Resultados de busca
Buscar neste site
1417 resultados encontrados com uma busca vazia
- Crítica | Um Ano Inesquecível: Verão
Romance juvenil em cenário carnavalesco surpreende com boa adaptação do material original. Foto: Divulgação Na última semana, a Prime Video lançou o primeiro longa da franquia de filmes baseada no livro de contos brasileiro Um Ano Inesquecível. Com histórias escritas por grandes nomes da literatura juvenil do Brasil como Thalita Rebouças, Paula Pimenta, Bruna Vieira e Babi Dewet que contam histórias de romance e crescimento pessoal que se passam entre as quatro estações do ano, não demorou muito para que o livro se tornasse a nova aposta de filmes para o streaming. Para abrir o projeto, a trama que adapta o conto de Thalita Rebouças (talvez a maior entre as quatro escritoras quando falamos de notoriedade) foi escolhido e Um Ano Inesquecível: Verão conta a história de Inha (Livia Inhudes), uma estudante de moda que sonha em fazer uma pós-graduação em Paris. Para isso, porém, ela teria que deixar a cidade pacata Mirantinho, no interior do Rio de Janeiro, onde seu pai conservador (André Mattos), é o prefeito local e desaprova seu sonho. Mas tudo muda quando Inha descobre que Carrie (Mariana Rios), uma estilista famosa, está no Rio de Janeiro para criar os figurinos do desfile da Portela. Mesmo não gostando do Carnaval, a jovem foge até a capital do samba atrás de realizar seu sonho. A direção do longa ficou por conta da experiente Cris D'Amato e a adaptação da história de Rebouças teve Bruno Garotti e Sylvio Gonçalves no roteiro. Quando li o conto do livro, confesso que a história do Verão foi a que menos gostei tanto por conta da identificação com a personagem, tanto por conta do excesso de gírias e detalhes sobre o Rio de Janeiro que eu não entendia. Porém, isso foi consertado no longa, que consegue criar uma atmosfera mágica acerca do Rio e do carnaval, entregando uma trama que funciona bem e é relatável com o seu público-alvo. Foto: Divulgação Seguindo o padrão dos filmes de comédia romântica para jovens, o filme não traz nada de muito diferente neste sentido. Mas, torna-se interessante assistir uma trama que se concentra em mostrar os detalhes de uma das festas mais queridas pelo brasileiro. É um acerto também evocar a majestosa Portela, uma escola de samba querida e admirada por todo Brasil, na hora de falar do carnaval do Rio. Nesse cenário, é bem legal acompanhar o desenrolar da trama desses personagens com destaque para a protagonista e o seu núcleo familiar. As atuações do longa também são boas, com ênfase para Lívia Inhudes e Micael Borges. Também gostei da participação de Júlia Gomes, Duda Santos e Patrícia Ramos, esta última, particularmente, surpreende com a ótima personagem da cantora Quelinha. O único ponto negativo do longa foi a personagem de Carrie, interpretada por Mariana Rios, que forçava um sotaque brasileiro-americano a todo tempo, algo extremamente irritante e feio. No mais, Um Ano Inesquecível: Verão é um filme que vale a pena ser assistido quando você quer se divertir e ver uma boa história de romance. Além disso, a produção nacional enaltece nossa cultura de forma genuína e positiva sobre o carnaval. Até o fim do mês serão lançados os longas Outono (9/06), Inverno (16/06) e Primavera (23/06), vamos torcer para que as próximas histórias sigam e elevem o nível que o primeiro filme trouxe para nós. Nota: 3.5/5
- Crítica | Succession (4ª temporada)
A despedida da maior série do nosso tempo. Foto: Divulgação “Todas as famílias felizes se parecem, mas cada família infeliz é infeliz à sua maneira.” - Léon Tolstoi, “Anna Karenina” Como se fala de uma série que se transformou no zênite cultural do nosso tempo? Da minha parte, escolho começar esse texto com as palavras de Alison Herman, que em seu artigo para a Variety, intitulado “Goodbye Succession: A Pre-Finale Ode to the Great Show of Our Time”, encapsulou perfeitamente o que é Succession: uma série que é uma tragédia porque quebrar o ciclo do abuso familiar sempre foi um sonho impossível; e uma comédia por causa da forma como escolhe ilustrar essa verdade. Em nenhum lugar isso é tão verdade quanto nessa última temporada. Em uma série marcada pela coexistência paradoxal entre inalteração e mudança, seus últimos 10 episódios levam esses polos ao extremo. O criador da série, Jesse Armstrong, entrega o que de certa forma era esperado e coerente com a lógica interna da obra (e também do mundo real), mas nunca segue o caminho mais fácil. A primeira prova de que Armstrong e Cia. não estavam para brincadeira veio na forma da morte prematura do patriarca Logan Roy (Brian Cox) já no terceiro episódio, Connor’s Wedding. Como comentei na minha análise deste episódio, é um atestado da ousadia da série de fazer um movimento que todos esperavam tão cedo nesta temporada final. A partir daí, o que se tem é uma sequência inigualável de episódios que, talvez não atinjam o nível de Connor’s Wedding (e isso é mais mérito do status já mítico que esse episódio obteve do que demérito do restante da temporada), mas efetivamente constroem uma reta final que, se eu pudesse resumir em uma única palavra, seria imprevisível. “Quem sucederá Logan Roy?” foi a pergunta que sempre norteou Succession, e ela não foi respondida até os minutos finais do último episódio, With Open Eyes, com todo o peso que lhe é devido. Mas até chegarmos nela percorremos um caminho labiríntico, marcado por alianças, traições, interesses duplos e a ambiguidade que sempre permeou a série. Diz muito do brilhantismo de Armstrong e os demais roteiristas que a definição do sucessor (ou sucessora) se torna praticamente impossível de prever; e ao mesmo tempo, cada