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  • Crítica | The Flash

    O drama pessoal de Barry Allen se destaca em meio aos prós e contras de um filme de super-herói. Foto: Divulgação Sendo lançado no crepúsculo do atual e bagunçado universo da DC (e quiçá dos filmes de super-herói em geral), The Flash parece um filme lançado mais tarde do que deveria. Não é para menos: poucos longas dessa safra de heróis tiveram uma produção tão conturbada, marcada por trocas de diretores, adiamentos, as diversas mudanças tonais e de gestão do universo cinematográfico da DC e mais recentemente por todas as polêmicas envolvendo Ezra Miller e sua determinação em gabaritar o Código Penal. Portanto, não chega a ser uma surpresa a decepção financeira que o filme mostrou em seu final de estreia, potencializada por uma cada vez mais inegável fadiga do público com o gênero. Mas será que ele é tão terrível assim mesmo? Se inspirando no elogiado arco dos quadrinhos Flashpoint, o longa segue Barry Allen/Flash (Miller) descobrindo que é capaz de usar seu poder de supervelocidade para voltar no tempo. Portanto, ele decide retornar ao dia do assassinato da sua mãe Nora (Maribel Verdú) de forma a evitá-lo e também garantir a liberdade do pai Henry (Ron Livingston), injustamente condenado pelo crime. Não é preciso dizer, porém, que tal ação muda drasticamente a(s) linha(s) do tempo, fazendo com que Barry se veja preso numa versão da realidade onde sua mãe está viva, mas ele é forçado a lidar com seu eu mais jovem e imaturo, e pior: onde não há super-heróis devido à sua interferência no passado e a Terra está indefesa contra o ataque do General Zod (Michael Shannon). Durante a sua primeira meia-hora, The Flash se revela um filme dotado de bastante personalidade e espírito próprio, mérito tanto da direção de Andy Muschietti, dos tons dramáticos e épicos pintados pela trilha sonora de Benjamin Wallfisch e, sobretudo, pelo timing certeiro que Miller confere ao protagonista, seja no humor ou no drama. Mesmo as participações protocolares de outros personagens da DC não afetam a ênfase dada ao drama pessoal de Barry; de fato, embora nas aparições do Batman do Ben Affleck é perceptível o CGI atuando em seu lugar, sua curtíssima participação como Bruce Wayne ainda serve ao propósito temático da obra, ao sintetizar aquilo que Barry terá de aprender a duras custas até o final: a tragédia de perder sua mãe o moldou e não é maior do que a tragédia de alterar o curso da história. Foto: Divulgação Assim, mesmo quando dispara para diversos lados e incorpora alguns dos piores vícios dos filmes contemporâneos de super-heróis, The Flash carrega dentro de si uma história de amadurecimento – e até mesmo de origem, ainda que tardia. Os seus melhores momentos se dão justamente quando trazem essa jornada para o primeiro plano, seja no primeiro ato ou nas interações entre os dois Barrys após a morte de Nora ser evitada. Ainda que o Barry mais jovem seja por vezes irritante para além do tolerável e não passe por um arco de transformação tão profundo quanto sua contraparte que já conhecemos, Miller consegue nos convencer adequadamente de que estamos assistindo duas versões tão semelhantes e diferentes de um mesmo indivíduo – um trabalho que por vezes é ameaçado pelo CGI esquisito quando ambos estão em cena, mas que felizmente se sobressai. Até a posterior inclusão do Batman de Michael Keaton no longa consegue conversar com essa proposta central, mesmo quando o personagem é reduzido às suas falas icônicas dos filmes de Tim Burton. Pena que o mesmo não pode ser dito da Supergirl de Sasha Calle, que se mostra uma personagem subutilizada e unidimensional. Fica nítido que a única justificativa para sua inserção na obra se deu pela impossibilidade de trazer Henry Cavill de volta com a Superman, dada a complicada relação existente entre o ator e a DC nos últimos anos. Aliás, é justamente a partir do momento em que a narrativa se volta para o resgate da Supergirl que The Flash começa a perder força, culminando num terceiro ato inferior e que mostra como as interferências do estúdio minaram tanto do potencial do filme. Nem mesmo o retorno de Michael Shannon como Zod empolga, e não é difícil entender porque o ator foi abertamente crítico da sua participação neste filme em comparação ao trabalho que pôde fazer 10 anos atrás em Man of Steel. Mesmo as cenas que mostram os tantos universos audiovisuais da DC ao longo do tempo acabam se revelando paradoxalmente vazias, visto que precisam apostar mais no legado da editora na TV e no cinema em geral do que no confuso e irregular universo construído na última década. É só quando retorna ao peso dramático das escolhas e da trajetória pessoal de Barry que o filme volta a se reerguer. Há em The Flash diversos elementos que se sobressaem o suficiente para distingui-lo, incluindo o CGI – que, à despeito de algumas críticas feitas aqui, consegue se encaixar muito bem ao longa em sua artificialidade intencional, que se mostra uma lufada de ar fresco em meio ao hiper-realismo dos blockbusters atuais. Mas trata-se de um filme que sofreu com influências externas que certamente alteraram muito da sua proposta original, dando a ele a tarefa ingrata de encerrar um universo que sempre pecou pela falta de coesão. É justamente quando se volta para o arco particular de seu protagonista que é possível ver em The Flash aquele filme que foi tão veiculado como um dos maiores de super-heróis de todos os tempos. Nota: 3.5/5

  • Crítica | Sou de Virgem (1ª temporada)

