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  • Crítica | Privadas de Suas Vidas (Mostra de SP 2026)

    Gustavo Vinagre e Gurcius Gewdner abraçam sem medo a escatologia, a sátira e o charme dos filmes B de horror no filme mais divertido da Mostra até agora. Imagem: Divulgação Nos últimos anos, a proliferação do chamado “horror de trauma/luto” levou a uma certa saturação dentro do gênero do terror, sobretudo pela necessidade dessas produções de explicarem ou aludirem fenômenos sobrenaturais e insólitos pela perspectiva racional de um evento traumático ou da perda, Logo, superar esse trauma implica em superar o mal com o que estava se lidando, como atestavam s simbologias e metáforas tão óbvias quanto cansadas usadas por essas obras. E é por isso que a pergunta lançada pela dupla de diretores e roteiristas Gustavo Vinagre e Gurcius Gewdner no começo de Privadas de Suas Vidas já define muito do tom do filme: como se supera a morte do seu filho pelas mãos de uma privada? A ideia dessa sátira com o horror de trauma é apenas o ponto de partida da verdadeira salada que a dupla trabalha ao longo das quase duas horas de filme. Tem-se o luto enfrentado pela protagonista Malu (Martha Nowill), expresso não só na sua relação conturbada com Gênesis (Benjamín Damini), seu filhe não-binárie, mas na incapacidade de defecar e usar privadas no geral; tem-se a galeria de personagens excêntricos (e ao mesmo tempo muito próximos da nossa realidade) do edifício em que moram, que incluem uma influencer de maternidade (Chandelly Braz) e seu marido envolvido com jogo do tigrinho (Marco Pigossi), ou uma vizinha cleptomaníaca (Regina Braga) e uma mística que lê a sorte nas fezes e fluídos dos clientes (Olivia Torres); o cenário de precarização que afeta o zelador Villaça (Otávio Muller); e, é claro, o instável encanamento do prédio, que, associado às emoções instáveis e reprimidas de Malu (e o mesmo pode ser dito das suas fezes), logo fazem com que as privadas ganhem vida e passem a assassinar os moradores. Se essa premissa lhe parece ridícula, é porque é, e aí reside a beleza de Privadas de Suas Vidas (se é que posso usar essa palavra para esse filme): ele não tem medo de assumir esse ridículo e se comprometer com ele até o fim. É um filme que consegue se levar a sério ao ponto de nos fazer investir no conflito delineado ao longo da trama, à medida que as privadas se tornam cada vez mais mortíferas, mas nunca se leva a sério demais para que pareça envergonhado de contar uma história tão absurda – como se vê em muitos filmes por aí que lidam com os elementos do cinema de gênero de maneira autoconsciente. Imagem: Divulgação E quando eu digo que o longa se compromete até o fim em seu ridículo, é porque ele não se acanha em seu teor gráfico, seja pelo viés da escatologia, do horror corporal e da brutalidade um bocado cômica. Desde sua primeira cena, onde vemos um cocô feito por Malu flutuar até ser engolido pela descarga, passando pela morte de seu filho, e todas as sequências cada vez mais inventivas de mortes, o filme não está necessariamente querendo nos chocar, mas também não se faz de rogado com a violência e toda a profusão de fluídos e excrementos que vemos em tela. Não é para os sensíveis, embora talvez diga muito de nós se nos incomodamos mais com um cocô a flutuar no vaso do que com um personagem sendo destripado. Seus momentos mais instáveis e fracos vêm dos conflitos de Malu e Gênesis. Este últime atende de maneiras um tanto inconvenientes àquele estereótipo de adolescente LGBTQIA+ revoltado(e), embora aqui a ideia de zoar com a binariedade de gênero dos chás revelação, mote principal que interliga Malu aos personagens de Braz e Pigossi, seja um adicional cômico bem trabalhado. Mas são porções em que o filme tenta resvalar num certo drama que o aproxima demais do tipo de produção que está satirizando, e acabam fazendo o filme cansar em alguns momentos, sobretudo em sua porção do meio, o que, junto com algumas piadas que se esticam um tanto demais, o tornam um pouco inchado em determinadas partes. Paradoxalmente, essa certa ênfase no drama em alguns instantes só reforça que Privadas de Suas Vidas é muito mais interessante quando está bebendo diretamente das fontes dos filmes B de terror, seja nos efeitos práticos ou na direção por diversas vezes tresloucada e frenética que tanto evidencia suas limitações orçamentárias quanto as usa a seu favor. Entre o gore, a abundância de excrementos e a completa entrega ao mais bizarro e “feio”, o filme consegue nos arrancar muitas risadas. Quem diria que uma produção sobre privadas assassinas seria a mais divertida da Mostra até o momento? Nota: 3.5/5

