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- Crítica | Nintendo e Eu
Um coming-of-age repleto de ótimas ideias, mas que falha consideravelmente ao tentar desenvolvê-la Foto: Divulgação Histórias que retratam o amadurecimento vivido entre o fim da infância e a adolescência, os tão queridos coming-of-age, são bem comuns no cinema e em geral fazem bastante sucesso com o público. Repleto de clássicos dos anos 1980 como Curtindo a Vida Adoidado e Clube dos Cinco à ótimas produções mais recentes, como é o caso de Superbad e Fora de Série, geralmente esses filmes são populares tanto por gerarem uma identificação como por provocarem um forte sentimento de nostalgia. Quando vi o título Nintendo e eu a pontinha de nostalgia já se acendeu e a expectativa era de encontrar um filme que, no mínimo, me remetesse a esse sentimento e eu saísse com um quentinho no coração após vê-lo. Infelizmente não foi dessa vez, pois o que prevaleceu aqui na verdade foi o tédio. Em Nintendo e Eu, acompanharemos quatro amigos no início dos anos 1990 nas Filipinas vivenciando a pré-adolescência, crescendo e amadurecendo à medida que aproveitam o verão com muito videogame e aventuras. A trama é simples e já foi bastante explorada em outras obras, portanto, para que não se confunda com mais um do mesmo algo a mais é preciso. Esse diferencial poderia facilmente ser inserido através das atuações, construção de personagens, universo, ou até pela assinatura do diretor, de forma que deixasse sua marca. Porém, tudo que consegui absorver do longa foi o oposto disso. Foto: Divulgação Raya Martin, diretor do longa, se apoia tão ferozmente na ideia de nostalgia - ao colocar os garotos para jogar Super Mario Bros e The Legend of Zelda no Nintendinho - que esquece de construir uma boa história e criar bons personagens. Tudo que aparece dos anos 1990 é jogado de qualquer jeito na tela e sem o devido cuidado, implorando por acender a todo custo no telespectador a chama da nostalgia, mas nem isso consegue e falha miseravelmente. O resultado disso são longas e tediosas 1h30 que não caminham para lugar algum, sem propósito em sua narrativa e que parecem durar muito mais que isso. Geralmente uma das coisas que mais cativa e faz o telespectador se conectar e gostar desse tipo de história são os personagens. Vê-los fazendo descobertas e enfrentando os perrengues da adolescência, particularmente, me agrada muito. Aqui, contudo, sinto que tudo é muito engessado e os protagonistas não se destacam, e isso não se deve nem às atuações, que até dão conta do recado, mas sim à falta de profundidade que os personagens têm. Infelizmente não possuem o toque necessário para te fazer querer ver mais sobre eles, te fazer se importar com o que aconteceria ou ficar curiosa por suas aventuras. Eu queria ter gostado mais, confesso, mas terminei com um gosto amargo de que a trama não foi a lugar algum e só perdi meu tempo. A história não anda, não se desenvolve, os personagens são vazios e sem carisma - só um ou outro se destaca - e tudo que eu sinto é que estou vendo grandes retalhos da história, mas que não se conectam ou tem qualquer propósito. Nota: 2/5
- Crítica | Beau Tem Medo
Três longas horas de crise de ansiedade alucinógena fazem o melhor pior filme dos últimos tempos Foto: Divulgação Como críticos, nosso papel é dar nossa impressão sobre a obra para que você, leitor, possa avaliar se vale a pena investir nela ou encontre considerações e explicações que validem ou não suas próprias impressões de algo em que já consumiu. Até aí tudo ok, parece simples. Mas e quando a opinião do crítico é “????”? É com esse impasse que começo esse texto porque é com ele que tenho convivido desde que saí da sessão de Beau Tem Medo, novo filme de Ari Aster, criador dos também polarizantes Hereditário (2018) e Midsommar – O Mal Não Espera a Noite (2019). É difícil julgar arte porque o objetivo e o subjetivo podem facilmente se contradizer. Frank Sinatra tinha, objetivamente, uma das melhores vozes e interpretações musicais da história, mas suas canções não mexem tanto assim comigo. Da Vinci é, objetivamente, um gênio artístico e suas composições altamente complexas até hoje são estudadas, mas quando me vi de cara com a Monalisa não senti nada diferente. Beau Tem Medo é, objetivamente, uma grande produção cinematográfica, e eu detestei. Vamos por partes. O filme se propõe a imbricar comédia, suspense e pitadas de terror ao contar as desventuras do personagem no título (Joaquin Phoenix), que tem toda razão em estar apavorado: o mundo é um caos e está todo contra ele. Desde seu nascimento, mostrado nos primeiros minutos do filme, tudo é muito conturbado e a grande razão para tanto estresse é o amor excessivo de sua mãe (Patti LuPone). Está claro que Aster tem alguma questão freudiana: a obsessão parental, sobretudo a materna, é tema central de