    Boots Riley entrega com mais uma gigante amostra de afrosurrealismo bem elaborado Foto: Divulgação Sou de Virgem acompanha o amadurecimento de Cootie (Jharrel Jerome), um jovem negro de 4 metros de altura, em Oakland, Califórnia. Cootie cresceu escondido da companhia de outras pessoas, mas logo vivencia as belezas e as contradições do mundo pela primeira vez. Entre erros e acertos ele faz amizades, encontra o amor, passa por situações embaraçosas e encontra seu ídolo, um super-herói “de verdade” chamado O Herói. É preciso dizer, antes de tudo, que a base do roteiro de Sou de Virgem é uma história de amadurecimento e descoberta de mundo das mais clássicas das fábulas europeias, mas o que o diretor, roteirista e criador da série Boots Riley faz com essa base é algo que ninguém consegue prever. A sutileza e o minimalismo passam longe das mãos de Riley. O cineasta estreou na direção em 2018 com o irreverente e inusitado filme Desculpe te Incomodar e agora voltou com mais simbolismos, humor e acidez em seu novo trabalho. Não existe qualquer alerta ou pista para o que ele vai tirando da cartela a cada episódio. E assim como o personagem e o criador da série, a “mensagem” central da história também não é nada sutil. É um jovem negro que cresceu mais do que todos ao seu redor e vai ter que lidar com isso numa sociedade que não espera que jovens negros se destaquem. Mas mesmo estando na nossa cara o tempo todo, o desdobramento da narrativa é tão sagaz, a construção imagética é tão estilosa que o interesse cresce diretamente proporcional ao passar dos episódios. Ao mesmo tempo que está sempre afiado para as cutucadas em abordagens sociais, o roteiro consegue transparecer leveza e uma idiotice inocente de quem está querendo apenas se divertir não importa o que aconteça, tal qual o protagonista. Foto: Divulgação O elenco da série é um deslumbre. O ganhador do Emmy Jharrel Jerome – que brilhou na minissérie Olhos que Condenam – dá vida ao gentil gigante que é cheio de camadas e de detalhes que reforçam os traços do personagem. Walton Goggins também está bem divertido como mais um herói desprezível no catálogo do Prime Video. Outros pontos fortes também são Carmen Ejogo e Kara Young. Um dos mais admiráveis movimentos da cultura negra norte-americana é o chamado afrosurrealismo ou surrealismo negro. Em 2013 a revista Black Camera da Universidade de Indiana – uma revista de estudos de filmes negros, dedicada a análise e documentação da experiência cinematográfica negra e a gerar e sustentar uma discussão acadêmica formal da produção de filmes negros – destacou o termo e suas motivações, o que estava despertando o interesse de autores e cineastas negros em construir peças que envolviam o surreal, o imaginário e suas realidades socias. Não é uma escolha criativa nova ou recente, mas percebeu-se que o momento de crescente interesse de criações desse gênero merecia um olhar mais refinado. Entre os nomes mais conhecidos estão Donald Glover, Jordan Peele, Kahlil Joseph e Beyoncé. A professora Terri Francis, fundadora do grupo Afrosurrealist Film Society, diz que embora obras afrosurrealistas possam ter significados em níveis mágicos ou alucinatórios, o senso de realidade aumentada algumas vezes se direciona para contextos e referências políticas, culturais e étnicas atuais ou familiares. Em resumo, se espera sempre um recorte de realidade quase documental das peças culturais negras, e o uso do absurdo ilustra, exemplifica e choca ainda mais do que um registro puramente documental. E com Riley essa corrente funciona em todos os níveis de interpretação. Ele não deixa escapar nada, a estrutura do capitalismo, grandes corporações que exploram a mão de obra do trabalhador, agendas midiáticas... o surreal de Riley é uma pintura satírica bem escrachada do cotidiano, sem ser repetitivo e conseguindo surpreender. No mais, ver Riley explorando gêneros e brincando com ângulos, cortes e montagens é um deleite. Nota: 5/5

  • Crítica | Grease: Rise Of Pink Ladies (1ª temporada)

