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  • Crítica | Gêmeas - Mórbida Semelhança (Minissérie)

    Uma Rachel Weisz é bom, mas duas é ainda melhor Foto: Divulgação 35 anos após David Cronemberg nos presentear com uma dose dupla de Jeremy Irons em seu clássico Gêmeos – Mórbida Semelhança, é hora de vermos Rachel Weisz numa nova versão do papel de Irons, dessa vez sob a tutela da showrunner Alice Birch e de uma equipe de diretores que inclui Sean Durkin (de Martha Marcy May Marlene e The Nest). Um thriller/drama psicológico que honra o body horror pelo qual a carreira de David Cronemberg é conhecida, mas vai muito além, Gêmeas – Mórbida Semelhança é uma das ofertas mais notáveis da história do catálogo do Prime Video. A minissérie de seis capítulos segue de perto as gêmeas Elliot e Beverly Mantle (Weisz), que juntas trabalham na área da ginecologia, e juntas vivem suas vidas em praticamente todos os aspectos, numa espécie de ligação simbiótica que não tarda a demonstrar traços de abuso, toxicidade e co-dependência emocional. Essa bizarra conexão entre as irmãs é ameaçada por dois grandes eventos — a criação de um centro de ginecologia revolucionário que será financiado pela bilionária Rebecca Parker (Jennifer Ehle) e o envolvimento de Beverly com a atriz Genevieve Cotard (Britne Oldford), o que ameaça a união codependente dela com Elliot. Desde seus primeiros minutos, Gêmeas não se acanha em abraçar a estética e as influências do body horror do original de Cronemberg, mas atualizando-os para uma linguagem contemporânea. O primeiro episódio — talvez o meu favorito — potencializa esse body horror justamente por cimentá-lo em algo tão cotidiano (e ao mesmo tempo tão tabu) quanto a maternidade e o parto, não se privando de nos mostrar sangue, placentas, líquidos amnióticos, depressão pós-parto e tanto mais. Duas sequências saltam aos olhos nesse episódio: a montagem paralela de diversos partos sendo conduzidos pelas Mantle, ou a cena devastadora em que uma jovem mãe dá luz a um bebê natimorto. Foto: Divulgação O tom “chocante” desse primeiro episódio (e coloco entre aspas pois a série nada mais faz do que nos trazer uma abordagem crua e realista, mesmo que ignorada por tantos, principalmente homens) pode afastar muitos, mas é uma bênção — e ao mesmo tempo uma maldição — que os demais episódios sigam cada um seu próprio tom e estilo, mas sem perder de vista a coesão da série. Pode soar uma mudança por demais abrupta já no segundo episódio, onde somos apresentados ao contexto bizarro do círculo social de Rebecca, no melhor estilo “rich people are crazy” — e a performance de Ehle como a própria personificação do capitalismo amoral e demoníaco é boa demais para ser ignorada. Mas o espectador pode se ver perdido em meio às mudanças tonais e temáticas episódio após episódio, e fico me perguntando (mais uma vez) se a estratégia de lançar toda a minissérie de uma vez foi a decisão correta (resposta: não, não foi). Se não nos perdemos e continuamos investidos na série, é muito por causa de Rachel Weisz. Elogiar a atriz é chover no molhado, mas não é exagero dizer que aqui ela entregou o papel de sua vida. Elementos como o figurino e os efeitos visuais e práticos por si só já conseguem exitosamente nos fazer saber quem é Elliot e quem é Beverly, mas são os detalhes que Weisz imprime a cada uma das personagens que nos permite diferenciá-las — Elliot sendo a ousada e maliciosa e Beverly a certinha e tímida —, enquanto gradativamente suas personalidades se fundem e se misturam, conforme a relação delas se mostra mais e mais doentia. Imagino que trabalhar com personagens gêmeos/duplos é sempre um desafio que muitos atores e atrizes desejam abraçar para se provar de alguma forma, mas poucas vezes vi um trabalho tão bem-sucedido quanto aqui nas mãos de Weisz. Mesmo com um formato de lançamento que conta contra si e alguns detalhes da trama que ou são exageradamente elípticos — como os minutos finais — ou soam deslocados da narrativa principal — em especial a subtrama da misteriosa Greta (Poppy Liu), assistente das Mantle —, Gêmeas é sempre bem-sucedida quando direciona seu olhar para o trabalho duplo de Rachel Weisz e permite que a atriz brilhe, seja como Elliot ou Beverly. As mudanças de tom e de abordagem a cada episódio são melhor absorvidas quando percebemos o desenvolvimento da relação tóxica entre as irmãs, e Weisz nos convence perfeitamente como duas figuras ao mesmo tempo tão distintas e similares, num trabalho de mestre que torço para que seja devidamente reconhecido na temporada de premiações. Nota: 4/5

  • Crítica | Silêncio (Minissérie)