alternativa se mostra igualmente provável. Você pode até não gostar de quem sucede o titânico Logan, mas é preciso muita negação para se recusar a ver o sentido pela escolha do nome em questão. Foto: Divulgação Mas bem, parafraseando um personagem de outra série que amo e que se encerrou ontem, Barry: “negação é difícil”. Se há alguma coisa na qual os irmãos Roy são bons é em negar a realidade ao seu redor e suas próprias deficiências. Mesmo quando os EUA explodem ao seu redor (o que chega ao seu ápice no aterrador oitavo episódio, America Decides), eles se recusam a enxergar quem são e o que fazem ao mundo em decorrência dos seus privilégios. Junte-se a isso o luto mal processado pelo pai (e a enorme sombra projetada por este mesmo após sua morte) e vemos esses personagens nos seus momentos mais miseráveis, competindo uns com os outros – e ocasionalmente se lembrando de que amam uns aos outros, como atestam a comovente cena do abraço em Connor’s Wedding ou da “coroação” em With Open Eyes. Como dar vida a personagens tão disfuncionais e quebrados? Como permitir que o público sinta empatia por eles mesmo quando são os mais perversos possíveis? Para além do toque de classe do roteiro afiadíssimo da série, você tem o elenco de maior qualidade da televisão contemporânea. Tivemos a “Velha Guarda”, o quarteto de veteranos da Waystar interpretados por J. Smith-Cameron, David Rasche, Peter Friedman e Fisher Stevens que estavam sempre por perto como figuras paternas ou como meras baratas que não morrem por nada. Tivemos Alexander Skarsgard como o mais perto de um “vilão” (ou melhor, antagonista) que a série já teve, uma espécie de Elon Musk nórdico intenso e imprevisível que elevou ainda mais a dinâmica da série. Tivemos Alan Ruck como o sempre esquecido irmão mais velho Connor, que teve aqui seus momentos de brilhar, como o devastador monólogo sobre a falta de amor no segundo episódio, Rehearsal. Tivemos Matthew MacFayden e Nicholas Braum como os “Disgusting Brothers” Tom e Greg, o duo que no fundo sempre soubemos que sobreviveria a qualquer custo. Tivemos o gigantesco Brian Cox, que deu a devida dimensão shakespeariana a Logan e se fez presente até quando não estava mais lá. Mas a temporada – e a série – foi deles: O Incrível Trio dos Irmãos Ferrados. Como Roman Roy, Kieran Culkin sempre deu o desempenho da sua vida, como um sádico pervertido e traumatizado que ainda assim escolhemos amar; entretanto, aqui ele ainda consegue se superar, especialmente na trinca final de episódios que o desconstroem até o vermos em seu ponto mais baixo (seu choro diante do caixão do pai no penúltimo episódio, Church and State, é quiçá o momento mais devastador da série). Sarah Snook é provavelmente a atriz que sabe melhor entregar microexpressões faciais na atualidade, compondo uma Shiv Roy que se vê assombrada pelo medo de se tornar sua mãe enquanto transita entre uma luta antipatriarcal contra seus irmãos e o mais puro egoísmo narcisístico, conforme evidenciado nas suas fenomenais disputas verbais com Tom (e Snook e MacFayden mereciam ganhar um Emmy de Melhor Dupla só por cada momento juntos nessa temporada). E Jeremy Strong, em meio às piadas e críticas ao seu Método de Atuação, entregou o personagem mais complexo e trágico da televisão atual: o herdeiro que jamais esteve à altura dessa herança, e nos faz rir e sofrer pela sua incapacidade em se livrar de cada cicatriz que seu pai lhe deixou e que agora ele estende àqueles à sua volta. Se a tristeza e a alma quebrada tivessem um rosto, seria o de Kendall Roy. Ao escolher equilibrar-se tenuamente entre uma tragédia shakespeariana e uma comédia mockumentary de erros, Succession sempre demonstrou desde seu início que não escolheria o caminho mais fácil para ser grandiosa. O segredo do seu sucesso estava em, ao direcionar seu olhar crítico e satírico aos 1%, jamais negar sua humanidade, mas também jamais negar sua monstruosidade. Justamente por isso, ela conseguiu sair da sombra do segundo escalão da HBO para se firmar como a obra mais importante não só da emissora, mas talvez da televisão contemporânea. E o vazio que ela agora deixa é um daqueles que jamais poderá ser preenchido, pois sua leitura (a)temporal a tornará sempre distinta e digna do panteão da história da TV. Adeus, família Roy e agregados. Foi maravilhoso amar e odiar vocês. Nota: 5/5
- Crítica | Homens Brancos Não Sabem Enterrar (2023)
Insira aqui seu trocadilho esportivo preferido sobre oportunidade perdida, lance errado, fora da cesta, etc. Foto: Divulgação Remake do marcante filme homônimo de 1992, a comédia apresenta Kamal Allen (Sinqua Walls), um ex-astro do basquete do ensino médio que estava escalado para jogar na NBA - até ser preso no último ano. Agora, quando não está trabalhando como entregador, ele joga basquete “extraoficialmente” por dinheiro. Jeremy (Jack Harlow) jogou basquete para a Gonzaga – e também era cotado pra NBA – quando rompeu os ligamentos dos dois joelhos e se viu viciado em analgésicos, vendendo bebidas desintoxicantes para ratos de academia e treinando aspirantes a astros do basquete. Quando os dois personagens se conhecem, eles percebem que poderão se aliar para conseguir dinheiro em apostas informais e competições. Eu não sou hater gratuito de remakes. Na verdade, sou bem positivista quanto a ideia de se adaptar e, algumas vezes, atualizar uma história que porventura tenha ficado datada, por exemplo. É também uma oportunidade de apresentar o produto original para toda uma geração que talvez não o conheça, ou de revisitar uma ideia, conceito ou mesmo história que mereça uma perspectiva diferente. O lado negativo é que sempre haverá a primeira versão (ou a versão anterior) para se