    Uma série visualmente linda, com uma história que não consegue chegar nem perto do filme original Foto: Divulgação Não é novidade para quem acompanha os lançamentos do Paramount+ que a empresa na maioria das vezes aposta em criar novos conteúdos de suas marcas já existentes, ao invés de dar espaço para novas produções. Algumas vezes essa aposta é bem sucedida, gerando um inovador espaço para continuações de séries, como The Good Fight, spinoff de The Good Wife, ou mesmo as séries limitados do universo de Yellowstone, 1883 e 1923. Apesar desta forma gerar sucesso, ela não é infalível, principalmente quando a marca original já acabou há muitos anos, como iCarly, que teve seu reboot, de qualidade duvidável, produzido pelo streaming. A mais nova marca que o Paramount+ decidiu reviver é um dos grandes clássicos do cinema, o musical Grease. Estrelado por John Travolta e Olivia Newton-John, o filme mostra os dois adolescentes se apaixonando. Durante o longa conseguimos ver a evolução de Sandy (Newton-John), que acaba de chegar em um novo colégio e se encontra fazendo amizade com as “Pink Ladies”, um grupo feminino que é rapidamente identificável pelas suas jaquetas cor de rosa. Já Grease: The Rise of the Pink Ladies, que estreia 40 anos após o lançamento do filme, mostra a história de como este grupo de garotas foi formado. Um dos grandes fatores que a série traz é não tentar replicar um conteúdo de época. Ao mesmo estilo de Bridgerton, a série aposta em trazer elementos que nos lembre do tempo em que a série se passa, ao mesmo tempo que traz contextos e situações atuais para os anos 50. Essa escolha funciona, principalmente em seu estilo visual, que consegue fazer referências ao filme original, enquanto consegue criar sua própria linguagem, e também em relação aos assuntos abordados, como sexualidade e identidade de gênero. Porém, os elementos narrativos nos destoam da história original, que neste confuso canon se passa quatro anos após os eventos da primeira temporada. Foto: Divulgação A desconexão do material base não é o único problema que a trama da série tem. Além de ter histórias datadas, como um romance entre uma estudante e um professor que parece que saiu de um capítulo de 2010 de Pretty Little Liars, a história não sabe onde focar seu interesse, com desenvolvimentos e resoluções jogados de uma forma que parece ser aleatória, mas ela se perde mesmo após a saída de Johnathan Nieves. É visível, através de um CGI horrível, que o personagem Richie deveria fazer parte dos episódios finais da primeira temporada, mas acaba sendo jogado de lado, junto com algumas partes que ficam sem uma resolução digna após a repentina saída do ator durante as gravações. Quando pensamos em Grease uma das primeiras imagens que vem às nossas cabeças são os clássicos números musicais, dos quais eu conseguiria nomear dezenas de memória, mas apesar de 90% das vezes tentar referenciar os números do filme original, a série não consegue fazer nenhum deles ser memorável. Coloco a culpa neste caso aos compositores, que não conseguem criar nenhuma música que faz o espectador ter vontade de baixá-las para ouvi-las repetidamente, ou se quer lembrar delas alguns minutos após os episódios acabarem. Muitos dos números conseguem trazer elementos visualmente interessantes, mas o constante uso de nostalgia acaba cansando após metade da temporada. Dito isso, apesar de estar fazendo duras críticas a série, ela não é somente composta de erros. Como já falei anteriormente, um dos grandes pontos positivos da prequela é seu estilo visual e fotografia, que conseguiram ver como outras produções trazem o ensino médio para as telas e levar esses elementos aos anos 50. Muitas vezes eu me impressionava com o jogo de câmeras e coreografia da série, ao mesmo tempo que eu não me importava com nada que saia da boca dos atores. O elenco também entrega um bom trabalho, mas devido às péssimas histórias, ninguém consegue entregar algo excepcional ou memorável. Infelizmente sinto que o Paramount+ se apressou na produção de Grease: The Rise of the Pink Ladies e acaba entregando uma série visualmente deslumbrante, que nem vai cair no esquecimento do público, tendo em vista que nunca conseguiu pegar ele para assistir. Nota: 2/5

  • Crítica | Um Ano Inesquecível: Inverno

    Terceiro longa da franquia se distancia dos seus antecessores, trazendo história mais dramática e menos original. Foto: Divulgação Sendo o terceiro filme da franquia adolescente do Prime Video, Um Ano Inesquecível: Inverno chegou ao streaming na última semana. Baseado no conto ‘Deixe a Neve Cair’ da escritora Paula Pimenta, o longa acompanha Mabel (Maitê Padilha), uma garota que quer passar os últimos momentos antes da formatura viajando com as melhores amigas, porém, a jovem é surpreendida com uma viagem em família para o Chile na mesma época. No local, Mabel descobre um concurso literário e decide se dedicar a isso, mas não sabe que história contar. Quando a jovem observa uma movimentação suspeita na floresta e descobre que alguns jovens da estação de esqui se reúnem dentro de uma caverna no meio da noite, ela decide contar esta história e se aproxima do grupo. A partir daí, Mabel vê sua vida mudar completamente. Com direção de Caroline Fioratti e roteiro assinado por Ângela Fabri, a história de Um Ano Inesquecível: Inverno teve grandes modificações do seu material original e transformou uma leve trama de romance bem juvenil na adaptação de tom mais dramático, até agora, da franquia. É possível identificar um estilo bem similar do filme com histórias coming of age de sucesso americanas. Mabel é uma adolescente repleta de incertezas e é a protagonista mais vulnerável dentre as três já assistidas pelo público. Ela tem dúvidas sobre quem é de verdade e vive aquele momento de difícil convivência com as regras impostas pelos pais. A protagonista encontra apoio em um grupo de amigos disfuncionais que vivem seus próprios dramas acerca do luto, aceitação e amor-próprio. Foto: Divulgação Com uma estética bonita e interessante, misturando os tons frios do inverno com uma fotografia que usa muito bem a água em seus vários estados, o filme homenageia claramente Sociedade dos Poetas Mortos em diversos pontos da narrativa. As atuações neste filme funcionam muito bem e são o seu ponto alto. Maitê Padilha é uma atriz muito competente, assim como Michael Joelsas. Os dois juntos estão muito bem em cena. Porém, em Um Ano Inesquecível: Inverno, as motivações dos personagens parecem pouco autênticas e as reações totalmente desproporcionais. A representação que o longa propõe é importante, mas não parece se encaixar com a proposta do roteiro, que se leva a sério demais em alguns momentos, enfiando cenas bonitas, mas meio desconexas com a história como um todo onde parece que coisas simples são tratadas com uma seriedade excessiva e coisas mais complexas são abordadas de forma banal. O filme não é ruim, mas se torna esquecível, por conta desses problemas narrativos muito presentes. Além disso, a franquia Um Ano Inesquecível se diferenciava de outros filmes do gênero por trazer uma brasilidade forte em histórias clichês. Inverno perde isso ao fazer com que a trama se passe em outro país. E, mesmo com protagonistas e personagens brasileiros, faltou a centralidade merecida que as histórias estavam contando pelos quatro cantos do Brasil. E isso faz com que esse terceiro longa tenha uma identidade menos própria que os outros da franquia, além de ter a proposta menos original. A franquia se encerra nesta sexta-feira, 23, com Um Ano Inesquecível: Primavera baseado no conto da escritora Bruna Vieira. Nota: 3/5

  • Canção ao Longe ganha trailer oficial e data de lançamento nos cinemas brasileiros