    Mesmo com elenco esforçado o roteiro sai do nada e vai para lugar nenhum de forma quase vexatória. Foto: Divulgação A minissérie abre com uma jovem andando de bicicleta quando do mais absoluto nada um corpo de uma mulher cai da sacada de um prédio num carro ao seu lado. No susto a jovem cai da bicicleta e fica olhando para o corpo em cima do carro quando segundos depois um corpo de um homem cai da mesma sacada. O acusado dos crimes é Sergio Ciscar (Arón Piper), o filho mais velho do casal, que resolve ficar em silêncio desde o acontecido e fica conhecido como o “Assassino da Sacada”. Anos depois de sua prisão, a psiquiatra Ana Dussuel (Almudena Amor) consegue que um juiz autorize um regime semiaberto monitorado – sem que ele saiba – para confirmar que ele está apto para retornar ao convívio social, e é então que as coisas começam a sair do controle. Geralmente minisséries de suspense usam o curto número de episódios para potencializar a trama principal através das histórias paralelas e dos personagens secundários. Mas Silêncio age completamente ao contrário da corrente. O enredo central é movido pelo grande gancho de saber se o protagonista de fato jogou os pais de cima da sacada ou se aconteceu qualquer outra coisa, e as pistas, pessoas, falas e até mesmo objetos induzem o espectador a pensar nas mais variadas conclusões. Mas se você leu isso como uma coisa boa, não é. Todo personagem coadjuvante que aparece introduz situações e contextos tão alheios ao que realmente importa que os desdobramentos parecem enchimento de linguiça até chegarem em algum fechamento. O elenco de rostos conhecidos da tv espanhola até que tenta tornar tudo relevante com atuações competentes e esforçadas. Elisabet Gelabert interpreta a mãe de Sergio (Elisabet e Arón já foram mãe e filho anteriormente em Elite); o sempre desconfiável Ramiro Blas interpreta um pastor que ajuda Sergio a trabalhar numa estufa gerenciada por sua igreja; Cristina Kovani vive uma jovem ficcionada por Sergio e que vive um romance secreto enquanto ele fica preso; e Manu Ríos (que já foi par romântico de Arón também em Elite) dá vida ao namorado dessa jovem obcecada. Foto: Divulgação Curiosidade, birra, força do ódio ou do hábito, seja lá qual motivo te faça chegar na resolução de tudo, vai te fazer perceber que se aquilo fosse transformado num curto filme ele construiria momentos melhores sem tantos buracos, tantos espaços e tantas guinadas que no final das contas não vão a qualquer lugar. O desfecho é tão simplório, tão básico e tão redundante que todos os esforços (os bons e os ruins) parecem irrelevantes no final. O primeiro episódio é sólido, conciso e consegue criar um bom tom para os episódios seguintes. Pronto. O que segue são ideias que não se sustentam, ações contraditórias e segredos que levam o enredo ao nível do absurdo. Se equilibrando entre o suspense policial e o drama psicológico, Silêncio poderia ter feito mais (ou menos) em prol de um texto mais preciso. Menos detalhes que se engodam e se perdem pelo caminho, menos coincidências óbvias que acham que estão tapando lacunas gigantescas e menos reviravoltas que acreditam ser espertalhonas, mas que acabam virando quase piadas involuntárias. Nota: 2/5

  • Crítica | Velozes & Furiosos 10

    Absurdos habituais divertem, mas Jason Momoa é o ponto fora da curva Foto: Divulgação Sou fã confesso da franquia, então é claro que adorei o filme e assim será enquanto estiver me garantindo entretenimento. Dessa vez, o passado de Dominic Toretto (Vin Diesel) volta para se vingar e tirar dele tudo e todos que ama. E se começamos com um tradicional churrasco, a tempestade anunciada não demora muito para aparecer na figura de Jason Momoa. Deixei de me importar com a verossimilhança da saga há muito, muito tempo, então quando uma bomba gigante sai rolando por Roma, explodindo e destruindo boa parte da cidade, mas não mata ninguém porque Toretto e sua turma conseguiram salvar a todos, eu vou acreditar. E se anteriormente eles eram lidos como anti-heróis, desta vez, o filme quer exaltar muito mais o heroísmo, sendo isso um dos pontos centrais. E deixando bem claro que eles enfrentam o vilão mais perigoso até então. Vilão este que é o ponto mais alto do longa. Jason Momoa está ótimo no papel de Dante, que é perverso e sarcástico na mesma medida. É evidente como Momoa se diverte como o personagem, deixando sua marca, onde ao mesmo tempo que você vai rir com ele, também vai odiá-lo. Brie Larson se une a Rita Moreno, Helen Mirren e Charlize Theron no time das “Oscarizadas”. Ela é Tess, filha do Sr. Ninguém (Kurt Russel), uma patricinha carismática que ajuda a equipe enquanto o pai está ausente. Funciona bem. Foto: Divulgação Perseguições, tiroteios e lutas corpo a corpo não faltam no longa, é claro, e todos são eletrizantes. No entanto, devo dizer que as lutas são muito mais “Marvel” do que “John Wick”. Apesar de também serem bem coreografadas, há um elemento mais fantasioso em cena, digamos assim, com grandes pulos e golpes mirabolantes. Não me incomoda, mas tenho que citar. Assim como os diálogos extremamente expositivos e emocionalmente apelativos que saem da maioria dos personagens, com exceção do Dante de Momoa, que são bem inspirados na maior parte. Eu relevo os outros, mas não posso ignorar esses aspectos mais técnicos também. Não entrei no mérito da trama em si, para evitar spoilers e não entregar nenhuma reviravolta, ainda que algumas sejam previsíveis à distância. Porém, não consigo deixar de falar que há uma conexão com o quinto longa da franquia, “Operação Rio” e voltamos ao Brasil. Mesmo que seja uma adjacência do calçadão de Copacabana que não existe, ainda é bacana ver nosso país e contar com a participação de ninguém menos que a própria Ludmilla fazendo a contagem para uma corrida. O filme funciona como uma primeira parte, ele é construído assim e termina com inúmeros ganchos. Personagens entre a vida e a morte, retornos surpresas, etc. Tudo é coeso e coerente? Óbvio que não, mas se você vai assistir a um Velozes e Furiosos esperando isso, meia-noite te conto um segredo. É o décimo capítulo, e se você chegou aqui, é natural que se importe com esses personagens e torça por eles. É redundante afirmar que tem ação, mas o humor característico da franquia também está presente, assim como a emoção, ainda que apelativa. Velozes e Furiosos já fez de tudo e sempre tenta se superar nos seus próprios absurdos. Neste, ninguém foi para o espaço, mas a pegada heróica é quase sobre-humana, com Toretto desvirando um carro com uma única mão em determinada sequência e outra mais irreal ainda que eu não vou citar pra não dar spoilers. E tá tudo bem, nem tudo precisa ser levado a sério. O único pecado que um filme da franquia não pode cometer é ser chato, e isso passa longe de ser. Nota: 3/5

