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- Crítica | Nada Será Como Antes - A Música do Clube da Esquina
Documentário aposta no seguro para contar história de icônico álbum da música brasileira Foto: Divulgação Considerado por muitos uma das melhores obras brasileiras de todos os tempos, o primeiro álbum do Clube da Esquina completou recentemente 50 anos de lançado. Para contar a história de como surgiu o disco, o documentário Nada Será Como Antes - A Música do Clube da Esquina se debruça no processo criativo dos músicos, incluindo lugares, pessoas e outras referências que influenciaram a criação das canções. Com a participação de Milton Nascimento, Lô Borges, Márcio Borges, Beto Guedes, Flávio Venturini e muitos outros músicos, o documentário dirigido por Ana Rieper mergulha na história dos artistas e no laço da amizade que construiu o movimento do Clube da Esquina na cidade de Belo Horizonte ao fim da década de 60. Lançado nos cinemas na última quinta-feira, 28, o documentário tem uma proposta mais imersiva nos afetos que permearam esses encontros até culminar na produção do primeiro disco em uma tentativa não de esmiuçar o detalhes da gravação, mas, entender de onde surgiram as inspirações para letras como Trem Azul e Um Girassol da Cor Do Seu Cabelo. Foto: Divulgação Ana Rieper consegue ambientalizar bem o telespectador naquela Belo Horizonte que se erguia nas proximidades de uma ditadura militar no país e tudo fica mais físico quando entendemos como a cidade é uma protagonista da história dos músicos, que misturaram as referências gringas da época com a experimentação solta de uma conversa entre amigos para criar música, sem pretensão nenhuma. O documentário aproveita também o carisma dos músicos, especialmente dos irmãos Borges, para também divertir com os causos e acasos da história dos dois com seus colegas. Milton Nascimento, por conta da pandemia, teve sua participação um pouco reduzida. Com 1h10 de projeção, quando o documentário acaba, a sensação é que ele poderia ter sido bem mais longo do que ele se propôs. Afinal, a criação do movimento do Clube da Esquina vai muito além do que foi mostrado. Sabe a série The Beatles: Get Back do Disney+? Minha impressão é que a história de Nada Será Como Antes - A Música do Clube da Esquina poderia ser algo nesse estilo. Quase 500 minutos para entender um dos álbuns mais icônicos de todos os tempos talvez nem seja tempo suficiente assim, mas pode nos apresentar nuances mais profundas, coisas que o documentário apenas nos mostrou pela sua superfície. Nota: 3,5/5
- Crítica | Evidências do Amor
Romance consegue se sair bem dentro do molde de roteiro cristalizado em que se insere Foto: Divulgação Marco Antônio (Fábio Porchat) e Laura (Sandy) se conhecem em um karaokê e cantam juntos "Evidências”. Desde então, eles se apaixonam e formam um casal que parecia perfeito. Depois de vários percalços no relacionamento, Marco é abandonado por Laura pouco antes do casamento sem entender os motivos pois sempre se julgou o noivo perfeito. A partir daí, coisas estranhas começam a acontecer com ele sempre que ouve a música do casal. É quase impossível que qualquer brasileiro que esteja lendo esse texto desconheça a música de José Augusto e Paulo Sérgio Valle, afinal, vivemos num período pós-meme dessa composição. “Evidências” foi a precursora de um movimento piadístico online brasileiro onde os internautas, buscando um reconhecimento um tanto irônico de uma música que sempre fora bastante popular, diziam que ela merecia se tornar o hino do país. De lá pra cá, várias outras canções passaram pela saturada brincadeira, sendo sua maioria músicas populares que não são cultuadas por suas erudições, no entanto, poucas conseguiram sair do âmbito virtual e se consolidar como uma gracinha de todos os públicos da vida real. Pois bem, o longa-metragem dirigido por Pedro Antônio parte de todo esse contexto da canção já como piada cansada para dar o ponta pé inicial da narrativa. Esse é um texto bem conhecido de loop situacional onde o envolvido precisa resolver alguma pendência para quebrar o ciclo, então o que vai fazer o filme se destacar é como essa história é contada. E o roteiro coescrito por Fabio Porchat consegue aproveitar bem tudo que o escopo permitia para tornar o discurso emotivo e engraçado nos momentos necessários, sem sobrecargas. Foto: Divulgação É fácil ver as referências usadas para desenhar esse filme, mas acredito que a divertida série Zoey e a sua Fantástica Playlist está intrínseca nas entrelinhas do roteiro, no uso da música como motivação dos acontecimentos, no emprego do protagonista e seu ambiente de trabalho, e na fantasia que não se assume como ficção científica (e nem precisa). Porchat também apresenta um bom resultado no protagonismo. Meus problemas com ele sempre vão: ser o tom por vezes exagerado; e a maneira sutil com que sempre está requentando alguns de seus gracejos; mas até mesmo nisso ele está contido e consegue dividir bem a atenção com seus desempenhos mais dramáticos. Não sei até onde o fato de Sandy ser filha de Xororó influenciou em sua escolha para o papel (e não falo de nepotismo, mas de uma brincadeira com o contexto), e seu talento musical é incontestável, porém, enquanto escrevo consigo pensar em pelo menos outras três atrizes que trariam mais química e entusiasmo à personagem. O elenco de apoio conta com a sempre impecável Larissa Luz, acho inclusive que já está passando da hora dela começar a aparecer como protagonista em mais projetos do cinema e da televisão. A versátil Evelyn Castro também ajuda bastante na construção das circunstâncias de humor. No final das contas a produção não deixa de ser uma homenagem e uma ressignificação à música tema e aos compositores e intérpretes. De certo modo deu até um frescor para a canção que diariamente toca à exaustão mundo à fora e que, no ligeiro interim pós-irônico em que estamos, pode perder seu brilho e sua força num piscar de olhos. Nota: 3,5/5
- Crítica | Zona de Interesse