    A busca por identidade e pertencimento é o tema chave do novo filme da diretora Clarissa Campolina Foto: Divulgação Após seu período de exibição no circuito de festivais, Canção ao Longe, a estreia de Clarissa Campolina na direção solo, finalmente recebe data de estreia nacional. O filme chega às grandes telas no dia 6 de julho, através do projeto Sessão Vitrine, uma iniciativa inovadora de formação de público e distribuição coletiva de produções brasileiras. Com exclusividade, a página Oxente, Pipoca? divulgou o trailer do longa. Canção ao Longe gira em torno de Jimena (Mônica Maria) e sua busca por identidade e senso de pertencimento no mundo. A jovem se sente deslocada morando com sua mãe e sua avó, duas mulheres brancas de classe média, imersas no pensamento tradicionalista. Além disso, a protagonista mantém uma relação complexa com o seu pai, um homem negro e estrangeiro, com quem troca cartas à distância. Ao longo da trama, a personagem reflete sobre sua dupla origem, dinâmicas familiares, tradição, classe, raça e gênero. Para a criação do roteiro do filme, Clarissa Campolina, Caetano Gotardo e Sara Pinheiro tinham o desejo de construir uma protagonista feminina forte, silenciosa e que, a partir dessas características, o filme pudesse ser um retrato das relações familiares e do rito de passagem para a vida adulta. Inclusive, a contribuição da atriz, artista visual e tatuadora Mônica Maria, responsável por dar vida a Jimena, foi imprescindível para a composição da obra. “O encontro com a Mônica Maria modificou e enriqueceu as questões a serem trabalhadas no filme. Mônica é uma mulher preta e a questão racial passou a ser fundamental para a narrativa e todo o processo do filme, desde sua escrita, até a pesquisa, produção, ensaios com os atores e atrizes e a relação dos corpos com o espaço urbano”, comenta Clarissa. Além de contar com os nomes de Margô Assis, Matilde Biadi, Ricardo Campos, Jhon Narvaez, Enzo Daniel e Carlos Francisco em seu elenco, o longa-metragem é produzido pela Anavilhana, que já lançou mais de 30 obras audiovisuais no mercado de cinema autoral. A produtora reúne mais de 20 anos de experiência de suas sócias e teve trabalhos selecionados e premiados em diversos festivais nacionais, como o Festival de Brasília, o Festival do Rio e a Mostra de Tiradentes. O filme é um lançamento da Vitrine Filmes que desde 2010 já distribuiu mais de 200 filmes e reuniu milhares de espectadores nos cinemas do Brasil. O trailer oficial de Canção ao Longe foi divulgado com exclusividade pelo Oxente, Pipoca?, página nordestina sobre produções nacionais, temporada de premiações e cultura do entretenimento.

  • Crítica | Que Horas Eu Te Pego?

    Jennifer Lawrence mostra toda sua versatilidade nessa comédia que só quer te fazer rir Foto: Divulgação Maddie (Jennifer Lawrence) já perdeu seu carro e está a um passo de perder a casa que herdou de sua mãe por conta dos altos impostos cobrados. Enquanto busca outro emprego, ela encontra uma inusitada oferta: um casal procura uma moça para “namorar” seu introvertido filho, Percy (Andrew Barth Feldman), de 19 anos, antes que ele vá para a faculdade. Maddie topa e acaba se surpreendendo com o rapaz. A trama leva a caminhos que qualquer pessoa prevê desde o início, mas isso não significa que a jornada não deva ser aproveitada, especialmente quando ela é tão divertida. Utilizando de um humor acessível e cheio de duplo sentido com piadas de teor sexual, o filme consegue ser genuinamente engraçado. Há várias situações de humor mais “pastelão”, e a comédia funciona tanto quanto tenta fazer algo com mais sutileza, que exige um pouco mais de atenção do espectador. Foto: Divulgação Como temos uma protagonista mais, digamos, amoral, o roteiro tem que dar algo para que a audiência tenha empatia pela moça, e no caso é a luta pela casa de sua mãe e seus problemas de abandono paterno. Graças ao imenso carisma e talento de Lawrence, que se mostra tão boa em uma comédia despretensiosa como essa quanto em um dramas mais pesados, como o recente Passagem (2022). A atriz é versátil e não à toa uma estrela, então só por ela já valeria a pena assistir ao filme. Mas ainda temos Andrew Barth Feldman, que compartilha a tela e uma ótima química com Lawrence. O rapaz interpreta muito bem a inexperiência de alguém que sempre viveu em uma bolha e sabe de quase nada da vida. Ainda que clichê, a construção da relação dos dois tem um desenvolvimento bacana de se acompanhar, assim como um final que honra o amadurecimento de ambos e pode até emocionar porque tudo flui de uma maneira orgânica. Eu adorei. São 90 minutos onde a gente esquece do mundo lá fora e senta pra aproveitar um filme que só tem a pretensão de te divertir e não mais que isso. Não quer te fazer refletir por horas, e ainda que te convide a pensar sobre grandes mudanças, a intenção é somente te fazer gargalhar e consegue isso com facilidade. Nota: 3,5/5