comparar, além do apego emocional do público. Então foi com essa mente aberta que fui ver a nova versão da comédia clássica estrelada por Wesley Snipes e Woody Harrelson. E, de antemão, mesmo com alguns acertos, o filme falha em quase tudo que citei no parágrafo anterior. Primeiro porque faltou liga em cena entre Sinqua e Jack Harlow (que é rapper e está fazendo sua estreia em filmes), e parece que também faltou vontade. Woody e Wesley eram amigos antes de gravarem a primeira versão – inclusive Snipes lutou para seu amigo assumir o personagem que inicialmente seria de Keanu Reeves, os atores estrearam juntos no cinema no filme Uma Gatinha Boa de Bola (1986) e de lá pra cá estiveram em outros três filmes juntos. Foto: Divulgação Segundo, o filme insiste em embasar os protagonistas com detalhes que se mostram desinteressantes (e as vezes desnecessários) para a trama do filme e que algumas vezes estão ali só pra virar piadas curtas e efêmeras. O principal motivo para o personagem Kamal ter largado sua promissora carreira foi o fato dele ter sido preso. Mas isso é citado tão brevemente que quando uma fala no meio do filme lembra que ele foi preso você se pergunta se aquilo já foi mencionado antes. São tantos pormenores inflando um roteiro que deveria ser tão simples que saber se os homens brancos conseguem enterrar se torna só mais uma tiradinha sem a menor graça. Se esse fosse um material original o roteiro talvez imprimisse mais confiança do que demonstra, mas tendo como ponto de partida um dos mais simpáticos filmes de Hollywood, o resultado é tímido. Falta a malícia que o filme dos anos 90 tem, falta até um pouco da sensualidade. E eu não estou dizendo que o roteiro do primeiro é genial ou nada do tipo, ele mesmo tem suas falhas e seus “tapa buracos”, mas é tão fluido e tão azeitado que até os problemas ajudam a dar gracejo e identidade à comédia. Falta leveza e falta carisma. O filme acerta algumas piadas e tem boas sequências de basquete, mas isso não soma força o suficiente para dar corpo à produção. O remake tem energia, mas direciona essa energia para momentos errados deixando o filme tenso e travado sem a menor necessidade. Nota: 2/5
- Crítica | Um Ano Inesquecível: Outono
Primeiro musical brasileiro do Prime Video é um dos melhores produtos audiovisuais para jovens dos últimos tempos. Foto: Divulgação Dando continuidade a franquia de filmes, na última sexta-feira, 9, foi a vez de Um Ano Inesquecível: Outono chegar às telas do Prime Video. Baseado no conto de Babi Dewet, o longa teve o roteiro adaptado por Keka Reis e Caroline Fioratti e foi dirigido por Lázaro Ramos. Nessa história, conhecemos a jovem Ana Júlia, uma garota que busca estabilidade para ajudar o pai em casa através de uma oportunidade de estágio em um escritório de advocacia renomado. Sendo uma pessoa extremamente focada e disciplinada, Ana Júlia não gosta de música e é nesse cenário que ela conhece João Paulo, um aspirante a cantor que sonha em viver da sua arte. Os dois se apaixonam tendo como plano de fundo uma São Paulo outonal e bem musical. Um Ano Inesquecível: Outono é o primeiro musical brasileiro do Prime Video e, sem dúvidas, cumpre bem a responsabilidade de ser este primeiro representante. Primeiramente, o maior destaque do longa é o seu talentoso elenco. Desde do casal principal interpretado por Gabz e Lucas Leto até as excelentes participações especiais de Iza, Lulu Santos e Larissa Luz, todos os atores entregam o seu melhor em cena e é possível notar a profundidade de cada um dentro dos seus dilemas internos. Iza, por exemplo, protagoniza cenas com alta carga dramática e entrega uma performance muito boa para uma estreante nas telas. Foto: Divulgação Narrativamente, o longa adapta bem a história criada por Babi, dando uma nova camada aos personagens e transformando seu conto em uma história musical. As canções originais do filme conversam com a história de uma forma maravilhosa, assim como as músicas já conhecidas pelo público, que ganham uma nova roupagem. A trama de Um Ano Inesquecível: Outono possui alguns clichês que são bem utilizados pelas roteiristas e utiliza-se muito bem das paisagens frias e artificiais de São Paulo para criar uma ambientação própria para o longa. Além disso, o filme consegue aproveitar as nuances da trama para inserir discussões fundamentais para sociedade ao falar de racismo, solidão da mulher negra, direito à moradia e relações familiares problemáticas. Todos os assuntos são tratados de uma forma muito delicada e necessária. Assim, podemos, sem dúvidas, colocar Um Ano Inesquecível: Outono em um patamar acima dos filmes adolescentes lançados no Brasil nos últimos tempos. É um belo romance que vai muito além das notas musicais, e, deverá virar exemplo do que deve ser feito quando buscarmos inspirações de longas-metragens para jovens no nosso país. Nota: 4.5/5
- Crítica | Flamin' Hot: O Sabor que Mudou a História