O cotidiano dos vilões, visto de longe Foto: Divulgação Um filme tem um tempo limitado, usualmente não mais que 150 minutos, para nos contar (ou mostrar) toda uma história, do começo ao fim, passando pelo clímax e apresentando seus diversos personagens e cenários. É muita coisa para pouco tempo. Para otimizar cada segundo, o cinema se apropriou de um recurso conhecido da literatura: a alusão, isto é, a referência a algo externo ao filme. Ora, não se pode perder preciosos frames explicando algo que assume-se que o espectador já saiba. Imagina se todo filme natalino precisasse explicar o motivo cristão para a celebração do aniversário de Jesus. Não dá, né? Põe logo uma árvore iluminada no meio da sala e já entendemos do que se trata. É isso que pensou Jonathan Glazer, diretor e roteirista de Zona de Interesse. Só que ao invés de natal, é o holocausto, e no lugar da árvore, uniformes com suásticas e gritos de desespero. Sua intenção não é mostrar o sofrimento imensurável dos judeus, tampouco as atitudes perversas e covardes de Hitler e seus apoiadores. Ele sabe que já ouvimos e vimos essa história antes. Seu interesse é por algo que sequer passou pela nossa cabeça quando pensamos nesse período: o ordinário, o dia a dia de uma aparentemente comum família alemã. A maior parte do filme se passa na casa dos Höss. Em momento nenhum somos informados que atrás daqueles muros estão os campos de concentração de Auschwitz, mas sua presença é sentida – não importa o quando Hedwig (Sandra Hüller), esposa do comandante Rudolf (Christian Friedel), tente cuidar de sua casa e seu jardim para fazê-los aconchegante. Em uma passagem, ela chega a mencionar que está deixando crescer as plantas para que tapem as chaminés e suas fumaças, mas entendemos ser mais por uma questão estética que moral. Essa é a vida que o casal sempre sonhou. Rudolf tem um bom posto no exército, Hedwig conquistou o lar dos sonhos para criar seus cinco filhos. Dispõem de babás e empregadas domésticas, piscina, cavalo e até um barco novo. Nas folga, vão todos ao lago mais próximo. Uma vida bucólica, nem tão feliz nem tão triste. Perfeitamente normal. Foto: Divulgação É na quebra dessa trivialidade que está o mérito do filme. Enquanto a esposa toma chá e fofoca com as amigas, o marido conversa no cômodo seguinte sobre a forma mais eficiente de queimar centenas de milhares de seres humanos. Numa brincadeira entre irmãos, o mais velho aprisiona o mais novo na estufa de plantas e faz barulho de gás. Hedwig entra em seu quarto com um novíssimo casaco de pele… que por algum motivo tinha em seu bolso um batom usado. Não há culpa ou remorso. É o que é. Quando, ao caminho da escola, as crianças passam por fábricas de extermínio, é porque chegou-se num nível de cegueira moral difícil de compreender. Nos recusamos a aceitar que alguém pudesse banalizar o terror porque temos medo que possa acontecer com a gente. É nessa ferida que Zona de Interesse mexe, e continuará mexendo por muito tempo após os créditos rolarem. Quando optou por adaptar para as telonas uma das várias perspectivas trazidas no livro homônimo de Martin Amis, Glazer quis inovar não apenas na abordagem do tema: buscando se aproximar de uma estética do que chamam de “filme de arte”, toma decisões pouco convencionais na linguagem fílmica. A montagem é propositalmente lenta, passando exatamente a sensação de cotidiano que se pretende. As longas sequências são construídas por longas cenas de longos takes, quase sempre em planos médios ou gerais, meio como imagens de câmeras de segurança. Chuto que essa escolha se dá para evitar uma eventual identificação entre público e personagem, algo que estamos tão acostumados a fazer que talvez acontecesse instintivamente. Faz sentido na teoria, mas não tanto na prática. A todo tempo tinha a impressão de que, míope que sou, tinha ido ao cinema sem óculos, sem poder ver a riqueza de detalhes na construção do cenário que buscou reproduzir a casa da verdadeira família Höss, e menos ainda as nuances das atuações (que, portanto, não consigo qualificar adequadamente). Sequer sou capaz de dizer a cor dos olhos de um dos protagonistas. O mal estar visual agrava-se com a edição de cores lavadas na fotografia de Lukasz Zal. O design de som, por outro lado, é um primor. Contradiz tudo que nossos olhos nos informam, embalando a banalidade com um terror sonoro inquietante, por vezes interrompido por gritos de personagens desconhecidos. Nem barulhento demais a ponto de nos tirar a atenção, nem simples demais a ponto de nos deixarmos acostumados com o incômodo (como os moradores de Auschwitz), a união da trilha sonora de Mica Levi e da edição de som de Maximilian Behrens é um trabalho sofisticado, daqueles que se deve levar para as aulas de cinema. Pode ser o desagrado visual falando, mas a verdade é que, depois de um primeiro momento em que entendi, me surpreendi e amei a originalidade da abordagem do filme, fiquei esperando um grande evento que justificasse os meus próximos 100 preciosos minutos naquela poltrona vermelha. Não veio. Me lembrei de quando vi Boyhood (Olha! Também sei fazer alusão!) e questionei por que assistir a uma vida corriqueira se, ordinária por ordinária, já vivo a minha. Claro, não é como se o cotidiano dos Höss tivesse qualquer semelhança com o meu. Só que a intenção do diretor foi justamente criar essa banalidade ao horror logo no início do filme, e, para bem ou para mal, o faz perfeitamente, deixando os demais atos um tanto quanto monótonos – adjetivo que jamais deveria ser usado num filme sobre o tema. Nota: 3/5
- Crítica | True Detective: Terra Noturna (4ª temporada)
Em sua melhor temporada desde a primeira, a série honra seu legado com uma identidade própria Foto: Divulgação Quando estreou dez anos atrás, True Detective foi sucesso imediato de crítica e público e não foi à toa. Estrelada por Matthew McConaughey e Woody Harrelson, a temporada foi excelente e marcou época, logo sendo transformada em uma série antológica pela HBO. As duas que vieram em seguida, no entanto, não conseguiram fazer jus à franquia. A segunda foi uma bagunça pretensiosa, que só foi tomar forma nos últimos episódios e com um resultado nem tão interessante assim, mesmo com um ótimo elenco encabeçado por Colin Farrell, Rachel McAdams e Vince Vaungh. Me pareceu que Nic Pizzolato, o então showrunner, queria fazer o famigerado “filme de oito horas” e esqueceu que na primeira, ele fez televisão de qualidade. A terceira, estrelada por Mahershala Ali, foi boa, mas não mais que isso e pouco memorável, tanto que a série ficou no limbo até o anúncio desta nova leva de episódios. Finalmente chegamos à quarta, intitulada Terra Noturna, que deu um novo fôlego à antologia, sob o comando de Issa López, e tendo Kali Reis e a vencedora do Oscar Jodie Foster como protagonistas. Desta vez, estamos em Ennis, uma pequena cidade do Alaska, onde um grupo de oito pesquisadores desapareceu. A patrulheira Evangeline Navarro (Reis), tenta convencer a detetive Liz Denvers (Foster), que o caso está ligado ao assassinato não solucionado de uma ativista local chamada Annie K (Nivi Pedersen), que ocorreu há seis anos. Com uma trilha sonora carregada de Billie Eilish – que combina perfeitamente com o tom adotado aqui – e ambientada durante os quinze dias de