  • Crítica | The Marvelous Mrs. Maisel (5ª temporada)

    Adeus, obrigado por tudo e tits up! Foto: Divulgação No decorrer das suas cinco temporadas, The Marvelous Mrs. Maisel entregou uma trajetória de muitos altos e alguns baixos, mas com uma consistência que a faz por merecer o título de joia da coroa do Prime Video. Nem sempre as decisões criativas de Amy Sherman-Palladino me agradaram, mas ela infundiu a série com tamanho carisma e humanidade que era impossível não se afeiçoar ao árduo e complexo caminho de Mirian “Midge” Maisel (Rachel Brosnaham) para se tornar uma comediante de sucesso. Esta última temporada vem com uma premissa muito clara: às vezes, a jornada é mais importante do que o destino. É um clichê, eu sei, mas ao mostrar que tudo que vimos até aqui na série foi uma “história de origem” de Midge – e contrabalanceá-la com vislumbres do futuro dos personagens nas décadas seguintes para indicar onde eles estarão e o que lhes acontecerá –, Mrs. Maisel toma uma decisão que pode não agradar a todos; afinal de contas, quantas vezes esperamos e torcemos pelo “vem aí” da protagonista, cuja capacidade de ascender e quebrar barreiras era diretamente proporcional à sua capacidade de queimar pontes? No entanto, é uma decisão que se mostra lógica e coerente com tudo que vimos nas temporadas anteriores. Esses vislumbres do futuro se dão através de flashfowards que nos mostram as versões mais velhas de Midge, Susie (Alex Borstein), Joel (Michael Zegen), Abe (Tony Shalhoub), Rose (Marin Hinkler), Lenny (Luke Kirby), dos filhos da protagonista e outros tantos, através das décadas seguintes ao período em que a série se passa. Ver o quanto Midge se tornou bem-sucedida nos alivia por conta de quantas vezes a vimos fracassar, mas há algo de muito melancólico (e novamente, muito coerente) em também vê-la tão distante daqueles que lhe eram tão próximos. Contudo, não chega a ser surpreendente: Amy Sherman-Palladino nunca se esquivou de nos mostrar o quanto Midge podia ser uma pessoa egoísta, imatura e falha, inclusive beirando o insuportável em alguns momentos (na temporada passada). Se por vezes isso me fez me irritar com a personagem, também é válida a pergunta: se fosse um personagem masculino tão anti-heroico, não seria muito provavelmente celebrado? Mesmo dentro de uma certa lógica do feminismo branco, a série sempre foi sagaz em suas críticas às desigualdades de gênero, que se mostram mais uma vez presentes aqui ao vermos Midge labutando para conseguir seu espaço como a nova roteirista do programa do popular Gordon Ford (Reid Scott). Foto: Divulgação Chega a ser curioso como, se não fossem os flashfowards, essa temporada sequer teria cara de última, mas mesmo com as perguntas deixadas por esses vislumbres do futuro (a maioria delas respondida no fantástico sexto episódio), a série não se esquiva de focar nessa jornada e não no destino final, ainda que fique claro que o destino final aqui seja o momento em que Midge se tornará uma estrela. Não chega a ser surpresa que esse momento venha no último episódio (o qual é sem dúvidas o melhor da série inteira), e quando me peguei torcendo e comemorando pela conquista da protagonista, entendi naquele momento o quão bem-construída ela foi, mérito não só do roteiro, mas sobretudo da atuação magistral de Rachel Brosnahan, que sempre conseguiu dar vida a cada excentricidade e complexidade da personagem. Mas Brosnahan não é a única a merecer os louros aqui. Temos Zegen como Joel, um personagem que recebeu uma bem-vinda redenção (e sei que sou minoria aqui, mas não me importo); Kevin Pollak e Caroline Aaron como seus hilários e neuróticos pais (quem aqui não é neurótico?); ou Hinkle e Shalhoub – este último recebendo um potente monólogo no penúltimo episódio. Mas para mim a grande arma secreta da série sempre foi Alex Borstein como Susie, cuja entrega cômica só era equiparável à sua entrega dramática. Se não fica mais do que claro pelo último episódio, a série sempre foi sobre a amizade de Midge e Susie e o amor de uma pela outra. Mesmo numa trajetória com algumas imperfeições, Mrs. Maisel sempre me cativou pelo seu charme, inteligência e atenção aos personagens, e essa última temporada mantém esse nível. Vou sentir falta da sua energia caótica, da velocidade frenética dos diálogos, da direção de arte e fotografia luxuosas que tornaram a série inigualável, da trilha sonora e, sobretudo, das atuações. Veria facilmente mais cinco temporadas de Midge e Cia., mas não poderia ter recebido um final melhor. E sempre que as coisas estiverem difíceis, basta lembrar: tits up! Nota: 4/5

  • Crítica | Citadel (1ª temporada)