Mais um filme marketeiro para publicitários usarem como “case de sucesso”. Foto: Divulgação A comédia dirigida por Eva Longoria conta a história real de Richard Montañez (Jesse Garcia), o zelador da empresa Frito Lay que canalizou sua herança e educação mexicano-americana para transformar o icônico salgadinho Flamin 'Hot Cheetos em um lanche que revolucionou a indústria de alimentos e se tornou um fenômeno da cultura pop estadunidense. 2023 foi escolhido por Hollywood como o ano para filmes-produto. Filmes sobre marcas hoje muito famosas que por anos foram estudadas em faculdades de Publicidade e Propaganda ou citados em livros de marketing como os infames “cases” de sucesso. Pois agora essas histórias que antes moravam no imaginário de um nicho profissional (ou de empreendedores que tentam a qualquer custo um tiro no escuro que lucre) agora estão sendo ilustradas para alcançarem mais público. Já teve tênis, teve jogo, teve marca de celular que nem existe mais, agora salgadinho ultraprocessado e ainda vai ter daquela boneca. Embora com abordagens diferentes e tons diferentes, todos tem em comum o desejo de fazer com que o público que tornou aquele item sucesso de vendas faça basicamente o mesmo com o filme. É fácil perceber como cada um se liga com uma questão social diferente para validar seu ponto de vista. O do tênis destacou a força da voz negra como peça principal de um artigo de vendas; o do jogo quis recontar despretensiosamente (?) um causo da Guerra Fria colocando – mais uma vez – a Rússia União Soviética como grande vilã; o da boneca certamente destacará o protagonismo feminino e cutucará o mundo materialista. E esse vem mostrar como a comunidade latina nos EUA consegue fazer a diferença no mercado. Foto: Divulgação A produção é a estreia da atriz Eva Longoria como diretora de um longa de ficção. E mesmo tendo experiência na direção de episódios de televisão deu pra perceber que a condução de um material mais longo teve alguns problemas no ritmo. O primeiro ato é composto de uns 3 momentos em que parece que já estamos no desenvolvimento e de repente lá vem mais introduções, assim como a conclusão apresenta ganchos de encerramento do enredo e ele parece não querer terminar. É um filme que visa a celebração da cultura mexicana, e ele tenta mostrar isso sempre que pode, mas tenta tanto que as vezes o resultado são caricaturas sem qualquer personalidade mesmo com um elenco encantador. As escolhas de estilo fazem a produção imprimir uma aparência de sátira involuntária tamanha a necessidade enfatizar que ali são latinos mesmo caso alguém tenha alguma dúvida. De fato, é um causo surpreendente – mesmo sabendo que ali tem-se várias liberdades criativas – mas (e eu tentei muito evitar esse trocadilho aqui) a verdade é que faltou tempero, mesmo com seus pontuais momentos emotivos e de comédia bem executados. Faltou ousadia visual e narrativa, o filme conta a história de maneira redonda, mas não tem qualquer identidade, não assume qualquer risco que faça ele se destacar no meio de tantos filmes-produtos do ano. Nota: 2,5/5
- Análise | Halt and Catch Fire (2014-2017)
Uma ode aos sonhadores e uma das melhores e mais subestimadas séries já feitas. Foto: Divulgação Quando estreou na AMC em 2014, Halt and Catch Fire foi rapidamente comparada à Mad Men, a qual era a joia da coroa da emissora junto com Breaking Bad. Saía o mundo da publicidade em Nova York nos anos 60 e entrava o mundo da tecnologia em Dallas nos anos 80. Saía o misterioso e charmoso Don Draper (Jon Hamm) e entrava o misterioso e charmoso Joe MacMillan (Lee Pace). Mas apesar dessas comparações, H&CF nunca pretendeu ser Mad Men. Sim, havia algumas similaridades, mas já durante a primeira temporada podia se ver um distanciamento, que aumentou progressivamente conforme a série tomou rumos inesperados que a tornaram uma das obras televisivas mais impactantes da década passada. Além de Joe, um ambicioso ex-executivo de vendas da IBM, a série acompanhava Cameron Howe (Mackenzie Davis), uma programadora punk e rebelde muito à frente do seu tempo; o casal de engenheiros de computação Gordon (Scoot McNairy) e Donna Clark (Kerry Bishé); e John “Bos” Bosworth (Toby Huss), vice-presidente da pequena empresa de computação onde Gordon trabalha e que contrata Joe. Ao longo das suas quatro temporadas, porém, a série reformulou e desnudou esses personagens, estudando minuciosamente suas naturezas e relações conforme acompanhávamos a evolução tecnológica do início dos anos 80 aos meados dos anos 90. Aliás, se há algo em que H&CF realmente se assemelha a Mad Men é em como o ambiente de trabalho – seja uma agência de publicidade ou uma empresa de computação – era apenas um pano de fundo para os desenvolvimentos pessoais e interpessoais dos seus personagens. Se a primeira temporada parecia apostar em Joe como mais um anti-herói complicado na linha de Don Draper, Walter White, Tony Soprano e outros, a série corajosamente mudou essa dinâmica ao apostar no protagonismo de Cameron e Donna a partir da segunda temporada e tornando ambas o verdadeiro coração da obra, mas sem se esquecer dos seus fascinantes protagonistas masculinos. São personagens complexos, falhos e magnéticos, dotados de uma humanidade que poucas vezes a TV viu ser retratada de maneira tão genuína. Junte-se a isso a corajosa decisão de inserir saltos temporais que nos permitiam acompanhá-los por mais de uma década (a abertura da última temporada condensa três anos em um único plano-sequência) e temos a oportunidade de vê-los mudar, amadurecer, regredir e progredir. Ao trazer a tecnologia e as mudanças enfrentadas por esta naquele período, H&CF toca em algo mais profundo: a mutabilidade e importância das conexões humanas. Entre jargões técnicos e sonhos construídos e destruídos, vemos pessoas profundamente solitárias que só crescem na medida em que se permitem ser vulneráveis umas com as outras, mesmo quando essa vulnerabilidade é traída. Se Joe à primeira vista parece o arquétipo de um tipo de protagonista masculino que à época já estava começando a saturar, não tarda para vermos outros aspectos de sua identidade que o complexificam e o tiram desse lugar comum (inclusive no que se refere à sua sexualidade, que é para mim um dos grandes diferenciais da série). Foto: Divulgação A união platônica e profissional de Cameron e Donna; a evolução desta de uma dona de casa para uma poderosa mulher de negócios, as tensões do seu casamento com Gordon (este por si só um personagem que