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- Crítica | Vidas Passadas
Um romance pós-moderno que examina o quão assombroso pode ser um “e se...?” Foto: Divulgação Uma das minhas teorias favoritas do campo científico é o Efeito Borboleta, aquela segundo a qual o bater de asas de uma borboleta poderia provocar um tufão do outro lado do mundo. Claro que estou sendo bem reducionista, mas o que gosto nesta teoria é em como ela me faz pensar que qualquer alteração mínima em ações que realizamos pode gerar um sem-número de realidades diferentes das que vivemos. E se eu tivesse demorado mais alguns segundos para atravessar a rua? E se eu não tivesse dito aquelas palavras a alguém que gosto? E se eu não tivesse me mudado da minha cidade natal e vivido uma vida ao lado do meu amor de infância ao invés da pessoa com quem vivo agora em um outro país? É esse último “e se..?” que parece assombrar Nora (Greta Lee), a protagonista de Vidas Passadas. Aos 12 anos, ela deixa Seul e o garoto de quem gosta, Hae Sung (Seung Min Yin) para se mudar com a família para Toronto e depois Nova York. Aos 24, ela reencontra Hae Sung (agora vivido por Teo Yoo) pelas redes sociais e os dois reestabelecem o contato e (talvez) o relacionamento, mas as distâncias físicas e as circunstâncias particulares de suas vidas impedem que possam avançar. Aos 36, ele viaja a Nova York para que possam se ver presencialmente pela primeira vez em décadas, ainda que agora ela seja casada com Arthur (John Magaro). Em sua estreia, a diretora coreana-estadunidense Celine Song usa muito de sua própria vida para construir um longa repleto de detalhes e longos silêncios que dizem muito por si mesmos. Sua câmera ora aposta em planos-detalhes que nos imergem na aproximação de Nora e Hae Sung (como aquele no metrô de suas mãos quase se tocando) ora se afasta deles, como se receasse invadir um espaço tão íntimo, memórias e sentimentos tão poderosos. A delicadeza com a qual Song filma esses personagens (até mesmo quando estão fisicamente separados, como no bloco de 2011/2012) revela um estudo primoroso de suas ações e emoções, como quando progressivamente desloca um dos personagens do plano até isolá-lo por completo, representando o próprio deslocamento que ele sente frente a situação que está vivenciando. Essa delicadeza se reflete na sensível e discreta trilha sonora de Christopher Bear e Daniel Rossen, que virou uma das minhas favoritas do ano passado. Foto: Divulgação Essa posição é reforçada pela qualidade impressionante do trio principal. Lee constrói uma personagem que parece irredutível em suas ações, como se cresse que não há “e se..?” e o destino e a vida fossem algo linear – até que vemos aquela última sequência devastadora e entendemos o quanto a personagem carregou ao longo dos anos, mudando tantas vezes a rota de sua vida. Mas são os protagonistas masculinos quem talvez brilhem mais: Teo Yoo entrega uma das atuações mais marcantes de 2023 justamente na postura contida que muitas vezes assume, ou na expressividade (e na dor) de seus olhos. E John Magaro se revela uma grata surpresa, entregado um personagem com o qual facilmente nos identificamos, mesmo que compremos a história e os sentimentos de Nora e Hae Sung. Há uma raiva e melancolia contidas em seus gestos que, no entanto, jamais o colocam na posição de antagonista; afinal de contas, como agir diferente diante da situação que vive junto à mulher que ama e o outro homem que a ama? Diante das sutilezas que o filme oferece em sua abordagem, é até um pecado que ele se deixe levar em alguns momentos por sua autoconsciência pós-moderna quanto à história que está contando. São instantes em que essa sutileza é deixada de lado para que ele nos ofereça uma espécie de piscadela espertinha, como a cena in medias res que o abre ou o início da longa conversa entre Arthur e Nora onde este reconhece que poderia ser lido como o marido branco vilão da história. A própria decisão de por o casal como um par de escritores e dramaturgos vai nessa linha autoconsciente que acaba minando um pouco do impacto que o filme entrega em seus momentos menores e mais delicados. Apesar dessas (poucas) decisões equivocadas, Vidas Passadas é uma estreia impressionantemente segura que põe Celine Song no radar como uma nova voz autoral a ser acompanhada. É uma história com a qual é impossível não se conectar, acredite você na inevitabilidade do destino ou no In Yun que nos permite contemplar os rumos diferentes que nossas vidas podem tomar a partir das mínimas decisões. Nota: 4/5
- Crítica | Nosso Lar 2: Os Mensageiros