muitas de suas direções até aqui, com destaque para Hereditário e o curta Munchausen. Me pergunto se a mãe dele se ofende assistindo o trabalho do filho. Foto: Divulgação Na terapia, Beau parece começar a ter insights sobre como essa relação pode estar sendo prejudicial a ele, mas não consegue ignorar o amor, a gratidão e o senso de responsabilidade que nutre pela sua genitora, tanto que marcou uma viagem no dia seguinte para celebrar ao lado dela o aniversário de morte do pai que nunca conheceu. É aí que tudo começa a dar errado (na história e no filme em si). Beau vive num mundo que parece com o nosso, mas muito mais violento. Sua vizinhança é infestada de loucos, criminosos e corpos, causando uma série de adversidades (não necessariamente realistas) que o impedem de chegar a tempo no aeroporto para a viagem. Desolado, ele liga para a mãe para dar a notícia e ela a recebe com uma resposta passivo-agressiva, insatisfeita com a desfeita dos planos. Outra série de adversidades faz com que seu prédio seja invadido pelos loucos da rua e ele fique trancado para fora. Quando enfim consegue voltar para os escombros do que foi o apartamento, outra série de adversidades o leva a descobrir que sua mãe, com quem queria se redimir, havia morrido. Em choque, vai tomar um banho e mais uma série de adversidades o faz ser atropelado nu por um caminhão. E esse é só o primeiro ato. Exausto? Pois é, eu também. O que segue são histórias similares em outros cenários. Beau tem a missão de chegar o mais rápido possível no velório da mãe, que deixou claro que só queria ser enterrada na presença do seu querido filho. Mas nada conspira ao seu favor, nunca. Ele é pseudo-sequestrado, perseguido, ameaçado, abusado, manipulado… tudo isso por personagens com a profundidade de um pires, que são loucos apenas por ser. O grau do absurdo vai aumentando a cada cena – e não de uma maneira convincente. Quando nos damos conta, um Beau que acabou de perder a virgindade está tirando de si uma mulher que morreu petrificada ao ter orgasmo. Algumas cenas depois está de cara com um pênis gigante e antropomorfo que estava escondido no sótão. Descobrimos que, num plot twist de novela mexicana, sua mãe estava viva e tudo não se passou de um jogo para testar o verdadeiro amor incondicional do filho. A esse ponto o filme já virou um circo e estou olhando o relógio, dois pensamentos gritando em minha cabeça: “a quem eu cobro essas últimas 3 horas da minha vida?” e “quem aceitou dar tanta verba para esse projeto”? Foto: Divulgação Porque se há um mérito em Beau Tem Medo é o de super produção. É um filme que grita “orçamento milionário!” na cara do espectador. A montagem brinca habilmente com a demora e a aceleração para criar o suspense. O som diegético muitas vezes se confunde com a trilha, assinada por The Haxan Cloak, gerando uma constante sensação de agonia, que nos lembra que nada está bem. A direção de fotografia de Pawel Pogorzelski é um show de criatividade, equilibrando beleza, desconforto e humor em planos não tão usuais – sem falar da luz que, como nos demais filmes de Aster, possui importância ímpar. A direção de arte, encabeçada pela designer de produção Fiona Crombie, é fascinante, caracterizando personagens e ambientes numa riqueza de detalhes incrível, do tipo que você conseguiria decifrar a história só de olhar frames ordenados. Assim como Beau, um homem passivo e desmotivado mas que tenta encontrar o amor pela vida, suas roupas são neutras mas bem cuidadas e seu apartamento é vazio mas devidamente limpo e organizado. Já sua mãe, que se considera a pessoa mais importante da vida do filho, usa roupas pomposas e mora numa mansão luxuosa inundada por fotos e lembranças, dignas de quem não consegue desapegar. Até o roteiro tem mais pontos positivos que negativos, se conseguirmos considerar isoladamente cada ato. E tudo isso, claro, liderado pela cereja do bolo: a atuação brilhante, primorosa, irretocável de um Joaquin Phoenix que, contraditoriamente, ao retratar uma pessoa insegura sobre tudo, nunca esteve tão seguro de si. Sim, todos os aspectos de Beau Tem Medo são de primeiríssima qualidade, um deleite para o público… mas não funcionam como longa. Não coincidentemente, quando saí do cinema, ao pesquisar mais sobre o filme, vi que ele deriva de um curta de mesma proposta. “Se fosse um curta eu ia gostar”, pensei, “quem sabe uma série antológica”. Porque na verdade, o filme em si parece uma sucessão de curtas ou esquetes sombrias de um programa de humor que ninguém acha tanta graça, mas também não consegue tirar os olhos da tela. Cada sequência (diferenciada principalmente pelo local) se difere bastante da outra, Beau e o mundo desproorcionalmente violento sendo os únicos vínculos entre elas. Fica nítido que, diferente do medo/terror que Ari Aster quis evocar nos seus filmes anteriores, neste o sentimento que ele mirou foi a ansiedade. O filme é uma grande crise de aflição e angústia, e nisso ele foi bem certeiro em sua direção. Parece, de fato, que estamos vivendo na mente de alguém que está passando por um ataque de pânico no meio de uma sessão de ayuasca. O problema é que ninguém aguenta três horas de ataque de pânico psicodélico. Eventualmente cansamos, nos dessensibilizamos do caos e nos irritamos com o exagero. Se no início franzimos o cenho, positivamente espantados diante do absurdo, com o tempo cada novo problema ilógico passa a ser um revirar de olhos, até nos perguntarmos “por que Beau não se mata logo?”