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  • Crítica | Mallandro, o Errado Que Deu Certo

    A comédia é um emaranhado de ideias repetidas com fraquíssimas ligações entre elas Foto: Divulgação Sem dinheiro e vivendo das glórias do passado, Mallandro precisa se reinventar. Recém eliminado de um reality show e com dívidas se acumulando, Sérgio Mallandro aceita participar de um piloto para um novo programa de auditório. Porém, quando uma pegadinha dá errado, ele se vê em uma situação de vida ou a morte e precisa tomar uma decisão que pode afetar sua carreira para sempre. A ideia de um ator interpretando a si mesmo em contextos extraprofissionais não é exatamente nova, mas se moldando às diferentes personalidades dos diferentes atores sempre dá para se criar uma produção com roupagens distintas. JVCD (2008), filme de ação com Jean-Claude Van Damme, e a comédia O Peso do Talento (2022), filme em que Nicolas Cage interpreta a si mesmo, provam isso. E foi com a esperança de que Mallandro, o Errado Que Deu Certo trouxesse uma abordagem particular ao modelo de narrativa que cheguei esperançoso ao cinema, mas o resultado é constrangedor até mesmo para o personagem-título. O roteiro é cheio de contradições que tiram qualquer chance que o filme teria de seguir uma linha de raciocínio coerente. Mallandro está passando por uma crise profissional e pessoal por não conseguir mais fazer sucesso com o que o tornou famoso nos anos 80 e 90, os bordões e o humor (por incrível que pareça). Isso seria o suficiente para um longa conciso, simples e ainda assim muito pano para a manga sobre discussões de fama, propósito e conflitos geracionais. E o texto tenta alcançar tudo isso, mas usa recursos tão medíocres que o resultado é completamente sem expressividade. Foto: Divulgação O longa usa as mais cansadas referências de humor, drama e até mesmo ação que chega a ser embaraçoso o tanto que se rebaixa para conseguir arrancar alguma reação do espectador. Atuações ruins – com exceção do sempre brilhante André Mattos –, diálogos piores ainda, personagens que aparecem e desaparecem sem quaisquer motivos são alguns das características marcantes, além do que acho que enfraquece ainda a narrativa e compromete sua estabilidade: a falta de unidade entre querer fazer do Sérgio Mallandro um personagem esquecido ao mesmo tempo que super popular. Claro que alguns contextos foram alterados para a construção do enredo, os dois filhos, as duas esposas, as dívidas exageradas, mas o roteiro parece esquecer que aquele é um personagem numa dramatização e tenta empurrar um Sérgio Mallandro da vida real totalmente desconexo do personagem, em situações desconexas e contextos desconexos para o público não esquecer de que aquilo tudo é para o entretenimento e que existe um ator a ser honrado por trás de todo aquele vexame. A cena final, de novo, inteiramente descolada da tentativa de roteiro, é uma homenagem ao Mallandro da vida real, a uma figura que conseguiu fama com um tipo bastante peculiar de humor e que ainda hoje alcança o feito de lotar teatros com seus espetáculos fazendo seja lá o que ele faz. Porém se essa produção foi uma tentativa de redimir, apresentar ou puramente relembrar o artista para a diversa mídia atual, ela não vai além de fazer as mesmas gracinhas de sempre para quem gosta e reforçar o quão insuportável o comediante pode ser para quem não gosta. Nota: 1/5

  • Crítica | Biônicos

    Afonso Poyart entrega resultado coeso mesmo com inconsistências no roteiro Foto: Netflix/ Divulgação O ano é 2035 e conhecemos a história de Maria (Jessica Córes) que treinou durante anos para ser a próxima grande atleta de atletismo e seguir os passos de sua mãe, um dos maiores nomes do esporte. No entanto, tudo isso mudou com o surgimento de membros biônicos que são infinitamente superiores que carne e osso. Assim, quando sua irmã Gabi (Gabz) ganha um membro biônico e se torna uma atleta superestrela, Maria passa a viver à sua sombra. Em paralelo a isso, o misterioso e muitas vezes ameaçador Heitor (Bruno Gagliasso) participa de um roubo de diamantes, servindo como motorista de fuga, que ajudará a financiar suas aspirações de remodelar o mundo. Desde seu longa de estreia, 2 Coelhos (2012), o diretor Afonso Poyart deixa bem claro duas coisas em seus filmes: ele tem referências e ele é publicitário. Cineastas com experiência em videoclipes e/ou mercado publicitário são os melhores em criar momentos e cenas-chave para longas-metragens, Poyart, tendo trabalhado em ambas as áreas, é um artista de mão cheia. Neill Blomkamp, Robert Rodriguez e Zack Snyder são alguns dos nomes cuja produção parece ter sido inspirada direta ou indiretamente, mas o produto tem bastante identidade e procura não se escorar em quaisquer produções para além do referencial. Não faltam em Biônicos grandes e bonitas cenas de ação, com um visual irretocável e bem desenvolvidas em suas individualidades, o problema está no que liga essas cenas. O roteiro é tão autoconfiante que passa por cima de alguns detalhes de causas sem se preocupar se esses furos irão comprometer o resultado, e entrega que as excessivas explicações iniciais da narração servem para provar um domínio da narrativa, mas na verdade disfarçam várias instabilidades nas motivações e no “como” os personagens fazem o que fazem em determinadas situações. Foto: Netflix/ Divulgação De início me preocupei com a casualidade dos futurismos quanto estética e quanto a funcionalidade das ferramentas utilizadas. Parece que, por exemplo, para algumas coisas é justificável ter um dispositivo novo e bem desenvolvido que resolva aquela demanda e para outras usa-se a antiga tecnologia de dez anos atrás (atualmente no caso), porém no decorrer dos desdobramentos me peguei vendo que os neons e as dispersões de luz estavam na prática sutilmente aplicados (quanto à plástica); e que por se tratar de um futuro não tão distante, muitas coisas continuarão sim como estão hoje, afinal, quando olha-se para como os filmes dos ano 80 imaginavam os anos 2000 é de fazer pena tamanho o otimismo. O elenco contribui muito para o bom desempenho do filme. A sintonia entre Jessica Córes, Gabz e Christian Malheiros funciona bem na frente das câmeras e os ajudam a conseguirem excelentes desempenhos entre si e individualmente. Destaque também para Bruno Gagliasso que, por mais que tenha um personagem que merecesse mais tempo de tela e desenvolvimento, se sai com bastante competência nas várias facetas exigidas. Biônicos acaba por ser um ótimo exercício brasileiro para o gênero. Afonso Poyart prova mais uma vez sua habilidade no compasso da execução de uma grande obra, fica faltando, no entanto, um roteiro tão esperto e refinado quanto sua direção para que se alcance um melhor funcionamento do trabalho. Nota: 3/5

  • Crítica | Está Tudo Bem Comigo?