    A nova aposta do Prime Video está no seu melhor quando não se leva a sério. Foto: Divulgação Anunciada como a “série mais cara” do Amazon Prime Video, Citadel ganhou notoriedade com seus problemas nos bastidores, como a saída dos showrunners originais por conta de conflitos com os irmãos Russo (produtores executivos da série) e extensas refilmagens que encareceram ainda mais a obra, atingindo um orçamento de inacreditáveis 300 milhões de dólares. Ainda assim, é difícil ver tamanho orçamento em tela, o que é tanto uma bênção quanto uma maldição. Quando tenta ser grandiosa, Citadel escancara seus defeitos, seja no CGI e direção deficitários quanto no roteiro repleto de incongruências. Quando investe em seu núcleo humano e nos elementos mais básicos de espionagem, ou até mesmo em um humor relativamente eficiente, a série consegue ser uma agradável e escapista experiência, mesmo que não vá muito além disso. A temporada segue Mason Kane (Richard Madden) e Nadia Sinh (Pryanka Chopra Jonas), dois espiões de uma agência secreta chamada Citadel que são enviados a uma missão contra uma organização rival, a Manticore. Oito anos depois, ambos seguem vidas completamente diferentes – e sem nenhuma lembrança de que um dia já foram espiões ou que se conheciam. Contudo, os planos malignos da Manticore, lideradas pela maligna Dahlia Archer (Lesley Manville), logo os colocam em rota de colisão, mesmo com os segredos das suas vidas passadas ameaçando vir à tona. Foto: Divulgação Citadel começa promissora, com uma sequência inicial de 15 minutos que nos introduz a Mason e Nadia em um trem nos Alpes italianos, onde vemos não apenas as habilidades letais de ambos contra seus inimigos, mas também a química que exala entre eles. É uma pena que a série não volte a atingir o nível dessa sequência nos episódios posteriores, nem mesmo em suas cenas de ação. Isso se dá pela estrutura fragmentada que a temporada adota, alternando entre o presente (onde Kane possui uma nova identidade e família no Oregon, enquanto Nadia trabalha num restaurante em Valencia) e o passado (onde informações são preenchidas a respeito do passado conturbado dos dois). A série parece indecisa sobre se quer mostrar mais do passado ou do presente, e a curta duração dos episódios não ajuda – essa é uma rara obra onde os episódios deviam ser maiores do que são, ao contrário da tendência atual dos streamings de esticá-los ao máximo. A pouca quantidade de episódios (apenas seis) também interfere no desenvolvimento da trama, que acaba se mostrando mais simples e genérica do que as constantes idas e vindas no tempo tentam esconder, enquanto o roteiro toma saídas ridiculamente fáceis que sacrificam o desenvolvimento narrativo. Quando dá espaço a cenas de luta mais pé-no-chão (um ponto forte dos Russo desde seus dias na Marvel), bem como às interações entre seus personagens, Citadel consegue exibir mais do seu potencial. Apesar de ser um ator extremamente limitado, Madden consegue convencer em sua dinâmica sexy e complicada com Chopra, enquanto Stanley Tucci, no papel do mentor deles, consegue sempre brilhar quando aparece com seu humor sarcástico – e é uma pena que apareça tão pouco. Quem se revela o grande destaque da temporada, porém, é Manville, que parece se deliciar no papel de uma vilã que poderia cair no genérico e caricatural, mas consegue ser efetivamente aterrorizadora – até mesmo no previsível plot twist final da temporada. Me pergunto o quanto a mudança de showrunners e as refilmagens interferiram no produto final, especialmente levando em conta que o Prime Video pretende transformar a série numa franquia com spin-offs ao redor do mundo. É até uma boa coisa que a temporada não se preocupe em preparar terreno para esses spin-offs – afinal de contas, já seria um problema a mais numa série que tem tantos. No frigir dos ovos, Citadel nunca faz jus ao seu orçamento astronômico, posando como mais uma aventura genérica de espionagem. Ainda assim, é o tipo de série em que, olhando mais atentamente, pode se encontrar alguns méritos que ilustram o potencial dela de ser muito melhor, desde que não se leve tão a sério. Nota: 3/5

  • Crítica | A Última Coisa que Ele me Falou (Minissérie)

    Série do Apple TV+ é convidativa com elenco bastante conhecido, mas derrapa nas escolhas óbvias. Foto: Divulgação Fazer minisséries baseadas em livros é, sem dúvidas, uma das principais fórmulas atuais da produção de conteúdo dos streamings. Uma dos mais recentes casos é a minissérie A Última Coisa que Ele me Falou, lançada no Apple TV+ e finalizada na última semana. Com sete episódios baseados na história de Laura Dave, a trama gira em torno de Hannah Hall (Jennifer Garner), uma mulher que agora vive com o novo marido e a enteada em uma cidade calma e costeira nos Estados Unidos. Porém, de forma inesperada, Owen (Nikolaj Coster-Waldau), marido de Hannah, desaparece sem deixar vestígios ao mesmo tempo em que uma investigação do FBI se aproxima da empresa em que ele trabalha. Repleta de dúvidas e precisando lidar com Bailey, filha adolescente de Owen, que parece odiá-la, Hannah começa a se debruçar sobre o passado de Owen e descobre que talvez ele não seja quem diz ser. Trazendo no seu ciclo principal, atores veteranos e bem conhecidos do público, a minissérie consegue chamar atenção. Especialmente nos primeiros episódios, A Última Coisa que Ele me Falou desenvolve bem o mistério que envolve Owen e as inseguranças que percorrem Hannah ao se sentir enganada por quem ela mais amava. O fato é que são as atuações e o carisma do elenco que seguram o telespectador durante todos os seus episódios. Foto: Divulgação No decorrer da história, a minissérie toma os rumos mais clichês possíveis para solucionar as peças do quebra-cabeça e coloca os personagens em situações irreais para desenvolvê-las. Além disso, o ritmo é lento, não envolve e torna os episódios um marasmo sem fim. Não tem como se importar com o que acontece com os protagonistas, pois, você não consegue ter nenhum tipo de empatia com eles. A Última Coisa que Ele me Falou cumpre seu objetivo de adaptar bem a história do livro e só. Faltou lembrar que uma minissérie precisa expandir e solidificar uma trama que no seu material original já era repleta de lacunas. Nem todos os livros de sucesso precisam ser adaptados e essa minissérie é a prova cabal disso. Nota: 2/5