. Cento e setenta e nove minutos de overdose visual e sonora depois, o final do filme conclui apressadamente o que já sabíamos, literalmente, desde o primeiro minuto: Beau é uma pessoa passiva e sua mãe, louca. Tanto investimento (meu, do meu emocional, do estúdio e da produção) para nada. Vai ver o “????” que estava na minha cabeça era pensando como um filme tão bom conseguiu ser tão, mas tão ruim. Nota: 2/5
- Crítica | Querida Zoe
Uma história de amadurecimento juvenil com altas doses melodramáticas Foto: Divulgação A partir desta quinta-feira (20), o Festival Filmelier no Cinema chega a diversos cinemas no Brasil com sessões exclusivas de longas ainda não lançados no país. O Festival é uma realização do Sofá Digital e da Synapse Distribution e trouxe filmes como Herói de Sangue, Blue Jean, Tesla - O Homem Elétrico, a comédia nacional Barraco de Família e o coming-of-age Querida Zoe. Estrelado por Sadie Sink (de Stranger Things), Querida Zoe foi produzido no ano passado e conta a história de Tess, uma jovem que sofre uma terrível perda em sua família e, tentando superar o luto, ela se aproxima de seu pai biológico e encontra nele um inesperado apoio. O drama é dirigido por Gren Wells e é uma adaptação do romance homônimo de 2005 de Philip Beard. É possível perceber como a história segue esse padrão de romances literários juvenis desde os seus primeiros minutos. Portanto, quem já está acostumado com as artimanhas do gênero, acaba decifrando seus principais plot twists e detalhes de enredo durante o decorrer do longa. Porém, isso não chega a ser um problema que impeça o telespectador de assistir a Querida Zoe, que acerta também na duração da história com 1h34 de duração. Foto: Divulgação Um ponto positivo no longa é, sem dúvidas, o seu elenco. Sadie é uma atriz jovem muito competente e consegue transpor na tela os sentimentos mais fortes do luto após a perda da sua irmã mais nova. Além disso, Tess é uma adolescente que precisa lidar com todas as questões da juventude e se adaptar à nova realidade com o seu pai biológico e Sadie faz isso muito bem. Outro destaque é a atriz Jessica Capshaw (a Arizona, de Grey’s Anatomy) que interpreta a mãe da protagonista. Jessica faz uma mãe enlutada e deprimida de uma forma muito real e sensível e suas cenas com Sadie são as melhores do filme. Narrativamente falando, Querida Zoe abraça os tons do melodramático e entrega uma história bem no estilo sessão da tarde e é nesse exagero em tentar emocionar a todo custo o telespectador que o longa se perde em diversos momentos. Errando o tom também na trilha sonora que parece uma playlist juvenil, o filme, apesar disso, tem suas particularidades e traz boas reflexões sobre família e luto. No mais, Querida Zoe é uma boa pedida para quem gosta de filmes no estilo Lifetime de ser e, principalmente, para quem curte o trabalho promissor de Sadie Sink. Nota: 3/5
- Crítica | Suzume
Uma jornada sobre cicatrizes, memórias, luto e amadurecimento Foto: Divulgação Makoto Shinkai é hoje um dos grandes nomes quando o assunto é anime, e isso deve-se, principalmente, ao grande sucesso que alcançou com Your Name, filme que estourou a bolha e atingiu diversos públicos que comumente não consomem animes. Quando fiquei sabendo que esse diretor estava trabalhando em um novo projeto logo a curiosidade tomou conta e meu olhar se aguçou para o que poderia ser mais uma obra bastante relevante e que abordaria temas importantes, algo bem característico de Shinkai. Felizmente minhas expectativas não foram frustadas já que em Suzume acompanharemos uma aventura épica, repleta de elementos sobrenaturais, mas que se desenvolve como uma linda jornada de amadurecimento mergulhada em memórias, histórias e lembranças. No longa, conhecemos Suzume, uma garota de 17 anos, estudante do ensino médio, que leva normalmente sua simples vida na pacata cidade de Kyushu no Japão, quando certo dia um desconhecido e belo garoto chamado Sota atravessa seu caminho à procura de ruínas que existam na cidade e supostas portas abandonadas. Fascinada pela beleza do rapaz, Suzume resolve segui-lo até as antigas estruturas, quando inesperadamente se depara com a única coisa ainda de pé, uma porta que parece levar a lugar algum. Ao se