Filme derrapa nas escolhas narrativas para passar sua mensagem Foto: Divulgação Nesta quinta-feira, 25, o longa brasileiro Nosso Lar 2: Os Mensageiros chega aos cinemas de todo o país. Sendo uma sequência direta do filme lançado em 2010, as histórias de ambos são baseadas nos escritos de Chico Xavier, ditados pelo espírito de André Luiz que contam justamente a história do mesmo após a sua morte. Nessa continuação, vemos André Luiz entrar para um grupo de espíritos liderado por Ancieto com a missão de ser um mensageiro. Os mensageiros partem para a Terra para acompanhar uma missão que possui um alto risco de fracassar e onde o seu principal propósito é ligar o mundo espiritual e a Terra com a expansão da doutrina espírita pelo planeta. Juntos, o grupo se dedica a cuidar de três pessoas que fazem parte dessa missão, sem saber que são os escolhidos para tal. Otávio, um jovem médium que se desvirtuou totalmente do seu caminho, Isidoro, um líder de casa espírita e Fernando, um empresário. Dirigido por Wagner de Assis, que comandou a produção de 2010 e outras do subgênero espírita, como Kardec e Chico para Sempre, Nosso Lar 2: Os Mensageiros tenta repetir o sucesso de catorze anos atrás quando alcançou a quinta posição na lista de maiores bilheterias nacionais do ano e levou mais de quatro milhões de telespectadores para os cinemas. Porém, é claro, o Brasil passou por mudanças significativas nesse período e viveu um declínio, não só da popularidade da doutrina, mas também das produções dentro dessa temática. Desde novelas globais até aos filmes que chegam aos cinemas, o espiritismo perdeu espaço e viu crescer a presença da representação evangélica nas telas. Foto: Divulgação Mas, dentro de um cenário promissor de produções audiovisuais brasileiras, o longa tenta retomar o público que outrora já foi conquistado pelo seu filme anterior e por produções de folhetins como A Viagem e Além do Tempo. E se o primeiro filme buscava explicar a vida após a morte, e como as escolhas de cada um podem levar ao umbral ou à evolução numa cidade espiritual. Nosso Lar 2: Os Mensageiros trata do livre arbítrio pelo bem coletivo, onde os mensageiros precisam resgatar três emissários que, encarnados e perdidos nas limitações terrenas, não conseguem finalizar a missão proposta. Assim como o primeiro filme, tecnicamente falando, o CGI não é o seu maior ponto forte, e, nessa sequência a finalização das cenas que utilizam efeitos especiais é visivelmente bem ruim. Não sei se a minha percepção ficou diferente ou se realmente os efeitos do primeiro filme eram melhores, mas, Nosso Lar 2: Os Mensageiros sofre bastante com uma visualidade bem precária em efeitos técnicos. Já pensando na parte do roteiro, o filme tem um texto um pouco menos rebuscado e menos robótico que o primeiro Nosso Lar, mas esta sequência tem um grande problema causada pela falta de linearidade na obra, deixando-o confuso em alguns momentos, atrapalhando o entendimento da mensagem do filme de uma forma geral. Outro ponto que pode ser crucial na aceitação do longa perante o público é que ele passa a impressão de ter sido produzido apenas para a bolha que consome ou que conhece a doutrina espírita. Muitos dos preceitos citados no filme não são explicados de forma clara, algo que para quem não é familiarizado com o espiritismo pode ser um fator definitivo na hora de absorver o que de fato a projeção pretende passar. Mas, de forma geral, Nosso Lar 2: Os Mensageiros possui um elenco muito competente que funciona bem em conjunto, deixando a obra mais rebuscada. Sua história não-linear, mesmo que não tão bem executada, também ajuda a prender o telespectador até o fim. Nosso Lar 2: Os Mensageiros não é tão bom quanto o seu predecessor ou melhor que alguns outros filmes brasileiros do gênero, mas, tem tudo para agradar aqueles já familiarizados com histórias baseadas no espiritismo. E é sempre bom ver longas brasileiros ocupando as telas. Nota: 2,5/5
- Crítica | Segredos de um Escândalo
A arte como linha tênue entre homenagem, referência e simulacro da vida alheia Foto: Divulgação Gracie (Julianne Moore), uma mulher de meia-idade, vive uma vida feliz e bem resolvida com o marido. Há alguns anos, ela se envolveu em um escândalo desagradável – deixou o então marido para ficar com Joe (Charles Melton), um jovem de 13 anos de idade na época – mas para ela tudo ficou no passado. A atriz de cinema Elizabeth (Natalie Portman) vai passar um tempo na casa de Gracie com uma missão. Esta visita faz parte de sua preparação para interpretar o papel de Gracie em um filme que está sendo rodado. Enquanto conversa com os familiares, Gracie se pergunta se Elizabeth descobrirá alguns segredos de seu passado e se alguma informação escondida virá à tona. Todd Haynes é um dos diretores mais elegantes e refinados dos EUA. Seus trabalhos sempre se desdobram despretensiosamente sob os olhares do público que quando menos percebe está coberto por uma grande trama bem estruturada, bem amarrada e bem filmada. Ele sabe trabalhar detalhes e sutilezas básicas apenas com movimentos de câmera de forma que simples elementos ganhem relevância na narrativa e prevejam situações, mesmo sem estragar qualquer surpresa do enredo. E que texto esse filme tem. Ele é suspense, é drama e é comédia sem interferir no terreno um do outro. Não importa qual sua abordagem na interpretação do texto e o que você vai extrair ao final, tudo faz sentido e tudo converge para o mesmo lugar: a curiosidade na e da natureza humana, tanto para os personagens quanto para quem assiste. Foto: Divulgação As questões éticas e morais da relação entre uma mãe de família casada e um jovem adolescente são o ponto de partida do filme, mas quando somos apresentados a personagem Elizabeth logo percebemos que essa Gestalt vai funcionar como plano de fundo para o interesse da atriz nos sentimentos de Gracie e especialmente nos sentimentos de Joe. E é quando Elizabeth perde a mão entra sua visita profissional e seus interesses particulares que o suspense e especialmente a comédia ganham força. É aí também que o longa-metragem dá uma cutucada certeira no ego de vários