justamente pelo absurdo autoconsciente — como quando o próprio diretor aparece em cena em uma das suas costumeiras participações especiais, dando um novo sentido à expressão deus ex machina. Ao longo da sua segunda metade, porém, vê-se uma obra que tenta cada vez mais se levar a sério, sofrendo pelas já referidas conveniências e também de uma condução anticlimática, onde temos entre três a quatro finais possíveis, como se o filme não soubesse quando parar. Não ajuda que as tendências nepotistas de Shyamalan o façam colocar Saleka como uma co-protagonista nessa segunda metade do filme. Nada contra nepobabies (o cinema sempre esteve repleto deles(as), afinal de contas), mas como atriz Saleka é uma ótima cantora, e sua atuação já fraca empalidece ainda mais quando contracena com Hartnett. Ela é muito melhor aproveitada quando filmada à distância no concerto, e inclusive adoraria que as músicas tocadas no show (as quais foram compostas para o filme, inclusive) fossem disponibilizadas. Além do mais, a cena dela apelando para uma live no Instagram com seus seguidores é um dos raros momentos inspirados dessa segunda metade, junto com as duas cenas finais que resgatam um pouco do absurdo da primeira hora. Felizmente, o próprio Hartnett se mantém constante ao longo do filme, sendo seu maior trunfo. Se na década passada tivemos a “McConaissance” de Matthew McConaughey, nada mais justo termos agora a “Hartnettsance”, já que o ator, que passou alguns anos longe dos holofotes em papéis menores, parece agora superar sua persona de galã da década de 2000 para assumir papéis mais desafiadores, dos quais Armadilha pode vir a ser o mais emblemático. O cinema está recheado de psicopatas carismáticos, como Norman Bates e Patrick Bateman, e Cooper vem para se juntar a esse panteão. Ainda que beba diretamente desses dois, Hartnett dá sua própria essência ao personagem, transitando com uma facilidade assustadora entre a personalidade “pai de menina” e “serial killer aterrorizante”. A maneira como uma breve inflexão, um leve contrair de músculos, um simples olhar, uma reação demorada e tantos outros detalhes o fazem alternar entre esse lado mais carismático e humanizado e aquele mais psicopata é um demonstrativo da excelência do ator, que nunca nos deixa esquecer o perigo que seu personagem representa mesmo em meio ao tom farsesco da obra. Apesar dos percalços, Armadilha certamente entrega seus méritos, mostrando que Shyamalan sempre tem muito a oferecer mesmo que não acerte 100%. Dificilmente vai trazer novos convertidos ao seu tipo de cinema, mas reflete muito pelo qual ele é amado (e também odiado), ancorando-se na performance magnética de Hartnett e no uso do humor para contrastar com o suspense, resultando num dos longas mais acessíveis de sua carreira — e certamente o mais divertido. Nota: 3/5