    Longa traz história honesta e verdadeira sobre a autodescoberta como LGBTQIAP+ Foto: Divulgação Lançado na última semana na Max, o longa Está tudo bem comigo? era esperado por bastante tempo pelo público que acompanha festivais de cinema. Em 2022, ele foi aclamado por vários críticos no Festival de Sundance, mas demorou para conseguir distribuição. Agora, quase dois anos depois, acompanhamos a história de Lucy e Jane, duas melhores amigas que se conhecem durante a maior parte de suas vidas e acham que sabem tudo o que há para saber uma sobre a outra. Mas quando Jane anuncia que está se mudando para Londres, Lucy revela um segredo pessoal guardado há muito tempo: ela é lésbica. Enquanto Jane tenta ajudar Lucy a se descobrir como LGBTQIA+, a amizade das duas se transforma em caos. Protagonizado por Dakota Johnson e dirigido por Tig Notaro e Stephanie Allynne, o longa de 1h27 não tenta propor nada muito inovador em seu roteiro. Lucy é uma jovem adulta que não consegue se conectar com nenhum homem e sofre para se identificar como mulher lésbica para si mesma e para os outros. Esse momento doloroso da protagonista é bem representado por Dakota, que entrega uma atuação muito convincente e forte em muitos momentos, provando sua versatilidade como atriz em projetos mais alternativos. Diferente de Lucy, que se torna para os espectadores uma personagem muito identificável, sua amiga Jane já causou o oposto dos sentimentos em mim. Com decisões extremamente egoístas, Jane é uma personagem irritante em alguns momentos e inclusive atrapalha o desenvolvimento da protagonista. Devo dizer que me peguei pensando algumas vezes que o filme e a história de Lucy andariam melhor sem a presença de Jane em muitos momentos. Acredito que esse foi o ponto que mais me gerou incômodo enquanto assistia, mesmo com as duas atrizes possuindo bastante química em cena. Foto: Divulgação Está tudo bem comigo? embarca nessa dualidade de conflitos sobre ser quem você é e o medo que você sente ao assumir esses sentimentos. Misturando um pouco de humor ácido com essas reflexões mais humanas sobre ser uma mulher lésbica na atualidade, o filme trabalha muito bem essas questões, numa jornada de descoberta de uma jovem mulher de 32 anos que possui dificuldade em se abrir para o novo e que se sente nervosa e ansiosa a maior parte do tempo. O roteiro do longa leva em consideração esses sentimentos e nos traz uma protagonista que, acima de tudo, quer encontrar a felicidade. Neste mês do orgulho, relembramos sempre diversas obras protagonizadas por pessoas LGBTQIAP+. Muitas delas apelam para a violência, para mostrar as situações agressivas que a população está sujeita a enfrentar todos os dias. Já outras, seguem a vertente da comédia ou apelam para o drama para nos causar um impacto. Mas, existem obras como Está tudo bem comigo?, que busca tratar o assunto da forma mais cotidiana e autêntica possível, sendo uma história que deixa o coração mais quentinho do que nos fazer derramar lágrimas, por exemplo. É uma história de autodescoberta, de amizade e das reflexões que a experiência humana de viver nos causa todos os dias. Nota: 3,5/5

  • Crítica | Divertida Mente 2

    Pixar revive o sentimento de missão cumprida Foto: Disney/Pixar - Divulgação Lançado em 2015, Divertida Mente ganhou o coração (e a mente) do mundo com bastante facilidade, tornando-se um fenômeno em bilheteria (858 milhões de dólares), e um marco orgânico na cultura pop. Quem nunca utilizou ou viu alguém fazer uso do termo “meus divertida mente”, né? Dirigido por Pete Docter, a animação também foi vencedora do Oscar da categoria, além de receber uma indicação em Melhor Roteiro Original em 2016, sendo o filme animado mais recente na categoria. Passados os anos, vem então o anúncio de uma sequência e o receio se a história conseguiria se manter com a qualidade de seu original, e, após finalmente assistir ao filme a frase mais acalentadora pode ser proferida sem qualquer traço de medo: Divertida Mente 2 é uma boa sequência! Dirigido dessa vez por Kelsey Mann (O Bom Dinossauro), o filme nos apresenta a cinco novas emoções: Ansiedade, Inveja, Vergonha, Tédio e Nostalgia. Riley está prestes a entrar na puberdade e tudo em sua vida está prestes a mudar, então sua mente se torna um caos já pouco antes das novas emoções tomarem conta, quando elas entram em ação, o pandemônio reina, e todas as mudanças ao redor da personagem tomam uma dimensão ainda maior do que deveria, trazendo grandes aventuras para os nossos velhos conhecidos; Alegria, Tristeza, Nojinho, Medo e Raiva. De antemão: sim, temos resposta para a pergunta que tanto soou após a revelação de novas emoções em uma adolescente de 13 anos, “mas se há novas emoções nela, e elas são as mesmas em todas as pessoas, onde estão essas 5 na cabeça dos pais da Riley?” Mas eu não vou contar, o que posso dizer é que foi dada uma explicação. Meg LeFauve é a única roteirista que retorna para esse, dessa vez ao lado de Dave Holstein. O trabalho textual continua impecável, diálogos rápidos, piadas no timing certo, sentimentalismos bem encaixados, e uma sensação de algo muito bem feito. A trilha sonora acompanha o desenvolvimento de Riley, e vai evoluindo junto com sua história, com adições de músicas que casam com o momento pelo qual ela está passando. O visual é excelente, e é muito gostoso de poder ver e sentir as texturas utilizadas no trabalho de animação, e as técnicas variadas mostradas naquela hora e meia, com direito até a personagens de PS1 que trazem ainda mais graça a uma comédia já ótima. Foto: Disney/Pixar - Divulgação A ironia de uma cabeça comandada por um grande painel de controle estar descontrolada na maior parte do tempo é um dos melhores detalhes que o longa traz. Passa-se cada minuto com aquela sensação de urgência e perigo, mas tudo bem equilibrado com muitas doses de risos fáceis. Com um tom ligeiramente mais leve, e ainda assim eficiente, o filme se monta sobre vários aspectos de seu anterior sem ser repetitivo. São utilizados muitos artifícios e conceitos já conhecidos para trazer familiaridade à trama e apresentar conceitos novos que fazem sentido em terem sido criados, e não apenas uma facilitação no roteiro, além de uma resolução bem orquestrada e até melhor elaborada que a do seu original. O grande trunfo da animação é utilizar coisas corriqueiras para se conectar ao público, trazer a Ansiedade como uma personagem mais espaçosa foi uma decisão muito certeira, que se mostra uma ideia extremamente genial ao decorrer do longa. A maneira como eles utilizam essa emoção tão perturbadora de maneira mais cômica não tira o peso das consequências que ela gera. Apesar da não existência de vilania, é trabalhado um antagonismo inicial que vai de forma gradativa escalonando de uma maneira que gera uma compreensão ao seu fim. Não é apressado e eles sabem como pisar em cada degrau até chegar ao seu ápice. Por fim, após uma sequência de filmes lançados sem grande apelo nos cinemas, a Pixar decidiu que era hora de mostrar seu nome mais uma vez. Não sabemos se foi o caso de utilizar um título já conhecido e amado para conseguir a atenção do público de maneira mais fácil ou não, mas o importante é que eles acertaram. Divertida Mente 2 é a melhor sequência do estúdio e um respiro de alívio a todos os amantes dessas emoções tão queridas. Nota: 4,5/5