noite, fenômeno natural onde não há qualquer luz solar, a temporada possui uma atmosfera gélida e sombria, e se antes, em seu ano de estreia, houve um flerte com o sobrenatural, López resolveu o abraçar de vez o terror, onde a cinematografia soturna contribui ainda mais na imersão. Excelente escolha, que trouxa uma renovação necessária e cria uma identidade própria, sem que desonre a premissa original da produção, que tem um foco essencial na complexidade de seus personagens, para além do caso investigado. Foto: Divulgação A essência de True Detective, e o que a destaca estre tantas outras séries e minisséries do gênero policial, é justamente este estudo mais aprofundado de seus protagonistas, e aqui não poderia ser diferente. Denvers e Navarro são duas mulheres distintas em tantos aspectos, mas igualmente cheias de camadas. Teimosia, coragem, problemas familiares e perdas traumáticas não são exatamente novidades quando se fala em seriados do tipo, mas a forma como a direção e o roteiro escolhem lidar com eles é crucial para que não seja mais do mesmo. Ainda que parta destes clichês, o desenvolvimento consegue emocionar. Jodie Foster está simplesmente irretocável no papel da chefe policial veterana, que sempre quer se fazer de durona pelos calos que a vida já lhe deu, mas quando finalmente se permite confiar em alguém, se desarma um pouco. Kali Reis, fantástica também, usa da sua força física para excomungar seus traumas e sua própria crise de identidade. De origem indígena, a moça pouco sabe de sua ancestralidade e isto está diretamente conectado com vários temas abordados durante os seis episódios. Ainda temos excelentes coadjuvantes que merecem destaque, como Finn Bennett, na pele do policial novato Peter Prior, que tem uma admiração enorme por Liz e uma certa ingenuidade que vai sendo moldada com o passar do tempo. O ator está ótimo com toda a confusão mental em que seu personagem se encontra em determinado ponto, principalmente nas cenas que divide com John Hawkes, que faz seu pai Hank, também policial e desafeto de Denvers. E Fionna Shaw, maravilhosa no papel da misteriosa Rose Aguineau, que poderia ter aparecido mais. Não é que a série a tenha deixado de lado, mas é sempre bom ver Shaw em cena. Em meio ao caos da investigação, terror, da ação, das reviravoltas, e dar a devida atenção a seus personagens, poderia parecer que a narrativa não sabia aonde queria chegar. Leve impressão inicial, pois com uma direção segura e os belíssimos diálogos de Issa López e sua equipe de roteiristas, tudo culmina no espetacular episódio final. Carregado de suspense e tensão, enquanto Denvers e Navarro atravessam corredores congelados e claustrofóbicos, López brinca com as expectativas do telespectador ao começar a desvendar o caso. Enquanto as detetives juntam as peças, desabafos verdadeiros vão acontecendo quando elas finalmente se encontram prontas para enfrentarem seus fantasmas – com o perdão do trocadilho –, o que dá dignidade para toda a construção que vimos das duas até ali. Com o quebra-cabeça faltando poucas peças, a principal já estava na mesa e não poderia ser mais satisfatória e surpreendente. Se conecta com as várias tramas da temporada de maneira imprevisível, mas não só pelo choque gratuito, e sim porque faz sentido, ainda mais em uma temporada protagonizada por mulheres, que versa tanto sobre ciência e o sobrenatural. A cena final é linda e ambígua, deixando margem para várias interpretações, como a série sempre fez. Há algumas perguntas deixadas sem resposta, mas o que é a vida sem um pouco de mistério? O que é a arte sem nos deixar questionamentos? Nota: 4,5/5
- Crítica | Garra de Ferro
Luta, dor e encenação Foto: Divulgação Em seu mais novo filme, o diretor Sean Durkin embarca no universo da luta livre e explora a história da família Von Erich. Liderados pelo pai Fritz Von Erich (Holt McCallany) e pela mãe Doris Von Erich (Maura Tierney), os irmãos Kevin (Zac Efron), Kerry (Jeremy Allen White) e David (Harris Dickinson). Juntos, os irmãos são pressionados a cumprir o legado de seu pai trazendo para casa o título mundial de luta livre, e na busca por esse objetivo eles precisam lidar com uma "maldição" que os atormentou ao longo de vários anos. Por se tratar de um filme que aborda a luta livre, certamente ele possui dezenas de cenas no ringue, e a forma que Durkin filma essas cenas flertando com a teatralidade do wrestling e optando por dosar muito bem um sentimento de melancolia ao manifestar a dor em meio a diversão. Se O Lutador (2008), de Darren Aronofsky expõe os extremos entre a vida de lutador e o mundo real de um personagem em decadência, Garra de Ferro tem o seu foco nos diferentes tipos de oponentes que são enfrentados pela família Von Erich, seja a masculinidade, a tradição ou a frustração. Um dos grandes méritos do filme é como ele reverencia e traça um paralelo com o aspecto da encenação que é utilizado na luta livre. Quando vemos Kevin demorando a se levantar ao ser derrubado no ringue a fim de convencer o espectador de forma dramática, ele pode estar encenando tanto para o torcedor do ringue quanto para o espectador do filme, de modo que também somos provocados a imaginar a encenação em cenas fora do ringue. Além de testemunharmos os lutadores combinando movimentos e coreografias antes da luta, Garra de Ferro mantém firme o método que é conhecido como "kayfabe", que é o entendimento implícito entre os lutadores e os fãs de que os eventos encenados e roteirizados devem ser aceitos como reais. E isso é cinema em sua mais pura essência. Foto: Divulgação Temos como um dos principais oponentes dos nossos lutadores, a masculinidade tóxica com o pai Fritz Von Erich como a personificação disso, em que os homens da família vivem refém dessa ideia patriarcal que dita toda a criação dos Von Erich. Como se o pai quisesse descarregar toda a sua frustração nos filhos e que todo o seu objetivo de vida está resumido em criar esse legado de campeões. De forma que eles são privados de demonstrar fragilidade e até mesmo de chorar à medida que uma nova tragédia comete a família, pois eles foram criados com a ideia de que “Homem não chora”, como diz o próprio Kevin com os olhos cheios de lágrimas em determinado momento do filme. Além de apresentar através de plano-detalhe o que se assemelha ao que atualmente são as famílias americanas que vivem os ideais trumpistas, como é visto na cena em que é mostrado um grande arsenal de armas expostas em vitrine na sala de casa. Esses elementos são apresentados ao espectador enquanto a direção parece tomar uma postura de distanciamento em relação a esses personagens, o que acaba funcionando