  • Lista | Os melhores filmes vistos na 50ª Mostra de SP

    Os destaques do cinema brasileiro e estrangeiro para ficar de olho. Divulgação A 50ª edição da Mostra de SP chegou ao fim. Depois de duas semanas intensas, com cerca de 35 filmes vistos, diversas entrevistas com artistas nacionais e internacionais e ainda a cobertura do 6º Encontro de Ideias, o saldo final é mais do que positivo, e a certeza de que alguns dos melhores filmes do ano foram vistos durante o festival. Diante disso, montar um top 10 não foi uma tarefa fácil, mas finalmente cheguei a um ranking final, que vocês poderão acompanhar abaixo: Divulgação 10) Privadas de Suas Vidas “(...) Aí reside a beleza de Privadas de Suas Vidas (se é que posso usar essa palavra para esse filme): ele não tem medo de assumir esse ridículo e se comprometer com ele até o fim. É um filme que consegue se levar a sério ao ponto de nos fazer investir no conflito delineado ao longo da trama, à medida que as privadas se tornam cada vez mais mortíferas, mas nunca se leva a sério demais para que pareça envergonhado de contar uma história tão absurda – como se vê em muitos filmes por aí que lidam com os elementos do cinema de gênero de maneira autoconsciente.” Crítica completa aqui: Divulgação 9) Se Eu Fosse Vivo... Vivia “Se Eu Fosse Vivo... Vivia busca equilibrar a simplicidade e doçura do cotidiano com questões mais complexas e que não possuem fácil resposta. Vida, amor, memória, negritude... são temas já presentes em outros filmes de André Novais e da Filmes de Plástico, mas que aqui são trabalhados por outras perspectivas pelo diretor. Estes novos ares são bem-vindos, e talvez ganhem o apreço que merecem em futuras revisitas, mas nesta primeira incursão o que fica comigo é aquilo que ele já sabe trabalhar com maestria: o ordinário e a sensibilidade e afeto presentes nele.” Crítica completa aqui: Divulgação 8) Tigre de Papel “James Gray nunca escondeu sua paixão pelo cinema clássico e de autores da Nova Hollywood como Martin Scorsese e Francis Ford Coppola, mas seus filmes, longe de parecerem meras cópias desses autores, constituíram-se eles próprios partes de uma filmografia por si só muito autoral. Honrando os códigos do cinema clássico, o qual na maioria das vezes priorizava a transparência – ou seja, o emprego da forma fílmica de modo que esta não se “denunciasse” ou fizesse o espectador tomar consciência dela, por mais bem elaborada que fosse – Gray filma planos como um mestre no auge do seu ofício. São instantes à primeira vista simples: personagens mergulhados em sombras que evidenciam suas complexidades morais; dispostos por um salão num trabalho primoroso de blocagem; uma câmera subjetiva em meio a um matagal; ou um plano final onde todos os elementos reunidos em cena comunicam um personagem que olha ao mesmo tempo para seu futuro e aquilo que perdeu. Mas o diretor faz parecer fácil aquilo que, por intermédio da mise-en-scène, está constantemente nos dizendo algo, além de, em conjunto com a fotografia do seu velho parceiro Joaquín Baca-Asay, imprimir uma sensação tátil a este universo, povoado de ambientações e cores decadentes.” Crítica completa aqui: Divulgação 7) Primetime “O uso de variadas lentes, paletas de cores e telas permite que [Lance] Oppenheim transforme o que poderia ser um drama biográfico qualquer num thriller psicológico e estudo de personagem aterrador – e sem respostas fáceis. A proposta estética trabalhada por ele junto ao diretor de fotografia, David Bolen, faz do filme um verdadeiro caleidoscópio, onde o tom opaco das cores confere um aspecto quase onírico (ou de pesadelo), como nas cenas em que Hansen confronta os predadores, com uma textura quase tátil oriunda do trabalho com a digitalização em 16mm. As variações de cores permitem ao público mergulhar na psique destes personagens, como quando o protagonista é diretamente confrontado por um dos seus predadores e seu rosto é mergulhado em sombras – num breve instante de hesitação e medo – antes de ser banhado em luz – para indicar sua retomada de controle.” Crítica completa aqui: Divulgação 6) I Love Boosters “I Love Boosters dá um passo além em termos de ambição e absurdismo em relação às produções anteriores de Boots Riley, mas mesmo que essa ambição por vezes resvale em alguns tropeços menores, é um filme para atestar a consistência do diretor e, mais do que tudo, seu inegável compromisso político. Que ele consiga fazer um filme como esse dentro do sistema de estúdio de Hollywood é quase um milagre, mas que bom que é possível. Fica aí a lição para outros diretores que, na tentativa de fazerem suas sátiras cínicas e “espertas” sobre o mundo contemporâneo, ainda estão bem de longe de alcançarem o que Riley é capaz de fazer e dizer em seu cinema.” Crítica completa aqui: Divulgação 5) Chicas Tristes “Chicas Tristes pode honrar seu título em alguns momentos, mas Fernanda Tovar também direciona seu olhar para as múltiplas alegrias de uma amizade, neste caso específico a feminina, e a força e o porto seguro que emerge de uma relação que, mesmo entre altos e baixos, é pautada por uma sensibilidade e afeto que são universais. Mesmo com o caráter relativamente ambíguo do final, o que fica é a certeza da potência dessa amizade e a riqueza destas duas meninas, o que faz deste um dos melhores coming-of-age dos últimos tempos.” Crítica completa aqui: Divulgação 4) Dragões “O grande mérito de Dragões está em nos mostrar não só a construção do mito, mas como ele continua a ser retroalimentado mesmo com sua ausência de cena, agora que se encontra preso. Isso se dá antes de tudo no aprendizado com a nossa história, como na criação dos Dragões da Independência (que dão nome ao filme) a partir do mito de que os militares estiveram presentes no grito da independência, ou na icônica foto oficial de Vargas que permaneceu associada a ele mesmo após sua morte. Mas é ao escolher mostrar os vídeos de bolsonaristas – na mesma qualidade pixelada dos vídeos de seu ídolo – e sobretudo ao trazer a tentativa de golpe do 8 de janeiro como clímax do filme que vemos o quão longe estamos de superar todas as feridas deixadas pelo bolsonarismo.” Crítica completa aqui: Divulgação 3) Pequenas Tragédias “Guiado pela narração melancólica e por vezes sarcástica de Geovaldo Souza (fazendo o próprio [Daniel] Nolasco), o filme está a todo instante exercendo sua autoconsciência quanto ao próprio dispositivo ficcional com o que trabalha, e faz disso um dos seus grandes méritos. Mais do que isso, o diretor emprega seu olhar como uma forma de controle sobre estas narrativas, como evidente nas partes em que são retratadas as figuras homofóbicas que conheceu ao longo da vida em Catalão – figuras essas interpretadas por homens gays, filmados com desejo e tesão pela câmera, conforme esta passeia pelos seus corpos, pênis eretos ou pela pegação entre eles. Nolasco, portanto, contradiz as normas desse desejo, explorando esses corpos não apenas como uma brincadeira levada, mas também para retomar o controle que ele e muitos outros homens gays jamais tiveram perante os ataques homofóbicos que sofreram.” Crítica completa aqui: Divulgação 2) O Sentido da Vida “O filme nunca deixa de ser interessante porque [Ryusuke] Hamaguchi entende que seu maior trunfo não está nas respostas que oferece, mas nas perguntas que seus personagens fazem. Em vez de transformar a discussão sobre envelhecimento, morte e capitalismo em algo puramente pessimista, ele encontra espaço para falar sobre amizade, compaixão e a capacidade que temos de cuidar uns dos outros. O mais bonito de All of a Sudden [O Sentido da Vida] é que, depois de quase três horas e vinte minutos, o filme não termina com uma grande conclusão sobre como consertar a sociedade. Ele termina com a ideia de que talvez ainda exista esperança enquanto continuarmos cuidando uns dos outros. Confira a crítica completa de Gabriel Sousa aqui: Divulgação 1) Tudo Pode Ser Visto “Emergindo como uma obra surpresa neste ano e rapidamente se tornando um dos marcos culturais de 2026, Tudo Pode Ser Visto pode não surpreender quem já tem um repertório do docudrama, mas isso em nada mina o impacto de mergulhar nessa experimentação fílmica de Nathan Fielder e Lance Oppenheim. Se ao final do filme parecemos saber menos sobre Elizabeth Holmes e Billy Evans do que quando começamos, de certa forma parece ser esse o objetivo dos diretores: brincar com as noções de verdade num mundo onde mais importa a narrativa, e brincar com as formas do documentário e da ficção para nos dar a possibilidade de estabelecermos nossa própria verdade. Se por vezes a expressão “já nasceu clássico” é usada levianamente para filmes que não a merecem, definitivamente não é o caso aqui, já que estamos diante de uma das experiências mais insanas e distintas do cinema recente.” Confira a crítica completa aqui:

  • Criadores de 'Delegado' revelam que série chegou a ter arcos para cinco temporadas

    Em entrevista ao Oxente Pipoca, Leonardo Lacca e Marcelo Lordello falaram sobre os planos para continuar a série e a possibilidade de explorar outros Brasis além do Recife Divulgação/Canal Brasil Delegado estreou no Canal Brasil acompanhando Felipe (Johnny Massaro), um jovem de classe média que se torna policial civil movido por um grande senso de justiça e assume sua primeira delegacia no Recife. Mas a história do personagem já chegou a ser imaginada para muito além dos sete episódios da primeira temporada. Em entrevista ao Oxente Pipoca, Leonardo Lacca contou que, durante o desenvolvimento da série, os realizadores chegaram a imaginar arcos para cinco temporadas. Segundo ele, pensar em um universo maior ajudou justamente a afunilar o projeto até chegar a uma primeira temporada com potência própria e espaço para plantar uma possível continuação. A ideia de acompanhar Felipe por mais tempo também está ligada à própria construção do protagonista. Marcelo Lordello explicou que o personagem foi pensado para ampliar seu "escopo ético e moral" enquanto passa a lidar com "um cargo de poder, relações com amigos e o desejo de exercer um ideal de de justiça num país onde a corrupção reina". Como agir para superar uma dificuldade corrupta pelas regras instituídas? Ele vai aprendendo a se moldar para, no fim das contas, pôr para fora o que deseja, mas sem um caminho retilíneo. Isso nos interessa também como desenvolvimento de série, porque, no caso de Delegado, não queremos terminar na primeira temporada. Temos arcos para o Felipe que lidam com esse desenvolvimento de caráter. Os planos para ampliar Delegado não dizem respeito apenas ao arco pessoal de Felipe. No fim da entrevista, Lordello afirmou que o personagem pode funcionar como um condutor para entrar mais profundamente no universo da polícia e da justiça. Segundo ele, o final da primeira temporada já deixa pistas desse potencial e existe a vontade de “descobrir outros Brasis além do Recife”. A primeira temporada de Delegado trabalha principalmente a expectativa de Felipe ao entrar na Polícia Civil e a quebra dessa expectativa diante da precariedade do serviço público, da corrupção e das diferentes ambições de quem ocupa aquele espaço. Ainda de acordo com Lordello, o interesse está em acompanhar como Felipe se reconstrói para lidar com as falhas desse sistema e continuar explorando outros temas a partir dele. Delegado é dirigida por Leonardo Lacca, Marcelo Lordello e Tião, com produção de Emilie Lesclaux e Kleber Mendonça Filho. A série tem sete episódios, exibidos semanalmente pelo Canal Brasil e disponibilizados no Globoplay no dia seguinte. A entrevista completa com Leonardo Lacca e Marcelo Lordello está disponível aqui no Oxente Pipoca.

  • Lázaro Ramos diz que Feito Pipa propõe uma "pedagogia do afeto" ao discutir masculinidade