  • Crítica | All We Imagine as Light

    Um ingresso de cinema que serve como uma passagem a Mumbai Foto: Divulgação Não é surpresa para quem acompanhou o Festival de Cannes de perto (ou de longe, pelas redes sociais) que a primeira metade do festival foi morna, sem grandes reações positivas, além de Bird e The Substance . Já nos seus últimos dias, o festival trouxe duas grandes surpresas: The Seed of the Sacred Fig e o filme indiano All We Imagine as Light , que tive a oportunidade de ver antecipadamente. O longa dirigido por Payal Kapadia segue a história de Prabha e Anu, duas enfermeiras que se encontram em relações amorosas complicadas e embarcam em uma viagem em direção a uma cidade praiana onde “uma floresta mística se torna um lugar onde seus sonhos podem se manifestar.” Sem sombra de dúvidas, o ponto alto do filme é sua fotografia, que consegue capturar a cidade de Mumbai, principalmente no período noturno, de uma maneira que faz o espectador sentir que vai sair da sala do cinema diretamente para a cidade. Suas cenas também capturam a essência frenética que já conhecemos de outros filmes indianos, de uma maneira sutil e única. Foto: Divulgação Payal Kapadia, que também já dirigiu documentários, cria uma obra de arte com duas mulheres no epicentro da história, nos cativando de um jeito que qualquer espectador que assistir a este filme vai se sentir transportado ao hospital onde elas trabalham. A história segue as personagens de uma maneira fluída, sem tentar encher o espectador de informações, garantindo que ninguém fique entediado. Seguimos suas rotinas de uma maneira que gradualmente nos conectamos às personagens, cada vez mais nos aproximando do longa. A diretora usa sua familiaridade com documentários a seu favor. Uma das cenas mais impactantes do filme é sua abertura, que conta com múltiplas imagens da cidade, contextualizando o espectador sem uma história aparente, até que as imagens começam a desacelerar, nos guiando à história principal do longa. Apesar de não ter visto os outros filmes selecionados para a seleção 'In Competition' de Cannes, não me surpreende que este filme tenha ganhado o Grand Prix no festival. O filme consegue conquistar o que o júri normalmente está à procura: algo que não vimos antes. Principalmente em um ano com a maioria dos filmes eurocêntricos, o filme indiano conseguiu conquistar o júri presidido por Greta Gerwig com suas fortes personagens e uma fotografia impactante. Nota: 4/5