aproximar da porta ela se dá conta de que aquilo nada mais é que um portal para uma terra desconhecida, completamente diferente de sua cidade. Sem conseguir atravessar o portal, Suzume explora o local e acaba retirando uma estátua ali próxima que acaba se transformando em um gato, o que gera a aparição de uma sombra misteriosa juntamente com um terremoto que pode destruir a vida de todos da cidade. Graficamente não há o que falar da obra, a não ser o fato de tudo ser muito lindo, bem feito e com uma beleza que encanta; o que não é surpresa para ninguém, visto que isso é uma marca registrada do diretor, mas aqui ele consegue se superar. O modo como o Japão e suas paisagens, tanto rurais quanto urbanas, são retratadas é de se admirar, e até mesmo as batalhas fazem os olhos brilharem para o que é visto na tela. Vale destacar também a maravilhosa trilha sonora, que sabe a hora de usar o instrumental para ressaltar um clima de tranquilidade e paz, bem como o uso do mesmo na hora de aumentar a tensão por meio de diferentes formas, ritmos, e amplitudes. Foto: Divulgação Mais uma vez, como em outros trabalhos de Shinkai, os fenômenos naturais tomam conta e interferem de forma sobrenatural e direta na vida de seus personagens. Em um road movie que se pauta na busca por novas portas, os protagonistas viajam e percorrem diversas províncias com locais em ruínas que foram inspirados pelos desastrosos resultados do terremoto que aconteceu no Leste do Japão em 2011 e resultou em mais de 19.700 mortes e inúmeros desaparecidos. A força e o poder em relembrar cicatrizes que ficaram marcadas tanto no terreno quanto na memória daquele povo é grandiosa. Afinal, são histórias e lembranças de milhares de famílias despedaçadas e afetadas que existem em cada pequeno lugar solitário e viverão para sempre na memória de cada um. Construir e fortificar relações é um ponto forte do diretor. É incrível como ele consegue construir algo sincero, natural e gradativo que vai acontecendo não só entre os protagonistas, como também entre todos os personagens que aparecerão durante a jornada. A sensibilidade para tratar de temas cotidianos e simples lições de vida de forma mirabolante faz com que seus projetos se destaquem em meio a tantos outros. Ao mesmo tempo que fala de coisas simples, consegue em muitos momentos gerar um senso de urgência que cresce devido à presença de uma ameaça grandiosa, o que resulta em ótimos momentos de tensão que te deixará vidrado. Acredito que Makoto Shinkai ainda não recebeu o reconhecimento que merece dada a grandeza e maestria de seus trabalhos. Confesso que Your Name ainda é meu favorito, mas Suzume não fica muito atrás em qualidade quando comparado ao longa mais famoso do diretor. A duração do longa é o único ponto negativo que tenho a destacar, visto que em determinada parte a história diminui o ritmo e se estende um pouco mais do que deveria, mas nada que tirasse minha imersão. Finalizo dizendo que mesmo em uma aventura grandiosa e mágica o que irá atingir o telespectador e fazê-lo pensar no filme por bastante tempo serão os acontecimentos mais simples e o modo como os personagens lidam com eles. Nota: 4/5
- Crítica | DOM (2ª temporada)
Apesar do título, faltou Dom para superar o nível da temporada de estreia Foto: Divulgação Quem foi Pedro Dom? Pedro Machado Lomba Neto, que se tornou conhecido como Pedro Dom ou Bandido Gato, foi um criminoso carioca que invadia e roubava casas de classe média com seu bando, e foi morto em 2005. Dom se inspira em seus casos para escrever uma trama de, agora, 15 episódios. Criada por Breno Silveira, que faleceu em maio do ano passado, e lançada em 2021, a série nacional do Prime Video, que conquistou espaço por sua produção sensacional e uma história que prendeu o público com facilidade, retornou dois anos depois com uma nova temporada que não trouxe consigo o primor de sua estreia, infelizmente. Atribuindo os elogios necessários, esse novo ano continua com um trabalho impecável da produção nos quesitos técnicos. Direção, fotografia e direção de arte são os pontos altos que seguram os sete episódios da temporada (oito com o especial). Embora essa parte seja louvável, a derrocada trágica que a série tem em relação à construção da sua trama é algo que torna doloroso acompanhar, pois, era sabido o potencial que havia ali visto o trabalho que entregaram na estreia. O retorno é marcado por uma repetição até compreensível, mas que acaba descendo por um caminho que faz tudo parecer dispensável e entediante. A decisão de manter as histórias paralelas pareceu não funcionar dessa vez, o que foi um dos pontos positivos anteriormente. Foto: Divulgação Sendo honesto, Gabriel Leone até segura bem o rojão de levar para frente um enredo desinteressante, mas uma pessoa só jamais salvaria tudo, e em vários momentos seu próprio protagonista ficava de