    Em entrevista ao Oxente Pipoca, ator falou sobre a construção de Batista, pai de Gugu no longa de Allan Deberton, e explicou como o filme evita transformar o personagem em um vilão simples Divulgação Em Feito Pipa, Lázaro Ramos interpreta um pai cuja construção evita os clichês normalmente associados a personagens abusivos e violentos e se concentra em mini-violências presentes no cotidiano. Em uma das cenas, por exemplo, Batista mal consegue esconder a decepção ao descobrir o sexo do bebê durante um chá revelação, expondo sem gritos ou explosões alguns dos códigos de masculinidade que moldam sua relação com o filho. Foi a partir dessa observação feita por Vinícius Oliveira, do Oxente Pipoca, durante entrevista com o ator, que Lázaro explicou como o afeto se tornou fundamental para construir Batista e impedir que o personagem fosse tratado apenas como um vilão. Batista é pai de Gugu (Yuri Gomes), um menino queer que vive no sertão cearense ao lado da avó Dilma (Teca Pereira). Embora ame o filho, o personagem carrega códigos de masculinidade que acabam interferindo na forma como demonstra esse afeto e se relaciona com a criança. Segundo Lázaro, essa contradição está no centro do que ele define como uma pedagogia do afeto. É um filme que tem a pedagogia do afeto. A gente mostra que esse personagem tem afeto pelo filho, que ele gosta do filho, mas que tem uma rigidez por causa dos códigos de masculinidade que recebeu. Para o ator, o desafio estava justamente em encontrar novas maneiras de abordar questões que o audiovisual já discutiu diversas vezes. A gente já falou de vários desses temas em várias obras audiovisuais. A gente já falou de machismo, já falou de Alzheimer, já falou das questões queer. Mas com o que a gente pode contribuir de novo? A construção final de Batista também é diferente da primeira leitura que Lázaro Ramos fez do roteiro. Lázaro Ramos contou que inicialmente imaginou o personagem como um homem rígido, constantemente de cara fechada e marcado por gritos, aproximando sua interpretação de uma figura mais claramente identificável como vilão. Mas, que durante o processo de preparação, essa abordagem acabou sendo abandonada. Segundo o ator baiano, o próprio roteiro e a direção de Allan Deberton buscavam evitar personagens estereotipados e permitir que cada figura da história tivesse diferentes camadas. "É uma estratégia narrativa que vem do nosso roteiro e do nosso diretor. Ele [Deberton] não queria fazer personagens estereotipados, nenhum deles, queria que todos os personagens tivessem camadas, apesar de na minha primeira leitura eu pensar no personagem como um cara rígido, de cara fechada, com muito grito, pensando somente como um vilão. E foi muito legal passar por esse processo." Feito Pipa é dirigido por Allan Deberton e protagonizado por Yuri Gomes, Teca Pereira e Lázaro Ramos. O longa foi escolhido pela Academia Brasileira de Cinema para representar o Brasil na disputa por uma vaga em Melhor Filme Internacional no Oscar 2027 e chega aos cinemas brasileiros em 5 de novembro, com sessões de pré-estreia desde o dia 29 de outubro. A entrevista completa com Allan Deberton, Teca Pereira e Lázaro Ramos está disponível aqui no site do Oxente Pipoca.

  • Uma adaptação de Os Imortais, de Paulliny Tort, está em desenvolvimento pela RT Features

    Vencedor do Prêmio Machado de Assis, romance ambientado na pré-história acompanha um grupo de neandertais e será levado aos cinemas Divulgação Os Imortais, de Paulliny Tort, ganhará uma adaptação cinematográfica produzida pela RT Features, produtora responsável por títulos como Ainda Estou Aqui e Me Chame Pelo Seu Nome. O livro venceu o Prêmio Machado de Assis deste ano, na categoria romance, e foi destaque da 24ª edição da Feira Literária Internacional de Paraty (Flip), terminando em primeiro lugar entre os livros mais vendidos da programação principal e em terceiro no ranking geral do evento. Os Imortais acompanha um grupo de neandertais que enfrenta as adversidades de um mundo inóspito, em que a escassez de alimentos e as condições extremas colocam a sobrevivência à prova. Conduzido por personagens identificados como Homem, Mulher e Velha, o clã neandertal percorre diferentes territórios até que o confronto com o primeiro clã de Homo Sapiens os leva a acolher uma criança dessa espécie. Rodrigo Teixeira, sócio e fundador da RT Features, relata que “eu fiquei maravilhado quando li este livro. Paulliny Tort entrega uma dimensão épica em cada palavra e, ao mesmo tempo, aborda questões universais sobre a humanidade, e isso torna esse projeto especialmente instigante para nós. Não poderíamos estar mais entusiasmados em levar essa história para o cinema”. Ainda não foram divulgados diretor, elenco ou previsão para o início das filmagens.

  • Crítica | Tudo Pode Ser Visto (Mostra de SP 2026)

    Nathan Fielder e Lance Oppenheim embaralham os limites entre o documental e ficcional para escrutinar a vida de Elizabeth Holmes num filme que faz jus à sua reputação. Divulgação Quando assisti Jogo de Cena, de Eduardo Coutinho, fiquei fascinado pela maneira como o diretor borrava os limites entre o gênero do documentário e da ficção ao trazer mulheres comuns contarem suas experiências de vida, apenas para que víssemos atrizes famosas como Fernanda Torres, Andréa Beltrão e Marília Pêra para contar as mesmas histórias daquelas mulheres. Naquela linha tênue entre o “real” e a ficção, a quem pertenciam tais histórias? Como discernir o que era verdadeiro e o que era encenado? Desde então, docudramas, como Jogo de Cena ou Close-Up de Abbas Kiarostami, se tornaram um dos meus subgêneros favoritos, e é possível considerar Tudo Pode Ser Visto como parte dessa seara. O documentário dirigido por Nathan Fielder e Lance Oppenheim busca retratar os últimos 34 dias de Elizabeth Holmes, bilionária conhecida pelo escândalo com a sua empresa Theranos, e de sua família antes dela ser presa. Entretanto, o acesso praticamente irrestrito de Fielder ao cotidiano da família o leva a se inserir cada vez mais naquela dinâmica enquanto tenta extrair de Holmes a verdade sobre o caso da Theranos. A questão é: há uma verdade para ser extraída, ou múltiplas? Nesse sentido, é justo que o filme se concentra mais numa espécie de pós-verdade, já que quanto mais Fielder escrutina Holmes e seu marido, Billy Evans, mais fica evidente a disputa de narrativas. O comediante canadense, conhecido por seu humor desconfortável em séries como Nathan For You, The Curse e O Ensaio, se vale desse desconforto para extrair algum nível de sinceridade das falas e ações do casal, operando nas sutilezas e brechas para conseguir “atos falhos” deles, como na cena em que a montagem alterna os relatos de Holmes e Evans sobre o primeiro encontro deles. Fielder, se não exatamente um personagem no filme (pelo menos não na primeira parte), evita a figura tipicamente invisível dos documentaristas para se integrar àquela rotina, mesmo com os conflitos e contradições decorrentes daquele nível de envolvimento. A direção de Fielder e Oppenheim reforça esse desconforto com a ênfase em planos fechados e closes que se centram nos detalhes reveladores das expressões – ou da falta de detalhes, como o foco nos vívidos e perturbadores olhos azuis de Holmes, que, junto com seu sorrisinho, nunca nos permitem saber se ela de fato acredita que é inocente em todo o escândalo da Theranos ou se está mentindo para Fielder e para o público. O melhor de tudo é que, para quem já assistiu as séries dele, sabe da sua capacidade de extrair verdades desconfortáveis com seu olhar inquisitivo e disruptivo para as condições humanas, de modo que ver suas interações com Holmes é como assistir a um gênio encontrar uma rival à altura (e, intencionalmente ou não, a aparente tensão sexual que surge entre os dois em determinados momentos se converte numa das ideias mais inusitadas e hilárias do filme). Divulgação Mas, surpreendentemente, Holmes é talvez eclipsada pelo próprio Evans à medida que o filme avança, e isso não parece acidental. Não só porque o filme avança para além da prisão da bilionária, mas porque gradativamente descortina o lado manipulador e sorrateiro de Evans, cuja relação com Fielder se torna mais e mais friccional à medida que o documentarista se torna investido em entender até que ponto ele tomava decisões em nome de Holmes e por que fazia isso. O fato de Evans se tornar cada vez mais confortável diante das câmeras – culminando numa cena em que ele revela sua admiração por uma figura... controversa, para dizer o mínimo – é, dentre outras coisas, um atestado do poder da câmera de Fielder e Oppenheim em se imiscuir com a realidade dos seus personagens, que parecem esquecer de que estão sendo gravados para um documentário. Mas se mencionei antes obras como Jogo de Cena para indicar a relação de Tudo Pode Ser Visto com o docudrama, é porque, na ausência de Holmes em cena, Fielder simplesmente resolve dobrar a aposta e trazer uma atriz conhecida para preencher essa ausência. Não revelarei a identidade da atriz (embora não seja nenhuma surpresa para quem já acompanha o caso de Holmes), mas é fascinante como não só ela precisa incorporá-la para reencenar eventos específicos que os diretores não haviam gravado, mas se junta ao próprio Fielder para descobrir a verdade por trás das motivações de Evans (como na cena citada no parágrafo anterior), além de ser confrontada por sua própria performance, numa sobreposição de camadas que diluem por completo esses limites entre documentário e ficção. Emergindo como uma obra surpresa neste ano e rapidamente se tornando um dos marcos culturais de 2026, Tudo Pode Ser Visto pode não surpreender quem já tem um repertório do docudrama, mas isso em nada mina o impacto de mergulhar nessa experimentação fílmica de Nathan Fielder e Lance Oppenheim. Se ao final do filme parecemos saber menos sobre Elizabeth Holmes e Billy Evans do que quando começamos, de certa forma parece ser esse o objetivo dos diretores: brincar com as noções de verdade num mundo onde mais importa a narrativa, e brincar com as formas do documentário e da ficção para nos dar a possibilidade de estabelecermos nossa própria verdade. Se por vezes a expressão “já nasceu clássico” é usada levianamente para filmes que não a merecem, definitivamente não é o caso aqui, já que estamos diante de uma das experiências mais insanas e distintas do cinema recente. Nota: 5/5