  • Crítica | 13 Sentimentos

    Uma conflitante história de desamores Foto: Divulgação Até que ponto os sentimentos podem se sobrepor à visão crítica? Muito se é falado sobre a subjetividade da arte e do quanto ela é interpretativa a partir do ponto do espectador, no entanto, para que aquele produto artístico ganhasse forma, foi necessária uma mão de obra por trás e toda uma pá de escolhas técnicas e tomada de decisões para que chegasse à sua forma final. Certo? Tendo em vista isso, pergunto novamente: até que ponto os sentimentos podem se sobrepor à visão crítica? Penso que nunca tive um misto de sensações conflitantes dentro de mim quanto após assistir 13 Sentimentos. Contudo, vamos por partes. O filme traz a história de João (Artur Volpi), um homem gay de 32 anos que recém saiu de um relacionamento que durou uma década e agora está buscando formas de preencher a lacuna deixada com esse encerramento. Além desse detalhe, ele também vê sua janela de oportunidade profissional se fechar ao descobrir que o roteiro que estava escrevendo não foi aceito, e que agora precisa procurar outros meios, e como já trabalha também com edição, acaba encontrando uma forma de usar isso a seu favor. (Informação importante!) A história já começa a partir do ponto em que ele retorna de sua viagem, já solteiro, e inicia sua jornada nada heróica pelos aplicativos da vida. Confesso que esse primeiro momento me causou um certo desconforto, apesar de gostar da maneira como se dão os diálogos, que ao invés de balões com mensagens, é feita em tela com os personagens falando aquilo que conversam. O que me gerou o desconforto não foi isso, mas o texto mesmo, esse primeiro diálogo meio enlatado entre João e sua possível paquera, que parece algo que o twitter de 2018 amaria. Passando esse primeiro momento, o filme se desenrola em volta da vida do protagonista que, mesmo em negação, não sabe como lidar com sua própria solidão, mais conversas, mais encontros, mais saídas. Mais diálogos ruins. Até certo ponto (quase o final), o roteiro se mostra algo meio engessado, quase como uma primeira ideia que não foi esculpida corretamente para filtrar o que fosse desnecessário e trazer as melhorias para o texto. Por consequência disso, a maior parte dos diálogos não soam tão naturais quanto as situações pedem. Foto: Divulgação Com exceção dos minutos finais, a direção de Daniel Ribeiro parece não encontrar o ponto certo de condução, deixando o texto ainda mais a mercê de uma certa robotização. As partes técnicas do longa também parecem algo não finalizado, como se não tivessem amadurecido o suficiente para se chegar ao ponto que deveria. Senti durante quase todo o filme que não estava assistindo ao produto devidamente tratado, era como se fosse um rascunho que ainda estava em processo de edição. Os enquadramentos e a fotografia não trouxeram o frescor e a leveza que a trama pedia. O grande trunfo realmente fica com o pré-final. Aquela cena dos dois personagens na cama é tão bem posta e conduzida, bem dirigida e produzida que pareceu ter sido algo feito à parte e encaixado ali depois. É uma das sequências mais bonitas que já tive o prazer de assistir. Em comparação a todo o filme, pareceu outra mão ali. Dando créditos e méritos, as escolhas musicais e de trilha foram bem acertadas na medida do possível e Volpi conseguiu segurar o rojão no protagonismo. Michel Joelsas também se sai bem e seus momentos em cena são satisfatórios. Agora volto à pergunta que fiz lá no início, depois de tudo que falei, como é possível ter algum sentimento bom em relação a um filme que eu mesmo declarei como falho? É aqui que entra o meu conflito. Enquanto todo o meu lado racional e crítico conseguiu notar todas essas coisas, as ausências e as necessidades técnicas mais refinadas, o meu emocional se chocou com a história de forma geral. Em comparação à quantidade de produções realizadas mundialmente em um ano, é ainda muito escasso histórias que trazem o cotidiano de um adulto gay em seus conflitos sentimentais em relação a si e ao mundo. É nisso que o filme consegue ter algum acerto, claro que cada vivência é diferente e as experiências serão divergentes para cada pessoas, contudo, há algo que é universal em algum âmbito: a frustração. Eu o assisti 2 vezes e ainda demorei alguns dias matutando em como transmitir em palavras o que minha razão e minha emoção me fizeram pensar. Confesso que quando dei o primeiro play, estava em um dia péssimo, e isso colaborou ainda mais para uma aproximação com a história, eu tinha um desejo muito grande de me conectar e de gostar de tudo, mas, houve decepção com tudo que já citei. Não costumo escrever dessa forma, quase como um desabafo, mas foi frustrante para mim de forma pessoal que 13 Sentimentos não atingisse as expectativas desejadas. Meu anseio é que haja mais espaço para bons enredos e premissas como essa, só que melhor elaboradas. Eu ainda não sei se a forma correta seria dizer que "apesar dos defeitos, eu consegui gostar da história" ou se seria "apesar de gostar da história, não consegui ignorar os defeitos". Mas está tudo ali. Tem um início, tem um meio, e tem um fim (muito bonito, repito), e mesmo que tenha achado brega a explicação do título ali no final, não sei se sobrou 13 sentimentos em mim, mas pelo menos 1 eu senti. Nota: 2,5/5

  • Crítica | In A Violent Nature

    Um terror que oferece uma nova e refrescante abordagem ao gênero Foto: Divulgação Um dos gêneros cinematográficos mais rentáveis da indústria neste momento é o terror. Isso não se aplica apenas a filmes de grandes estúdios, mas também a produtores independentes que conseguem produzir filmes menores com pouco dinheiro, atraindo o público fiel do gênero. Isso geralmente acontece com filmes de qualidade duvidosa ou filmes que, mesmo com um pequeno orçamento comparado ao de grandes franquias, ainda conseguem trazer algo nunca antes visto. Felizmente, no caso de In A Violent Nature , o filme consegue impressionar qualquer espectador que esteja aberto a assisti-lo. O longa canadense mostra Johnny, uma criatura que aterroriza um grupo de adolescentes que acidentalmente o ressuscitaram. O protagonista segue com seus violentos e sangrentos ataques ao grupo com o objetivo de recuperar uma lembrança de seu passado. Não tenho dúvidas de que, se o filme de estreia na direção de Chris Nash chegar ao grande público, a maioria dos espectadores não passará dos primeiros vinte minutos. O longa usa sua lentidão para nos introduzir à história, até segura a feição do protagonista, mostrando-o apenas de costas, tendo grande parte do longa gravada em uma perspectiva de terceira pessoa, o que adiciona à estética única introduzida pelo diretor. Outra interessante escolha de Nash é não adicionar nenhum elemento sonoro não diegético, o que funciona muito bem para os espectadores, que conseguem se sentir dentro do universo criado. Foto: Divulgação Sem sombra de dúvidas, o ponto alto do filme são suas mortes. Existe uma combinação perfeita entre mortes clássicas e novas maneiras de assassinar personagens, chocando o espectador. Infelizmente, existem alguns problemas com algumas mortes em questão, como partes de corpos não convincentes, mas os visuais criados e os efeitos usados fazem qualquer pessoa esquecer os erros, deixando-nos apenas lembrar de seus incríveis visuais. Isso também serve para fazer a audiência relevar algumas falhas de roteiro e marcação, que poderiam ter sido facilmente consertadas antes da produção do longa. Chris Nash conseguiu fazer um longa que coloca seu nome no radar de todos os amantes do terror no cinema. Com uma história interessante e uma perspectiva nova ao gênero, o diretor faz uma ótima estreia. Não tenho dúvidas de que, se você se abrir para o filme, ele irá te impressionar. Nota: 4/5