escanteio para a maçante e tediosa aventura de Victor Dantas em seu trabalho como policial. Enquanto na versão interpretada por Filipe Bragança o personagem parece ter charme e cativar, com Tolezani ele tem o efeito mais oposto possível. Além da interpretação mais fraca, tudo ao redor de sua versão de Victor perde o brilho automaticamente, e faz com que a aparição dele mesmo que por segundos, se torne horas insustentáveis. Não só ele é ruim sozinho como atrapalha qualquer momento de interação com o protagonista, coisa que não aconteceu na temporada inicial. A decisão de trazer um Pedro Dom oscilante entre permanecer no crime ou sair dele foi, talvez, o maior erro que tiveram, não pela temática, mas pela forma que idealizaram tudo. O drama poderia ter sido melhor construído sem a necessidade de tantas repetições e artifícios clichês já vistos numa quantidade de vezes incontáveis. É prisão vs igreja vs vício vs família, e tudo escrito sem o tom dramático certo para deixar aquilo interessante para o público, o máximo que conseguem é fazer com que tudo fique muito controverso e que o personagem de Leone pareça ter somente um tico e um teco funcionando na cabeça. Fizeram com que ele tomasse caminhos e decisões tão estúpidas que parecia que ali tínhamos uma criança de cinco anos decidindo tudo num sorteio de dados. Apesar disso, as cenas de ação continuam sendo emocionantes de acompanhar e fazem o show valer um pouco mais a pena, mesmo que tenham diminuído bastante. Elas constroem um frenesi que te deixa de coração palpitando enquanto espera o desenrolar de tudo, e isso é muito positivo. A adição de Dhonata Augusto com seu personagem sedento por aventura é o que dá um pouco mais de gás nessa questão, mas, ainda assim, mal aproveitado, assim como Isabella Santoni, que mal teve destaque. Somente Raquel Villar consegue ter um pouco mais de aproveitamento e ainda assim sua Jasmin é repetitiva e cansativa, ainda deixando uma sensação de “o que rolou aqui?” com uma atitude no último episódio que não teve sentido algum, avaliando o que aconteceu minutos antes para que tudo se desencadeasse daquela forma. Foto: Divulgação O que dá um pouco mais de vigor à temporada é a aparição de Filipe Bragança e seu episódio especial, mesmo não tendo nenhuma ligação com a história. Talvez por já saberem o trabalho não muito agradável que decidiram contar em sete episódios, Victor Dantas retorna em um bônus interessante, bem escrito, apesar de rápido e que deixou um gostinho de “quero mais”, diferente da trama principal. Voltando a ela, considerando a inspiração em fatos, o questionamento que fica é se pensam em seguir adiante e como fazer isso, já que o momento de encerramento da temporada se dá de acordo com a descrição da morte de Pedro Dom (o que não aconteceu na série ainda), ou será que darão por encerrado ali daquela maneira mesmo? Por mais que tenha falhado, a série continua sendo uma boa produção nacional, mal aproveitada, mas ainda boa. Considerando somente a minha perspectiva, deveriam decretar aqui já o encerramento e talvez partir para uma nova empreitada, com, digamos, a versão de Victor Dantas do Bragança seguindo o rumo deixado no episódio bônus. A faca e o queijo estão na mão, resta saber se vão usar para algo bom, deixar para lá ou se manterão na mesma história, piorando a situação da série ou resgatando o brilho da temporada de estreia. Nota: 3,5/5
- Análise | Succession 4x04 ("Estados da lua de mel")
As consequências do postmortem Foto: Divulgação Em dado momento de "Estados da lua de mel", Shiv pontua que tudo será “diferente, mas igual”, e depois do belíssimo episódio da semana passada, voltamos a velha fórmula da série, porém sem Logan Roy para ditar as regras. Era o caminho mais provável, que sem o patriarca, a união dos filhos seria quebrada pela ambição do poder. Succession não surpreende pelo que acontece, mas como acontece e aí está seu maior trunfo. No início do episódio, vemos os irmãos Roy ainda abalados pelo acontecido, e no caso de Shiv ainda há outra notícia: ela está grávida! Os outros personagens ainda não sabem e isto deve reverberar mais no futuro, mas já é perceptível que algumas reações dela podem estar associadas a este fato, principalmente no que concerne a Tom. Já no apartamento de Logan, ela está reunida com Roman e Kendall, enquanto Gerri, Frank e Karl discutem o futuro da empresa. Se isto ainda não era a preocupação imediata dos irmãos, tudo muda com a descoberta de um papel assinado por Logan, onde ele diz que Kendall deverá sucedê-lo. O relacionamento do trio começa a ser minado e lealdades são questionadas. O lado ambicioso de todos é despertado, mas a sede de poder de Kendall é maior, afinal é seu nome que está no papel e para ele não importa há quanto tempo. Shiv e Roman, obviamente, não concordam de imediato, mas depois entram em acordo quando Roman