  • Crítica | Guardiões da Galáxia Vol. 3

    A despedida dos Guardiões e um abraço apertado para quem fica. Foto: Divulgação “Quem iria querer ver um filme sobre uma árvore falante e um guaxinim?”. A pergunta genuína de Amanda Seyfried sobre a ainda embrionária ideia do filme Guardiões da Galáxia (2014) parecia externar o que todos estavam se questionando na época. Adaptando uma das histórias menos conhecidas dos quadrinhos, o longa dirigido por James Gunn nos apresentou um grupo disfuncional com um espírito quase contrário ao que éramos acostumados a ver com os Vingadores: mercenários egoístas que, ao acaso, se unem para defender a galáxia. Daí, para a surpresa de muitos – inclusive de Seyfried – a aposta se mostrou certeira, dando origem a um dos segmentos mais populares da Marvel Studios atualmente. Nove anos após o lançamento do primeiro filme, Guardiões da Galáxia Vol. 3 chega para fechar a trilogia de Gunn. Mais do que o fim da formação que conhecemos, o longa também marca a despedida do diretor no estúdio – da forma mais simbólica que poderia acontecer. Com um esforço louvável para sair da sombra deixada por Vingadores: Ultimato, o roteiro, que também fica por conta de Gunn, abraça a solidez de um filme único sem se escorar nas pretensões faraônicas de um universo compartilhado, algo que só tem atrapalhado as produções da Marvel nos últimos anos. Com transições entre passado e presente muito bem executadas, a história tem Rocket (Bradley Cooper) como o fio condutor de toda a narrativa. Se antes o personagem era relegado a mero alívio cômico em quase todas as suas aparições, aqui a profundidade de sua história, bem como a do restante dos Guardiões, ganha novos contornos. A faceta emocional do volume 3 é gritante e nos apresenta algumas das cenas mais comoventes do estúdio até então, uma tentativa muito bem sucedida de dar aquela cara de despedida ao filme. Nesse sentido, é notório que a (raríssima) liberdade criativa concedida ao diretor teve um grande impacto sobre a produção. Extravagância é o que não falta nesse Volume; indo de uma belíssima cena em plano sequência até o primeiro palavrão já dito em uma produção no estúdio, a marca do diretor estampa as telas e brinca na margem de sua classificação indicativa – afinal este é, com certeza, o filme mais sangrento da Marvel. Ainda, honrando inclusive o trocadilho com o nome do filme, as inserções musicais continuam no ponto certo, servindo como um belo adicional naquela dramaticidade que só um acústico de “Creep”, do Radiohead, pode dar. Foto: Divulgação No entanto, os excessos também trazem alguns problemas. Chega a ser desconfortável a facilidade com a qual subtramas são descartadas em favor de conveniências postas apenas para fazer a história principal andar. Aqui, quem mais sofre é o personagem de Will Poulter, Adam Warlock, que, apesar das grandes expectativas em torno de sua aparição desde a cena pós-créditos do Volume 2 (2017), teve apenas a função de dar início aos eventos do longa, sendo reduzido a mero personagem secundário em questão de minutos. Ainda assim, quando falamos em quesitos técnicos, o longa entrega com louvor o que se propõe. Trazendo uma formidável direção de cena e efeitos visuais muito satisfatórios, a composição visual é com certeza um dos pontos altos da produção. Além disso, temos com uma bela variedade de nomes competentes no elenco, com merecido destaque ao Alto Revolucionário (Chukwudi Iwuji), vilão da trama, cuja sádica expressão traz uma densidade quase palpável e correspondente a muitos exemplos reais. Aliás, é justamente na capacidade de ser palpável que o filme se supera. Isso porque, muito embora os outros volumes já tratassem da natureza peculiar dos laços familiares formados entre os personagens, aqui isso se torna muito mais evidente. É nas entrelinhas dos diálogos que as relações entre os membros do grupo vão correspondendo às próprias experiências do espectador. Não é um grupo perfeito, é verdade, mas talvez seja essa a grande sacada que tornou uma árvore falante e um guaxinim tão satisfatórios de acompanhar (tô errado, Amanda?) Acima de seus problemas, não podemos descaracterizar o bom trabalho feito aqui. Com atuações eficientes e uma direção formidável, Guardiões Vol. 3 encarna a posição de um filme muito mais maduro que seus antecessores, trazendo uma história cativante e honesta, a qual dá um desfecho condizente com tudo que foi mostrado até aqui. Assim, apesar de ainda ser cedo para dizer que os dias de cão realmente acabaram, o que fica é um lembrete de como um bom filme da Marvel se parece. Nota: 4,5/5