  • Crítica | Sob as Águas do Sena

    Às vezes, tudo que a gente precisa é de um entretenimento vazio Foto: Netflix/ Divulgação Desde que Tubarão, do mestre Steven Spielberg, chegou às telonas em 1975, filmes que tentam emular aquele sentimento de horror pelo animal começaram a se espalhar e a grande maioria com uma qualidade extremante duvidosa. Neste que vem fazendo um enorme sucesso na Netflix, o cenário é a França, mais precisamente o rio Sena em Paris, o que já é um ponto positivo porque consegue se diferenciar um pouco de tantos outros. Um tubarão em um rio? Sim, o tubarão da vez é um mutante e já tem um passado com Sophia, a protagonista de Bérénice Bejo. O longa começa em alto mar, quando Sophia perde quase toda sua equipe depois de um ataque do animal. Anos depois, o tubarão evoluiu e é descoberto nas águas doces do rio Sena, dias antes do Campeonato Mundial de Triatlo que ocorrerá no local. O diretor Xavier Gens leva a trama muito a sério, o que é positivo e negativo ao mesmo tempo. Ajuda na construção da tensão, com ótimas cenas em que o ataque nem sempre acontece, onde há uma certa imprevisibilidade que é muito bacana. Então é no âmbito do terror que o filme se sobressai, e não no enredo político que tenta alcançar com vários clichês que só tomam tempo, mas não acrescentam a história porque já sabemos onde eles vão chegar, que é basicamente lugar nenhum. Claro que há uma tentativa de mensagem ambiental, os riscos do que o homem vem fazendo com a natureza. Claro que há cientistas informando os perigos à prefeita da cidade e sendo ignorados, ressaltando o negacionismo. Claro que há personagens com boas intenções, mas convenientemente burros para que a narrativa siga o fluxo. O que vale mesmo aqui é o entretenimento e esperar qualquer outra coisa é decepção certa. Foto: Netflix/ Divulgação Além de Bejo, muito bem no papel de uma mulher traumatizada pelo animal, o elenco ainda conta com Nassim Lyes na pele de Adil, um policial que está tentando ajudar Sophia, junto com outros colegas. O papel começa pequeno, mas ele vai se tornando o protagonista masculino aos poucos. Talento e carisma não faltam para a dupla. Os demais servem praticamente como isca, e não há tempo para que nos importemos com eles. Não que isso pese contra o longa, porque ele está em seu melhor momento nas sequências de ataque, principalmente quando há muitas pessoas envolvidas. Gens sabe muito bem usar os cenários à sua disposição, sejam abertos ou fechados, para causar o medo e é muito eficaz nesse sentido, usando a criatividade sem economizar no sangue e na violência. Nos momentos finais, tudo acontece em uma escala mais ampla, promovendo um verdadeiro espetáculo visual, ainda que o resto seja vazio. Passa longe – muito longe – do Tubarão de Spielberg, por exemplo, mas para quem gosta do gênero e queira apenas uma diversão descompromissada, ainda que o filme queira dizer algo a mais, o que ele consegue com maestria é te entreter, e pelo sucesso que vem fazendo e aquela excelente cena final, não é difícil apostar que há uma continuação no horizonte e que ela seja maior, porém melhor, só o tempo dirá, embora eu não espere muito. Nota: 2,5/5

  • Entrevista | Diretor e ator de “13 Sentimentos” falam da importância e representatividade do longa

    Daniel Ribeiro e Arthur Volpi conversaram com exclusividade com o Oxente, Pipoca? Divulgação Nesta quinta-feira, 13, chegou aos cinemas brasileiros o longa “13 sentimentos”. Dirigido por Daniel Ribeiro e protagonizado por Arthur Volpi, o filme traz a história de João (Artur Volpi), um homem gay de 32 anos que recém saiu de um relacionamento que durou mais de 10 anos. Agora, ele está buscando formas de preencher a lacuna deixada com o encerramento desse ciclo da sua vida, buscando novas experiências no romance, no sexo e até na vida profissional. Em conversa com o Oxente, Pipoca?, o diretor Daniel Ribeiro e o ator Arthur Volpi discorreram sobre algumas das questões importantes levantadas pelo longa que fazem parte da vida cotidiana de vários brasileiros. Seja se relacionando romanticamente por meio das redes sociais ou pela complexidade das relações amorosas no mundo atual, as experiências pessoais foram fator determinante para a criação da história. “Foi a minha falta de experiência (risos) na verdade. Esse personagem tem um pouco disso, né? Assim como ele, eu também terminei um relacionamento de dez anos e entrei nesse mundo de conhecer pessoas nos aplicativos. Acho que sou parecido com o personagem nesse sentido, essas conversas sem profundidade acabam não me atraindo tanto assim. Essa experiência, que não foi uma experiência tão padrão, acabou resultando no filme”, disse. Já Arthur Volpi, intérprete de João, se reconhece no personagem através do humor. “Fui identificando algumas similaridades com o João ao longo do meu processo de preparação do filme. Também me vejo neste local que o Dani falou, de ser um pouco resistente a essa primeira conexão via aplicativos. Prefiro me relacionar mais com pessoas que eu já tenho uma proximidade, uma intimidade. Também tem a questão do temperamento, o João usa o humor como um mecanismo de defesa em situações desagradáveis ou desconfortáveis, fui identificando isso em mim também e acabei trazendo para interpretação do personagem”, explica. “13 Sentimentos” demarca bem sua existência em um Brasil pós-pandêmico e em um país após quatro anos de um governo repressivo com os direitos da população LGBT. “A gente filmou em abril de 2023. Acho que a gente já estava respirando aliviado e o filme tem essa energia. A pré-produção foi antes da eleição e era um momento que a gente ainda estava entendendo o filme. Talvez se tivesse sido outro resultado na nas urnas, eu não sei qual seria a energia desse filme, talvez seria diferente. Talvez ele fosse menos esperançoso, menos otimista. Acho que “13 Sentimentos” trouxe uma energia muito positiva, é um pouco do que a gente espera do Brasil atual”, reflete o diretor Daniel Ribeiro. “Além de ser um filme LGBT, ele traz uma leveza dentro desse universo, algo muito positivo e esperançoso. Nós sentimos isso durante a gravação e acho que acabou se refletindo no resultado do filme. A gente espera reverberar dessa forma também nas pessoas que assistirem, convidamos todos a ir ao cinema, tenho certeza que vocês vão se identificar com algum personagem ou com as situações vividas por eles”, completa Arthur. “É um filme que dá para assistir com namorado, ex-namorado, sozinho, com os amigos, dá pra encontrar um amor no cinema (risos). É um filme que te deixa com o coração quentinho, tanto pra você que está apaixonado, quanto pra você que está com o coração partido”. Divulgação Hoje eu quero voltar sozinho e próximos projetos Daniel Ribeiro, responsável também pelo aclamado “Hoje eu quero voltar sozinho” (2014) falou da relação do seu longa anterior com seu mais novo lançamento. É meio que uma trilogia que eu estou fazendo agora. Tem “13 Sentimento”, tem “Hoje eu quero voltar sozinho” e tem “Amanda e Caio”, que será o meu próximo filme. Os três colocam uma lupa sobre várias fases de um relacionamento: o começo, o meio e o fim e um recomeço. É sobre crescimento”. “Nós filmamos “Amanda e Caio” em março desse ano, um filme que traz um elenco 100% trans e fala sobre um casal de 20 e poucos anos que estão indo morar juntos, tem um futuro todo planejado e a realidade da vida começa a se transformar e eles se separam. É um filme dramático mas que a gente também dá risada e se identifica. Tenho algo curioso porque nunca imaginei que meus filmes fossem engraçados, mas, em uma das primeiras exibições do meu primeiro longa “Café com leite”, que pra mim é um grande drama, muito sério, as pessoas gargalhavam em determinados momentos. Então eu acho que sempre tem humor na forma como eu crio esses filmes. Mas sem dúvidas, “Amanda e Caio” é o mais dramático dos três”. Para Arthur, que era adolescente na época do lançamento de “Hoje eu quero voltar sozinho”, os filmes de Daniel representam uma companhia durante o crescimento. “Vim de uma geração mais nova e me identifiquei, lá em 2014, com o “Hoje eu quero” e agora também já me vejo nessa posição de identificação com o João. É muito gostoso ver os filmes acompanhando as nossas fases da vida também”.