  • Crítica | Resgate 2

    Apesar do enredo pouco inovador, a sequência investe na ação e garante o entretenimento. Foto: Divulgação Depois de, aparentemente, morrer no final do filme anterior, Tyler Rake (Chris Hemsworth) é salvo do rio onde caiu, e enquanto se recupera em uma cabana isolada, um misterioso homem, interpretado por Idris Elba – uma mini reunião de Asgard – tem uma nova missão para oferecer ao mercenário: resgatar uma família de um criminoso de uma prisão. Treinando pesado para voltar à antiga forma, Tyler sabe que não será fácil, mas não esperava reencontrar fantasmas do passado pelo caminho. Apesar da trama ser mais do mesmo do que vemos em filmes do gênero, o que vale mesmo é o baita entretenimento com a ação constante e o ritmo frenético. Se no longa anterior tivemos aquela sequência de 11 minutos, Sam Hargrave nos brinda com 21 minutos desta vez. O modo como ele filma parece ser um longo plano-sequência, e mesmo que não seja, o que vale é a sensação que causa. Tudo acontecendo ao mesmo tempo com lutas muito bem coreografadas, que não dá tempo nem pra respirar, graças a agilidade que testemunhamos na tela. Foto: Divulgação É notório também que há mais destaque para outros personagens, como Nik (Golshifteh Farahani), parceira de Rake, que parte para a ação com ele. Farahani é bem competente e é bom vê-la nos holofotes, até porque além de muito carisma, a relação dela com o mercenário é a melhor construída pelo roteiro. Há uma questão de respeito, admiração e amizade envolvidas. No entanto, não há muito em se exaltar no resto. Há um tentativa de formação de uma equipe, mas sem o devido desenvolvimento, tornam-se personagens descartáveis. Assim como os tais “fantasmas do passado” que são clichês já muito utilizados e aqui não acrescentam em basicamente nada. Mas tudo bem, eu, particularmente, não esperava uma história cheia de nuances e complexidade com personagens profundos, então o resultado é que o filme é um entretenimento muito válido pra quem é fã do gênero. Ação não falta, tiros, explosões, lutas corpo a corpo e tudo isso em um ritmo alucinante. Hargrave merece muitos elogios por dirigir assim e fazer um ótimo uso de efeitos práticos que fazem a diferença pra quem assiste ao trazerem mais verossimilhança para as cenas. Então se a trama em si não é lá essas coisas, a ação é bastante recompensadora. O terceiro longa já foi anunciado, e com o gancho deixado pelo final, não poderia ser diferente. Nota: 3/5

  • Crítica | Medusa Deluxe

    Uma revigorante uma dose de originalidade e ineditismo em pleno 2023. Foto: Divulgação Eu vou muito ao cinema. Talvez até demais, se você for olhar minha fatura do cartão e considerar o preço do ingresso + pipoca. Atualmente, pelo menos uma vez por semana sento naquela cadeira minimamente reclinável e, como diria a icônica Lisbela, “o mundo lá fora vai se apagando, devagarinho…”. E tem sido assim por anos. Se tornou um hábito, assim como tem aqueles que vão à igreja aos domingos ou assistem futebol às quartas. O problema é que quando alguma coisa vira habitual, cotidiana, por vezes esquecemos de refletir sobre elas. Vamos no automático, sem questionar muita coisa. Essa semana, na quarta ida ao cinema do mês, assisti Medusa Deluxe e senti algo que há muito tempo não sentia enquanto ainda sentada na sessão. Me peguei desfrutando de um interesse diferente, que misturava empolgação e curiosidade. Não demorou muito até entender: pela primeira vez em sei lá quanto tempo eu não tinha a menor ideia de para onde aquele filme estava me levando. Vejamos os outros filmes em cartaz nesta mesma semana: um remake de uma animação clássica, três filmes derivados de franquias de super-heróis, uma adaptação de videogame, quarta continuação de uma franquia sobre carros-robôs e décima de uma sobre carros que desafiam as leis da física. Não quero dizer aqui que esses filmes são ruins (apesar de quase todos serem), mas é inegável que o cinema – e aqui destaco aquilo que é exibido comercialmente em salas apropriadas e telas grandes – passa por uma crise de originalidade motivado pela preferência da indústria em priorizar apenas conteúdo derivado de propriedade intelectual anterior e que já tenha um público alvo garantido, ou seja, fãs. Poderia passar mais vinte parágrafos falando sobre isso, mas fica para outra hora. Voltemos ao ponto dessa crítica. Diante de tanto “mais do mesmo”, Medusa Deluxe foi uma grata surpresa. Personagens inéditos para conhecer, novos backgrounds narrativos para aprender; cenários diferentes para explorar. Esses pontos são ainda favorecidos pelo fato do filme ser um suspense whodunnit, meio que uma clássica história de detetive, mas sem o detetive em si. Em uma competição de penteados, um dos grandes hairstylists foi encontrado morto, com seu cabelo e couro cabeludo desaparecidos, e todos ali presentes – competidores, modelos, equipe – são suspeitos. Sem nunca saber ao certo em quem confiar, mergulhamos numa trama de fofocas, tentando colher peças para solucionar esse quebra cabeça. Desde a cena um, estamos presos na história. Foto: Divulgação Para contribuir com essa ideia de rede de intrigas, o filme mimetiza um longo plano sequência, no melhor estilo Birdman, com as cenas sendo alternadas na medida que um personagem troca de ambiente, com a câmera o acompanhando. Certamente desenvolver esse estilo demandou muito ensaio de todo elenco e equipe, mas acredito que cabe destacar especialmente os nomes de Robbie Ryan, diretor de fotografia, responsável também pelo visual igualmente desconfortável e divertido; Faoud Gaber, editor responsável pela montagem dinâmica e os cortes imperceptíveis; e Lili Lea Abraham, diretora de arte que, com a ajuda da decoradora de set Rachel Rolfe, criaram em uma única locação um labirinto que satisfizesse o interesse do roteiro ao mesmo tempo que nos situa no backstage da competição. Outra grata surpresa foram os excelentes diálogos, banhados num ótimo tom cômico, suficiente para aliviar a tensão narrativa, mas sem pesar a mão a ponto de comprometer o envolvimento da audiência. Deixo meus devidos créditos ao roteirista e diretor estreante Thomas Hardiman, que, apesar de entregar um desfecho aquém do que a premissa e o início do filme merecem, desenvolveu como veterano uma obra visual e narrativamente inusitada. Claro, o ineditismo (ainda) não morreu por completo na sétima arte e, mesmo no último ano, tivemos grandes destaques como Aftersun, Close e Os Banshees de Inisherin. Mas esses são filmes de linguagem e formato mais complexos, que exigem mais do público. O que estou falando aqui é de uma pipoca low-budget de qualidade, daquelas que hoje só vemos raras vezes, quase sempre diretamente para streaming. Nota: 4/5