evolui de maneiras impressionantes); a relação paterna desenvolvida entre Bos e Camerson: todos esses desenvolvimentos são apenas algumas amostras do cuidado e da sensibilidade com a qual a série trata seus personagens. Em uma de suas cenas mais emblemáticas, na terceira temporada, um personagem concebe um manifesto que, mesmo escrito em meados dos anos 80 dentro da linha do tempo da série, prenuncia nossa relação com as redes sociais e o quadro atual das relações interpessoais em meio à evolução desenfreada da tecnologia: “Existe algo no horizonte. Uma conectividade massiva. As barreiras entre nós desaparecerão, e não estamos prontos. Machucaremos uns aos outros em novas maneiras. Venderemos e seremos vendidos. Iremos expor nosso eu mais frágil, apenas para sermos ridicularizados e destruídos. Seremos tão vulneráveis, e pagaremos o preço. Não seremos mais capazes de fingir que podemos nos proteger. É um perigo enorme, um risco gigante, mas vale a pena. Precisamos apenas aprender a cuidar uns dos outros. Então esta maravilhosa, nova conexão destrutiva não irá nos isolar. No fim, não irá nos deixar totalmente sozinhos." Esse manifesto carrega a essência da própria série, de como ela é capaz de ler a nossa contemporaneidade mesmo se passando décadas atrás. H&CF sempre tratou seus protagonistas como sonhadores e visionários incorrigíveis que fracassaram muitas vezes, mas ainda assim persistiam em busca da próxima grande ideia (“the thing that gets you to the thing”, como era dito pelos personagens). Ironicamente, a série também viveu à margem da sua época, fosse pelas já referidas comparações com Mad Men no começo ou pela baixa divulgação e audiência que quase a fez ser cancelada mais de uma vez – e é um milagre que a AMC a tenha deixado durar até a quarta temporada, dando aos seus criadores a chance de terminá-la em seus próprios termos. Da minha parte, só posso agradecer por tal milagre. Poucas séries ressoam tão diretamente comigo da forma como Halt and Catch Fire fez, criando indivíduos que eram como uma verdadeira família – mesmo nos seus piores momentos – e impossíveis de não amar, a despeito das suas falhas. Mesmo existindo à margem como seus personagens e nunca tendo recebido o devido reconhecimento, esta série merece toda a atenção possível e faz por merecer estar no panteão das melhores séries já feitas.
- Crítica | EO
Fábula contemporânea experimenta, investiga e coloca à prova a natureza humana. Foto: Divulgação O acanhado burro Eo vive num circo polonês onde é treinado para atuar como parte de um número, até que inesperadamente ele se vê separado de Kasandra (Sandra Drzymalska), sua carinhosa e gentil treinadora. Com a doce lembrança da rara bondade humana gravada em sua mente, o espírito humilde do animal vagueia pelo vasto campo em uma grande missão cheia de perigos para tentar se reunir com sua única amiga. E enquanto o inocente Eo observa o mundo natural com seus grandes olhos, ele cruza com vários humanos que responderão de formas variadas à presença do animal. Mesmo tendo o leste europeu como plano de fundo o filme consegue ter a universalidade aplicável que toda fábula tem. Inclusive categorizar esse longa como fábula já implica o uso de muitas ferramentas narrativas do gênero literário como artifícios cinematográficos, e o brilhante Jerzy Skolimowski deu uma aula de tradução intersemiótica na direção. Mas ele não se limita a moldar o filme nessas estruturas, ele usa como ferramenta de métodos, porém dentro do seu próprio estilo de condução. E, assim como toda construção metafórica por trás das fábulas, esse filme se trata do ser humano. Por mais que o protagonista seja o simpático animal, seus marejados e profundos olhos são o espelho do comportamento humano nas mais diversas e adversas situações. O dinâmico jogo de câmera aplicado à atenta fotografia de Michal Dymek testa e brinca com diversos pontos de vista, iluminações e arranjos para dar uma silenciosa voz para o burro em relação ao mundo que o cerca e vice-versa. Foto: Divulgação O roteiro, escrito por Skolimowski em parceira com sua esposa Ewa Piaskowska, é inesperado e isso torna a jornada do herói-animal cada vez mais surpreendente e cativante. Os claros vieses ambientalista e naturalista do texto não soam forçados ou hipócritas, e permeiam cada contato entre homens e o animal. Mas é interessante ver também que o determinismo vilanesco do homem se equilibra com uma esperançosa positividade de que o mesmo ser que causa todos os males presentes no planeta Terra pode ser aquele que vai sanar grande parte dos problemas. O argumento também não fornece qualquer tipo de fala, dublagem ou narração sobre os pensamentos do burro, mas a direção de Skolimowski é tão assertiva e expressiva que conseguimos extrair palavra a palavra todo o texto previsto pelo roteiro na antropomorfização do protagonista. A maneira curiosa, experimental e ainda assim linear e bem amarrada com que o diretor – com seus mais de 80 anos – filma é atraente, empolgante e gratificante. Nota: 5/5
- Crítica | Olhos Atentos (1ª temporada)