  • Crítica | Peter Pan & Wendy

    Uma Terra do Nunca que eu nunca gostaria de visitar. Foto: Divulgação É muito provável que a famosa citação “Eu acredito em fadas!” te teletransporte para o período da sua infância em que todas as crianças desejavam viajar para uma terra encantada, onde o tempo era estático, as obrigações inexistentes e a diversão infinita. Todos esses ideais são ganchos (sim, isso foi um trocadilho) atrelados ao insolente herói Peter Pan, popularizado pelas clássicas animações da Disney e pelo live-action de 2003, estrelado por Jeremy Sumpter e Rachel Hurd-Wood. Quase 20 anos depois, o novo Peter Pan & Wendy do Disney+, baseado na obra animada de 1953, promete trazer frescor e contemporaneidade ao universo. De fato, a inovação está ali, mas parece que esqueceram de acrescentar uma dose extra de pozinho mágico. Logo de cara, o longa nos apresenta a insatisfação de Wendy Darling (Ever Anderson) em ter que sair de casa para estudar em um internato. A garota percebe que está crescendo, mas não está muito feliz com isso, visto que prefere estar na companhia dos seus dois irmãos mais novos – João (Joshua Pickering) e Miguel (Jacobi Jupe). Tudo parecia normal naquela noite, lógico, até Peter Pan (Alexander Molany) e Sininho (Yara Shahidi) aparecerem na janela do quarto, prontos para levarem os irmãos para a fantástica Terra do Nunca. Não demora muito até que nós sejamos apresentados ao ilustre Capitão Gancho (Jude Law), um dos acertos do filme. Durante o desenrolar dos eventos, o roteiro nos mostra a história não contada do pirata, trazendo mais camadas ao personagem e dando oportunidade para que Law entregue uma boa performance. Cabe pontuar também que a dinâmica entre Peter e Gancho funciona bem, os dois realmente fazem transparecer uma rivalidade inveterada em suas cenas. Foto: Divulgação No roteiro de David Lowery e Toby Halbrooks, Peter é sagaz e tipicamente atrevido, mas é a Wendy de Anderson que rouba a cena – esperta, cativante, uma líder natural. Sendo assim, com bons protagonistas e uma premissa previamente amada pela audiência, o que poderia dar errado? Essa é uma pergunta fácil e difícil de responder. Realmente, há acertos pontuais na direção de Lowery, mas a ausência de uma atmosfera atraente torna o filme facilmente esquecível. Simplesmente falta conjunto, magia, vivacidade e uma Terra do Nunca que nos faça querer passar um tempo naquele lugar também. Com cores acinzentadas e uma fotografia estranhamente fria, não temos quase nenhum momento de deslumbre perante o mundo em que aqueles irmãos estão adentrando. É entendível que a premissa de uma adaptação em live-action é trazer alguns elementos fantasiosos para a realidade, entretanto, ainda estamos falando de um filme cujo tema central é o encanto de ser criança. Além disso, essa carência visual parece contagiar os aspectos lúdicos do próprio filme. A Sininho de Yara Shahidi, por exemplo, não tem muito espaço para brilhar. A fada acaba ganhando um novo arco, porém ele é executado tão às pressas que o impacto simbólico da personagem é drasticamente reduzido. Nessa mesma linha, senti falta de uma conexão maior entre os personagens coadjuvantes. O arco dos Meninos Perdidos é genuinamente interessante, mas o filme escolhe mantê-lo morno e subordinado ao enredo tradicional do filme. Até os irmãos da própria Wendy parecem estar ali sem muito propósito, não vemos um elo forte entre os três. Talvez a preocupação em encontrar uma estratégia narrativa redonda e coerente para o núcleo principal Peter-Wendy-Gancho tenha distanciado o longa dos seus outros elementos. No mais, o filme busca atualizar a história de Peter Pan e Wendy, retirando algumas incoerências e estereótipos típicos do estúdio nos anos 50. Em resumo, Peter Pan & Wendy é um filme que soa mais contratual do que propriamente mágico – é apenas mais um item marcado na checklist de live-actions da Disney. Infelizmente, apenas o talento de bons atores não consegue alcançar as metas que os produtores deveriam cumprir. Isso é uma responsabilidade grande demais para eles e nós bem sabemos da importância de crescer no tempo certo. Nota: 3/5

  • Crítica | A Diplomata (1ª temporada)

    Uma carta de amor a Keri Russell Foto: Divulgação Fico feliz em afirmar que temos mais uma série boa da Netflix. Primeiro O Agente Noturno, que não inova muito, mas entretém bastante. Depois Treta, que elevou ainda mais o nível e é uma das melhores do ano até então. Agora temos A Diplomata, que é um meio-termo entre essas duas. Na produção que estreou quinta-feira, dia 20, Keri Russell é Kate Wyler, uma diplomata americana que assume o cargo de embaixadora dos Estados Unidos no Reino Unido depois que um navio britânico sofre um ataque, colocando suas habilidades e seu casamento à prova. Criada por Debora Cahn, que foi uma das roteiristas de The West Wing, já percebemos algumas semelhanças de início com a criação de Aaron Sorkin, como pessoas andando rapidamente por corredores tratando de assuntos importantes enquanto despejam toneladas de informação no telespectador. Pode parecer que não, mas é proposital e não há com o que se preocupar, já que em algum momento outro personagem vai explicar de uma forma mais didática o que está acontecendo e nos familiarizar com a situação. Eu, por exemplo, não entendo todas as negociações empresariais de Succession ou os altos e baixos do mercado financeiro em Industry, mas consigo aproveitar muito bem as duas porque o que importa mesmo é como aquilo vai afetar os personagens, como eles vão agir em torno daquele fato. No caso aqui, a personagem é Kate. Interpretada com maestria por Keri Russell, eu não diria que Kate se diferencia de outras mulheres fortes da TV que rejeitam aspectos mais femininos como usar saias ou salto alto, coisas que ela detesta e agora se fazem mais necessárias pelo cargo que ocupa. Citando apenas como exemplo porque já vimos isso em outras produções, mas essas outras produções não tinham Keri Russell, que é o fator crucial aqui. O talento dela não é segredo pra ninguém desde Felicity e pudemos comprová-lo em The Americans. Como Elizabeth Jennings, Keri fez História na TV. Aqui ela tem um bom material, mas consegue elevá-lo com seu desempenho. O texto da série tem fortes tons cômicos e Keri passeia por eles com um sarcasmo único, com expressões faciais e vocais sutis que mostram a grande atriz que ela é. Em alguns casos, o humor entra até em uma cena mais sóbria ou dramática, e Russell tira de letra. O carisma natural dela faz com que simpatizemos com Kate desde o primeiro momento, assim como o modo que ela compõe a personagem em conjunto com os roteiristas, trazendo novas nuances em graus de maior complexidade. Foto: Divulgação Muito do desenvolvimento dela está intrínseco em seu relacionamento com o marido Hal, defendido muito bem por Rufus Sewell. Essa dinâmica disfuncional dos dois, no meu ponto de vista, é um dos pontos altos da série. Eles estão a ponto de um divórcio, mas por inúmeras razões não se deixam. Precisam um do outro na política, são parceiros. Há muita mágoa envolvida, egos feridos, porém é inegável que existe um certo tipo de amor ali. É por conta dessa incerteza com Hal, que Kate começa a se atrair por Dennison (David Gyasi), o Secretário de Relações Exteriores com quem trabalha diretamente. Desenhando esse triângulo amoroso, percebemos que o melodrama é uma das vertentes da série e isso não ofende a ninguém. Têm destaque também Stuart (Ato Essandoh), assessor de Kate, com quem vai formando uma amizade, Eidra (Ali Ahn), chefe da CIA em Londres, que tem um caso secreto com Stuart (eu já falei do melodrama, certo?), e Trowbridge (Rory Kinnear), o Primeiro Ministro britânico que, digamos, dificulta bastante o trabalho de Kate. Celia Imrie e Michael McKeann, de Better Things e Better Call Saul, respectivamente, são dois atores que admiro muito e têm participações pequenas, mas fundamentais: ela é uma conselheira política e ele o Presidente dos EUA. Este que vos fala estava com muita saudade de uma trama política e A Diplomata preencheu bem esse vazio. Gosto como se desenrola, porque parece mais uma vez que a Rússia será a grande vilã – impossível não se lembrar de The Americans – e não é bem assim que a banda toca. São oito episódios de pouco menos de uma hora cada. É direta na narrativa mostrada, sem encher lingüiça e sem tempo a perder. Equilibra bem as relações pessoais com o jogo político e toques de comédia, na maioria das vezes com delicadeza. Não é tudo que funciona, acho que alguns diálogos e cenas soam bobos e exagerados. Felizmente, são exceções e acontecem em poucos casos. Na maior parte, o texto é bastante afiado. Tem um ótimo ritmo e sempre que termina um episódio, a vontade é de engatar no próximo. Claramente foi estruturada como uma série e não minissérie. É notório não só pelo grande gancho deixado pelo fim da temporada, mas pelo real motivo de Kate ser escolhida como embaixadora. Há um plano e espero que haja uma nova temporada para que ele possa ser colocado em prática e que a qualidade se mantenha. Nota: 4/5