se junta a Kendall na votação do Conselho. Shiv, mais uma vez foi preterida pelos irmãos e não está nada satisfeita, e mesmo que eles digam que ela terá voz, sabemos que não será bem assim e ela também sabe. Era só questão de tempo até que os interesses pessoais se sobressaíssem e o tempo chegou. Não era segredo pra ninguém que lá pelo começo da série, Logan realmente tinha uma predileção para que Kendall assumisse seu posto, mas com tantos altos e baixos no relacionamento dos dois, eu imagino que aquele nome foi riscado propositalmente. O roteiro dá material suficiente para que Jeremy Strong mostre o porquê de já ter seu Emmy. Seja nos momentos de sutileza em que sente a ausência do pai, ou quando está com sede de poder, agindo pelas costas do irmãos sem pestanejar. Ne mente complexa do personagem, ele está dando orgulho a Logan, fazendo o que ele faria, e isso é tudo que ele sempre quis. "Estados da lua de mel" é mais um excelente episódio desta 4ª e última temporada que traz tudo que Succession tem de melhor. Além de toda a intriga, o tradicional humor ácido da série esteve em alta essa semana. Com o retorno da brilhante Hiam Abbass e sua Marcia, tivemos ótimas cenas em que a personagem troca educadas farpas com Willa, rapidamente vende a cobertura a Connor e humilha Kerry de toda forma que pode. Tom sendo humilhado e se humilhando atrás de alguém que o queira do lado, e Greg, que cada vez mais se mostra uma pessoa desprezível, como todos que o cercam. Quando Sandy Furness chega com o rosto imóvel com o sorriso é impossível segurar a risada. Aquele tombo de Shiv é mais uma derrota para a conta da moça, mas não deixa de ser engraçado. É sabendo dosar o humor e o drama tão bem, com atuações irretocáveis que a série se prova como a melhor da atualidade. Expondo o quão mimados e irredutíveis os Roy podem ser, porém também mostrando suas vulnerabilidades, atestando a ambiguidade que os domina, como Roman sendo o único a ajudar Kerry ou Shiv tendo que afastar Tom para não cair em tentação. Jesse Armstrong tem controle total de seus personagens e os conhece como ninguém. Parece redundante falar isso, mas por mais drásticas que sejam suas atitudes, elas condizem com toda a construção que acompanhamos. A direção de Lorene Scafaria é quase invasiva, focando no rosto dos atores e em suas expressões, ditando o tom desafiador do episódio. É com esse combo de fatores que Succession vai terminando sua jornada, e com uma qualidade que poucos conseguem atingir.
- Crítica | Olá, Amanhã! (1ª temporada)
Um exuberante visual retrofuturista não salva a série da mediocridade Foto: Divulgação Quando era mais novo, tinha uma enorme fascinação pela cultura estadunidense dos EUA nos anos 50. Talvez fosse o impacto de assistir na infância o concerto 9012Live do Yes — onde as performances da banda eram intercaladas com vídeos, fotos e montagens de adoráveis famílias suburbanas cinquentistas. Claro, hoje sabemos que não foi um período nada idílico (e sim repleto de sexismo, racismo e paranoia anticomunista, tal qual hoje em dia), mas é inegável a marca que nos foi deixada de ser uma época que representou com perfeição o american dream em sua plenitude. No papel, Olá, Amanhã! parece querer satirizar esse “sonho americano”, adotando uma das vertentes mais icônicas da imagética cinquentista: a ficção científica produzida à época, onde víamos a colonização da Lua, foguetes cruzando os céus, robôs domésticos e muito mais. Essa abordagem retrofuturista se revela o grande diferencial e charme da série, que segue uma equipe de vendedores liderada pelo carismático Jack Billings (Billy Crudup) que convence as pessoas a comprarem lotes na Lua, mas que na verdade as enreda em um esquema criminoso. Parece interessante, não? E é... mas só no papel mesmo. Vamos começar pelo positivo: no que se refere aos quesitos técnicos, Olá, Amanhã! é um desbunde. O Apple TV+ não se faz rogado ao investir em suas séries, e aqui temos um mergulho imersivo nesse mundo retrofuturista tão convidativo. O design de produção da série é um show à parte, aliado aos figurinos, a trilha sonora “alienígena” e aos efeitos especiais que nos fazem sentir que essa realidade na qual passado e futuro se sobrepõe é perfeitamente possível. Foto: Divulgação Mas, por mais impressionante que seja a forma, ela não consegue nos fazer ignorar o fato de que não há muita substância a ser encontrada aqui. A premissa aparentemente cínica e satírica a respeito do “sonho americano” é logo descartada em prol de tramas clichês e que não parecem ir a lugar nenhum. No começo da série até ousei compará-la com Mad Men pela forma como parecia retratar o espírito de épocas tão similares, mas ao final tal comparação soa quase blasfema. Olá, Amanhã! não chega aos pés de Mad Men e, por melhor ator que Billy Crudup, seu Jack Billings não chega aos pés de Don