Com bons momentos de tensão, série traz pitada sobrenatural para história sobre white rich people problems. Foto: Divulgação Lançada no Brasil pelo Star+, a série Olhos Atentos estreou no canal americano Freeform em 30 de janeiro de 2023. Na história, conhecemos Elena Santos, uma jovem que possui um passado problemático e que resolve se tornar babá de uma criança de um prédio que pertence inteiro a uma única e influente família. Sua ida até lá foi planejada para tentar descobrir um segredo valioso escondido no Greybourne, porém, quanto mais ela mexe para tentar desvendar essa história, mais perigo ela corre. Devo dizer que ouvi poucas pessoas falando da série nas redes sociais nestes últimos meses e que o meu interesse surgiu enquanto eu passeava pelo catálogo do Star+ e me deparei com o ótimo e intrigante pôster da série que a apontava como um dos mais novos lançamentos do streaming. Resolvi dar uma chance ao episódio piloto de forma despretensiosa, mas logo nos primeiros minutos, fui arrebatada por uma ótima história de suspense que leva o telespectador para bons momentos de tensão que se misturam com uma trama bem instigante. Começando por partes, Olhos Atentos já entrega do seu início que teremos muitos mistérios a serem desvendados. Nesses dez episódios, acompanhamos a história que ronda o edifício Greybourne e os acontecimentos mórbidos que levaram a fama de um lugar atormentado. No meio disso, também nos entrelaçamos nas tramas dos seus personagens principais que entre conflitos e motivações possuem algum tipo de ligação com a família responsável pelo prédio. Foto: Divulgação Misturando um pouco de uma trama sobrenatural, Olhos Atentos tem um desenvolvimento um pouco lento, mas, que consegue construir uma afinidade com o telespectador, atiçando o fio da curiosidade. Trazendo até algumas temáticas interessantes, a série tem seus pontos altos nos episódios finais, que entregam intensidade e boas reviravoltas. Com um elenco competente na medida do possível, a série ainda conta com a participação da ótima Kelly Bishop como uma das senhoras ricas e herdeiras da família. Vale ressaltar que a série não possui um enredo absurdamente chocante ou inovador, mas, entrega um resultado satisfatório para quem busca uma boa maratona ou uma divertida história de suspense para assistir. Nota: 3,5/5
- Crítica | Rainha Charlotte: Uma História Bridgerton (Minissérie)
Shonda Rhimes acerta de novo em spin-off de Bridgerton. Foto: Divulgação Adaptada do sucesso literário da norte-americana Julia Quinn, ‘Bridgerton’ chegou à Netflix em 2020 e se tornou uma das produções originais de maior sucesso da plataforma. Com duas temporadas lançadas, uma terceira já gravada e com um provável sinal de renovação para futuros anos, a produtora Shondaland resolveu apostar em um spin-off sobre uma das personagens mais curiosas e misteriosas da série: A Rainha Charlotte. A aposta, sem dúvidas, foi extremamente acertada e coube a veterana e incrível Shonda Rhimes desenvolver e roteirizar a minissérie Rainha Charlotte: Uma História Bridgerton juntamente com Julia Quinn. Charlotte foi uma personagem criada especificamente para a adaptação televisiva de ‘Bridgerton’ e é interpretada por Golda Rosheuvel, que reprisa novamente o seu papel nesse spin-off que intercala o presente e o passado da personagem em duas linhas narrativas. No presente, a rainha enfrenta uma crise na coroa por seus filhos não terem gerado nenhum herdeiro para o trono. Já no passado, conhecemos a sua versão jovem interpretada por India Amarteifio, que acabava de desembarcar na Inglaterra para casar com o Rei Jorge em um casamento arranjado por seu irmão. Utilizando o conceito de ficcionalizar uma história real, a série dá luz a vida da rainha inglesa Charlotte de Mecklenburg-Strelitz e retrata também personagens históricos da monarquia inglesa como Adolfo Frederico IV, princesa Augusta de Saxe-Gota-Altemburgo, George IV, entre outros. Além disso, o universo de ‘Bridgerton’ toma para si uma teoria que se torna cada vez mais aceita entre historiadores britânicos de que a rainha Charlotte era uma mulher negra. Este fato se torna o fio condutor desse spin-off, demonstrando como a presença dela foi fundamental para a inserção de outros nobres negros na corte inglesa e trazendo uma representatividade saudável e racializada em uma obra de época. Em Rainha Charlotte: Uma História Bridgerton nos debruçamos nesta trajetória de Charlotte de uma jovem teimosa e meio indefesa em uma monarca respeitada e conhecemos a sua história de amor com uma profundidade que era merecida. Afinal, o casal nasce de um casamento arranjado que culmina no nascimento de 13 filhos em uma história repleta de peculiaridades. Óbvio que em seu roteiro, a minissérie utiliza bem de artifícios já conhecidos em histórias de romance de casamentos arranjados, mas, tudo nessa história é feito de uma maneira muito orgânica e verdadeira e mesmo com os clichês, todo o seu arco funciona. Foto: Divulgação Muito disso é por conta do competente elenco. O casal principal interpretado por Corey Mylchreest e India Amarteifio tem uma química incrível em cena e ambos também dão conta de dar vida a personagens extremamente complexos. Também é destaque Arsema Thomas como a jovem Agatha Danbury, personagem importante da trama de Bridgerton que ganha aqui um background para suas ações no futuro e suas relações com o amor. Outro ponto muito positivo é o destaque aos personagens coadjuvantes como Brimsley, o mordomo da rainha, que também tem sua história de amor contada de uma forma muito poética. Com uma ambientação belíssima e utilizando uma excelente trilha sonora de fundo para contar essas histórias, Rainha Charlotte: Uma História Bridgerton também coloca nas telas como a saúde mental era tratada e negligenciada nesse período histórico, especialmente no seu quarto episódio. No fim das contas, a minissérie conta um drama sobre amor em suas diversas perspectivas e atravessamentos. Quando eu comecei a assistir, não entendia a necessidade de um spin-off para uma série que possui oito temporadas previstas. Mas, após terminar os seis episódios chorando e soluçando com essa trama, tive que constatar que é uma das mais belas histórias de amor já contadas pela Netflix. Que bom que Charlotte não pulou o muro. Que bom mesmo. Nota: 5/5
- Crítica | Silêncio (Minissérie)