  • Crítica | Cidade em Chamas

    As chamas ficam só no título, porque a série não poderia ser mais fria. Foto: Divulgação Nova série de Josh Schwartz e Stephanie Savage, produtores executivos de clássicos adolescentes como “The O.C.” e “Gossip Girl”, a princípio me deixou bem curioso. O primeiro episódio até conseguiu me deixar interessado pela história e pelos personagens, mesmo que já não fosse nada muito inventivo. E foi nele que já se encerrou o que eu tinha visto de bom, porque os sete episódios seguintes são uma bagunça completa, que faz vários ensaios do que poderia ser algo instigante, mas nunca consegue atingir seu potencial, infelizmente. Ambientada no ano de 2003, conhecemos Sam (Chase Sui Wonders), uma estudante universitária que é baleada no Central Park no 4 de Julho, dia da Independência dos Estados Unidos. Quando começa a investigação, os detetives vão conectando uma série de incêndios misteriosos, a cena musical do centro de Nova York e uma rica família do ramo imobiliário desgastada pelos muito segredos que guarda. Pela premissa já se pode captar um pouco da bagunça que eu citei. É sempre bom ver narrativas onde os núcleos vão se entrelaçando de uma maneira orgânica, e aqui passa longe de ser assim. Sam é o ponto chave, pois é através dela que todos se conectam. Ela traz Charlie (Wyatt Oleff) – que é, claro, apaixonado por ela – para esse mundo. Ela o leva para diversos shows, e assim ele conhece uma banda, que são os responsáveis pelos diversos incêndios na cidade e sem nenhum integrante específico que mereça uma menção. Eles flertam com o anarquismo, mas nos é apresentado de uma forma tão vazia, que só parecem jovens desocupados sem propósito de absolutamente nada. O ex-vocalista da banda, William (Nico Tortorella), é viciado em drogas, e irmão de Regan (Jemima Kirke), que é casada com Keith (Ashley Zukerman), com quem Sam tem um caso. Esse é um resumão da patacoada. Foto: Divulgação Passeamos por esses enredos através dos detetives que investigam o caso, e talvez esta seja a pior parte. Eles parecem uma caricatura saída da cabeça de uma criança de 5 anos quando perguntam a ela como um detetive deveria ser. Nada neles funciona. As atuações são fora do tom, a caracterização é péssima e até o texto que sai da boca deles é genérico. E no final, quem resolve os mistérios são outros personagens, praticamente. Há de se louvar algumas atuações, como a de Sui Wonders. Mesmo que a personagem caia no lugar comum de outras protagonistas de Schwartz, “que fazem várias merdas, mas o mundo deve perdoá-las porque elas são lindas”, a atriz consegue deixar sua marca. Kirke, Zukerman e Tortorella também estão bem nos papéis, mas a positividade acaba por aqui, que com exceção da bela trilha sonora sempre consistente, não há muito mais para ressaltar de bom. Não tenho felicidade em falar mal de algo que estava esperando que fosse bom. A série é adaptação de um livro que eu não li, então não posso julgar como tal. Mas falando como série, e que pelas cenas finais pretendia voltar para uma 2ª temporada, ela não funciona. Uma das principais características de Schwartz são os diálogos espertos, rápidos e cheios de referência, e falta muito disso no roteiro de Cidade em Chamas. É como se precisassem de mais episódios para desenvolver a história e fazer com que nos importássemos com os personagens, já que mesmo com a longa duração deles, a série também falha nisso. O resultado são vários grandes momentos jogados sem qualquer impacto para quem assiste, extremamente enfadonhos e que ninguém dá a mínima, com reviravoltas previsíveis, como se colocassem vários temperos em uma panela e nenhum deles conseguisse dar sabor ao prato, que chegou à mesa frio e apático. Nota: 1,5/5