Draper. Nem todo o charme que ele confere ao personagem pode salvá-lo da trama desinteressante e morna que lhe é conferida: suas tentativas de se reconectar com o filho Joey (Nicholas Podany) a base de mentiras não são suficientes para nos cativar, tampouco os míseros vislumbres de seu passado que nunca soam suficientes para justificar seus atos, de modo que ao final você torce para que ele seja pego em seu esquema ilegal, ao invés de torcer por ele ou pelo menos compreendê-lo. O restante dos personagens também não nos dá muito motivo para apreciá-los, em parte por causa de péssimas escolhas do roteiro, mas também porque as atuações nunca estão à altura dos seus intérpretes — mesmo com nomes como Hank Azaria, Alison Pill, Dagmara Domińczyk e Jacki Weaver no elenco —, sendo muitas vezes relegadas a performances caricatas; e nesse sentido, quem mais sofre com isso são Dewshane Williams e Susan Heyward como o insuportável casal Bert e Betty. Apenas Hanneefah Wood, no papel de Shirley, a braço direito de Jack, parece conferir algo mais à sua personagem, conferindo-lhe não apenas personalidade, mas também humanidade e complexidade. Apesar de todo o seu deslumbre visual e técnico, Olá, Amanhã! é uma série que se esgota assustadoramente rápido, escolhendo um caminho tão convencional e ordinário para sua narrativa que em nada justifica a ambientação retrofuturista escolhida. Aliás, esse caminho de contar histórias ordinárias não seria exatamente um problema se o roteiro e o elenco conferissem alguma vida a essas tramas e seus personagens, de modo que nem o gancho final é atraente o suficiente para nos querer voltar para uma segunda temporada. Infelizmente, há casos em que a forma não dá conta da (ausência de) substância, e Olá, Amanhã! é um dos mais flagrantes casos disso que vi nos últimos tempos. Nota: 2,5/5
- Crítica | Extrapolations: Um Futuro Inquietante (1ª temporada)
A triste ironia de um conteúdo sobre mudanças climáticas ser apenas morno Foto: Divulgação A nova série do Apple TV+ é uma antologia que se passa num futuro não tão distante onde o planeta Terra está ainda mais danificado devido a problemas climáticos causados pelo homem. Cada episódio se passa num ano diferente (com exceção dos episódios 4 e 5 que se desenrolam no mesmo ano) mas com a recorrência de alguns personagens que permeiam o limite de um episódio/ano. São 8 episódios ao todo estrelados por nomes que somam incontáveis prêmios no cinema, na a televisão e no teatro como Meryl Streep, Forest Whitaker, Marion Cotillard, Tobey Maguire, Daveed Diggs, Gemma Chan, Edward Norton, Matthew Rhys, Keri Russell, Sienna Miller, David Schwimmer, Judd Hirsch... Mas não se deixe enganar, ou melhor, não se deixe empolgar por nada do que foi dito acima, porque apesar de tudo isso, o resultado é maçante, insosso e interminavelmente verborrágico. O maior dos problemas de Extrapolations são suas abordagens. A série não é uma ficção científica de ação catastrófica com dimensões bíblicas de desastres e grandes momentos de destruição. Ela apenas usa as questões climáticas como motivação para os desdobramentos dos dramas dos personagens. E ao escolher “reduzir” o problema a pano de fundo de temas pessoais, religiosos e familiares a série perde boas oportunidades de impactar o espectador. Foto: Divulgação Em resumo faltou dinamismo e sobrou diálogos. E vale ressaltar também a má distribuição desses diálogos e dos demais pontos focais que dariam uma boa impressão aos episódios. São conversas desinteressantes, que dão importância – logo de início – a nomes e situações que o público desconhece. São personagens em excesso falando de inúmeros lugares em épocas diferentes. São problemas hipotéticos (porém possíveis) que se invalidam e se perdem em intermináveis e inconclusivas perguntas capitalistas de causa e consequência. A estética é um dos grandes paradoxos. Ao mesmo tempo em que a escolha de não imaginar um futuro cheio de neons, roupas plásticas, penteados bizarros e objetos dispensáveis é válida por aproximar com o que temos hoje por vida real, não torna o que foi desenvolvido menos brega ao ponto de fazer você se perguntar “porque diabos alguém transmitiria qualquer coisa no fundo de uma piscina?” O todo imprime artificialidade e não da maneira que se esperava. Não gosto muito da expressão “elenco desperdiçado” – afinal o elenco está muito bem e sustenta à duras penas a temporada – mas é decepcionante ver nomes de peso numa proposta promissora passarem tão despercebidos por conta de complicações desnecessárias no roteiro. Ainda é incerto se haverá uma segunda temporada, potencial existe, e se de fato houver urge a mudança de abordagem para que a série se imponha e mostre a que veio, porque perguntas vagas sobre o futuro da humanidade não preenchem muito bem 8 episódios de 50 minutos cada. Nota: 2/5
- Crítica | Schmigadoon! (2ª temporada)