  • Cannes 2024 - Uma análise à distância

    Palma de Ouro foi para 'Anora' em competição que contou com grandes veteranos Foto: Anora/ Divulgação No último sábado (26) terminou mais uma edição de um dos maiores e mais renomados festivais internacionais de cinema, o Festival de Cannes. Caso não tenha ficado entendido no título eu não estive presente, mas, como boa parte da comunidade apreciadora da sétima arte mundo afora, acompanhei o máximo que pude virtualmente e através do trabalho de colegas críticos que puderam comparecer aos belos espaços da costa azul francesa. Portanto, é importante frisar que esta análise se baseará em repercussões que os filmes e os resultados da competição apresentaram. Ao longo dos anos criou-se a ideia de que festivais europeus eram um território mais neutro em face ao domínio de Hollywood e suas produções caríssimas. E até que foi, o que não pode ser confundida com a lenda urbana que ainda persiste pelos meandros de algumas mentes cinéfilas de que os EUA não tem qualquer influência sobre a estrutura desses eventos. Em Cannes então, se havia alguma dúvida, a edição 2024 veio para colocar as cartas na mesa. A cineasta estadunidense Greta Gerwig esteve na presidência do júri que tinha como membros J. A. Bayona, Ebru Ceylan, Pierfrancesco Favino, Lily Gladstone, Eva Green, Hirokazu Kore-eda, Nadine Labaki e Omar Sy. O filme vencedor da Palma de Ouro foi ‘Anora’, filme estadunidense do diretor estadunidense Sean Baker. Além de 'Anora', outros dois filmes dos EUA competiam ao prêmio principal, ‘Megalopolis’ (Francis Ford Coppola) e ‘Oh, Canada’ (Paul Schrader). Foto: Tipos de Gentilezas/ Divulgação Fazendo um pequeno recorte dos últimos 24 anos (de 2000 para cá) não houve um ano sequer em que não tivesse um filmes dos EUA na principal seleção do Festival, se tornando assim o único país – entre mais de 190 países do mundo – ao lado da França (sede do Festival) a conseguir este feito. Neste mesmo recorte, houve apenas dois anos em que nenhum estadunidense compôs o corpo do júri (2001 e 2007), e por 9 vezes os compatriotas de Greta estiveram na presidência, mais do que o dobro de vezes que os franceses (4). Aí alguém pode falar “ah, mas é um festival internacional e os EUA é o maior polo cinematográfico do mundo”. Certo e errado. O que sabemos mesmo é que tudo gira em torno de mídia e a presença certeira de figurões consolidados com o tempo atrairão holofotes, jornalistas, influencers, turistas, etc. Então, no fim das contas o que se sabe é que aplausos e críticas positivas influenciam até a página 2 no resultado do grande prêmio; a voz do júri (e de seu presidente) é o que realmente vai refletir no principal filme do festival. E aqui quero falar não só de bairrismo, mas de identificação entre os membros votantes e o resultado, afinal de contas o último filme estadunidense a vencer a Palma foi em 2011 (ano em que coincidentemente-ironicamente-curiosamente outro estadunidense estava na presidência) e de lá para cá houve outros 3 presidentes ianques que não premiaram seus conterrâneos. Foto: Amarela/ Divulgação Acompanhar festivais à distância e não estando participando é sempre uma experiência divertidíssima se você souber quem seguir. A empolgação a cada nova exibição, surpresas e frustrações, primeiras vezes, erros e acertos... acredite, é possível ficar feliz com a felicidade alheia, e isso serve para todos que ali estão, seja um ator vindo da maior favela de Fortaleza que está saindo do Brasil pela primeira vez, ou uma crítica vinda do Amazonas e única representante do norte do país em sua primeira cobertura internacional. E nós que aqui estamos e por vós esperamos ficamos lendo, observando, investigando e procurando como podemos nos sentir inseridos naquela efervescência cinematográfica. A cada nova produção exibida somos tomados por uma enxurrada de textos e impressões que rapidamente viram um preguiçoso telefone sem fio que tornam aquele filme ou um dos piores filmes do mundo ou com certeza o próximo vencedor da Palma de Ouro. É preciso filtro, é preciso leitura, é preciso saber o background daquele jornalista, é preciso esperar que o filme chegue em nosso país para tirarmos a prova a limpo. Mas esse termômetro da boca do povo sempre consegue filtrar quais os prováveis ganhadores, nisso dificilmente se tem alguma surpresa. Em 2024 as primeiras exibições não causaram tanto furor e logo tuiteiros que não assistiram a um filme sequer dos altos dos seus sofás começaram a proclamar que essa edição claramente já está pior do que a do ano passado. Afinal, no terceiro dia de Festival o aguardado projeto desenvolvido por mais de 40 anos pelo multipremiado Coppola foi massacrado por boa parte de quem pode assisti-lo. Então o que esperar dos dias vindouros? Foto: Emilia Perez/ Divulgação Eis que dia 18 de maio, quinto dia de Festival, as coisas começaram a esquentar. É que 'Emilia Pérez', um musical que se passa no México dirigido pelo francês Jacques Audiard sobre uma traficante trans, deu o que falar, e despontou como o primeiro favorito a prêmios. E daí pra frente foi uma crescente de ovações e louvores até o último dia. O body horror 'The Substance', o simpático 'Anora', o queridinho 'Grand Tour', o indiano 'All We Imagine As Light' e o aguardado 'The Seed of the Sacred Fig' se destacaram entre os 22 longas-metragens da seleção principal. E em 24 horas entre a exibição do iraniano 'The Seed of the Sacred Fig' e a premiação, os mais diversos especialistas em premiações começaram suas incontáveis teorias sobre quem ia levar o quê e porquê. Tudo vira especulação, quem ainda não foi embora de Cannes. Quem foi e voltou. Quem foi visto na praia. Quem foi almoçar com Fréumax. Coppola foi um dos primeiros que se soube que havia voltado a Cannes, e pronto, algo está garantido para Megalopolis. Num tom de brincadeira com fundo de verdade eu cravei num grupo de amigos um dia antes: "[16:37, 24/05/2024] Ávila: ainda acho que a Greta vai dar a Palma pra Anora [16:39, 24/05/2024] Ávila: é diretor americano, protagonista feminina jovem, é prostituta mas não tem sexo quem nem o brasileiro, do jeito que estadunidense gosta mesmo". Brincadeiras e tentativas de acerto com leituras superficiais que às vezes dão certo e por isso parecem ter embasamento ou previsibilidade. O filme iraniano dirigido por Mohammad Rasoulof - preso político em seu próprio país que quebrou a tornozeleira eletrônica e se escondeu pela Europa por semanas até conseguir chegar a Cannes ganhou um prêmio especial de consolação que na teoria nem existe. A política da boa vizinhança na falta de ousadia. Bem EUA no comando. O elenco feminino de 'Emilia Perez' levou o prêmio de Melhor Atriz, e a presidente Greta justificou que elas criaram um trabalho lindo e conciso juntas e não poderia premiar apenas uma. No pacote estava a atriz trans mexicana Karla Sofía Gascón, unanimidade entre os críticos como destaque no filme. Foi a primeira atriz trans a vencer na categoria do Festival, mas para isso teve que dividir com outras 3 colegas de elenco. A política da boa vizinhança na falta de ousadia. Bem EUA no comando. Melhor Ator? Estadunidense, Jesse Plemons. As duas Palmas Honorárias? Meryl Streep e George Lucas. Foto: Motel Destino/ Divulgação Cada ano uma sentença, cada ano um júri, cada ano uma seleção. O cearense Karim Aïnouz levou seu 'Motel Destino' e chocou algumas pessoas com o sexo e o calor vindos do nosso litoral e se sentiu premiado por conseguir levar um projeto autoral cheio de identidade regional entre os que competiam. E ele está correto, sabe que o gosto comum, os parâmetros e os resultados sempre terão rostos e vozes já condicionados e moldados quando se fala do norte global. E olhando por esse lado, eles podem até dizer que o Brasil não tem do que reclamar, afinal, entre os países latinoamericanos é um dos que mais apresenta constância em Cannes. Além de 'Motel Destino' o Brasil esteve presente com o curta-metragem 'Amarela', do diretor nipo-brasileiro André Hayato Saito, que disputou a Palma de Melhor Curta; 'Baby', do cineasta Marcelo Caetano, que deu a Ricardo Teodoro o prêmio de Melhor Ator Revelação na Semana da Crítica, uma das mostras paralelas do evento; 'Queda do Céu', de Eryk Rocha e Gabriela Carneiro da Cunha, na Mostra Quinzena dos Cineastas; o curta de animação 'A Menina e o Pote', de Valentina Homem, também na Semana da Crítica; e a versão restaurada de 'Bye, Bye Brasil', de Cacá Diegues, na Mostra Cannes Classics. Está encerrado, os prêmios foram dados e segue-se o período de calmaria até os lançamentos dos títulos e até o próximo festival internacional. A história da arte e do entretenimento mundial segue sendo escrita, e, com prêmios ou não, o forró, o carisma e o talento de ter um diretor competindo dois anos consecutivos em produções completamente distintas de origens diferentes não se pode ignorar ou negar, tem que se reverenciar.