atores, em inferir que a busca seca pela representação fiel de uma “pessoa real”, torna o trabalho mecânico, engessado e sem verdade. Sem o surrealismo de Lynch e o expressionismo de Bergman, a produção bebe da fixação pela persona encontrada em Cidade dos Sonhos (2001) e em Quando Duas Mulheres Pecam (1966). Natalie Portman entrega uma atuação cínica, introspectiva e, por vezes, hilária. Enquanto Juliane Moore – em sua quarta colaboração com Haynes – carrega o pesar e os sentimentos mais encorpados. No meio das duas está o encantador Charles Melton, cujo personagem se esforça para respirar, para se expressar e até mesmo para sentir enquanto é sufocado pelo contexto em que está inserido e pelas incisivas mulheres que o cercam. Melton consegue transpor toda a supressão de emoções de Joe com precisão. A história de Gracie e Joe é inspirada num caso verídico, e isso deixa a metapiada ainda mais engraçada. Numa Hollywood desesperada por cinebiografias e pelo mimetismo dos atores, é muito bom ver como a ironia funciona na contrapartida e como até mesmo os exageros funcionam sob uma regrada tenuidade. Nota: 5/5
- Crítica | Bizarros Peixes das Fossas Abissais
Uma aventura bizarra, envolvente e instigante Foto: Divulgação Tenho a mania de tentar evitar o máximo de informações possíveis quando vou assistir algo, aprendi a ignorar trailers, a não ler sinopses e deixar toda a experiência para a hora que paro para dar play. É arriscado? Talvez, já caí em muitas armadilhas, mas é, para mim, a melhor forma de apreciar um filme, seja ele bom ou ruim, vai ser sempre uma surpresa. No caso de Bizarros Peixes das Fossas Abissais, um filme animado com um título nada convencional, já fiquei com a curiosidade atiçada logo de cara. A melhor parte é que ele não decepcionou. Escrito e dirigido por Marão, e com as vozes de Natália Lage, Rodrigo Santoro e Guilherme Briggs, a animação nos apresenta a uma heroína um tanto peculiar. Ela consegue metamorfosear partes do corpo em animais e assim enfrentar seus inimigos. Acompanhada de uma nuvem que sofre de incontinência urinária e uma tartaruga com transtorno obsessivo-compulsivo, ela se aventura em busca de uma cura para o seu avô, que tem problema de memória. Nos minutos iniciais o filme já causa a sensação de que você está assistindo a um gibi ganhando vida diante dos olhos. Os traços familiares de uma revista em quadrinhos trazem um certo aconchego enquanto a história vai se passando. Algo bastante maleável e flexível que tem um infinito de possibilidades, e Marão explora isso com bastante cadência de uma mente e criatividade ilimitadas. Foto: Divulgação O roteiro rápido faz com que o longa flua com suavidade ao ir apresentando os personagens e a trama ao público, ele permite que haja uma imersão através do visual e torna a história fácil de se apegar. Há uma liberdade muito perceptível em relação a como tudo se desenvolve, os caminhos que toma, as possibilidades que são trazidas para as telas. Uma vibe espacial, inimigos atravessando a atmosfera, a profundeza de um oceano, e, ao mesmo tempo, a normalidade de uma rua comum, uma venda de esquina, trânsito, semáforo. Há um paralelo constante entre o infinito universo fantasioso e o cotidiano pacato, o que torna ele ainda mais gostoso de assistir. A direção de Marão possibilita que seus próprios pensamentos ganhem o tom correto para aquilo que foi imaginado, poder dar vida ao que se criou da maneira como quis, faz a experiência se tornar mais cativante. Ainda há também o trabalho de Lage, Santoro e Briggs, que conseguem dar a vida necessária a animação. Além de uma trilha que consegue acompanhar todas as bizarrices postas em tela. O conceito de utilizar as cores para transmitir a essência dos personagens ao ir contando a história é um dos pontos positivos que trazer mais personalidade ao filme. A ausência de cor quando é o avô da heroína em perspectiva é o que dá um tom tocante ao filme por dar uma proximidade com algo bastante comum do nosso cotidiano. Para encerrar, a bizarrice de Marão nos faz perceber o quanto temos uma infinidade de possibilidades em animação para o cinema nacional. Além do desejo de ver mais produções, ter mais opções, e poder apreciar mais trabalhos onde o artista possa ter a liberdade de transmitir e contar tudo que lhe cabe na mente. Fica o desejo para um futuro mais repleto desse gênero em nossas telas. Nota: 4/5
- Crítica | Folhas de Outono (Kuolleet Lehdet)
Aki Kaurismäki pinta belo romance resoluto, mas que esbarra nos detalhes Foto: Divulgação Numa Helsinque atual, duas almas solitárias em busca de amor se encontram por acaso em um bar de karaokê. No entanto, o seu caminho para a felicidade é cercado de obstáculos - desde números de telefone perdidos a endereços errados, alcoolismo e um encantador cão de rua. Esse é um filme bem nos moldes de um romance clássico dos anos de Era de Ouro, onde o foco é centrado única e exclusivamente no casal principal e os poucos coadjuvantes que circundam as cenas existem com a mera função de impulsionar a relação dos protagonistas. Porém mesmo com um roteiro enxuto e com uma duração curta, o roteiro consegue tropeçar em alguns obstáculos que se contradizem e impedem a narrativa de amarrar seus arcos. O maior deles é o uso da tecnologia e da maquinaria quando convém. A produção faz questão de enfatizar o cenário capitalista