  • Crítica | Ghosted: Sem Resposta

    Se o maior problema fosse a falta de respostas ainda se salvaria algo Foto: Divulgação Quando vi que a maravilhosa Ana de Armas estaria em mais um filme de ação logo pensei: será que dessa vez vem um baita acerto ou um erro? Minhas expectativas aumentaram ainda mais quando soube que ela estaria contracenando com Chris Evans, já que a dinâmica entre os dois foi algo que deu muito certo anteriormente, afinal atuaram juntos em Entre Facas e Segredos e mostraram que a relação entre eles na tela é muito boa. Contudo, depois de ver os primeiros trailers e pôsteres a vontade de ver o longa caiu vertiginosamente, mas ainda assim eu esperava genuinamente que o carisma dos protagonistas salvasse o longa, por isso fui ver com o coração aberto - mas sem esperar muita coisa - e mesmo assim o resultado foi desastroso. Em Ghosted: Sem Resposta acompanharemos Cole, um fazendeiro certinho, que em um dia normal de trabalho conhece e logo se apaixona por Sadie, uma misteriosa e enigmática agente da CIA. Com um primeiro encontro bem característico do cinema, em um dia inteiro repleto de risadas, conversas, refeições e afinidade, Cole vai para casa iludido e cheio de esperanças que o relacionamento dará certo. Ele não contava, porém, que Sadie não daria qualquer notícia ou responderia suas mensagens. Depois de ir atrás de sua amada em outro país, o fazendeiro - obviamente - é sequestrado e descobre que Sadie é na verdade uma agente secreta temida por muitos, em uma importante missão para salvar o mundo de uma grande ameaça. Pois é, mais clichê impossível. Aposto que você deve estar pensando que já viu várias histórias parecidas por aí, e isso provavelmente é verdade. Tudo aqui é reciclado de outras produções, como Sr. e Sra. Smith ou Encontro Explosivo. Algumas coisas me fazem pensar que esse filme poderia facilmente ter sido escrito por uma IA e ninguém duvidaria. Desde a trama, de salvar o ingênuo parceiro em apuros que em algum momento também fará parte da aventura, até os personagens secundários extremamente vazios, rasos e sem qualquer desenvolvimento. Foto: Divulgação O diretor, Dexter Fletcher, já conhecido pelo excelente trabalho que fez com o maravilhoso Rocketman desandou bonito com esse aqui, e teve sua assinatura bem apagada e sem qualquer traço de personalidade característico de seus projetos. As cenas de ação são bem engessadas e não fogem do mesmo, a comédia jogada na tela a todo momento fala muito mais alto do que a ação em si, mas utiliza um roteiro simples e pouquíssimo inspirado para isso. O pouco que consegue se salvar ainda é a dupla de atores que se destacam individualmente e até são carismáticos, mas conjunto se esforçam pra emplacar esse romance que, sinceramente, não convence e resulta em um casal sem química alguma. A comédia romântica de ação em questão está longe de ser ótima, mas quando é levado em conta aquilo que ela se propõe a ser, e sem qualquer pretensão de se levar a sério, até consegue divertir e entreter em alguns momentos pontuais. Não apresenta nada de novo ou surpreendente, muito menos algo que revolucionará o gênero, mas se você fizer um esforço de esquecer a ação e for só pela comédia cafona quem sabe você ainda possa se divertir um pouquinho. Nota: 2,5/5