Mesmo com elenco esforçado o roteiro sai do nada e vai para lugar nenhum de forma quase vexatória. Foto: Divulgação A minissérie abre com uma jovem andando de bicicleta quando do mais absoluto nada um corpo de uma mulher cai da sacada de um prédio num carro ao seu lado. No susto a jovem cai da bicicleta e fica olhando para o corpo em cima do carro quando segundos depois um corpo de um homem cai da mesma sacada. O acusado dos crimes é Sergio Ciscar (Arón Piper), o filho mais velho do casal, que resolve ficar em silêncio desde o acontecido e fica conhecido como o “Assassino da Sacada”. Anos depois de sua prisão, a psiquiatra Ana Dussuel (Almudena Amor) consegue que um juiz autorize um regime semiaberto monitorado – sem que ele saiba – para confirmar que ele está apto para retornar ao convívio social, e é então que as coisas começam a sair do controle. Geralmente minisséries de suspense usam o curto número de episódios para potencializar a trama principal através das histórias paralelas e dos personagens secundários. Mas Silêncio age completamente ao contrário da corrente. O enredo central é movido pelo grande gancho de saber se o protagonista de fato jogou os pais de cima da sacada ou se aconteceu qualquer outra coisa, e as pistas, pessoas, falas e até mesmo objetos induzem o espectador a pensar nas mais variadas conclusões. Mas se você leu isso como uma coisa boa, não é. Todo personagem coadjuvante que aparece introduz situações e contextos tão alheios ao que realmente importa que os desdobramentos parecem enchimento de linguiça até chegarem em algum fechamento. O elenco de rostos conhecidos da tv espanhola até que tenta tornar tudo relevante com atuações competentes e esforçadas. Elisabet Gelabert interpreta a mãe de Sergio (Elisabet e Arón já foram mãe e filho anteriormente em Elite); o sempre desconfiável Ramiro Blas interpreta um pastor que ajuda Sergio a trabalhar numa estufa gerenciada por sua igreja; Cristina Kovani vive uma jovem ficcionada por Sergio e que vive um romance secreto enquanto ele fica preso; e Manu Ríos (que já foi par romântico de Arón também em Elite) dá vida ao namorado dessa jovem obcecada. Foto: Divulgação Curiosidade, birra, força do ódio ou do hábito, seja lá qual motivo te faça chegar na resolução de tudo, vai te fazer perceber que se aquilo fosse transformado num curto filme ele construiria momentos melhores sem tantos buracos, tantos espaços e tantas guinadas que no final das contas não vão a qualquer lugar. O desfecho é tão simplório, tão básico e tão redundante que todos os esforços (os bons e os ruins) parecem irrelevantes no final. O primeiro episódio é sólido, conciso e consegue criar um bom tom para os episódios seguintes. Pronto. O que segue são ideias que não se sustentam, ações contraditórias e segredos que levam o enredo ao nível do absurdo. Se equilibrando entre o suspense policial e o drama psicológico, Silêncio poderia ter feito mais (ou menos) em prol de um texto mais preciso. Menos detalhes que se engodam e se perdem pelo caminho, menos coincidências óbvias que acham que estão tapando lacunas gigantescas e menos reviravoltas que acreditam ser espertalhonas, mas que acabam virando quase piadas involuntárias. Nota: 2/5
- Crítica | Velozes & Furiosos 10
Absurdos habituais divertem, mas Jason Momoa é o ponto fora da curva Foto: Divulgação Sou fã confesso da franquia, então é claro que adorei o filme e assim será enquanto estiver me garantindo entretenimento. Dessa vez, o passado de Dominic Toretto (Vin Diesel) volta para se vingar e tirar dele tudo e todos que ama. E se começamos com um tradicional churrasco, a tempestade anunciada não demora muito para aparecer na figura de Jason Momoa. Deixei de me importar com a verossimilhança da saga há muito, muito tempo, então quando uma bomba gigante sai rolando por Roma, explodindo e destruindo boa parte da cidade, mas não mata ninguém porque Toretto e sua turma conseguiram salvar a todos, eu vou acreditar. E se anteriormente eles eram lidos como anti-heróis, desta vez, o filme quer exaltar muito mais o heroísmo, sendo isso um dos pontos centrais. E deixando bem claro que eles enfrentam o vilão mais perigoso até então. Vilão este que é o ponto mais alto do longa. Jason Momoa está ótimo no papel de Dante, que é perverso e sarcástico na mesma medida. É evidente como Momoa se diverte como o personagem, deixando sua marca, onde ao mesmo tempo que você vai rir com ele, também vai odiá-lo. Brie Larson se une a Rita Moreno, Helen Mirren e Charlize Theron no time das “Oscarizadas”. Ela é Tess, filha do Sr. Ninguém (Kurt Russel), uma patricinha carismática que ajuda a equipe enquanto o pai está ausente. Funciona bem. Foto: Divulgação Perseguições, tiroteios e lutas corpo a corpo não faltam no longa, é claro, e todos são eletrizantes. No entanto, devo dizer que as lutas são muito mais “Marvel” do que “John Wick”. Apesar de também serem bem coreografadas, há um elemento mais fantasioso em cena, digamos assim, com grandes pulos e golpes mirabolantes. Não me incomoda, mas tenho que citar. Assim como os diálogos extremamente expositivos e emocionalmente apelativos que saem da maioria dos personagens, com exceção do Dante de Momoa, que são bem inspirados na maior parte. Eu relevo os outros, mas não posso ignorar esses aspectos mais técnicos também. Não entrei no mérito da trama em si, para evitar spoilers e não entregar nenhuma reviravolta, ainda que algumas sejam previsíveis à distância. Porém, não consigo deixar de falar que há uma conexão com o quinto longa da franquia, “Operação Rio” e voltamos ao Brasil. Mesmo que seja uma adjacência do calçadão de Copacabana que não existe, ainda é bacana ver nosso país e contar com