pós-moderno da cidade onde a trama se desenvolve na cenografia e no design de som. Os protagonistas se veem presos num ciclo de subempregos rodeados de parafernálias e instrumentos que condicionam uma péssima qualidade de trabalho e de vida. Mas esses equipamentos parecem ser inexistentes quando num dos momentos chave do enredo o casal troca telefones e endereços num pedaço de papel, por exemplo, fazendo com que a problemática que toma bons minutos de tela pareça rasa, embora entenda-se o apelo ao romantismo à moda antiga. Foto: Divulgação Esse mesmo problema também aparece, e dessa vez mais cansativa ainda, quando constantemente os personagens – que parecem ter apenas o rádio como meio de comunicação – ouvem em seus aparelhos de som mensagens sobre o quão violenta a Rússia vem sendo com a Ucrânia. E essa panfletagem política pro-OTAN e anti-União Soviética não adiciona qualquer camada ao texto, é apenas o filme dizendo o quão vilanesca é a Rússia e o quão coitada é a Ucrânia. E ele não tem o menor interesse de esconder ou camuflar isso, é uma postura assumida e sustentada. Visualmente o filme é um encanto, como é de costume do diretor finlandês. Aki elabora esse “cenário capitalista pós-moderno” com um vislumbre artístico quase onírico, onde as cores e as luzes (e consequentemente as sombras) são importantes para realçar personagens e objetos, bem ao estilo Jacques Demy. Referenciando outros autores ou não, ou melhor, intencionalmente ou não, é inegável que Kaurismäki conduz suas obras sob o mesmo viés introspectivo, com textos econômicos e com a plasticidade tão importante quanto a mensagem – e vem sendo assim desde a década de 90 – mas ainda assim consegue se mostrar atento ao cenário social e político ao seu redor, mesmo que sob uma ótica simplista. Nota: 3,5/5
- Crítica | Meninas Malvadas: O Musical
Remake musical atualiza o clássico adolescente e o torna ainda mais barro! Foto: Divulgação Adaptar um clássico para os dias atuais não é fácil. Mas, Tina Fey, em 2017, já tinha feito isso muito bem com a versão teatral do seu próprio roteiro de 2004. Com o grande sucesso do musical da Broadway, não demorou para que a história revitalizada para os palcos chegasse também nas telas grandes, e, nesta quinta-feira, 11, Meninas Malvadas estreou nos cinemas encontrando o seu próprio tom dentro de um universo exaustivamente conhecido pelo público millennial. Desde a presença reduzida de certos personagens ao envolvimento das redes sociais, a versão de 2004 e a atual possuem algumas diferenças narrativas, obviamente mantendo a essência do clássico, mas posicionando a história dentro do contexto atual em que vivemos e diminuindo algumas problemáticas da sua primeira versão. O roteiro, universalmente já conhecido, nos apresenta Cady Heron (Angourie Rice), uma adolescente que morava no Quênia e que era educada em casa pela mãe (Jenna Fischer). Quando as duas se mudam para o os Estados Unidos, Cady começa a frequentar a escola pública e é recebida pelo topo da cadeia alimentar social: o das garotas populares conhecido como "The Plastics", governado pela abelha-rainha Regina George (Reneé Rapp) e suas seguidoras fiéis Gretchen (Bebe Wood) e Karen (Avantika). No entanto, quando Cady comete o grande erro de se apaixonar pelo ex-namorado de Regina, Aaron Samuels (Christopher Briney), ela acaba se tornando rival da abelha-rainha da escola. Enquanto Cady se prepara para derrubar Regina com a ajuda de seus amigos excluídos Janis (Auli'i Cravalho) e Damian (Jaquel Spivey), ela deve aprender como permanecer fiel a si mesma enquanto navega na selva mais cruel de todas: o ensino médio. Foto: Divulgação Sob a direção da dupla Samantha Jayne e Arturo Perez Jr., o novo Meninas Malvadas é uma adaptação muito boa que imprime o seu estilo desde os minutos iniciais. Obviamente, adaptar uma peça de dois atos para um filme de 1h 52m que precisa ser comercial traz algumas perdas para o desenvolvimento de alguns personagens e da narrativa como um todo, mas nada que prejudique o entendimento da história. Com a história mais enxuta, essa nova versão dá destaque para as melhores canções da peça, que complementam incrivelmente os diálogos e o storyline de cada personagem e suas motivações. Falar de Meninas Malvadas e não falar de Regina George é quase uma blasfêmia. A marcante atuação de Rachel McAdams parecia demarcar a personagem. Só parecia, até encontrar Reneé Rapp. A atriz e cantora americana, que interpretou a personagem nos palcos em 2019 e 2020, é uma catarse como uma das vilãs mais amadas da ficção. A Regina de Reneé não é tão cínica quanto a de McAdams, na verdade, ela exala uma força magnética misturada com uma autoconfiança de alguém que sabe que é incrível, até se sentir ameaçada por algo ou por alguém. Reneé não é o único acerto do elenco. Auli'i Cravalho como Janis traz um frescor a uma personagem que, no original, não era tão aprofundada. Suas performances (em especial, I’d Rather Be Me) são excelentes e nos mostram um outro lado de Janis que não conhecemos, além disso, a química entre ela e Damian torna a dupla um trunfo para a história. Avantika como Karen e Bebe Wood como Gretchen também são incríveis em performances divertidas e com muita personalidade. A protagonista Angourie Rice também é bastante talentosa, mas não consegue transitar tão bem entre a Cady meiga e a megera. De qualquer forma, Meninas Malvadas consegue provar a atemporalidade da sua história que ressoou com o público quando foi lançada em 2004 e deve ressoar novamente em 2024 abordando temas como amizade, identidade, os desafios de se encaixar e as consequências de fofocas e das manipulações. Essa nova versão é quase como um tributo musical, que consegue se destacar com brilho e personalidade própria. Nem tudo precisa de remake, mas, no caso de Meninas Malvadas, essa repaginada foi positiva. Nota: 4,5/5