bem em seus momentos mais melodramáticos quando estão fora dos ringues. E são nessas nuances que percebemos pequenos detalhes como a masculinidade autoritária de Fritz, que pede demais de seus filhos e os coloca uns contra os outros; o estoicismo religioso tóxico de Dotty; o amor fraternal que os mantém unidos independente do que aconteça. E em meio a tudo isso o filme caminha até uma procissão de catástrofes, na qual tanto o espectador como os personagens são incapazes de sofrer por muito tempo, pois é preciso se colocar no lugar novamente para dar continuidade ao sonho do pai, pois é tudo o que importa aqui. É uma situação trágica, porém familiar para muitos garotos criados em um ambiente de masculinidade tóxica. Foto: Divulgação Os filhos são obrigados a competir pela atenção do pai. Quando Kevin falha na luta livre, David se torna um candidato ao título mundial, enquanto o sonho olímpico de Kerry acaba e ele assume o esporte favorito de Jack. O desafortunado Mike apenas deseja tocar música com seus amigos em uma banda, enquanto os outros irmãos fazem o máximo para realizar esses sonhos. E nisso eles persistem em castigar seus corpos e reprimir qualquer sentimento de raiva, ressentimento, fracasso e o temor de desapontar o pai de várias maneiras. Um deles se recusa a admitir que suas lesões relacionadas ao esporte são sérias, mesmo após vomitar sangue na recepção do casamento de Kevin. Outro recorre ao álcool para lidar com as consequências devastadoras, lutando para escapar do controle mental exercido pelo pai. Até Mike que até então tinha vocação pra música se vê dentro do ringue, ainda que por um breve momento. A direção de Durkin garante que o amor compartilhado pelos irmãos Von Erich seja genuinamente palpável por quem assiste. Existe um afeto profundamente genuíno entre eles, um amor profundo pela luta livre e, sobretudo, uma devoção pela. A luta livre representa uma fuga da repressão, uma maneira de liberar inseguranças profundas e explorar oportunidades que lhes foram negadas. Pelas lentes de Durkin, os espectadores podem contemplar a paradoxal realidade da luta livre profissional - um espetáculo que é simultaneamente teatral e esportivo, artificial e autêntico, e frequentemente mais seguro dentro do ringue do que fora dele. Garra de Ferro tem estreia marcada nos cinemas para o dia 7 de março. Nota: 4/5
- Crítica | Ferrari
Michael Mann mostra como se faz uma cinebiografia de verdade Foto: Divulgação O cinema de Michael Mann é composto por homens movidos por seus princípios, conflitos e paixões; ou como li mais cedo num ótimo texto de um colega crítico, homens que defendem sua moral a unhas e dentes não importa de que lado estejam. Estes homens são também definidos pelo que há de mais trágico na masculinidade tóxica, seja na incapacidade de constituírem relações afetivas ou na maneira como são tragados por sua própria moral mesmo quando o mundo não funciona moralmente. À primeira vista, Ferrari não parece um típico filme do diretor, pelo menos não na visão daqueles que os conheceram através de obras como Fogo Contra Fogo, Colateral e Miami Vice. Mas não apenas biografias são comuns na filmografia do diretor – vide O Informante e Ali – como em apenas alguns minutos do seu novo longa já vemos o suficiente de Enzo Ferrari (Adam Driver), bem como de seu poder, suas contradições e dilemas, para compreender como o personagem se junta à galeria de protagonistas masculinos dessa filmografia. E para dar vida a esse homem e suas contradições, Mann adota uma abordagem que (graças a Deus) foge à cartilha e os lugares-comuns que superabundam nas cinebiografias contemporâneas. No lugar de filmar um roteiro que tenta condensar em pouco mais de duas horas um artigo da Wikipédia sobre Enzo e não se aprofunda em nada sobre ele, o filme segue um momento específico da sua vida – o ano de 1957 – para nos dizer tudo que se precisa saber a seu respeito: o poder que ele emana sobre outras pessoas ao seu redor; o quão diminuto se vê diante da enlutada e amargurada esposa Laura (Penélope Cruz); o luto que também sofre pela perda do filho, um ano antes; quão relaxado se vê quando está com a sua “outra” família (Shailene Woodley e Giuseppe Festinese); as lutas que enfrenta para conciliar a vida profissional e pessoal; e tanto mais. Foto: Divulgação Assim, ao optar por um recorte que nos dá o devido aprofundamento neste personagem e o que o cerca, Mann evita a verborragia didática e os saltos temporais mal-formulados que tanto têm acometido o gênero conforme ele é produzido à exaustão em Hollywood. Mas o diretor vai além: em Ferrari ele incorpora até mesmo elementos do melodrama, seja na composição da personagem de Cruz (que, como em outra crítica que vi, conduz um retrato próximo das matronas italianas de clássicos do país), na trilha sonora operática de Daniel Pemberton, nos sotaques “macarrônicos” dos personagens e até mesmo nas surpreendentes inserções de humor. Diante dessas escolhas pouco usuais (embora nada surpreendentes para quem acompanhe sua filmografia), é fácil entender porque o filme passou despercebido na temporada de premiações. O que é uma pena, visto que o filme entrega alguns dos melhores trabalhos do ano passado em departamentos técnicos como o som. Claro, é algo esperado sendo um filme que envolva carros e corridas, mas a maneira como Mann constrói uma imersão sonora (e também visual, junto ao diretor de fotografia Erik Messerschmidt) nos coloca diretamente junto a Ferrari e os homens que dirigem para ele, como Alfonso De Portago (Gabriel Leone, tendo um ótimo tempo de tela), Peter Collins (Jack O’Connell) e Piero Taruffi (Patrick Dempsey). São homens movidos pelas pulsões de vida e morte, e o filme não se faz de rogado em mostrar o quanto a morte os cerca – não apenas no luto de Enzo e Laura, mas também em trágicas sequências de acidentes, sendo que aquela que ocorre no clímax é tão brutal e chocante que toda a sala de cinema onde assisti o filme se viu imersa num silêncio sepulcral. Ainda que não chegue a administrar tão equilibradamente os lados pessoal e profissional do seu protagonista (e o CGI pode ter uma razão em incomodar, embora sirva muito bem aos propósitos do filme), Ferrari se ajusta perfeitamente ao que Michael Mann vem trabalhando em sua carreira desde os anos 1980, temática ou formalmente. Não importa se seus personagens são homens do mundo do crime, policiais ou poderosos empresários do ramo automobilístico, os homens “Mannescos” são retratos impressionantemente acurados dos efeitos nocivos e complexos da masculinidade tóxica, muitas vezes quebrados por dentro enquanto impõem a aparência do poder e controle. Portanto, é mais um acerto de um diretor que considero um dos meus favoritos. Nota: 4/5