  • Crítica | O Chamado 4: Samara Ressurge

    Um filme tão ruim que te faz querer assistir a fita amaldiçoada na íntegra e ser assassinado por Samara para não vê-lo Foto: Divulgação Nos anos 2000, uma geração de fãs de filmes de terror ficou marcada pela presença de Samara Morgan e o seu VHS macabro. O Chamado e O Chamado 2”foram lançados 2003 e 2005 e adaptaram para o público americano o longa japonês Ringu de 1999. Depois de tantos anos, a franquia, sem dúvidas, se consolidou como um dos maiores clássicos modernos do gênero com diversas continuações e versões nos dois países. A mais recente delas foi intitulada O Chamado 4 - Samara Ressurge e chega às salas de cinema do Brasil nesta quinta-feira, 27. Antes de tudo, vale ressaltar que na verdade o longa foi produzido no Japão e está posicionado no mesmo universo da versão japonesa, então, não estamos lidando aqui com Samara Morgan (criada na versão americana) e sim com Sadako. Nesse contexto, a vilã já possui características muito próprias que já se proliferaram em outros capítulos da franquia (como o que Sadako enfrenta Kayako, de O Grito). A confusão é clara: Mesmo sendo uma sequência da franquia japonesa, o longa foi traduzido no Brasil como se fosse o quarto filme da franquia americana. Mas seguindo para a história que temos agora, em O Chamado 4, somos apresentados a uma atualização moderna e tecnológica da história de Samara/Sadako que agora é invocada através de vídeos amaldiçoados que são disseminados pela internet. Além disso, as vítimas também morrem em 24 horas, não mais sete dias, como de costume. Nesse cenário, Ayaka, uma estudante de pós-graduação, depois de saber que sua irmã assistiu ao conteúdo por diversão, tenta desvendar os mistérios por trás do vídeo. Foto: Divulgação Dirigido por Hisashi Kimura e escrito por Kôji Susuki e Yuga Takahashi, O Chamado 4 - Samara Ressurge não é uma história de terror como estamos acostumados a ver. No longa, a trama de Samara se mistura a uma tentativa de comédia pastelão que não funciona em nenhum momento e mais lembra a participação da vilã em Todo Mundo em Pânico do que seus próprios filmes. Obviamente, o filme consegue ser visto de forma solitária, pois, não faz nenhuma menção a lendas e a história de Samara/Sadako, tornando a mesma vazia e sem nenhuma motivação relevante. Tentando seguir uma linha narrativa que envolve a disputa da ciência com o misticismo, o roteiro do filme se perde nessa dualidade de gêneros e não entrega um bom filme. Além disso, toda a construção de personagens é extremamente caricata, fazendo com que todos sejam muito insuportáveis. O Chamado 4 tem também uma fotografia muito clara e uma trilha sonora totalmente destoante e essa falta de cuidado com os aspectos técnicos não ajudam e tornam o longa uma experiência difícil de ser assistida. Essa nova versão não faz jus aos bons longas do início dos anos 2000 que fizeram sucesso para o público e também não faz jus aos bons filmes que foram produzidos no Japão nos últimos anos. O Chamado 4 - Samara Ressurge é ruim em todos os aspectos e não merece ser colocado junto dos outros longas da franquia. Nota: 0,5/5

  • Crítica | Perry Mason (2ª temporada)

    Após um bom ano de estreia, a série volta melhor e mais focada Foto: Divulgação Tendo passado alguns meses do caso de Emily Dodson (Gayle Rankin), Perry (Matthew Rhys), agora oficialmente advogado, rejeita casos criminais. Quando o playboy Brooks McCutcheon (Tommy Dewey), filho do milionário Lydell McCutcheon (Paul Raci), é encontrado morto, os irmãos Mateo (Peter Mendoza) e Rafael Gallardo (Fabrizio Guido) são acusados do crime. Pobres e imigrantes, a família recorre a Perry para defendê-los e inicialmente ouvem uma recusa, até que Della (Juliet Rylance) o convence do contrário. Gosto bastante da 1ª temporada, mas várias coisas nela me incomodavam. Parecia um pouco bagunçada, com tramas espalhadas que nem sempre conversavam. A 2ª é muito mais centrada, desenvolvendo melhor seus personagens e o enredo principal sabia onde queria chegar desde o início, e ainda que não fosse exatamente surpreendente ou impctante, a história foi bem amarrada. É mais importante aqui o “como” e o “porquê” do que o choque do “quem”. Foto: Divulgação Mais focada no julgamento e nas cenas de tribunal, a temporada traz o Perry advogado que ele deveria ter sido desde o começo. Matthew Rhys, claro, está fantástico no papel, ajudando a desenvolver o personagem pessoal e profissionalmente, com um toque emotivo que só ele sabe dar. Ainda que não haja tantas cenas com seu filho, é perceptível o quanto ele é importante para Perry, por exemplo ou como ele tem dificuldade em confiar e se abrir para um novo interesse amoroso. Juliet Rylance se destaca também com sua Della, que vive um romance escondido com Anita (Jen Tullock), uma artista. A homofobia da época fazia com que elas não pudessem se assumir, e esse é um ponto crucial não só de desenvolvimento para Della, mas na conexão com a trama principal, quando há uma chantagem envolvida, sobre a qual não darei spoilers. A amizade dela com Perry e o respeito recíproco que eles têm é muito bonito e bem trabalhado. Paul (Chris Chalk) também ganha mais destaque, quando sua família é mostrada, e faz uma descoberta crucial sobre o caso em questão. A trama flui muito bem e a ambientação impecável da época ajuda muito na experiência imersiva. Há uma reviravolta no caso que leva a um dilema típico que advogados enfrentam, o qual eu curti muito a abordagem que o roteiro trouxe para a situação. Por isso citei acima que Perry se desenvolve tanto profissional quanto pessoalmente. Há outras figuras-chave envolvidas e o poder e o dinheiro são pontos centrais do desenrolar. Os oito episódios têm muito mais altos do que baixos, e normalmente alguns são melhores que outros, mas os pontos positivos se sobressaem e eu espero que haja uma nova temporada. Anseio pela nova aventura de Perry Mason e sua fiel escudeira Della Street. Nota: 4/5

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