- Crítica | Saltburn
Essa festa virou um (fascinante) enterro Foto: Divulgação Acho que só existe um consenso sobre Saltburn: é daqueles filmes “ame ou odeie”, não tem meio termo. A recepção do público tende a ser tão exagerada (positiva ou negativamente) quanto o próprio filme o é, em sua enxurrada de cores, temas, intenções e adereços. É o equivalente cinematográfico da estética kitsch. No filme, Oliver (Barry Keoghan) está em seu primeiro ano letivo na prestigiosa universidade de Oxford, tentando combater sua excentricidade para se firmar socialmente – tarefa que parece impossível quando percebemos que os grupinhos já estão todos formados e a hierarquia classista opera a toda força. Todavia, no mar de esnobes e pedantes, está Felix Catton (Jacob Elordi). Ele até que é meio esnobe e por vezes não consegue segurar seu pedantismo, mas ao menos tenta ser legal, e, nesse universo, isso já o faz melhor que qualquer outro. Felix é o sol e todos querem estar ao seu redor. Por sorte, coincidência, destino ou vontade, Oliver, com sua trágica história de vida e seu jeito desengonçado, consegue seu lugar na órbita. Meio por pena, meio por orgulho, Felix convida seu novo amigo para passar as férias em sua absurda mansão, com seus absurdos familiares e a absurda dinâmica que lá opera. Daí em diante, segue-se uma série de manipulações, seduções, indecências e arrogâncias. Em Saltburn não existem barreiras entre bem e mal, ninguém é inocente e sexualidade é moeda de troca. Toda extravagância é bem vinda e o pouco não interessa. Keoghan e sua poderosa expressividade carregam o filme. Chega a ser assustador como o ator consegue transitar entre o coitadismo e a loucura com tamanha maestria, às vezes ao mudar levemente o olhar ou elevar duas ou três vértebras na postura. Mais sutil ainda, porém, é Rosamund Pike, que vive a matriarca Elspeth Catton, roubando todos os holofotes com sua passivo-agressividade incomparável, tornando suas cenas os melhores momentos do longa. Foto: Divulgação Para quem odeia, acredito que a crítica se baseie principalmente no roteiro. De fato, ele está distante de qualquer modelo aclamado que a história do cinema tenha conhecimento. Falta propósito, falta fio da meada, falta estabelecimento de conexão com o protagonista, e falta, sobretudo, profundidade. Nos são entregues duas horas de narrativa rasa que se apoiam em personagens forçosamente caricatos e apenas medianamente convincentes, que dão vida a uma sátira que por vezes se perde na própria crítica. E o plot twist, o que era para ser o ápice do filme, é conduzido de maneira tão démodé que nos faz questionar que ano é hoje. Eu entendo essas desaprovações. Juro. Eu também percebi todas elas. Ainda assim, faço parte, orgulhosamente, do time que ama. Ao meu ver, estamos diante de um dos raros casos em que um roteiro fraco faz, sim, um excelente filme. Não sei qual a intenção de Emerald Fennell – roteirista, diretora e co-produtora – com Saltburn. Das duas, uma: se ela realmente quis promover uma reflexão sobre classes, ou deixar uma mensagem sobre ganância, falhou. Porém, se esse foi o caso, o resultado me parece aquelas receitas que dão tão errado, mas tão errado, que acabam se tornando uma comida totalmente diferente, tão ou mais deliciosa. Foto: Divulgação A segunda opção, que eu prefiro acreditar – especialmente conhecendo seu trabalho anterior em Bela Vingança, é que Fennell tem um talento moderado para contar histórias mas um dom enorme para entreter. Ou seja, é melhor diretora que roteirista. Apesar dos pontos já elencados, Saltburn nos hipnotiza. Com a incrível fotografia de Linus Sandgren, Fennell pinta a tela com frames belíssimos que são um suspiro satisfatório para qualquer pessoa que teve acesso ao tumblr nos anos 2010 (e, por mais que soe como chacota, considero isso um baita sinal de autenticidade e de conhecimento de público), além de criar uma atmosfera e um ritmo esquisitos que fascinam, prendem e despertam curiosidade. Não conseguimos tirar o olho da tela, assim como não conseguimos não pensar em certas cenas por dias depois da sessão. Isso significa bom gosto? Não sei (até por que, o que é bom gosto? O próprio filme ironiza essa noção). Talvez não tenha mesmo o requinte e a sofisticação que poderia ter. Mas é arte? Claro! Diverte? E como! E para que mais? Deixo as mensagens e morais-da-história para as passagens bíblicas e as fábulas. Saltburn não tem muito o que dizer, mas bastante a entregar. Nota: 4/5
- Crítica | A Sociedade da Neve