- Crítica | Os Rejeitados
A previsibilidade como força num caloroso estudo de personagens e suas solidões Foto: Divulgação Não há armadilhas ou surpresas em Os Rejeitados. Diria, aliás, que parte da força do filme reside justamente em nos contar uma história tão velha quanto o próprio cinema: o encontro de almas solitárias que desenvolvem afinidades e conexões que perdurarão para toda a vida, mesmo que seus caminhos não mais se encontrem. E o cinema não é mais sobre como se diz do que o que se diz, no fim das contas? É justamente por entender que não vai revolucionar uma premissa tão básica que Alexander Payne pega o roteiro de David Hemingson e o transforma num dos grandes filmes do ano passado. Payne nos leva a um internato na Nova Inglaterra em 1970, onde o professor Paul Hunham (Paul Giamatti) recebe a infeliz tarefa de monitorar os alunos que precisarão passar o recesso de Natal e Ano-Novo na escola, incluindo dentre eles o arredio e rebelde Angus Tully (Dominic Sessa). Eventualmente, restam na escola apenas os dois e a cozinheira Mary Lamb (Da’Vine Joy Randolph), que vive o luto após a perda do filho na Guerra do Vietnã. Não é nenhum spoiler dizer o que acontecerá a seguir. É óbvio que duas figuras tão contrastantes como Paul e Angus logo descobrirão que tem mais em comum do que imaginam e a relação tempestuosa dos dois se transformará. Mas acredite, contar isso não estraga nem um pouco da experiência deliciosa que é Os Rejeitados. Mesmo em meio ao frio e à neve do fim de ano estadunidense, Payne entre um longa caloroso e cheio de sensibilidade e intimidade, conforme mergulha em suas três figuras centrais. Mesmo que o filme nos mostre outros personagens (o primeiro ato parece até uma espécie de Clube dos Cinco antes que uma divertida reviravolta aconteça), são Paul, Angus e Mary – e, é claro, seus intérpretes – quem sustentam e dão vida à obra. É admirável a maneira como o diretor não se limita apenas à ambientação e recorte temporal, mas a integra organicamente à narrativa, fazendo um filme que se porta como uma legítima obra setentista – especialmente através da fotografia de Eigil Byrd, que confere uma textura deliciosamente retrô à imagem da obra, além de transições de cenas e enquadramentos dos personagens que nos aproximam ainda mais das produções da época. Justamente por nos situar nesse período, o longa parece evitar um certo cinismo que rodeia o cinema contemporâneo, optando por uma genuína apresentação dos sentimentos que permeiam esses personagens, mesmo quando são os mais duros e erráticos possíveis. Foto: Divulgação Sim, porque Paul e Angus não são personagens fáceis, e à primeira vista as tensões entre os dois explodem por uma série de razões. Mas é fascinante observar a maneira como o filme os desnuda, provocando uma dinâmica repleta de conexões à medida em que se aproximam. Paul Giamatti e Dominic Sessa (este um estreante, o que é ainda mais notável) eficazmente dão vida a essas figuras complexas e falhas, nos convencendo a cada minuto da gradual relação de mentor-protegido que se forma entre os dois. E o melhor de tudo é ver a naturalidade com a qual essa relação se constrói, sem arroubos sentimentalistas e melodramáticos típicos de obras do gênero, que preferem tomar atalhos a realmente desenvolver seus personagens. É uma pena que esse mesmo espaço não seja reservado a Mary, que parece sempre tangenciar a relação dos dois homens como uma figura periférica, mesmo que em tese tenha sua própria história. Não há dúvidas do quanto Da’Vine Joy Randolph está maravilhosa e comprometida com o papel, especialmente por conferir à personagem uma abordagem do seu luto que também foge dos clichês, mesmo que sua dor seja palpável. Mas me parece que em alguns momentos o filme não sabe o que fazer com ela, como se esta não fosse a história dos três, mas sim de dois onde ela ocasionalmente toma parte. Esse, porém, é um pequeno contratempo num longa que se sobressai por uma série de razões. Afinal de contas, mesmo que trilhe caminhos óbvios na sua narrativa (mas não necessariamente na sua execução), Os Rejeitados nos relembra que a solidão é tão atemporal quanto as conexões humanas. Descobrir o prazer de se entranhar com o outro e forjar laços que nos marcam por toda a vida é uma experiência única, e que satisfação ver um filme que entende a beleza que há nesse processo, conferindo esse mesmo prazer em sua forma cinematográfica para nós, espectadores. Nota: 4,5/5
- Crítica | Duna: Parte Dois
Um espetáculo cinematográfico que nos alerta para os perigos do fanatismo Foto: Divulgação A jornada para se adaptar Duna (1965) para as telas foi árdua e repleta de contratempos. Do filme inacabado de Alejandro Jodorowsky nos anos 1970, passando pela criticada adaptação de David Lynch em 1984 e a minissérie do canal Sci-Fi em 2000, parecia que o livro jamais receberia a versão que merecia. Eis que Denis Villeneuve, consolidado na ficção científica após A Chegada e Blade Runner 2049, recebeu a incumbência de levar a obra mais uma vez ao cinema, dessa vez em duas partes. Se a habitual esterilidade e frieza do diretor foram alvos de algumas críticas, certamente não impediram que o primeiro Duna (2021) fosse um sucesso notável no período pandêmico e ainda ganhasse 6 Óscares, garantindo sem problemas a produção de sua sequência. Contudo, é curioso notar que, mesmo que seja uma continuação direta do primeiro filme, Duna: Parte Dois se revele distinto em tantos aspectos. Não é que Villeneuve abra mão do seu estilo ou faça concessões aos seus detratores, mas é perceptível aqui como o diretor refina mais certos pontos (em especial as lutas corpo a corpo) e integra mais da estranheza do universo de Duna (que só foi potencializada nos romances subsequentes) para criar um blockbuster que é uma verdadeira anomalia, provando como os arrasa-quarteirões ainda merecem seu espaço no cinema sem precisar se render à produção fordista de estúdios como a Marvel. Afinal de contas, Duna sempre foi sobre colonialismo, fanatismo religioso e ecologia, nunca escondendo sua crítica feroz ao tropo do salvador branco (e isso já nos anos 1960!). Aqui, Villeneuve intensifica ainda mais sua crítica, trabalhando habilmente a ambiguidade que cerca o protagonista Paul Atreides (Timothée Chalamet) conforme ele e sua mãe Jessica (Rebecca Ferguson) se juntam aos Fremen, o povo nativo do planeta Arrakis/Duna para enfrentar seus inimigos históricos, os Harkonnen, bem como o próprio imperador (Christopher Walken). Retrabalhando as dinâmicas entre os personagens – em especial a relação