  • Crítica | Tinnitus

    O som em primeiro plano – ou quase. Foto: Divulgação Audiovisual é uma palavra simples, composta pela justaposição de dois radicais bem comuns no nosso vocabulário. Ainda assim, quando falamos de obra audiovisual, tendemos a menosprezar a importância da primeira parte do vocábulo, nos atentando ao visual da coisa. Ao contrário daquele take perfeitamente iluminado que dá vontade de emoldurar, o áudio tende a passar despercebido para o espectador comum. Não é bem culpa nossa, da audiência. Nos tradicionais cursos de cinema somos ensinados que os melhores áudios diegéticos (que difere da trilha sonora) são aqueles “invisíveis”, isto é, que não se fazem perceber. São parte da obra, contribuem para a narrativa, mas não se sobressaltam e, em geral, nem devem se sobressaltar. Em geral. Seja por motivos metalinguísticos ou pela própria proposta narrativa, alguns filmes quebram essa “regra”, colocando efeitos sonoros em destaque e evidenciando o sentido auditivo do espectador. Pode oferecer um estranhamento inicial, mas costuma ser uma experiência encantadora. É o caso, por exemplo, dos filmes Cantando na Chuva (1952), Os Pássaros (1963), Um Lugar Silencioso (2018) e O Som do Silêncio (2019). Tinnitus, dirigido por Gregorio Graziosi e premiado no Festival de Gramado, é o mais novo acréscimo a esta lista. Marina (Joana de Verona), promissora atleta de saltos ornamentais, sofre da doença que dá nome ao título do longa. Ela possui uma hipersensibilidade auditiva que ocasiona um zumbido, como se houvesse um “grilo”, como a mesma descreve, em seu canal auditivo. O excelente trabalho de som e mixagem, assinados por David Boulter e Fábio Baldo, nos coloca dentro da cabeça de Marina, compartilhando seu tormento. O grave é amplificado, as variações sonoras, distorcidas, e o chiado é constante. Tinnitus é, antes de tudo, um drama sensorial com pitadas de thriller. Foto: Divulgação A aflição e agonia incessante prejudicam a carreira de Marina, a afastando dos trampolins – mas não das piscinas: anos depois de um acidente em plenas Olimpíadas do Rio, Marina está trabalhando como sereia num aquário. Além disso, visita um grupo de apoio para os que sofrem da mesma condição que ela, coordenado pelo seu marido e otorrinolaringologista (André Guerreiro Lopes), que não consegue bem definir as fronteiras entre consultório e lar. A doença – e, por consequência, a vida – estão administradas. Até que o esporte volta, pouco a pouco, à vida de Marina, que se deixa levar. Ela retoma contato com sua técnica, suas visitas ao centro esportivo se tornam frequentes, e, eventualmente, conhece Teresa, que ocupa seu lugar na dupla que antes fazia com Luísa. A protagonista, então, se vê presa num emaranhado de tensões – seja a rivalidade no esporte, seja as mentiras que deve contar para continuar sendo boa esposa/paciente, seja os jogos de desejo e sexualidade, seja sua própria vontade de voltar aos saltos. Tudo isso emoldurado pela caótica e barulhenta São Paulo, que, como sua arquitetura linear e rígida, distintamente capturada por Rui Pocas, abarcam o senso de solidão e melancolia da personagem. Não sei se, a essa altura, já havia me acostumado com o incômodo auditivo ou ele esse aspecto voltou ao segundo plano, mas certamente esqueci dele. Uma pena, porque o diferencial do longa é justamente a perturbação causada pela doença (na personagem e em nós) – e esta se perde no meio da história para dar lugar a tantas subtramas que, infelizmente, não nos cativam. Parecem incompletas ou súbitas, se não preguiçosas. Entendo a tentativa dos roteiristas Marco Dutra e Andres Vera, além do próprio Graziosi, de construir um mistério que nos leve até o (por sinal, ótimo) desfecho final, mas, na prática, funciona mais como uma dispersão que só leva a nos perguntarmos quanto tempo ainda falta. Tinnitus é um filme com uma excelente premissa, uma ótima execução e uma fraca dramaturgia. Na balança, é uma experiência válida, especialmente para quem tem a oportunidade de assistir numa sala de cinema e brincar com a alteridade única que o filme trás. Nota: 3/5

  • Crítica | Homem-Aranha: Através do Aranhaverso

    A inventividade do Aranhaverso supera-se na mais aguardada continuação do ano Foto: Divulgação Esta é uma resenha sobre uma sequência. E não há nada de muito especial sobre uma sequência de filmes de heróis. Comumente repetirão a história principal, aumentarão a quantidade de inimigos, e bom, nós já conhecemos a história: ninguém entra (ou eu prefiro acreditar que você não fará essa escolha equivocada) numa sessão no escuro. Mas caso seja sua opção viver uma aventura no desconhecido, esta é a fórmula do filme de herói: garoto normal incompreendido encontra poderes -> garoto normal incompreendido com poderes aprende o peso e a responsabilidade de ter estes tais poderes -> garoto normal incompreendido com poderes, que agora aprendeu o peso e a responsabilidade de ter tais poderes, agora amadurecido e em amadurecimento, lança-se em seu mundo de herói e vai salvar o mundo. Está aí a fórmula, seu dever, agora, é jogá-la fora e esquecer grande parte do que já viu a respeito. Homem-Aranha: Através do Aranhaverso não faz questão de seguir a cartilha. A estranheza diante do universo dispõe-se diante dos olhos da mesma maneira como se duzentos tipos diferentes de alucinógenos tivessem sido expelidos no ar antes do filme começar, então já fica o aviso caso você seja sensível sensorialmente. As cores e os patterns gráficos introduzem sequenciais referências vanguardistas das artes plásticas que acompanham os diferentes Spiders e suas personalidades ou reações (em algum momento eu estive certa de ter visto detrás de um deles a composição viii, de kandinsky). Deles, o que mais salta aos olhos, o Spider-punk, do igualmente enigmático Daniel Kaluuya, é um amontoado geométrico de colagens vivas em movimento símile ao stopmotion, conferindo o ar anárquico, descolado e artístico que o personagem exala. [Spoiler na próxima frase, caso não queira, pode passar para o próximo parágrafo]. Os cameos fizeram a plateia vibrar de loucura, como quando um outro ator, já muito querido e desejado pelos mais famosos fancasts de Miles Morales aparece, encarnando outro personagem (mas este, obviamente, é surpresa). Foto: Divulgação Quanto à história, Gwen Stacy lidera a narrativa, e, ao conduzir o fio da história, traz uma outra voz que acrescenta perspectiva e profundidade à história sem cansar o rumo, apesar da duração de mais de 2h. Quando a história começa do ponto temporal de algo que já aconteceu, a sensação de quem assiste é a de que estaremos sendo, progressivamente, introduzidos a uma viagem temporal (coisa que a Marvel adora), porém, aqui, com um pouco mais de critério estético e rigor quanto ao roteiro. Miles Morales, em sua realidade, ainda não sabe como encontrar sua amiga Gwen, mas a mantém em seus pensamentos — e desenhos, e, novamente, a influência artística retorna, já que Miles está inserido na cultura hip-hop, graffiti, e todos os outros desdobramentos estéticos. O desejo do adolescente de reencontrar a amiga (e potencial interesse romântico rapidamente deixado de lado pela trama que, graças a Deus, parece não querer se importar com isto) torna-se o mesmo que o dela quando, recrutada por uma grávida e black-power Jessica Drew e pelo misterioso Miguel O’Hara, líder da Sociedade Aranha, recebe um bracelete sônico que a transporta para diversas realidades. Há neste recrutamento, no entanto, uma função, um trabalho que caberá à Gwen fazê-lo, e você obviamente acompanhará no filme, afinal esta é uma resenha sem spoilers. Você também acompanhará que não há vilões neste filme, e este é necessariamente um triunfo do Aranhaverso. Todos têm os motivos plenamente cabíveis e compreensíveis para fazer o que fazem, e você os entenderá. Não há bem e mal ou perspectivas essencialmente dicotômicas, ou que excessivamente reforcem a necessidade de tomar um lado em detrimento de outro, como em outras produções no Universo Cinematográfico da Marvel. Curiosamente, uma animação, vista muitas vezes (de modo preconceituoso) como um gênero exclusivo para produções infanto-juvenis, adota caminhos extremamente maduros na construção da narrativa. No fim, era perceptivel que grande parte do público estava 1) sem saber como a coisa ia escalar, ou, 2) em dúvidas sobre o caráter do antagonísta do filme, que parecia justo demais para ser tratado apenas como vilão, e o principal, 3) se o próprio Miles Morales, em sua ânsia por fazer a coisa correta, estava de fato certo. O desenvolvimento da trama leva o Aranhaverso até às últimas consequências. O filme é bonito, muitíssimo bem produzido e estabelece, até então, um nível alto de qualidade e refinamento de técnicas diversas até mesmo para os próprios parâmetros. Continuar mantendo o nível é um compromisso que, aparentemente, estão dispostos a manter. Nota: 5/5