Ninguém filma uma desgraça com mais textura e essência do que J. A. Bayona Foto: Divulgação Baseado numa chocante história real, o filme conta como dezesseis sobreviventes conseguiram ser resgatados depois de lutarem por 72 dias contra o gélido clima da Cordilheira dos Andes. Em outubro de 1972, um avião fretado da Força Aérea do Uruguai que rumava para o Chile se choca contra uma montanha nos Andes. Das 45 pessoas a bordo - a maioria fazia parte de um time de rúgbi amador -, 29 sobrevivem ao impacto, mas apenas 16 foram resgatadas. Sem qualquer preparo – sobrevivendo em meio a gelo e pedras, sob uma temperatura que chegou a atingir -30º C – eles usaram a fuselagem do avião como abrigo e precisaram tomar decisões que, em outros contextos, seriam fortes estigmas sociais, morais e humanos afim de esperar algum tipo de ajuda pelo maior tempo que conseguissem. O filme Vivos (1993) foi um dos grandes sucessos das locadoras de VHS na minha casa, então mesmo com seu texto limitado que algumas vezes não sabe ocupar bem suas 2h de duração, a versão de Frank Marshall é um dos meus filmes preferidos dos anos 90 e tentei deixar esse apego de lado para contemplar a nova versão. Mas essas divisões não acontecem no nosso cérebro como a gente gostaria e as comparações inevitavelmente acontecem. O cineasta espanhol Juan Antonio provou em O Impossível, e endossou agora, que sabe trabalhar com escala macro de grandes desgraças para dimensionar a pequenez humana. Bayona tira o tom aventuresco que Marshall usou na primeira versão e foca na personalidade dos personagens contrastando com a grandeza e a clareza das montanhas de neve; a tabula rasa indiferente e assustadora que a natureza impõe mediante toda e qualquer pessoa. Foto: Divulgação Como as particularidades e as subjetividades dos personagens ganham mais destaque nesta adaptação, o diretor escolhe iniciar com flashbacks de antes do acidente para mostrar a dinâmica desses personagens e para dar o tom das personalidades, e como essas relações vão interferir no pós queda e também como elas mudarão após o acontecido. O elenco é formado por atores latinos que transbordam paixão e talento, nomes de certa novos quando comparados a figurões no âmbito internacional, mas que não deixam em nada a desejar a tantos outros que já bem consolidados. Eu gosto de histórias de sobrevivência filmadas para ver como a produção se sai no desenvolvimento de ambientação que é um limitante, às vezes, na narrativa. Lembro que fui sedento assistir ao brilhante 127 Horas (2010), de Danny Boyle, pra saber como o diretor havia transformado as ditas 127 horas de um homem preso a uma pedra num filme de 90 minutos, como o cenário seria importante para contar aquela história e adicionar tensão a ela. E aqui não é o constante jogo entre o claro da neve com o escuro do avião que deixa a sistemática do enredo operando em equilíbrio e contradição ao mesmo tempo. O claro e amplo espaço por vezes assusta mais do que o apertado e escuro avião, por exemplo. É uma história que por mais que seja bastante conhecida não deixa de ser emocionante, afinal ela joga com os todas as hierarquias das necessidades humanas da pirâmide de Maslow e dá bastante tempo e espaço para o espectador criar afinidade com aquelas pessoas, com aquela situação e com sobrevivência humana em seus instintos mais básicos. Nota: 4,5/5
- Crítica | Priscilla
Uma história fadada ao fracasso Foto: Divulgação Que Elvis Presley é uma figura marcante na história da cultura pop é inegável! A veneração de algumas pessoas por sua trajetória artística é comum com qualquer artista grande do meio, mesmo com todas as polêmicas envolvidas. O imaginário e o desejo tomam conta e fazem daquela figura ainda maior e inalcançável. É a partir daí que Priscilla resolve pegar seu gancho. Baseado no livro Elvis e Eu, de Priscilla Beaulieu Presley em parceria com Sandra Harmon, o longa escrito e dirigido por Sofia Coppola ganhou a sua vez nas telas de cinema. Sem fazer muitos rodeios; o filme tem uma dinâmica um tanto cansativa. Inicialmente parece um recorte de vários momentos rápidos com ar de introdução para chegar ao seu foco e caminhar para o ápice, mas no decorrer do tempo se percebe que aquele é realmente o ritmo escolhido para contar a história. Um grande turbilhão de passagem de tempo para tentar mostrar tudo que Coppola queria, mas sem um trabalho preciso na linearidade, transformando-o em um compilado de momentos reativos em relação à figura de Priscila Beaulieu, mas sem um tempo de história entre eles. Apesar de remontar todo o relacionamento abusivo da parte de Elvis para Priscilla, a preocupação maior parecia querer mostrar todos os instantes possíveis ao invés de construir uma trama bem escrita e elaborada. A direção de Sofia Coppola tem um foco maior em Cailee Spaeny e suas reações, mostrando ali toda a solidão de uma jovem deslumbrada pelo amor figurativo de um personagem desejado pelo mundo todo. Spaeny até dá uma segurada em vários desses momentos, o desamparo e a tristeza se tornam visíveis sem precisar de muito esforço, mas quando pede alguma emoção mais aprofundada que não precise só da reação à distância, ela falha. Foto: Divulgação Como Jacob Elordi já havia anunciado em entrevista, a única coisa de Elvis que ele conhecia vinha de Lilo e Stitch, e no longa entendemos o porquê de não haver necessidade de ele se aprofundar na figura pública e artística que foi Presley. O que vemos é uma versão fora dos palcos e dos holofotes, de um homem em busca de uma sombra para lhe acompanhar durante a vida, mas que, ao mesmo tempo, não se contenta com o que ele próprio montou. Diferente de Spaeny, Elordi não precisa se esforçar para mostrar alguma reação, pois, as