  • Crítica | É Assim Que Acaba

    Adaptação de fenômeno literário é bem dirigida e manipula bem a expectativa do seu telespectador Foto: Divulgação A primeira vez que li É Assim que Acaba foi em 2016, alguns meses antes do livro ser lançado em português. Na época, Colleen Hoover já era uma autora famosa no universo dos livros romances new adults (gênero literário que retrata o jovem que inicia a vida adulta e passa por alguma adversidade mais complexa), porém ainda muito longe do sucesso que a autora conquistou nos dias de hoje. Foi na pandemia que os livros de Colleen chegaram ao ápice da fama, graças aos fãs da literatura no app Tik Tok. Por lá, a autora é uma das mais comentadas (seja por bem ou por mal) e conquistou uma legião de fãs, tornando É Assim que Acaba um dos livros mais populares do mundo na atualidade. E é claro que um dos livros mais comentados dos últimos anos não passaria imune do fenômeno das adaptações literárias para o cinema. Na última quinta-feira, 8, a versão cinematográfica de É Assim que Acaba chegou às telas com roteiro de Christy Hall (do ainda não lançado no Brasil Daddio) e dirigida pelo também ator Justin Baldoni. No elenco, além do próprio Baldoni, estrelam a produção Blake Lively, Brandon Sklenar e Jenny Slate. Como disse no início desse texto, sou uma leitora voraz de romances new adults desde bem mais jovem e acompanho os lançamentos e as novidades do gênero desde que me interesso pela temática. São livros de romance com temas mais complexos e cenas mais fortes do que eu encontrava em livros voltados para o público mais adolescente, por exemplo. Minha busca por esse tipo de literatura era sempre em momentos que eu queria desestressar, lendo histórias de outras pessoas e esquecendo um pouco da minha, sem esperar nenhuma obra-prima ou uma trama que me fizesse pensar muito e, sem dúvidas, os livros de Colleen me proporcionaram isso. Acho É Assim que Acaba realmente um dos seus livros mais completos. Ele cumpre o seu papel trazendo todos clichês do gênero e trata de uma situação complexa ao falar de violência doméstica de uma forma nada sutil e extremamente didática para um público que provavelmente não está tão acostumado com isso, especialmente lá em 2016. Na história, Lily Bloom (Blake Lively) é uma mulher que, após vivenciar eventos traumáticos na infância, decide começar uma vida nova em Boston e tentar abrir o próprio negócio. Como consequência dessa mudança de vida, Lily acredita que encontrou o amor verdadeiro em Ryle (Justin Baldoni), um charmoso neurocirurgião. Porém, à medida que o relacionamento se torna cada vez mais sério, também surgem lembranças de como era o relacionamento de seus pais. Até que, repentinamente, Atlas Corrigan (Brandon Sklenar), seu primeiro amor, retorna para a vida de Lily. As coisas se complicam ainda mais, quando um incidente doloroso desencadeia um trauma do passado, ameaçando tudo o que Lily construiu com Ryle. Foto: Divulgação O roteiro consegue se manter fiel à obra original, mas, adiciona novas camadas à história, tentando atingir um público ainda mais amplo. Com boas soluções para mesclar o que os fãs queriam ver e o que funcionava de fato nas telas, o filme mistura bem os flashbacks necessários para a trama sem torná-lo cansativo para quem o assiste. Indo dessa história de romance mamão com açúcar para um drama sobre violência, o longa também se fortalece com a boa direção de Baldoni, muito perspicaz também na montagem da trama que, caso não fosse bem feita, poderia parecer muito mais um dos péssimos filmes da Lifetime. O apelo do livro (e também da escrita da Colleen) é a manipulação das expectativas dos seus leitores e a direção de Baldoni é muito pontual ao tratar essas agressões de forma mais micro e dúbia, algo que acontece também com o telespectador que se pergunta durante o filme se “houve de fato uma agressão ali ou ela apenas tropeçou?” até a protagonista e o telespectador terem, juntos, o seu momento de clareza. É uma decisão interessante e bem construída pela direção do filme, que consegue manter a trama andando durante o seu tempo de projeção. Em contraponto, É Assim que Acaba é didático até demais e parte para uma narrativa que não me agrada tanto ao apontar o famoso “se a sua filha te contasse que fosse agredida, como você se sentiria?” para o agressor. Mas aqui cabe entender também que para o público geral, esse tipo de narrativa funciona e causa o impacto necessário para que discussões sobre violência doméstica sejam feitas, e, em um universo tão agressivo com as mulheres, ter um filme com essa temática (tratada de forma honesta) sendo consumido é algo extremamente válido, especialmente quando ele chega para mulheres fora de uma bolha liberal. Outro ponto que poderia tornar É Assim que Acaba um desastre são as atuações, mas aqui elas funcionam muito bem. Blake não entrega uma atuação espetacular, mas é competente nos momentos mais fortes da trama, assim como Brandon Sklenar como Atlas. Baldoni, pra mim, é o mais forte do trio, ancorado em um personagem complexo que vai do amor ao ódio do telespectador em poucos segundos. Outro bom destaque é Jenny Slate como Alyssa, um bom alívio cômico à trama dramática e aos intérpretes de Lily e Atlas mais jovens, com um destaque especial para a muito boa Isabela Ferrer, que incorpora os trejeitos de Blake Lively e passa uma emoção genuína em momentos-chave dos flashbacks. Com uma trilha sonora escolhida para agradar o público jovem adulto, acho que o saldo de É Assim que Acaba é mais positivo do que negativo, embora venha sendo bastante criticado por uma parcela do público. Como eu disse anteriormente, é importante que histórias que abordam a violência doméstica cheguem para um público que não costuma consumir esse tipo de trama. Obviamente não é o melhor retrato cinematográfico sobre violência contra mulheres, mas também não é o pior filme já feito sobre o tema. Ainda é uma experiência válida, em especial para quem gosta de histórias de romance mais complexas. Nota: 3/5