  • Crítica | Bridgerton (3ª temporada, Parte 1)

    Série se perde nas histórias paralelas e não desenvolve bem protagonistas Foto: Netflix/ Divulgação Sendo o carro-chefe dos lançamentos da Netflix no mês de maio, a primeira parte da terceira temporada de Bridgerton chegou com o objetivo de introduzir a história do romance de mais um irmão Bridgerton, o Colin, com a personagem da Penelope Featherington. Pensando num novo formato de serialidade para os seus principais produtos, a primeira parte da série possui apenas quatro episódios e o restante da sua temporada só chegará para os telespectadores no dia 13 de junho. Mesmo assim, a nova temporada já bateu recordes de audiência e se tornou assunto nas redes sociais nas últimas semanas. Nesta nova etapa da história, Penelope enfrenta um doloroso despertar ao tomar a decisão de finalmente encontrar um marido para ficar longe das maluquices de sua família e conta com a ajuda de Colin. Além disso, a personagem ainda precisará lidar com as consequências de seus atos do alter-ego Lady Whistledown. Com duas temporadas prévias já bastante consolidadas pelo público e também uma série de livros com uma fã-base bastante fiel, Bridgerton aproveitou o carisma e qualidade da atriz Nicola Coughlan nesta terceira temporada, alterando a ordem da história seguida nos livros. Curiosamente, a história do casal Polin teve poucas alterações nestes quatro primeiros episódios se comparamos com a da dupla do ano anterior, Antony e Kate, em relação ao material original. Foto: Netflix/ Divulgação Como gosto bastante dos livros e das temporadas anteriores, minha expectativa era a maior possível para a primeira parte da temporada por achar Penelope uma das mais interessantes dentre todos já apresentados. Mas, por mais que as nuances da personagem foram bem exploradas nos roteiros destes episódios, o desenvolvimento do seu romance com o Colin parece mais vazio e raso do que os das temporadas anteriores. Talvez, isso se deva à pouca falta de profundidade dada ao Colin como indivíduo e até a amizade entre os dois que pareceu bastante deslocada dentro da trama. Por mais que ambos dividam em tela bons momentos de romance, a introdução da história não faz jus ao que esperávamos do casal e os dois, no âmbito do romance, acabam sendo ofuscados por Francesca e seu futuro par romântico. Falando sobre as subtramas desta nova temporada, a adição da rainha dentro da trama de Bridgerton foi algo muito proveitoso no começo, além de gerar a excelente minissérie da Rainha Charlotte, porém, neste ano a história parece não saber mais como usá-la na trama, deixando-a no escanteio junto com uma das melhores personagens dos livros, a Lady Danbury. Enquanto isso, núcleos irrelevantes para trama ganham um enorme destaque como as irmãs e a mãe de Penelope e toda a família de Mondrich. De forma técnica, Bridgerton ainda é uma das séries mais bem produzidas da Netflix. Mas, alguns pequenos detalhes me incomodaram no decorrer destes quatro episódios, como a maquiagem e o design de produção. Mas de qualquer forma, a série ainda consegue ser um bom entretenimento para fãs de uma boa série de romance, e a torcida fica para que, nesta nova leva de episódios que chegará para finalizar a temporada, a história de Penelope e Colin seja melhor desenvolvida. Nota: 3,5/5