emoções de seu personagem aqui são distantes e quase irrisórias na trama, porém, ainda assim consegue entregar uma atuação aceitável. Quanto à trama, parecia haver história demais para pouco desenvolvimento. O roteiro, como dito antes, se remonta em cima de recortes sem trabalhar seu drama com maior coesão. Apesar de válido, isso faz dele um trabalho quase amador, que não sabe como se contar em volta dos abusos mostrados. Frases conhecidas parecem não achar seu momento dentro do longa e são soltas de forma quase aleatória, como um “ela é madura demais para a idade que tem”, em relação ao interesse de um Presley de 25 anos numa estudante de 15. Na parte técnica é onde a produção se sai mais bem-sucedida, ela tem uma direção de arte bem orquestrada, um figurino digno para um filme de época e a maquiagem bem trabalhada. Essas três coisas junto à trilha sonora tímida são o que dão um visual gostoso de assistir, mas que ainda assim não sustenta a obra toda. De maneira geral, ele não alcança um nível alto e nem é um filme brilhante ou inesquecível, e assim como romance nada poético ou de fadas de Elvis e Priscilla, ele já nasce fadado ao fracasso, e é no máximo algo para assistir quando tiver tempo livre. Nota: 2,5/5
- Crítica | Aquaman 2: O Reino Perdido
O DCEU se encerra com um filme que reflete a franquia, para o bem ou para o mal Foto: Divulgação Conforme assistia O Reino Perdido, pude entender porque a Warner pouco ou nada se esforçou para divulgar o filme. Não é que ele seja ruim, mas falta um pulso, um ímpeto de vida que pudesse distingui-lo em meio à seara dos filmes de super-herói, que enfrentaram em 2023 sua maior crise. Na esteira dos fracassos de Shazam 2, The Flash e Besouro Azul — com o adendo de um vindouro reboot desse universo a partir de 2025, capitaneado por James Gunn —, é perceptível que o estúdio só queria se livrar do filme logo, bem como os seus envolvidos. Situando-se quatro anos após o primeiro Aquaman, o filme nos mostra o personagem-título (Jason Momoa) dividindo suas funções como rei de Atlântida e pai do filho que teve com Mera (Amber Heard). Mas quando seu arqui-inimigo Arraia Negra (Yahya Abdul-Mateen II) ressurge dominando um poder desconhecido que ameaça o desequilíbrio dos sete mares e da Terra num geral, Aquaman precisa se unir ao seu meio-irmão Orm (Patrick Wilson) para detê-lo. Se no primeiro filme a dinâmica dos dois irmãos já remetia aos longas de Thor, aqui fica ainda mais evidente — com direito a uma citação rápida ao personagem Loki. Apesar dessa falta de frescor, a dinâmica de Arthur/Orm é talvez o mais perto que o filme consegue de possuir um coração. A reintegração de Orm à narrativa é rápida e conveniente (ainda que a cena de sua libertação seja uma das melhores do filme), mas a sisudez de Patrick Wilson cai bem ao papel, em oposição à canastrice de Momoa, que é talvez o nome do elenco mais confortável em seu papel, mesmo passando do ponto em alguns momentos. Foto: Divulgação É uma pena que o foco na dinâmica dos dois personagens escanteie os demais, como Mera, que tem um papel até maior do que imaginava (dada as polêmicas dos bastidores e o envolvimento de Heard nos julgamentos de Johnny Depp por violência doméstica contra ela), mas ainda é bastante subutilizada. As mudanças tonais abruptas do filme e o seu ritmo inconstante escancaram ainda mais o quanto ele não tem uma noção da história que quer contar, e pior: parece pouco interessado em contá-la. Se O Reino Perdido consegue minimamente se destacar em meio a essa flagrante decadência dos filmes de super-heróis, é graças à assinatura visual distinta que James Wan consegue trazer. Não é algo remotamente perto do mundo vivo e imersivo que James Cameron fez no último Avatar, mas é perceptível que Wan sabe trazer sua identidade em meio aos ambientes, criaturas e efeitos visuais (que serão injustamente criticados, mas são alguns dos melhores entre os blockbusters lançados neste ano). Além disso, o diretor nunca esconde suas raízes do horror e, ainda que não tenhamos nada perto daquela cena do Fosso no primeiro filme, esse olhar apurado vindo do gênero traz uma centelha de criatividade ao longa, mesmo com referências descaradas a outros filmes muito melhores, como Star Wars, O Senhor dos Anéis e Pantera Negra. Infelizmente, só esse cuidado com a forma e a exploração de diversas referências não garantem que o longa se sobressaia. Sou um grande defensor do primeiro Aquaman em seu olhar para a ação, humor galhofa e artificialidade deliberada; aqui, porém, boa parte desses elementos aparecem diluídos, o que nos leva a uma experiência insossa e bagunçada, mesmo capaz de nos divertir em determinados momentos. Parece uma síntese acurada do DCEU, afinal de contas, o que torna O Reino Perdido um canto do cisne mais do que perfeito para a franquia, para o bem ou para o mal. Nota: 2,5/5
- Crítica | A Fuga das Galinhas: A Ameaça dos Nuggets