  • Crítica | Greice

    Dramédia conquista pelo texto esperto, direção leve e elenco afiado Foto: Divulgação Greice (Amandyra) é uma jovem cearense que estuda na Universidade de Belas Artes de Lisboa. Ela se vira como pode para se sustentar na Europa, e em meio às suas malícias ela acaba se envolvendo com o português Afonso (Mauro Soares). Depois de uma festa de boas-vindas para os novos estudantes, o casal é acusado de um estranho acidente que ocorreu no evento. Greice precisa retornar a Fortaleza, sua cidade natal, para renovar a autorização de residência. Escondida em um hotel, enquanto evita que a mãe descubra os problemas em que se envolveu, Greice tenta encontrar um lugar de conforto no mundo. Em entrevista recente com o cineasta Guto Parente ele me falou sobre o nascimento de um “novo” humor cearense no cinema contemporâneo. E colocando em minhas palavras, um humor com uma estrutura menos física e com uma motivação mais elaborada. Mais sutil, menos caricato, mas não menos funcional. Uma comédia mais instintiva e menos maneirista. E embora esse humor – que por vezes chega a tocar o absurdo, mas que nunca tira os pés do chão – apareça como alívio cômico em produções com cargas dramáticas mais densas, em Greice ele é o alicerce do roteiro. Greice apresenta um recorte bastante específico de realidade, mas que no plano geral é alguém próximo do cotidiano de todo brasileiro. Para além de trambiqueira, ou do “jeitinho brasileiro”, Greice é o retrato geracional de pessoas que lidam com seus anseios da forma mais rápida, possível e viável, pessoas inconsequentes, mas que se colocam como prioridade após perceber que ninguém fará isso por elas. Foto: Divulgação O roteiro sagaz de Leonardo Mouramateus, que também dirige o longa, abre margens para que o desenvolvimento da personagem-título do filme seja ao mesmo tempo honesto e surpreendente desde o primeiro instante que Amandyra aparece em cena. No entanto essas margens abertas também permitem fechamentos e soluções precipitados que não convencem tanto quanto poderiam. Todo o percurso que a narrativa principal faz até a conclusão passa por diferentes questões que usa de maneira inteligente a narração e flashbacks para montar o quebra-cabeça principal, da trama e da personalidade de Greice. Leonardo apresenta uma direção fluida e cheia de artifícios que funcionam organicamente numa montagem precisa e bem amarrada. Amandyra constrói uma personagem complexa, autêntica e que encorpa bem todas as matizes desenhadas no texto. O elenco coadjuvante consegue marcar as situações distintas que circulam Greice com seus traços bem definidos, destaque para o ator e músico Dipas que consegue dividir a atenção do espectador com a protagonista exibindo graciosidade sempre que está em cena. Nota: 4/5

  • Entrevista | Diretora de "Filhos do Mangue" fala sobre como o Mangue é um cenário vivo e o ponto chave da trama

    A diretora Eliane Caffé conversou com exclusividade com o Oxente, Pipoca? Foto: Divulgação O longa-metragem “Filhos do Mangue”, dirigido pela cineasta paulista Eliane Caffé (“Narradores de Javé”) fará parte da programação da 52ª edição do Festival de Gramado, um dos principais eventos de cinema do Brasil. Se destacando como única produção nordestina, filmado em Barra de Cunhaú no município de Canguaretama. A trama de Filhos do Mangue foca no pescador Pedro Chão, interpretado pelo ator Felipe Camargo. Pedro, um homem com um caráter questionável, surge ferido e sem memória em uma comunidade ribeirinha e é acusado de roubo. Durante um julgamento comunitário, revelam-se situações envolvendo violência doméstica, violência de gênero, tráfico de pessoas e desvio de recursos públicos. Em entrevista exclusiva ao Oxente, Pipoca? A diretora Eliane Caffé nos contou sobre o processo de criação do personagem principal interpretado pelo ator Felipe Camargo: “Ele foi uma versão que o escritor Sérgio Prado havia criado para seu livro, Capitão. Na versão atual que está no filme, a construção do personagem aconteceu junto com o trabalho de entrega potente do Felipe Camargo, sempre em fricção com os personagens reais da comunidade de Cunhaú”, relatou ela. O filme possui um grande elenco, e inclusive contou com a participação da população local da comunidade de Barra do Cunhaú em algumas cenas. Há uma cena em que Pedro Chão é amarrado em uma cadeira e inicia-se uma grande discussão entre os moradores. Para Eliane Caffé, é importante que essas discussões sejam filmadas de forma que o elenco embarque na situação: “As assembleias e reuniões coletivas na vida real são sempre momentos incendiários do convívio coletivo. A catarse energética de muitas mentes em choque e fusão. Na encenação, essa vontade coletiva de ganhar expressão contagia a todos que estão em cena. Uns apoiam os outros e a cena flui. Nós, a equipe, é que temos que correr atrás.”, diz ela. Foto: Divulgação Perguntamos também sobre o tom de denúncia à violência doméstica que está presente no filme, e de que forma reflete a realidade da comunidade retratada no filme: “Creio que reflete a realidade do país inteiro e em outro grau, do mundo todo. A violência contra a mulher está presente quase em todas as nações e culturas. É um paradigma crônico e temos muito a fazer pra mudar isso. A meu ver é uma questão que se alimenta do modelo econômico mais do que dos costumes. Muito difícil.”, explica Eliane. Para Eliane Caffé, o mangue é um personagem vivo da trama que vai muito além de uma escolha de cenário: “O Mangue é um multiuniverso que evoca metáforas infinitas com o arco dramático da vida humana. Não há como ele ser apenas cenário de fundo. Ele é a própria carne dos personagens em outra dimensão mais profunda. Ele começa em nosso silêncio. Como a natureza do que somos sem saber como.”, completa. Por fim, a diretora paulista também comentou sobre a importância de Filhos do Mangue ter sido filmado em Barra do Cunhaú (RN) que tem a produção da produtora nordestina Pé na Estrada Filmes: “A cultura nordestina é tão rica, múltipla, generosa que me pergunto o quanto nós, que operamos no cinema dos centros econômicos, precisamos da regionalidade nordestina pra revitalizar a linguagem do cinema como um todo.”, conclui a diretora Eliane Caffé.

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