de Paul com Chani (Zendaya) – e até as aprofundando em certos pontos, o diretor nos mostra o perigo de um messias fabricado que, mesmo que até chegue a lutar contra esse papel, inevitavelmente se mostra mais perigoso do que seus próprios algozes, conforme seu papel messiânico é abraçado pelos fervorosos nativos (mesmo que ele seja, no fim das contas, um estrangeiro). Em certa medida, a Parte Dois toma o caminho inverso da Parte Um: se esta parecia perder o brilho aos poucos após o ataque dos Harkonnen aos Atreides, culminando num final duramente criticado por seu anticlímax – mesmo que fizesse sentido para a jornada de Paul –, aqui Villeneuve apenas vai intensificando o tom da obra sem perder a mão. O senso de escala descomunal desse universo permanece firme e forte (e não à toa duas das melhores cenas do filme envolvem os monstruosos vermes da areia), mas é na maneira como o filme trabalha o arco do protagonista que ele realmente brilha. Foto: Divulgação Nesse sentido, Timothée Chalamet crava de uma vez por todas que é um dos maiores, senão o maior ator de sua geração. Sempre considerei muitas das críticas ao ator e sua suposta “cara de bunda” bastante infundadas, e tendo reassistido o primeiro filme recentemente ficou claro a maneira como ele progressivamente desenvolve as nuances do personagem. Aqui, porém, Chalamet se supera em diversos aspectos, abraçando a dualidade do seu personagem e a maneira como ele constrói uma presença magnética que não apenas conquista os Fremen, mas também a nós espectadores. Em particular, a última hora do filme é talvez o melhor momento da carreira do ator, já que ele assume uma gravidade e poder devidamente assombrosos. A relação entre ele e Chani é fundamental para que que a história assuma um fundo mais trágico, e um dos melhores acertos do filme é expandir a personagem de Zendaya de um mero interesse amoroso para uma figura com uma agência própria, que serve de consciência e contraponto às decisões de Paul. Diria até que há um quê de Michael e Kay Corleone, de O Poderoso Chefão, na relação dos dois, o que é mais evidente pela forma como Chani encara o homem que ama ao final. Além de Chalamet e Zendaya, o grande destaque do filme fica por conta de Ferguson, que confere um caráter absolutamente maquiavélico à sua Jessica, na maneira como ela tem um papel essencial de difundir a figura messiânica do filho entre os Fremen, como uma espécie de Lady Macbeth sussurrando manipulações aos ouvidos do protagonista e de todos à sua volta, mesmo com as melhores intenções em mente. O restante do elenco, ainda que não chegue a ter o mesmo peso em tela, certamente abrilhanta: Javier Bardem rouba cada cena com seu fanatismo divertido (até não ser mais divertido); Josh Brolin tem uma reintrodução tardia demais para o meu gosto, mas serve como um importante elo do passado de Paul que guia o personagem em direção ao seu futuro sombrio; e Austin Butler, ainda que possua um bloco de introdução que se estende mais do que precisava, também é outro ladrão de cena que interpreta uma figura psicopata que não poderia estar mais distante do seu Elvis Presley (embora apresente um trabalho de voz tão afetado quanto). Ainda assim, é perceptível que alguns nomes do elenco estão ali mais para serem introduzidos em vista de possíveis sequências, como é o caso de Florence Pugh, Léa Seidoux e Anya Taylor-Joy. Não é exatamente um problema, mas também não deixa de ser uma certa subutilização de três atrizes talentosas. Duna: Parte Dois traz de volta tudo que funcionou tão bem no primeiro filme – a direção de arte grandiosa, a trilha sonora poderosa de Hans Zimmer, a fotografia de Greig Frasier que revela tanto da magnitude desse mundo. Contudo, incorpora mais das bizarrices que fazem o universo de Duna ser tão único (seja um planeta em preto e branco ou bebidas lisérgicas feitas de sangue de vermes de areia), mostrando que Villeneuve estava disposto a expandir seu estilo para tornar esse blockbuster ainda mais distinto. Com um final que pode parecer triunfante, mas possui grandes contornos de tragédia, o diretor mostra que conseguiu o que parecia impossível: entregar uma adaptação que não apenas faz jus ao impacto que o livro original teve na ficção científica (e até o supera em certos pontos), mas também entregar o seu equivalente no cinema, um espetáculo fílmico que não esconde de nós os lados mais sombrios da humanidade. Nota: 4,5/5
- Crítica | Mestres do Ar (Minissérie)
Espetáculo no céu, decepção na terra. Foto: Divulgação Produzida por Steven Spielberg, Tom Hanks e Gary Goetzman, os mesmos nomes por trás das aclamadas Irmãos de Guerra (Band of Brothers) (2001) e O Pacífico (The Pacific) (2010). Baseada no livro homônimo de Donald L. Miller, desta vez, o foco está nos aviadores do 100º Grupo de Bombardeiros, que arriscaram suas vidas durante a Segunda Guerra Mundial. Diferente das suas minisséries “irmãs” citadas acima, a HBO largou o projeto de Mestres do Ar em 2013, alegando o alto custo da produção. Os produtores então, encontraram uma nova casa no Apple Tv+, que arcou com os 250 milhões de dólares que custaram os nove episódios, segundo o The Hollywood Reporter. O gasto investido é notório em cada uma das nove partes, mas só isso não é o suficiente para se ter qualidade. Os showrunners John Orloff e John Shiban tentam guiar seus roteiros pelos ideais de irmandade, coragem, perdas e vitórias, mas da maneira mais rasa possível. Em destaque temos os personagens Major Gale “Buck” Cleven (Austin Butler), Major John “Bucky” Egan (Callum Turner), o Tenente Harry “Croz” Crosby (Anthony Boyle), o Tenente Curtis Biddick (Barry Keoghan) e o Major Robert “Rosie” Rosenthal (Nate Mann). Sim, temos dois homens que se chamam Buck e Bucky, inúmeras piadas – sem graça – com isso e um certo protagonismo pouco merecido. O principal problema aqui é a falta de desenvolvimento dos personagens e estes dois são a prova disso. Em diversos momentos é frisado como eles podem ser amigos se são tão diferentes. Bucky é mulherengo, enquanto Buck só pensa em voltar para sua amada. Bucky é um grande fã de beisebol e apaixonado pelos Yankees, enquanto Buck não liga para esportes. É basicamente isso. São múltiplas cenas de diálogos que parecem muito mais repetições do que evolução. Somente reafirmam o que já sabíamos, mas não aprofundam coisa alguma. Foto: Divulgação Cito os dois como exemplo, mas é uma dificuldade do texto como um todo. Um dos pontos altos de se ter uma narrativa de nove horas é justamente criar um vínculo entre o espectador e aquelas pessoas que estamos acompanhando semana a semana. Esta conexão intensifica nossas emoções, mas a