  • Crítica | Um Ano Inesquecível: Verão

    Romance juvenil em cenário carnavalesco surpreende com boa adaptação do material original. Foto: Divulgação Na última semana, a Prime Video lançou o primeiro longa da franquia de filmes baseada no livro de contos brasileiro Um Ano Inesquecível. Com histórias escritas por grandes nomes da literatura juvenil do Brasil como Thalita Rebouças, Paula Pimenta, Bruna Vieira e Babi Dewet que contam histórias de romance e crescimento pessoal que se passam entre as quatro estações do ano, não demorou muito para que o livro se tornasse a nova aposta de filmes para o streaming. Para abrir o projeto, a trama que adapta o conto de Thalita Rebouças (talvez a maior entre as quatro escritoras quando falamos de notoriedade) foi escolhido e Um Ano Inesquecível: Verão conta a história de Inha (Livia Inhudes), uma estudante de moda que sonha em fazer uma pós-graduação em Paris. Para isso, porém, ela teria que deixar a cidade pacata Mirantinho, no interior do Rio de Janeiro, onde seu pai conservador (André Mattos), é o prefeito local e desaprova seu sonho. Mas tudo muda quando Inha descobre que Carrie (Mariana Rios), uma estilista famosa, está no Rio de Janeiro para criar os figurinos do desfile da Portela. Mesmo não gostando do Carnaval, a jovem foge até a capital do samba atrás de realizar seu sonho. A direção do longa ficou por conta da experiente Cris D'Amato e a adaptação da história de Rebouças teve Bruno Garotti e Sylvio Gonçalves no roteiro. Quando li o conto do livro, confesso que a história do Verão foi a que menos gostei tanto por conta da identificação com a personagem, tanto por conta do excesso de gírias e detalhes sobre o Rio de Janeiro que eu não entendia. Porém, isso foi consertado no longa, que consegue criar uma atmosfera mágica acerca do Rio e do carnaval, entregando uma trama que funciona bem e é relatável com o seu público-alvo. Foto: Divulgação Seguindo o padrão dos filmes de comédia romântica para jovens, o filme não traz nada de muito diferente neste sentido. Mas, torna-se interessante assistir uma trama que se concentra em mostrar os detalhes de uma das festas mais queridas pelo brasileiro. É um acerto também evocar a majestosa Portela, uma escola de samba querida e admirada por todo Brasil, na hora de falar do carnaval do Rio. Nesse cenário, é bem legal acompanhar o desenrolar da trama desses personagens com destaque para a protagonista e o seu núcleo familiar. As atuações do longa também são boas, com ênfase para Lívia Inhudes e Micael Borges. Também gostei da participação de Júlia Gomes, Duda Santos e Patrícia Ramos, esta última, particularmente, surpreende com a ótima personagem da cantora Quelinha. O único ponto negativo do longa foi a personagem de Carrie, interpretada por Mariana Rios, que forçava um sotaque brasileiro-americano a todo tempo, algo extremamente irritante e feio. No mais, Um Ano Inesquecível: Verão é um filme que vale a pena ser assistido quando você quer se divertir e ver uma boa história de romance. Além disso, a produção nacional enaltece nossa cultura de forma genuína e positiva sobre o carnaval. Até o fim do mês serão lançados os longas Outono (9/06), Inverno (16/06) e Primavera (23/06), vamos torcer para que as próximas histórias sigam e elevem o nível que o primeiro filme trouxe para nós. Nota: 3.5/5

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