  • Entrevista | “O protagonista é um idealista num país onde a corrupção reina" : Leonardo Lacca e Marcelo Lordello falam sobre 'Delegado'

    Produzida por Emilie Lesclaux e Kleber Mendonça Filho, Delegado mistura humor e drama para retratar a polícia e a justiça no Recife Imagem: Divulgação Estreia nesta sexta-feira, no Canal Brasil, a série Delegado, nova parceria dos diretores Leonardo Lacca e Marcelo Lordello. Produzida por Emilie Lesclaux e Kleber Mendonça Filho, a série tem sete episódios, exibidos semanalmente às sextas-feiras e disponibilizados no plano premium do Globoplay um dia após a exibição. Ambientada no Recife, a produção acompanha Felipe (Johnny Massaro), um jovem de classe média que se torna policial civil movido por um grande senso de justiça e assume sua primeira delegacia na capital pernambucana. Ao ingressar na corporação, o protagonista se depara com uma realidade bem diferente da imaginada: tramas complexas que escancaram as exigências de uma instituição marcada por interesses diversos e relações de poder. Além de Massaro no papel principal, o elenco reúne nomes consagrados, como Alice Carvalho, Hermila Guedes, Virginia Cavendish, Georgette Fadel, Igor de Araújo, Rubens Santos, Narcival Rubens e Nataly Rocha, com participação especial de Tânia Maria. Em entrevista ao Oxente Pipoca, Lacca e Lordello falam sobre a construção de uma série policial em cenário nordestino, a parceria de anos com os produtores, o trabalho com um elenco de peso no cenário regional e as escolhas de linguagem para abordar a segurança pública no Brasil. Confira a entrevista completa: Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Como nasceu a ideia de uma série sobre um delegado de primeira viagem? O que na Polícia Civil do Recife chamou a atenção de vocês? Leonardo Lacca: A ideia surgiu quando queríamos fazer uma série. Sempre fizemos filmes, longas e curtas, mas a série era um desejo, porque acompanhamos algumas de que somos fãs. Até que um dia reencontrei um amigo de infância, Bernardo Marinho, com quem estudei no colégio. Eu me lembrava dele fazendo teatro, um cara supersensível. Sabia que era formado em Direito e fazia concursos, mas não tinha ficado sabendo que passara no de delegado. Quando nos encontramos em Recife, ele tinha acabado de assumir, em Brasília, e andava armado para cima e para baixo. Ficamos pensando: "Caramba, logo você, Bernardo, delegado? Nunca imaginaríamos." Foi estranho. Ele falou de coisas muito particulares, como o desconforto da arma, que agora era "uma parte do meu corpo", algo que eu nunca tinha ouvido de um ponto de vista tão íntimo, além das questões que enfrentou durante o processo. Compartilhei isso com o Tião, que também estudou com o Bernardo e o conhece há muito tempo, e com o Marcelo. Começamos a imaginar um delegado novo assumindo: alguém que, pelo histórico de vida, você não imaginaria nessa função, mas que vira delegado e passa a acreditar que pode fazer a diferença. O Bernardo tinha muito isso; falava o quanto queria fazer as coisas corretas. Hoje ele nem é mais delegado, é promotor. A série fala um pouco desse universo de quem presta concurso pela estabilidade, e não necessariamente por vocação, o que não é o caso do Bernardo, que tinha vocação de verdade. Nosso personagem também tem, e discutimos isso. Começamos a pesquisar e escrevemos um projeto contemplado no Núcleos Criativos da Ancine, que foi essencial para muita gente naquele momento. O Núcleo está voltando: um edital acabou de se encerrar e logo teremos novos núcleos. Esse processo de desenvolvimento é muito importante para a consistência e a qualidade de um projeto, porque dá tempo e recursos. Fizemos uma pesquisa profunda, encabeçada por Karina Nobre, pesquisadora de cinema que trabalhou em O Agente Secreto, em Retratos Fantasmas e em muitos filmes com o Marcelo Gomes. Tivemos vivência tanto na Academia de Polícia quanto nas delegacias e fomos nos nutrindo de boas ideias. O mosaico da série nasceu desse encontro com a realidade, somado às nossas ideias, aos nossos pontos de vista, às diferenças e às discussões. O projeto teve tempo de maturação. Chegamos a fazer um piloto, previsto no Núcleo, que funcionava como um curta e nos permitiu experimentar audiovisualmente, até chegarmos aos sete episódios. Marcelo Lordello: É importante dizer que a trincheira são os três realizadores, eu, Léo e Tião, com obras no cinema, curtas, longas, ficção e documentário, mas nunca tínhamos feito uma série. Tínhamos muito interesse por uma narrativa longa, que permitisse estender o desenvolvimento dos personagens e das tramas. Como o Léo falou, somos fãs de algumas séries, e duas foram muito importantes para nós. Já que estamos falando com quem cobre cultura pop, vale citá-las. The Wire entrava na polícia e na justiça pelos dois lados, o dos supostos criminosos e o dos policiais, e tinha uma dimensão processual que nos interessava muito, nos detalhes da vivência de uma delegacia, do combate ao crime, das relações entre os personagens. A outra era Atlanta, que lida muito bem com o humor para falar da realidade social de um país. Quando o Léo chegou com a ideia de Berna e começamos a pesquisar, sentimos o potencial de falar do universo policial e da justiça, com um certo conflito de classes que achávamos interessante e que era rico em temas, em personagens e em retrato do país. Também não queríamos imitar o formato policialesco cansado que vemos por aí: sabemos que tem público, mas é difícil ser original nele. Na pesquisa, vivenciamos muita coisa interessante, absurda e precária, e também muitos seres humanos, com histórias e visões de mundo que tentamos agregar aos personagens durante o roteiro. Há ainda o sabor local: nunca tínhamos visto uma série policial brasileira ambientada no Nordeste, fora do eixo de produção. Isso nos dá possibilidade criativa e de representação do que conhecemos e do jeito como nos vemos: a paisagem humana, as paisagens da cidade, as tramas, o sotaque, a cultura local, as relações humanas, tudo que saísse do que estávamos cansados de assistir na tela. Quanto à Polícia Civil, a corporação nos recebeu muito bem. Quando nos mostramos genuinamente interessados, as pessoas se abrem. Tivemos acesso a uma turma em formação na Acadepol, a agentes e delegados, e isso nos alimentou para escrever os roteiros. Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Como foi o processo de criação com Emilie Lesclaux e Kleber Mendonça Filho na produção? Em que momento vocês entraram no projeto? Leonardo Lacca: Kleber e Emilie são nossos parceiros há mais de 20 anos. O Marcelo, por exemplo, foi assistente de direção no curta Eletrodomésticos, do Kleber, e o Kleber fez o som do meu curta 12º. Temos intimidade, tanto de amizade quanto criativa, com os dois. A Emilie produziu todos os meus longas, Seu Cavalcante, o anterior, e Permanência, então era natural que nossos caminhos voltassem a se cruzar. Marcelo Lordello: Por causa dessa amizade de longa data, todo filme que fazemos, em algum momento, mostramos a eles e a outros amigos aqui do Recife. As conversas ao apresentar projetos são sempre produtivas e esclarecedoras, porque são pessoas com muito conhecimento de cinema e de Brasil. Em certo momento, apresentamos a série a eles, que gostaram muito. A série começou com o nosso desenvolvimento e, quando já tinha uma base estruturada, mostramos a eles, que se interessaram em entrar como coprodutores. Mais uma vez, o trabalho foi produtivo e livre, sem imposições. Kleber não é produtor de formação, mas, como produtor, está ali para estimular ao máximo a nossa potência. A Emilie também, e ela executa, garante que tenhamos tudo da melhor forma e investe financeira e cinematograficamente, com presença. É muito bom trabalhar com eles, porque o entusiasmo deles alimenta o nosso. Em várias fases foram ao set e acompanharam; a Emilie trabalhou na pré-produção e na produção. Na montagem, eram as primeiras pessoas a quem enviamos os episódios, e voltavam muitos feedbacks positivos: "Vocês estão no caminho certo, está ótimo." Isso encorajava o processo, que foi libertário para nós, porque fugíamos das amarras do gênero. Leonardo Lacca: É um projeto autoral, mas diferente: três autores se juntaram para fazer uma série. Fazemos algo que excede a pessoalidade e a autoria de cada um dos três, e isso é um risco. Quando mandávamos o material para eles e vinha o retorno positivo, sentíamos que estávamos no caminho certo. Eles vibraram em todas as etapas; lembro de Kleber e Emilie vibrando quando chegamos a Brasília. O processo foi realmente longo, por causa do financiamento e de como conseguir alcançar o que queremos. A ideia da série existe desde 2012 ou 2013, então eles estiveram conosco em várias etapas enquanto a vida acontecia, e tudo se mistura. Filmamos entre 2022 e 2023, e eles estavam lá. Depois houve várias etapas de montagem ao longo de mais de dois anos, e eles continuaram presentes. Foi uma presença muito grande. Imagem: Divulgação Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Leo, li que vocês não queriam o Felipe nem como herói, nem como alguém moralmente perfeito. Houve alguma referência (filme, série, livro) que vocês quiseram evitar ou com a qual quiseram dialogar de forma crítica? Vocês já falaram de The Wire, mas há algo de que quiseram se afastar? Leonardo Lacca: Quisemos nos afastar, não só do personagem, mas da própria arquitetura da lógica da polícia americana, como naquelas cenas clássicas em que o policial vê algo estranho e vai conferir. Não é assim que funciona numa delegacia. Nas pesquisas, os policiais diziam que ninguém vai sozinho: o cara quer largar o serviço, ir para casa, encontrar os filhos. Quisemos trazer o que há de interessante na realidade local, de