minissérie não aproveita bem o seu tempo. Retrata a Segunda Grande Guerra, um dos eventos mais tristes do mundo, então naturalmente o olho enche d’água em um segmento ou outro, mas poderia ser muito mais, principalmente quando quer se vender como uma “irmã” de Irmãos de Guerra (Band of Brothers). Os personagens que chegam mais perto de oferecer alguma complexidade em seus arcos são Croz e Rosie, que trazem alguns questionamentos pertinentes em determinada altura. No entanto, não é nada que já não tenha sido feito antes e de uma maneira melhor no gênero. Boyle e Mann, se destacam também pelas atuações, assim como Turner, que mesmo tendo um Bucky superficial em mãos, possui o carisma necessário. Já Butler, ainda parecia estar na transição de Elvis, e está simplesmente apático. E Keoghan, vale dizer, também é capaz de fazer muito mais do que o que entrega aqui. Onde o roteiro peca, a direção se sobressai. Cary Joji Fukunaga dita o tom no comando dos quatro primeiros episódios e principalmente nas espetaculares sequências de batalha, onde o senso de urgência e a tensão latente são quase palpáveis. Muito do que é mostrado se passa dentro dos aviões, geralmente ocupados por cinco ou seis soldados e com muita coisa acontecendo tanto ali dentro, como nos céus ao redor, é impressionante como nada fica perdido na nossa visão e a experiência se torna ainda mais imersiva. Ryan Fleck e Anna Boden, Dee Rees e Tim Van Patten se dividem na direção das outras partes (como são intitulados os episódios aqui), seguindo com segurança a linha de Fukunaga. Auxiliados por uma fotografia hipnotizante e um design de produção que faz uma ambientação impecável dos cenários internos e externos, a minissérie é um alento para os olhos, assim como efeitos especiais quase imperceptíveis e uma maquiagem extremamente verossímil. A trilha sonora acompanha a grandiosidade pretendida, portanto nestes aspectos, não há defeitos. Infelizmente não é o bastante para televisão de qualidade. Na minha visão, há uma tentativa de ser cinematográfica. Não há nada de errado com isso, desde que não se esqueça de um dos pilares centrais de uma produção televisiva: os personagens. Então, se no ar eles são mestres, na terra nós mal sabemos quem são. Os episódios seguem uma fórmula redundante onde um sempre se assemelha ao outro e só é possível diferenciá-los quando os cenários mudam um pouco. E de novo se repetem. Nos quatro primeiros vamos sendo apresentados aqueles homens, sempre com as mesmas dinâmicas, na segunda metade destas quatro horas temos as belas cenas de ação. O artifício do “soldado perdido da frota” é usado de um jeito instigante de início, porém depois é empregado como uma possível reviravolta que pouco surpreende. Há uma mudança quando alguns personagens são presos em campos de concentração, entretanto são vários planos de fuga e pouca execução, até que seja conveniente, e de novo, tudo parece o mesmo episódio. A última hora é tomada por um datado senso de patriotismo norte-americano com músicas tristes e crianças emocionadas. Não há dúvidas que aqueles homens foram heróis, mas se o intuito da minissérie era dar voz a eles para que não fossem esquecidos, fez um trabalho pífio. Ainda passa longe de ser “inassistível”, mas para algo que queria ser lembrada como uma “parente” de Irmãos de Guerra (Band of Brothers), teria que comer muito arroz com feijão. Visualmente rica, mas emocionalmente vazia. Uma pena. Nota: 3/5
- Crítica | Magnatas do Crime (1ª temporada)
Uma série divertida e satisfatória que é a cara de Guy Ritchie, para o bem e para o mal Foto: Divulgação Guy Ritchie virou mestre em contar histórias de criminosos ou, no mínimo, trambiqueiros, e eu, desde Snatch: Porcos e Diamantes, sempre vou conferir. Gosto muito do filme homônimo de 2019 com Matthew McConaughey, então já fiquei animado quando ouvi falar desta série mês passado. Desta vez, o foco está em Eddie Horniman (Theo James), um aristocrata inglês que acaba de herdar uma propriedade da família, para desespero de seu irmão mais velho, Freddy (Daniel Ings). Pouco depois, Eddie recebe a visita de Susan Glass (Kaya Scodelario), e é aí que seus problemas começam: há uma plantação ilegal de maconha em suas terras, que faz parte de uma sociedade entre o pai falecido de Eddie, e o milionário Bobby Glass (Ray Winstone), pai de Susan. Agora, Eddie precisa adentrar neste mundo do crime sem saber muito bem onde se encaixa, mas com a ajuda de Susan, as coisas parecem dar certo. No entanto, conhecendo Guy Ritchie e sua fórmula, nada dá certo por muito tempo. Portanto, é bacana pois deixa a trama mais ágil, mas ao mesmo tempo, fica um pouco cansativo nos três primeiros episódios porque o artifício usado é o mesmo: Freddy fez algo que não devia. É a única função do personagem, o que irrita bastante e não consegue trazer o humor que deveria. Não é culpa do ator, que faz o que pode com o texto que tem. É inegável que Ritchie carrega uma identidade própria e dita o tom dirigindo e escrevendo os dois episódios iniciais, atuando como showrunner, conseguindo deixar a série muito elegante e o nome não é à toa. Os personagens exalam a riqueza que têm através dos belíssimos figurinos, assim como a direção de arte, que não economiza nas luxuosas locações externas e internas. É a aristocracia inglesa sendo retratada ali, então não só tem que ser caro, como tem que parecer caro. Foto: Divulgação A produção se equilibra entre o formato tradicional da Netflix e o episódico. Em cada um dos oito episódios há uma, digamos, missão – ou complicação – para nossa dupla protagonista resolver, ou seja, uma trama com começo, meio e fim, porém são peças de um enredo maior. Nem todas as missões são tão interessantes assim, mas a dinâmica de Eddie e Susan deixa tudo mais palatável. Mesmo que nem sempre eles estejam juntos, os dois personagens são bem desenvolvidos durante a temporada para que possamos nos apegar a eles, inclusive porque não sabem se podem confiar um no outro. Theo James foi uma escolha de elenco muito acertada, ele tem uma elegância e imponência que Eddie necessita, e mesmo quando parece não saber sair de uma situação, ele consegue dar algum jeito. A princípio, a Susie de Kaya Scodelario parece ser mais fria e racional, sempre preocupada com a aparência impecável e com uma excelente aptidão para os negócios. Porém, aos poucos ela vai mostrando suas vulnerabilidades, principalmente no que concerne ao seu irmão. O elenco, no geral, é ótimo. Giancarlo Esposito (Breaking Bad/Better Call Saul) aparece menos do que eu gostaria, mas faz parte do enigma do seu Stan Johnston com T., e Joely Richardson é a mãe de Eddie e Freddy, e parece