a participação de ninguém menos que a própria Ludmilla fazendo a contagem para uma corrida. O filme funciona como uma primeira parte, ele é construído assim e termina com inúmeros ganchos. Personagens entre a vida e a morte, retornos surpresas, etc. Tudo é coeso e coerente? Óbvio que não, mas se você vai assistir a um Velozes e Furiosos esperando isso, meia-noite te conto um segredo. É o décimo capítulo, e se você chegou aqui, é natural que se importe com esses personagens e torça por eles. É redundante afirmar que tem ação, mas o humor característico da franquia também está presente, assim como a emoção, ainda que apelativa. Velozes e Furiosos já fez de tudo e sempre tenta se superar nos seus próprios absurdos. Neste, ninguém foi para o espaço, mas a pegada heróica é quase sobre-humana, com Toretto desvirando um carro com uma única mão em determinada sequência e outra mais irreal ainda que eu não vou citar pra não dar spoilers. E tá tudo bem, nem tudo precisa ser levado a sério. O único pecado que um filme da franquia não pode cometer é ser chato, e isso passa longe de ser. Nota: 3/5
- Crítica | The Marvelous Mrs. Maisel (5ª temporada)
Adeus, obrigado por tudo e tits up! Foto: Divulgação No decorrer das suas cinco temporadas, The Marvelous Mrs. Maisel entregou uma trajetória de muitos altos e alguns baixos, mas com uma consistência que a faz por merecer o título de joia da coroa do Prime Video. Nem sempre as decisões criativas de Amy Sherman-Palladino me agradaram, mas ela infundiu a série com tamanho carisma e humanidade que era impossível não se afeiçoar ao árduo e complexo caminho de Mirian “Midge” Maisel (Rachel Brosnaham) para se tornar uma comediante de sucesso. Esta última temporada vem com uma premissa muito clara: às vezes, a jornada é mais importante do que o destino. É um clichê, eu sei, mas ao mostrar que tudo que vimos até aqui na série foi uma “história de origem” de Midge – e contrabalanceá-la com vislumbres do futuro dos personagens nas décadas seguintes para indicar onde eles estarão e o que lhes acontecerá –, Mrs. Maisel toma uma decisão que pode não agradar a todos; afinal de contas, quantas vezes esperamos e torcemos pelo “vem aí” da protagonista, cuja capacidade de ascender e quebrar barreiras era diretamente proporcional à sua capacidade de queimar pontes? No entanto, é uma decisão que se mostra lógica e coerente com tudo que vimos nas temporadas anteriores. Esses vislumbres do futuro se dão através de flashfowards que nos mostram as versões mais velhas de Midge, Susie (Alex Borstein), Joel (Michael Zegen), Abe (Tony Shalhoub), Rose (Marin Hinkler), Lenny (Luke Kirby), dos filhos da protagonista e outros tantos, através das décadas seguintes ao período em que a série se passa. Ver o quanto Midge se tornou bem-sucedida nos alivia por conta de quantas vezes a vimos fracassar, mas há algo de muito melancólico (e novamente, muito coerente) em também vê-la tão distante daqueles que lhe eram tão próximos. Contudo, não chega a ser surpreendente: Amy Sherman-Palladino nunca se esquivou de nos mostrar o quanto Midge podia ser uma pessoa egoísta, imatura e falha, inclusive beirando o insuportável em alguns momentos (na temporada passada). Se por vezes isso me fez me irritar com a personagem, também é válida a pergunta: se fosse um personagem masculino tão anti-heroico, não seria muito provavelmente celebrado? Mesmo dentro de uma certa lógica do feminismo branco, a série sempre foi sagaz em suas críticas às desigualdades de gênero, que se mostram mais uma vez presentes aqui ao vermos Midge labutando para conseguir seu espaço como a nova roteirista do programa do popular Gordon Ford (Reid Scott). Foto: Divulgação Chega a ser curioso como, se não fossem os flashfowards, essa temporada sequer teria cara de última, mas mesmo com as perguntas deixadas por esses vislumbres do futuro (a maioria delas respondida no fantástico sexto episódio), a série não se esquiva de focar nessa jornada e não no destino final, ainda que fique claro que o destino final aqui seja o momento em que Midge se tornará uma estrela. Não chega a ser surpresa que esse momento venha no último episódio (o qual é sem dúvidas o melhor da série inteira), e quando me peguei torcendo e comemorando pela conquista da protagonista, entendi naquele momento o quão bem-construída ela foi, mérito não só do roteiro, mas sobretudo da atuação magistral de Rachel Brosnahan, que sempre conseguiu dar vida a cada excentricidade e complexidade da personagem. Mas Brosnahan não é a única a merecer os louros aqui. Temos Zegen como Joel, um personagem que recebeu uma bem-vinda redenção (e sei que sou minoria aqui, mas não me importo); Kevin Pollak e Caroline Aaron como seus hilários e neuróticos pais (quem aqui não é neurótico?); ou Hinkle e Shalhoub – este último recebendo um potente monólogo no penúltimo episódio. Mas para mim a grande arma secreta da série sempre foi Alex Borstein como Susie, cuja entrega cômica só era equiparável à sua entrega dramática. Se não fica mais do que claro pelo último episódio, a série sempre foi sobre a amizade de Midge e Susie e o amor de uma pela outra. Mesmo numa trajetória com algumas imperfeições, Mrs. Maisel sempre me cativou pelo seu charme, inteligência e atenção aos personagens, e essa última temporada mantém esse nível. Vou sentir falta da sua energia caótica, da velocidade frenética dos diálogos, da direção de arte e fotografia luxuosas que tornaram a série inigualável, da trilha sonora e, sobretudo, das atuações. Veria facilmente mais cinco temporadas de Midge e Cia., mas não poderia ter recebido um final melhor. E sempre que as coisas estiverem difíceis, basta lembrar: tits up! Nota: 4/5