forma mais genuína e menos romantizada. Do mesmo modo, o Felipe tem questões com o pai, com a mãe, consigo mesmo, e se relaciona com os colegas. Ele não é bonzinho, mas não é mau. Nunca quisemos que fosse perfeito; a imperfeição é muito bem-vinda para criar drama e para trabalhar o personagem, e isso se desenrola naturalmente. Nosso amigo Bernardo, o muso inspirador, falava muito de coisas do ponto de vista dele, o que foi interessante não só pela personalidade, mas também por classe, gênero e orientação sexual, tudo o que dialoga com o próprio Felipe. Marcelo Lordello: Para instituir o conflito inicial da série, e aqui falo muito de uma visão de classe, precisávamos de um protagonista idealista entrando numa delegacia precária e corrupta. Isso é a macroestrutura, o ponto de partida. O que nos interessa são os tons de cinza, os detalhes da caracterização, a maneira como ele age, porque acreditamos numa ficção sem personagens perfeitos, sem heróis. As séries que moldaram nossa visão narrativa, como Família Soprano, Breaking Bad e Mad Men, faziam isso: você se apaixona por personagens que não são o creme da moral e da ética. Muito pelo contrário, porque ninguém é assim. Vivemos um embate diário de escolhas, e o Felipe também. Fomos moldando esse personagem com a ideia de que ele amplie seu escopo ético e moral. Ele lida com um cargo de poder, enfrenta relações de poder com os amigos e tem um ideal de justiça num país onde a corrupção reina. Como agir para superar uma dificuldade corrupta pelas regras instituídas? Ele vai aprendendo a se moldar para, no fim das contas, pôr para fora o que deseja, mas sem um caminho retilíneo. Isso nos interessa também como desenvolvimento de série, porque, no caso de Delegado, não queremos terminar na primeira temporada. Temos arcos para o Felipe que lidam com esse desenvolvimento de caráter. Leonardo Lacca: Quando começamos a desenvolver, chegamos a ter arcos para cinco temporadas. Foi bom, porque é um exercício de imaginar um universo inteiro para depois afunilar até uma primeira temporada boa, que tenha potência e plante uma sementinha para uma segunda. Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Interessante você falar de tons de cinza, Marcelo. Houve alguma unidade estética que vocês buscaram manter ao longo da série? Quais foram as principais decisões de linguagem (câmera, luz, ritmo, som)? Havia algo específico que vocês queriam trabalhar ou foi mais livre? Marcelo Lordello: Sabíamos que queríamos fazer uma série cinematográfica. Antigamente, a divisão entre a linguagem de TV e a de cinema era muito clara, mas somos de uma geração em que as telas diminuíram. Eu não queria que o pessoal visse Delegado no celular, mas está lá; a história funciona em qualquer formato. Aprendemos a fazer cinema fazendo cinema, então quisemos uma série cinematográfica em todos os sentidos: na estética, na linguagem, na câmera, no cuidado com a direção e o desenvolvimento dos atores. Houve uma grande preparação de elenco, e o resultado está na tela. Os atores e atrizes defendem muito bem seus personagens. Temos muito orgulho do carisma deles, e todo mundo comenta isso. Esse carisma cria vínculo com o público, faz as pessoas quererem se envolver com a série, ajuda a desenvolver os personagens mais adiante e dá tridimensionalidade a eles. Contamos com a fotógrafa Luciana Baseggio, que tem um cuidado muito grande com a luz, o que deu à série um peso visual muito interessante. Mas era uma série de baixo orçamento, então precisamos de soluções inteligentes e práticas para manter a linguagem vivaz. Sinto que a série agrada ao público. Recebemos muitos elogios ao fluxo, à decupagem, aos cortes, à fluidez e ao interesse mantido, o que foge do formato televisivo padrão, novelesco. Estamos fazendo uma série para cinema. Não esperávamos que ela passasse numa sala, imaginávamos receber o retorno de quem a visse numa tela pequena. Quando vimos no cinema, em Brasília e no Odeon, com o público, percebemos que tudo isso funcionou. Leonardo Lacca: Como aprendemos a fazer filme, finalizamos para uma sala de cinema. Já finalizávamos assim antes de saber que a série passaria no cinema. Já vi séries de TV exibidas em salas em que o som claramente não foi pensado para esse espaço; faltava acabamento, porque foram vistas como produto. No nosso caso, enxergamos a série como um filme, e todo o cuidado na finalização permite essa amplificação. Outro ponto estético importante é o tom, uma mistura de humor e drama que vai ao gênero policial, o qual investigamos a fundo. Isso estava no roteiro e veio muito das pesquisas, que nos alimentam de imagem, de personagem e de muito mais. Marcelo Lordello: Esqueci de completar a resposta anterior: visualmente, também importa a arquitetura dos lugares. Que delegacia estamos retratando? Não é uma delegacia americana, com persianas e janelas de vidro, que cinematograficamente dão profundidade e têm uma lógica própria. Quisemos fugir dessa lógica imposta, porque esse tipo de delegacia não existe no Recife, e criar outra a partir do que vimos. Para isso, havia um grande corpo de fotos da pesquisa para entregar à direção de arte. Queríamos muito gravar numa delegacia de verdade, a de bairro, que na prática é uma casa alugada pela Polícia Civil e adaptada. Como não conseguimos, alugamos uma casa e criamos nela a delegacia, para uma representação fidedigna: precária, com vários problemas, como teria uma casa. Isso ajudou muito, porque, quando a equipe entra nesse espaço, entende como criar cinema ali, em vez de construir um espaço para almejar o cinema. É o contrário da referência de que o Léo falou, e é o que estamos acostumados a fazer aqui: filmamos muito em locação, e não em estúdio. Isso traz naturalidade, e o elenco, ao entrar, incorpora o espaço. Ajuda em todos os campos. Giulia Meneses (Oxente Pipoca): Falando desse elenco tão múltiplo e forte, com nomes consagrados como Johnny Massaro, Virginia Cavendish e Tânia Maria. Como foi reunir um elenco assim numa série tão cheia de especificidades? E como é lançar uma série com esse olhar crítico num momento em que a segurança pública está tão em debate no Brasil? Leonardo Lacca: Quando filmamos, em 2022, dona Tânia ainda não era um ícone nacional, mas já era um ícone para nós. Nós a amávamos. Ela aparece no episódio 7, então vejam até o fim para ver a dona Tânia. O Johnny era um ator com quem sempre quisemos trabalhar; eu sempre o achei interessante. Depois vi Os Primeiros Soldados, de Rodrigo de Oliveira, e gostei muito da presença e da transformação dele. Encontramos o Johnny num festival em Curitiba, tomamos um café, e ele topou. A Alice tinha acabado de filmar O Cangaço Novo e também ainda não tinha explodido no Brasil, mas, quando vimos o material dela, pensamos: "Caramba, que atriz incrível." Há ainda a Georgette Fadel, grande atriz paulista, que já tinha feito o piloto conosco, e a Virginia Cavendish e a Hermila, que voltaram a trabalhar com a gente. Somos muito gratos ao Igor de Araújo, que depois fez O Agente Secreto e com quem eu já tinha trabalhado em outro projeto; sou apaixonado pelo trabalho dele. Somos muito gratos a todo o elenco por embarcar na nossa aventura. É muito bom trabalhar com essa matéria-prima humana, com pessoas que contribuem com o corpo, com o ponto de vista e com a forma de ver o mundo, numa discussão sobre o que fazemos juntos. Para nós, sempre foi essencial ter grandes atores. Um deles é o Rubens Santos, que faz o Marmota e com quem trabalho desde O Som ao Redor. Ele também é comediante, e eu sempre dizia: "Rubens, você é um grande comediante, mas é mais engraçado quando não quer ser engraçado." Na Delegado, trabalhamos assim: "Não queira ser engraçado, pelo amor de Deus." Esse não esforço, junto com o que o personagem está fazendo, gera uma graça absurda. Ele tem molho e presença, e as pessoas saem falando do Rubens que faz o Marmota. Tudo se encaixa quando esse encontro com os atores se junta ao roteiro, à fotografia e ao resto. Marcelo Lordello: São pessoas que entenderam muito bem o tom da série. Sem a preparação, se chegassem sem entender esse tom, num set meio corrido, a coisa não teria acontecido como aconteceu. As pessoas riam muito da mistura de gêneros que propusemos. Em todos os filmes que fazemos, investimos muito na busca do elenco e na preparação, para que eles incorporem e representem bem. Sobre a segunda pergunta, quando chegou o Berna e entendemos, a partir da pesquisa, em que universo estávamos entrando, percebemos o potencial de discutir o país e a justiça. Falamos da ponta da justiça, de quem lida, em primeira instância, com o crime e sua resolução, inclusive com a corrupção, que trouxemos muito para a série. E há esse personagem idealista, quase utópico, lidando com um país imerso nisso há muito tempo, bem mais que 20 anos. Como trabalhar a jornada dele nesse universo? Inclusive no da precariedade do serviço público e das ambições do funcionário que está ali não necessariamente para exercer o trabalho, mas para ganhar dinheiro, o universo dos concurseiros. Percebemos que era muito rico. Claro que fazemos recortes a cada temporada. Nesta, trabalhamos muito a expectativa de um personagem, a quebra dessa expectativa e como ele se reconstrói para lidar com as falhas do sistema. É uma tentativa de retrato fidedigno do país e de como o policial lida com o dia a dia e o trabalho, com enorme vontade de continuar explorando outros temas desse universo. Achamos que o Felipe é um personagem condutor para entrar a fundo nele. Falo como entusiasta, e levo todo mundo para uma segunda temporada. O final da primeira dá muitas pistas desse potencial. Queremos descobrir outros Brasis além do Recife, e há muitas questões que podemos desenvolver em Delegado.