Sequência apela para nostalgia e referências, mas não tem o brilho do original Foto: Divulgação Lançado há 23 anos, A Fuga das Galinhas é um marco da animação em stop-motion, um dos melhores produtos do estúdio Aardman. A história de Ginger, Rocky e as demais galinhas que escapam da granja da maligna Sra. Tweedy ficou imortalizada nas memórias de inúmeras crianças e adultos. O anúncio de uma sequência, mais de duas décadas depois, logo foi recebido com muita expectativa, embora fosse inevitável a pergunta: poderá o novo filme atingir o nível do original? Em A Ameaça dos Nuggets, Ginger (Thandiwe Newton) e Rocky (Zachary Levi) criam sua filha Molly (Bella Ramsey) na ilha paradisíaca onde vivem com as demais galinhas. Porém, o desejo e a curiosidade de Molly por liberdade a faz escapar da ilha, e ela para numa misteriosa fábrica que abriga diversas galinhas para propósitos funestos. Portanto, cabem aos seus pais e aliados resgatarem-na. Tal qual Ginger diz em determinado momento, se antes as galinhas desejavam escapar da granja, agora precisam se infiltrar em um espaço ainda mais perigoso. Mas essa perspectiva não muda o fato de que A Ameaça dos Nuggets replica várias das estratégias e batidas do original, gerando uma sensação de familiaridade que certamente atrai uma boa parte do público mesmo após tantos anos, mas acaba revelando uma notória falta de criatividade, especialmente com a revelação acerca da antagonista principal do longa. Há humor, há tensão e ótimas setpieces de ação tal qual o primeiro filme tinha, mas em tudo falta aquela centelha que o tornaria tão memorável. Foto: Divulgação Uma das maiores mudanças reside justamente na ambientação principal da obra. Se no original a granja da Sra. Tweedy era apresentada quase como um campo de concentração — cinza, chuvosa e opressiva —, aqui o novo lugar é idílico e perfeito, mas com um claro senso de que há algo errado. É como uma adaptação galinácea de O Show de Truman (enquanto o plano de Ginger e Rocky remete a obras de espionagem como Missão Impossível), e mostra que ainda há espaço para uma certa crítica ao capitalismo tal qual o primeiro filme possuía. Novamente, porém, é uma réplica que perde seu frescor mesmo na crítica que apresenta. Felizmente, o núcleo das personagens continua a ser o grande acerto do filme, especialmente pelo timing cômico. Seja a comicamente burrinha Babs (Jane Horrocks), a dupla de ratos aliados Nick (Romesh Ranganathan) e Fetcher (Daniel Mays) e os já citados Rocky e Ginger, o longa sabe exatamente que tom conferir aos personagens, assegurando que nesse aspecto em específico seja uma sequência digna de ser assistida. No fim, porém, A Ameaça dos Nuggets tem bons momentos, mas não está à altura do original tampouco do saldo geral dos estúdios Aardman. Não basta apenas saber o que funcionou no primeiro filme e replicá-lo mecanicamente: é necessária aquela centelha, aquela pulsão, que fez do longa anterior um clássico. Esta, infelizmente, é uma sequência que, mesmo com seus acertos, vai ser fácil de cair no esquecimento. Nota: 3/5
- Crítica | A Grande Ilusão (Minissérie)
Adaptação do livro de Harlan Coben tem saldo positivo e surpreende com desfecho Foto: Divulgação "Todas as histórias de amor terminam em tragédia... Ou o amor acaba ou, no caso dos que têm mais sorte, um vive o bastante para ver o outro morrer.” Lançada na primeira semana de 2024, a minissérie A Grande Ilusão está figurando entre os lançamentos mais assistidos na Netflix até então. Baseada na obra de Harlan Coben, é a décima terceira adaptação do autor, a oitava somente na Netflix. Seguindo a mesma linha narrativa dos livros, todas seguem um mesmo padrão: história investigativa, repleta de reviravoltas, com ação e uma pitada de suspense. Não que isso seja um problema. No caso de A Grande Ilusão conhecemos Maya Stern, uma ex-piloto de operações especiais que voltou recentemente da guerra, que perdeu o marido e a irmã com pouco tempo de diferença entre as mortes brutais. Porém, um dia, ela vê uma imagem impensável capturada pela câmera escondida em sua casa: a filha de 2 anos brincando com Joe, seu falecido marido. Questionando sua própria sanidade, Maya começa a investigar, mas todas as descobertas só levantam mais dúvidas. Conforme os dias passam, ela percebe que não sabe mais em quem confiar e para encontrar a resposta, Maya precisará lidar com os segredos profundos e as mentiras de seu passado antes de encarar a inacreditável verdade sobre tudo que aconteceu. Foto: Divulgação A minissérie com oito capítulos é uma daquelas que consegue prender o espectador, seja pela curiosidade do desfecho ou pelas reviravoltas presentes no final de cada episódio. Como falei anteriormente, a narrativa de A Grande Ilusão não se difere em muita coisa das outras séries baseadas na obra do autor. Alguma tragédia acontece e o protagonista determinado, ao tentar buscar respostas ao ocorrido, se depara com uma série de reviravoltas sobre a sua vida e tudo que ele conhece. É uma narrativa de praxe dentro das séries e livros de ação policial e que, para funcionar, precisa ir além dos seus próprios clichês. A Grande Ilusão, de fato, acerta bem na escolha do seu elenco e Michelle Keegan segura bem as pontas desta turbulenta protagonista. Isso, sem dúvidas, é um ponto extremamente positivo, já que toda a minissérie funciona ao seu entorno. Tecnicamente, A Grande Ilusão segue os mesmos moldes das outras minisséries baseadas na obra de Coben com um padrão imagético muito parecido entre elas. Ainda sim, é um bom entretenimento para quem é fã do gênero e realmente consegue surpreender com o seu series finale bastante corajoso. A Grande Ilusão não é uma obra-prima, mas tem seus méritos e dentre o catálogo recente da Netflix consegue se destacar de forma positiva. Nota: 3,5/5