estar adorando cada segundo no papel, assim como Vinnie Jones, que faz Geoff, o fiel ajudante da família. As reviravoltas não são, exatamente, imprevisíveis, mas funcionam. É uma série que não vai mudar sua vida e nem tem essa pretensão. Assim como na maioria dos seus filmes, Guy Ritchie só quer entreter e aqui ele consegue fazer isso muito bem com seus planos mirabolantes e diálogos rápidos. O ritmo é dinâmico e mesmo que os dois primeiros episódios tenham mais de 1h de duração, os outros seis têm pouco mais de 40 minutos, deixando tudo ainda mais fluido. Ação e violência não faltam, embora apareça mais sangue do que mutilações gráficas, vale dizer, o que eu considero outra escolha certeira de Ritchie, já que o impacto é sentido, mas neste caso não precisou ser visto. Os protagonistas são carismáticos e a química é inegável. Se vai evoluir para um possível romance, o tempo dirá. E ainda que o episódio final resolva os vários dilemas principais da temporada, ainda sobra brechas há serem desenvolvidas, mostrando que há mais histórias a serem contadas, seja nos negócios ou no prazer, como bem afirma o próprio Eddie em determinada cena. Nota: 3,5/5
- Crítica | Kung Fu Panda 4
Mesmo com ação e comédia ainda no ponto, o texto repete o passado Foto: Divulgação Depois de três aventuras arriscando a vida para derrotar os mais poderosos vilões, Po, o Dragão Guerreiro é escolhido para se tornar o Líder Espiritual do Vale da Paz. Escolha que é problemática por várias e óbvias razões. Primeiro, Po não sabe qualquer característica sobre liderança; além disso, ele precisa encontrar e treinar o mais rápido possível um novo Dragão Guerreiro antes de assumir sua nova imponente posição. Ademais, recentemente, foi vista no Vale da Paz uma feiticeira perversa e poderosa, a Camaleoa, um pequeno lagarto-fêmea que pode se transformar em qualquer criatura, grande ou pequena. Camaleoa está de olho no Cajado da Sabedoria de Po, que lhe daria o poder de trazer todos os vilões-mestres já derrotados por Po de volta do reino espiritual. O diretor Mike Mitchell tem em seu currículo uma grande mistura de filmes, em sua maioria animações. Digo mistura porque ele varia entre estilos e técnicas, mas mantém sempre um pé na comédia e outro no aventuresco. E é exatamente isso que Mike encontra na estrutura das narrativas de Kung Fu Panda, a comédia esperta na escrita e bem executada nas dublagens, e, como se espera de um filme com kung fu no título, bastante ação que as liberdades mecânicas da animação permitem grandes construções. Mesmo tendo um terceiro filme que destoa dos demais por apresentar um teor mais emocional ao roteiro, todos os três longas conseguem sustentar a mesma identidade. E essa é a bênção e maldição do quarto filme. Mesmo ainda tendo o carisma, o timing e a agilidade tanto da comédia – que tem piadas para todas as faixas etárias – quanto na ação – que abusa de ângulos e contracampos na criação do ritmo – ele não consegue sair disso. Foto: Divulgação O novo capítulo da franquia foi claramente criado como mote para introduzir uma personagem nova que, potencialmente, tocará filmes futuros ou pelo menos crie novos desdobramentos. Fora isso, parece não haver no roteiro um apelo que justifique o novo capítulo, falta também inovação na estética que repete recursos já utilizados anteriormente e não brinca com cores e texturas, o que eram pontos fortes das produções antecedentes. Considerando que é o primeiro longa sem o apoio dos Cinco Furiosos no enredo e que prepara a macronarrativa para possíveis grandes mudanças posteriores, esse é o mais catártico dos filmes até o momento, mas infelizmente a execução não acompanha a proposta e o resultado parece uma costura dos melhores momentos da saga até aqui (ainda mais quando se usa até mesmo os vilões já conhecidos), o que, convenhamos, não é algo propriamente ruim, mas também não faz jus os personagens e a capacidade argumentativa. Nota: 3/5
- Crítica | Imaginário: Brinquedo Diabólico
Difícil aceitar que não se trata de uma paródia Foto: Divulgação Na história, Jessica (DeWand Wise) se muda de volta para sua casa de infância com sua família. Lá, sua enteada mais nova Alice (Pyper Braun) desenvolve um estranho apego a um urso de pelúcia chamado Chauncey, que ela encontra no porão. Alice começa a brincar com Chauncey e os jogos se tornam cada vez mais perigosos. À medida que o comportamento de Alice se torna cada vez mais preocupante, Jessica percebe que Chauncey é muito mais do que apenas um ursinho de pelúcia ou um amigo imaginário. Os últimos dois anos têm visto uma modalidade nova de filmes terror que ao mesmo tempo que tenta assustar tenta ser um “filme-família”. Os resultados variam e transitam entre filmes bobos divertidos, bobos assustadores, bobos não intencionalmente engraçados e só bobos mesmo – e nenhum deles é realmente bom. São terrores higienizados, polidos e sem qualquer personalidade. Lembram os episódios da série antológica dos anos 90 Clube do Terror, com a diferença que o programa de televisão não se propunha ser algo a mais do que uma série para adolescentes, e assim se resolvia muito bem. Foto: Divulgação São tantos os problemas em Imaginário: Brinquedo Diabólico, que quando o longa acerta parece que foi sem querer. Primeiro que demora, mais precisamente até o terceiro ato, para o ele se assumir como um filme de fantasia, porque é isso que ele é. O roteiro tenta enganar por diversas vezes o espectador sobre a real intenção do texto, se é terror psicológico ou se é terror demoníaco, mas o terror fantástico é o que sustenta o enredo e quando isso é descoberto é literalmente tarde demais para querer que tudo que foi visto seja levado a sério. Se desde o começo do seu desenvolvimento o roteiro construísse uma narrativa à lá Coraline e o Mundo Secreto (2009) eram inúmeras as possibilidades de desdobramentos explorando esse espaço utópico. A história flerta com o humor em alguns trechos, e supreendentemente apenas nesses momentos é que o filme tem bons resultados, a maioria das vezes involuntariamente, ao ponto de lembrar os áureos Todo Mundo em Pânico tamanho o refinamento com os sustos e também com o humor. Nada funciona como deveria, os personagens não têm carisma (apesar do elenco que se esforça e mostra que está levando aquilo tudo a sério), e alguns personagens honestamente não tem função ou razão de existir, as resoluções não fazem sentido dentro da própria bobagem criada, e nem mercadologicamente o filme tem um mote que justifique a sua execução, nada é vendável ou marcante o suficiente para se impor. É uma ideia que deveria ter ficado apenas no imaginário. Nota: 1,5/5