  • Crítica | NAZA

    Premiado em Veneza, documentário expõe os bastidores da máquina de guerra israelense em Gaza Imagem: Divulgação Em determinado momento de NAZA, novo documentário de Yuval Abraham e Rachel Szor, um dos israelenses entrevistados comenta que, quando estudava o Holocausto, não conseguia compreender como os alemães eram capazes de conviver com tamanho horror. Agora, ele sabe. Eu, por outro lado, sempre tive um questionamento distinto. Nascida e criada no Nordeste brasileiro, sem qualquer ascendência judaica, cresci me perguntando como o mundo permitiu que aquele genocídio acontecesse. Agora, eu também sei. NAZA é o termo utilizado pelos setores de inteligência militar de Israel para designar o número de civis mortos como consequência dos ataques destinados a aniquilar integrantes do Hamas. A proporção pouco importa: um integrante para cinco, dez, vinte ou cem civis. Tampouco há tempo para verificar se o suposto alvo realmente está naquele local. A probabilidade de sua presença é considerada suficiente para justificar o risco. Pouco importa, ainda, se os civis são crianças, mulheres ou idosos. NAZA, afinal, é apenas um número. O nome dado a essa métrica deriva da expressão hebraica Nezek Agavi, utilizada para designar “danos colaterais”. Uma abreviação que transforma vidas humanas em uma unidade de cálculo, convenientemente desprovida de qualquer vestígio de humanidade. A vida, em sua incansável poesia mesmo diante dos assuntos mais terríveis, quis que, coincidentemente, o nome também evocasse uma combinação entre NASA (inteligência aeronáutica dos EUA, principal parceiro militar de Israel) e Gaza. A poesia também se faz presente na maneira como os documentaristas decidem revelar os bastidores desses números. Responsáveis também pelo premiado No Other Land, Abraham e Szor utilizam com maestria as possibilidades da linguagem audiovisual para explicitar o absurdo do que acontece no Oriente Médio. Sem recorrer a montagens extravagantes, reconstituições animadas e sequer a uma trilha sonora expressiva, constroem uma obra crua, cuja austeridade dialoga perfeitamente com a brutalidade dos acontecimentos relatados. O documentário é estruturado em torno de entrevistas conduzidas por Abraham com 24 pessoas que trabalham ou trabalharam nos setores militares e de inteligência de Israel. São indivíduos que participaram, em diferentes níveis, das operações responsáveis pela morte de milhares de palestinos na Faixa de Gaza. Sob a condição de anonimato, têm suas vozes digitalmente alteradas e seus rostos ocultados em contraluz, restando apenas silhuetas diante da câmera. Os encontros acontecem durante a noite, em terraços de Tel Aviv. A escolha atende à necessidade de proteger a identidade das fontes, mas adquire uma dimensão simbólica profunda: vemos figuras envoltas em sombras, movidas por uma cegueira moral, sob um céu negro que materializa as trevas que descrevem. Aliado a isso, o silêncio ensurdecedor que acompanha todo o longa é igualmente eloquente, obrigando-nos a permanecer com o eco daquelas duras afirmações. A ausência de uma trilha sonora que ofereça ao espectador qualquer orientação emocional impede que a indignação encontre o conforto de uma catarse. Na maioria das vezes, as afirmações mais aterradoras sobre o extermínio da população palestina são intercaladas com cenas rotineiras da capital israelense, estabelecendo um contraste que explicita a profunda assimetria entre as duas realidade. Um agente descreve o bombardeio quase arbitrário de prédios residenciais em Gaza, enquanto, pela janela de outro edifício, observamos um casal trocando carícias diante da televisão. Esse confronto, recorrente ao longo do filme, produz uma ironia que poderia até ser cômica, não fosse o embrulho permanente no estômago que impede qualquer esboço de sorriso. As entrevistas, assim como os registros do cotidiano de Tel Aviv, são filmadas do alto de terraços na cidade. "Daqui vemos toda a cidade, mas ninguém pode nos ver", comenta um dos entrevistados, numa analogia involuntária à lógica de vigilância descrita pelos militares. O som de aviões e helicópteros sobrevoando a população, os alarmes disparados e até as interrupções no fornecimento de energia deixam evidente que há uma guerra em curso. Entretanto, estar sob um céu limpo, diante de uma cidade iluminada, moderna, intacta e funcional, reforça ainda mais a desproporcionalidade das ações descritas. Em outros momentos, a montagem intercala os depoimentos com declarações antigas e recentes do genocida Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro israelense, evidenciando as contradições e a hipocrisia de seu discurso. Um entrevistado descreve uma operação responsável pela morte de centenas de pessoas; em seguida, um corte apresenta Netanyahu descrevendo o que caracteriza um "terrorista". A justaposição dispensa explicações. Essas escolhas fazem de NAZA um documentário artisticamente sofisticado e tecnicamente exemplar. Entretanto, esse está longe de ser seu maior mérito. Evito ao máximo recorrer ao uso de hipérboles em minhas críticas, por considerar que existe uma responsabilidade em atribuir às palavras seu devido peso e manter o compromisso com a honestidade em minhas avaliações. Isto posto, considero NAZA o documentário mais importante do século. Imagem: Divulgação O filme já nasce simultaneamente como denúncia contemporânea e documento histórico, reunindo testemunhos detalhados sobre inúmeros crimes de guerra e contra a humanidade cometidos pelo governo de Israel. Invasão de privacidade, perseguição, ataques deliberados contra civis, utilização da fome como instrumento de guerra... É certo que qualquer pessoa atenta aos acontecimentos dos últimos anos já conheça essa lista. O que assombra, porém, é a dimensão do aparato político, militar e tecnológico desenvolvido para promover a destruição sistemática de uma população inteira, sob um pretexto que há muito deixou de se sustentar. Tudo isso é narrado por pessoas que participaram ou ainda participam diretamente dessas operações, com uma naturalidade assustadora. Perguntas sobre os procedimentos de ataques se alternam com questionamentos acerca das motivações, dos sentimentos e do estado psicológico dos entrevistados. Fica evidente como a desumanização dos palestinos permite que indivíduos comuns participem de atrocidades sem reconhecer plenamente a gravidade de suas ações. Mecanismos semelhantes àqueles que, durante o Holocausto, reduziram os judeus à condição de seres inferiores, agora, são utilizados pelos próprios judeus para negar sistematicamente a humanidade do povo palestino. Atualmente, o discurso de medo, urgência e vingança é associado ao emprego de tecnologias avançadas para rastrear suspeitos e coordenar ataques. Os sistemas de inteligência artificial apresentados no documentário são utilizados para rastrear, identificar e monitorar possíveis membros do Hamas em qualquer lugar que se encontrem. Em um dos relatos mais estarrecedores, a expectativa de uma criança pelo retorno do pai transforma-se em informação utilizada para determinar o momento de bombardear sua casa. A distância entre o sujeito que aperta o botão e o que tem é bombardeado transforma o genocídio em uma espécie de "videogame", como descreve um dos entrevistados. Não há pesar. Não há culpa. Há adrenalina, satisfação e a sensação de dever cumprido. Em aproximadamente 80 minutos de filme, há um único choro: o de um pai palestino que, na sequência final, procura desesperadamente sua família entre os escombros de um edifício bombardeado. Pela primeira vez, ouvimos nomes ao invés de números. É também a única cena sob a luz do sol. Depois de tanto tempo ouvindo relatos de tamanha insensibilidade, chega um momento em que deixamos de questionar a capacidade individual de empatia dos entrevistados e começamos a compreender a dimensão coletiva do problema. Estamos diante de uma sociedade profundamente adoecida, que desenvolveu mecanismos psicológicos de aceitação para conseguir conviver com o impensável. No fundo, parece haver a consciência de que aquilo que fazem é indefensável. Justamente por isso, recusam-se a alcançar esse fundo. Permanecem na superfície, repetindo argumentos contraditórios e justificativas falidas, mas repetidos tantas vezes que passam a ser aceitos como verdades. Por isso, merece enorme reconhecimento o trabalho de Yuval Abraham e Rachel Szor. Há, evidentemente, uma coragem extraordinária em denunciar um governo que não deixa dúvidas sobre sua hostilidade àqueles que o confrontam. Mais importante, porém, é a consciência crítica que os leva, mesmo sendo ambos israelenses, a se posicionar contra as atrocidades cometidas em nome de seu próprio país. É importante destacar que em momento algum NAZA assume um caráter propagandístico. Não há discursos inflamados, apelos sentimentais ou tentativas de impor conclusões ao espectador. Há investigação, testemunhos e escolhas cinematográficas que permitem aos fatos revelar, por si mesmos, a dimensão do horror. Da mesma forma, NAZA jamais nos convoca explicitamente a agir diante do que acabamos de assistir. Parece desejar, antes de tudo, que meramente tenhamos consciência dos mecanismos que tornam essa realidade ainda mais aterradora. Ao expor a poderosa infraestrutura política e tecnológica que sustenta a destruição de Gaza, o documentário deixa uma sensação esmagadora de impotência. O que pode uma pessoa comum fazer diante de uma engrenagem tão poderosa? A própria existência do filme, contudo, oferece uma resposta. Abraham e Szor demonstram que, mesmo diante de estruturas aparentemente inabaláveis, ainda é possível agir. Seja boicotando empresas diretamente envolvidas na sustentação dessa violência, seja contribuindo com iniciativas de ajuda humanitária, seja utilizando nossas redes sociais para ampliar a atenção internacional sobre o genocídio palestino… ou, espero eu, escrevendo uma crítica que incentive outras pessoas a assistir a um documentário cuja importância ultrapassa, e muito, a sétima arte. Nota: 5/5