  • Crítica | Hacks (3ª temporada)

    Um fabuloso terceiro ano de reinvenções e ápices criativos Foto: Max/ Divulgação Ao final da segunda temporada de Hacks, dois anos atrás, Deborah Vance (Jean Smart) dizia a Ava (Hannah Einbinder) para as duas trilharem caminhos separados, dando a entender que a trajetória das duas juntas chegava então ao fim, e com isso a série também se encerrava. Muitos (como eu) foram tomados de surpresa pelo que parecia a finalização precoce de uma das melhores comédias da atualidade. Mas não foi o caso, e nesta terceira temporada não apenas temos um recomeço para a série, mas um novo conjunto de episódios que consegue superar com folga os das temporadas passadas, que já eram deliciosamente espetaculares. Se situando um ano após os eventos da temporada anterior, temos aqui Deborah desfrutando de toda a sua glória, adulada e cortejada por fãs (com direito a um “come to Brazil” logo nos primeiros minutos) e marcas. Enquanto isso, Ava conseguiu trabalho como roteirista numa série de sucesso e seu namoro com Ruby (Lorenza Izzo) nunca esteve melhor. Mas basta que os caminhos das duas se cruzem mais uma vez para que toda a faísca da parceria profissional e platônica delas seja reacendida, especialmente quando Deborah entra na disputa para apresentar um talk show , seu maior sonho há anos. Esta terceira temporada não demora a reconectar as protagonistas, mostrando como elas funcionam tão bem juntas. No entanto, não esconde a quantidade de vezes em que Deborah foi até mesmo abusiva com Ava, de modo que, mesmo se tratando de um recomeço, fica a pergunta: os velhos hábitos custam a morrer? É claro que a resposta a essa pergunta vem embalada na veia cômica e ácida da série, que parece mais afiada do que nunca. Desde gags visuais — como Ava cortando uma fatia gigantesca de um bolo feito por Tom Cruise — até linhas mordazes — como aquela em que Deborah diz que sua irmã pode ficar com o “feriado” do 11 de setembro —, Hacks nunca foi tão engraçada e ousada, jamais perdoando nada nem ninguém, a começar pelas próprias protagonistas. É até curioso pensar que em tempos onde as linhas onde comédia e drama são muitas vezes borradas e as premiações fazem malabarismos para encaixar séries em categorias que não parecem as corretas para elas ( The Bear , eu te amo, mas essa é para você), é refrescante ver como Hacks se assume orgulhosamente como uma comédia até os ossos. Isso não quer dizer, porém, que o drama não esteja presente, como visto numa brutal discussão no último episódio. Além disso, a ênfase no envelhecimento de Deborah — que, porém, é tratada com uma naturalidade e frescor tão raros na TV quando se trata de personagens de terceira idade — ganha ainda mais força quando pensamos nos problemas de saúde de Jean Smart que ocasionaram o atraso da temporada. Foto: Max/ Divulgação Smart, inclusive, vem com força para seu terceiro Emmy. Uma atriz por quem é impossível não nutrir admiração e que coleciona papéis icônicos como Deborah coleciona as maiores bugigangas possíveis, ela encontrou aqui em sua protagonista aquele tipo de “papel da vida”, entregando-se de corpo e alma à personagem. Um dos maiores méritos da série é de não esconder as contradições e a “feiura” de Deborah: ela é uma mulher problemática, rude, muitas vezes preconceituosa e de comportamentos tóxicos e abusivos, e há até mesmo um episódio dedicado a isso na temporada (o penúltimo, um dos melhores da série). A comédia aqui não serve para isentar ou aliviar suas ações, mas as ressalta na medida em que expõe as facetas mais iluminadas e comoventes dela, construindo uma figura complexa por quem é impossível não se apaixonar e torcer — e novamente, o penúltimo episódio é uma amostra perfeita disso, com direito a um final lindo e emocionante que me deixou com lágrimas nos olhos. De outro lado, porém, Hannah Einbinder entrega uma Ava melhor do que nunca, a qual também é pontuada por suas contradições — a militância performática, a falta de noção, a ingenuidade e mais. Seu timing para o humor físico e constrangedor é certeiro (como não sentir dor física ao vê-la fazendo a pior proposta de casamento do mundo?), mas ela mais uma vez comprova sua latitude dramática, seja nos momentos em que aconselha Deborah (e é aconselhada de volta) ou na dor e indignação pungentes que revela no último episódio. Poderia falar muito mais de como o elenco da série é simplesmente maravilhoso, desde o principal até os convidados. Se por um lado vemos pouco de subtramas dos personagens como coadjuvantes, como Marcus (Carl Clemons-Hopkins, o único que senti um tanto subaproveitado na temporada), vemos aqui também uma evolução da dupla Jimmy (Paul W Downs) e Kayla (Megan Stalter), que, se antes era um ponto fraco da série — mais por causa dela do que dele —, agora se torna um dos seus pontos mais fortes, tanto pela química e dinâmica dos dois quanto pela forma como espelham a relação de Deborah e Ava, tanto nos altos quanto baixos. Com um final que me deixou de queixo caído e sedento pela próxima temporada, Hacks entrega não só sua melhor temporada, como também a minha favorita do ano. Se antes temíamos pelo encerramento de um ciclo, aqui deixamos na expectativa de para onde vai a dinâmica das duas protagonistas, que é mais uma vez renovada. Uma coisa é certa: quaisquer que sejam os riscos tomados por essa série, eu estou confiante de que ela nunca perderá a qualidade nem se quiser. Nota: 5/5

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