  • Pequenas Tragédias, Feito Pipa e 100 Dias vencem prêmios na 50ª Mostra de São Paulo

    Cinco Anos, Quatro Meses levou o prêmio do júri de Melhor Ficção, enquanto O Beija-Flor Pinta Canções Perfumadas venceu como documentário Divulgação Os vencedores da 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo foram anunciados na noite desta quinta-feira (29), durante a cerimônia de premiação e encerramento realizada no Teatro Cultura Artística. Entre os prêmios definidos pelo júri, Cinco Anos, Quatro Meses, de Esteban Hoyos García e Juan Miguel Gelacio, venceu como Melhor Ficção. Já O Beija-Flor Pinta Canções Perfumadas, de Matteo Norzi e Èlia Gasull Balada, conquistou Melhor Documentário e também foi escolhido pelo público como Melhor Documentário Internacional. Na votação popular, Feito Pipa, de Allan Deberton, e 100 Dias, de Carlos Saldanha, dividiram o Prêmio do Público de Melhor Filme de Ficção Brasileiro na 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. Entre os documentários nacionais, o público escolheu Fernanda, de Pedro Waddington, enquanto na categoria internacional de ficção, o vencedor foi O Sentido da Vida, de Ryūsuke Hamaguchi. Ao longo de duas semanas, a Mostra exibiu 394 títulos de mais de 90 países, distribuídos por 57 salas de cinema, espaços culturais e CEUs da capital paulista. Confira os principais premiados da 50ª Mostra: Prêmio do Júri Melhor Ficção• Cinco Anos, Quatro Meses (Esteban Hoyos García e Juan Miguel Gelacio) Melhor Documentário• O Beija-Flor Pinta Canções Perfumadas (Matteo Norzi e Èlia Gasull Balada) Melhor Direção• Fernanda Tovar (Chicas Tristes) Prêmio Especial do Júri• Edward Said - Entre Mundos (Maiken Baird) O júri foi formado por Ali Asgari, Boots Riley, César Augusto Acevedo e Laís Bodanzky. Prêmio do Público Melhor Documentário Brasileiro• Fernanda (Pedro Waddington) Melhor Filme de Ficção Brasileiro• Feito Pipa (Allan Deberton)• 100 Dias (Carlos Saldanha) Melhor Documentário Internacional• O Beija-Flor Pinta Canções Perfumadas (Matteo Norzi e Èlia Gasull Balada) Melhor Filme de Ficção Internacional• O Sentido da Vida (Ryūsuke Hamaguchi) Prêmio da Crítica Melhor Filme Internacional• Chicas Tristes (Fernanda Tovar) Melhor Filme Brasileiro• Pequenas Tragédias (Daniel Nolasco) Outros prêmios Prêmio Brada (Melhor Direção de Arte)• O Julgamento de Hein (Kai Stänicke) Prêmio Netflix• Talismã (Thais Fujinaga) Prêmio Projeto Paradiso• A Professora de Francês (Ricardo Alves Jr.) Prêmio Prisma Queer (Melhor Filme Internacional)• Eu Planto Minha Mão no Jardim (Boris Hadžija e Hoda Taheri) Prêmio Prisma Queer (Especial do Júri)• A Paixão Segundo G.H.B. (Gustavo Vinagre e Viva Couto) Prêmio Prisma Queer (Melhor Filme Brasileiro)• London (Victor Di Marco e Márcio Picoli) O Prêmio Humanidade foi entregue a Marco Bechis, enquanto James Gray, Paulo Branco e S.S. Rajamouli receberam o Prêmio Leon Cakoff. Para procurar as diversas críticas feitas pelo Oxente Pipoca durante a cobertura do festival, basta clicar aqui.

  • Crítica | O Bosque Selvagem

    Animação não economiza no visual para criar fábula moderna espirituosa Divulgação Existe um bosque escondido logo depois da cidade, um lugar que não aparece em nenhum mapa e de onde dizem que ninguém volta. É para lá que uma revoada de corvos leva o irmão de Prue (Giulia Benite), enviados por uma feiticeira que precisa dele para seus planos sombrios. Sem pensar duas vezes, Prue parte para O Bosque Selvagem para salvá-lo, ao lado do amigo Curtis. Lá dentro, os dois encontram um mundo mágico, cheio de perigos, criaturas encantadas e segredos antigos. Das mãos que criaram Coraline, chega aos cinemas uma história sobre coragem, amizade e os laços que nos movem. Nunca vou deixar de exaltar o trabalho artesanal de altíssimo nível que se requer na produção de um stop motion. Em um cenário de grandes estúdios onde cada vez mais surgem animações sem qualquer espírito, personalidade ou textura, os stop motions sempre apresentam pelo menos uma dessas características. O Bosque Selvagem vai além e transforma o próprio cuidado com a construção das imagens em um dos grandes trunfos da experiência, revelando como a materialidade dos bonecos e dos cenários ainda pode oferecer algo que dificilmente se encontra em outras técnicas de animação. Baseado em um romance de fantasia de mesmo nome, o filme apresenta uma fábula moderna sustentada pelos critérios dos clássicos: animais antropomorfizados, lição de moral bem pontuada e uma estrutura narrativa fechada. A obra encontra espaço nessa disposição de fatores para desenvolver suas próprias ideias sem deixar de lado a simplicidade que torna esse tipo de história tão eficiente. A elaboração das cenas de ação e o nível de detalhamento no desenho dos personagens e das ambientações ajudam na imersão nesse universo. Cada movimento, expressão e elemento dos cenários parece pensado para conferir identidade àquele mundo, tornando a experiência visualmente rica sem cair na armadilha de parecer apenas mais uma fantasia produzida pelo cinema estadunidense. Existe inventividade na maneira como o filme ocupa a tela, especialmente quando a dinâmica do stop motion é explorada para dar peso e presença às ações. Um trabalho que merece ser apreciado pelo resultado e também pela dedicação que transparece em cada quadro. O Bosque Selvagem (Wildwood) é um filme emocionante e cheio de vontade de surpreender, tanto pela narrativa quanto pelo visual. Mesmo recorrendo a uma estrutura de texto que segue um caminho linear, encontra força na execução e no carinho evidente com que constrói seus personagens e situações. Em tempos de produções cada vez mais preocupadas em impressionar apenas pela escala, é revigorante ver que espírito, personalidade ou textura ainda são relevantes, e fazem uma diferença grande quando são priorizados. Nota: 4,5/5

  • Selton Mello se junta a Viola Davis em elenco de Ascent, novo thriller da Paramount+

    Série criada por John Logan acompanha o perigoso universo das crises corporativas globais e tem gravações previstas para 2027, em Los Angeles Divulgação Selton Mello e Alfred Molina foram anunciados como novas adições ao elenco de Ascent, série de suspense do Paramount+. Criada por John Logan, a produção terá início de gravações previsto para 2027, em Los Angeles. Com Viola Davis, Sam Heughan e Amy Madigan nos papéis principais, o thriller mergulha no perigoso mundo das crises corporativas globais e do controle de danos. A informação é do Deadline. Molina dará vida a Sebastian, o temido chefe da Ascent Ventures, que começa a avaliar qual de seus melhores agentes poderá sucedê-lo. Já Selton Mello será Leonardo, um carismático magnata dos negócios com uma longa e complexa história com a empresa. Heughan e Madigan interpretam, respectivamente, um dos principais agentes da Ascent Ventures e uma ex-executiva da companhia, mentora de longa data de Catriona, personagem de Davis. Especialista em resolver problemas corporativos de elite, Catriona, personagem de Viola Davis, tornou-se indispensável para clientes bilionários graças às suas habilidades implacáveis. Agora, ela precisará usá-las como arma quando sua filha, com quem não tem contato há anos, corre perigo. John Logan assina a produção executiva ao lado de Michael Aguilar (Penny Dreadful: City of Angels) e de Davis e Julius Tennon, pela JuVee Productions. A série ainda não tem data de estreia no streaming.

  • Crítica | Quero Ser Como Você (Mostra de SP 2026)

    Produzido em 2015, longa de Konstantin Bojanov chega à 50ª Mostra de SP marcado por uma representação da neurodivergência que não mais condiz com o tempo atual Imagem: Divulgação O cinema é, entre tantas coisas, um exercício de identificação. Na tela, encontramos personagens nos quais projetamos nossos medos, sonhos e contradições. Por vezes, descobrimos até aquilo que desconhecíamos sobre nós mesmos. É por isso que a representatividade importa: a diversidade de personagens e perspectivas, especialmente daqueles que ocupam o centro da narrativa, amplia nossas possibilidades de compreender o mundo e as pessoas com quem o compartilhamos. O cinema nos permite enxergar pelos olhos de alguém que, fora da sala escura, talvez jamais tivéssemos a oportunidade de conhecer. Mas o cinema também é um produto de seu tempo. Mesmo quando pretende desafiar convenções, uma obra carrega as marcas do contexto histórico em que foi concebida, seja reproduzindo ou questionando os valores e as concepções socialmente aceitos naquele momento. Nesse sentido, Quero Ser Como Você, de Konstantin Bojanov, é um caso particularmente interessante. Filmado em 2015, mas apresentado ao público da 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo em 2026, o longa protagonizado por um jovem Barry Keoghan chega às telas carregando mais de uma década de transformações sociais nas costas. E, ainda que onze anos possam parecer pouco na história do cinema, representam um intervalo considerável nas discussões sobre neurodivergência e representatividade. Temos então uma obra que, apesar de suas qualidades cinematográficas, apresenta uma visão um tanto datada do autismo. Uma representação que me provoca tamanho desconforto que escrever sobre ela exige reconhecer, antes de qualquer julgamento, os limites do meu próprio olhar. Não tenho certeza de nada que escrevo. Na verdade, espero que minha opinião seja contrariada por quem de fato é representado pelo personagem principal e seus dilemas. Aqui, apenas registro as inquietações que, como pessoa neurotípica, senti ao assistir o filme. Na trama, acompanhamos Pavel (Keoghan), um adolescente autista apaixonado pelo desenho e pela pintura que decide viajar para conhecer Arnaud (Kim Bodnia), um artista que desperta nele profunda admiração. O que começa como uma busca por seu ídolo transforma-se em uma jornada de descobertas afetivas, sexuais e existenciais. Pelo caminho, Pavel encontra personagens e situações que desafiam suas expectativas e o obrigam a confrontar uma realidade consideravelmente menos acolhedora do que aquela que imagina. Trata-se, portanto, de um road movie em seu formato clássico, com o deslocamento geográfico servindo de analogia para o amadurecimento. A cada novo encontro, Pavel descobre alguma coisa sobre o mundo e, consequentemente, aprende sobre si mesmo. O problema é que nem sempre conseguimos distinguir se aquilo que testemunhamos representa efetivamente um processo de crescimento ou simplesmente a crueldade de um mundo que se aproveita de suas vulnerabilidades. Duas possibilidades radicalmente distintas, mas que o filme faz parecer quase equivalentes. Tenho poucas dúvidas de que, se Quero Ser Como Você tivesse sido filmado em 2025, Pavel seria um personagem consideravelmente diferente. Na maior parte do longa, a caracterização não chega a recorrer às caricaturas mais exageradas historicamente associadas ao autismo, mas permanece vinculada a um repertório bastante clichê: o jovem excessivamente ingênuo, errático, inconsequente, de comportamento infantilizado, mas dotado de uma sensibilidade artística extraordinária. Individualmente, nenhuma dessas características é incompatível com o autismo. O problema surge quando sua combinação reforça uma imagem já batida da neurodivergência. Essa representação, bastante recorrente no audiovisual, pode transformar a diferença em um conjunto previsível de atributos, reduzindo a complexidade de indivíduos a uma fórmula narrativa. Mais delicado ainda é o fato de que a ingenuidade de Pavel frequentemente parece funcionar como justificativa para comportamentos que, em outros personagens, provavelmente seriam recebidos com maior reprovação. Sua relação com as mulheres, por exemplo, é particularmente problemática. Em determinado momento, imagina uma colega de classe nua e a desenha durante a aula. Mais adiante, insiste em retratar uma prostituta, mesmo diante do desconforto e da resistência dela. Além disso, as personagens femininas frequentemente aparecem subordinadas às descobertas do adolescente. Seus corpos, afetos e experiências tornam-se instrumentos para o desenvolvimento de Pavel, enquanto seus próprios desejos e conflitos permanecem em segundo plano – uma escolha narrativa que revela tanto sobre o protagonista quanto sobre o olhar masculino que organiza o filme. Imagem: Divulgação Essas situações poderiam oferecer oportunidades interessantes para discutir desejo, consentimento, limites e a maneira como um adolescente aprende a reconhecer a autonomia dos outros. Porém, o filme não se preocupa em gerar qualquer reflexão ou questionamento sobre o emocional e o psicológico de Pavel nesses momentos: ele faz aquilo porque faz e não se fala mais nisso. A narrativa parece mais interessada em apresentar tais episódios como manifestações da curiosidade ou da inadequação social de Pavel do que em investigá-los pelo ponto de vista do próprio protagonista. É importante estabelecer uma distinção: o autismo não impede ninguém de desenvolver comportamentos machistas, assim como não torna uma pessoa automaticamente incapaz de compreender limites interpessoais. O filme tem dificuldade de entender essas premissas, deixando pairar a impressão de que determinadas atitudes do protagonista seriam nada mais que consequências naturais de sua condição. Em contrapartida, Barry Keoghan merece uma avaliação à parte. Ainda no início de sua carreira, o ator demonstra uma sensibilidade interpretativa que ajuda a impedir que Pavel se transforme em uma caricatura completa. Sua atuação é relativamente contida, evitando o exagero de gestos, equilibrando bem os tiques e trejeitos frequentemente utilizados por intérpretes neurotípicos na tentativa de comunicar visualmente a neurodivergência. No entanto, o passar do tempo mais uma vez joga contra o filme, uma vez que o mesmíssimo ator construiria uma representação muito mais interessante de um personagem neuroatípico em Os Banshees de Inisherin, de 2022. Em termos técnicos, enquanto o roteiro se destaca pelas fragilidades, a construção audiovisual demonstra maior personalidade. Bojanov se distancia das convenções narrativas do cinema clássico ao apostar uma montagem fragmentada. O uso recorrente da luz natural, os planos contemplativos e o ritmo deliberadamente lento conferem à viagem uma atmosfera intimista, aproximando o espectador da percepção subjetiva do protagonista. Porém, nenhum aspecto técnico é capaz de maquiar o incômodo com a narrativa. Histórias de formação costumam pressupor que os obstáculos enfrentados pelo protagonista contribuem, de alguma maneira, para seu desenvolvimento. Entretanto, quando esses obstáculos envolvem um personagem cuja vulnerabilidade é reiteradamente enfatizada, existe o risco de romantizar o sofrimento como condição necessária para sua transformação. E, da mesma forma, parece injusto exigir que uma produção concebida em 2015 respondesse integralmente às discussões de 2026, não há como escrever uma crítica hoje escolhendo ignorar toda a evolução que a percepção social teve ao longo da última década. Uma contradição, certamente. Nota: 2,5/5

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