Com grande elenco e mágica história, a nova temporada encanta ainda mais que a primeira Foto: Divulgação Musicais sempre foram polêmicos. Uma grande parte da população odeia o gênero pelo simples fato que os personagens cantam para melhor expressar seus sentimentos. Ao mesmo tempo temos uma pequena parte que é fascinada, assistem a todos os filmes e séries disponíveis, além de escutar álbuns (e assistir gravações ilegais) de peças que têm como seu maior elemento grandes números que ligam a história através de música e dança. Para essa parte da população que Cinco Paul criou Schmigadoon!, série que está estreando sua segunda temporada semanalmente no Apple TV+. Continuamos a acompanhar a história de Josh e Melissa, que depois de voltar para suas vidas mundanas em Nova Iorque, decidem tentar retornar para a mágica cidade de Schmigadoon, lugar colorido e encantador que engloba os musicais das décadas de 40 e 50. Para a surpresa dos protagonistas eles reencontram alguns rostos familiares na cidade de Schmicago, um local sombrio e misterioso que captura a essência dos musicais das décadas de 60 e 70, só que os antigos amigos não lembram do casal, além de terem uma personalidade totalmente diferente do que assistimos na primeira temporada. Foto: Divulgação Mais uma vez o ponto alto da produção são as inúmeras referências à dezenas diferentes peças teatrais, desde músicas inteiras baseadas em grandes números da Broadway, a coreografia, figurinos e pequenas piadas que enchem o coração do espectador que acompanha o mundo dos musicais de perto. A série também consegue evoluir estas referências, transformando-as em pontos narrativos importantes para a evolução da história e personagens, tudo baseado em musicais da época. Outra incrível realização são seus atores, principalmente os que interpretam personagens coadjuvantes. A segunda temporada adiciona Tituss Burgess ao elenco, interpretando um encantador narrador para a história. Também temos a volta dos fenomenais Alan Cumming, Kristen Chenoweth, Jane Krakowski e Aaron Tveit, apesar de quem realmente rouba a cena entre os coadjuvantes é Dove Cameron, que interpreta uma personagem baseada na clássica Sally Bowles de Cabaret. Keegan-Michael Key e Cecily Strong voltam como os seus personagens anti carismáticos, que deveriam entrar na lista de protagonistas mais irritantes da ficção. Infelizmente a participação da ganhadora do Oscar Ariana DeBose é reduzida nesta temporada devido a sua agenda, mas ela ainda consegue nos encantar quando aparece em cena. Foto: Divulgação Desde a primeira temporada era visível ao espectador mais atento que as histórias desenvolvidas na tela se baseiam dos estilos narrativos usados na década em que a cidade é baseada. Enquanto a primeira temporada somente focava nos protagonistas, a segunda deixou os coadjuvantes desenvolverem suas histórias, tornando a série mais agradável. Um ponto negativo em torno da narrativa é que a história principal é muito parecida com a da temporada anterior, parecendo que os personagens esqueceram tudo que evoluíram para aprender a mesma lição, felizmente a série acaba largando essa trama no meio da temporada, dando ainda mais espaço para os personagens secundários brilharem. Em quesito dos números musicais, é visível que muitas vezes devido ao grande elenco eles tentam enganar o espectador através de jogo de câmera para trazer um grande número de personagens aparecerem juntos, o que interfere nos dois grandes números da série, mas, mesmo assim conseguem trazer a essência de suas diferentes referências. O trabalho visual da série também tem que ser aclamado, com um incrível design de produção que consegue juntar o lado sombrio dos anos 60 , com os hippies da década de 70, sem fazer nada se destoar do tom. Schmigadoon! não vem para mudar a opinião daqueles que odeiam musicais. Pelo contrário, a série serve como uma espécie de Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa trazendo referências que fazem o espectador gritar, dançar e cantar com os novos episódios. Através de seus personagens coadjuvantes, e os incríveis atores que os interpretam, nos aproximamos mais ainda deste mágico mundo, que espero que continue evoluindo e nos traga muitas décadas de musicais para assistirmos. Nota: 3,5/5
- Crítica | Dungeons & Dragons: Honra Entre Rebeldes
Uma aventura descompromissada que honra o espírito de uma boa partida de RPG Foto: Divulgação Se você, como eu, é nerd confesso, então certamente já deve ter pelo menos ouvido falar de Dungeons & Dragons. Sendo o mais popular RPG do mundo, D&D é muito provavelmente a produção de fantasia mais relevante para o gênero, junto com O Senhor dos Anéis. Depois de tentativas malfadadas de adaptá-lo para o cinema (incluindo um filme com Jeremy Irons e Marlon Wayans que eu prefiro esquecer que existe), o jogo finalmente chama uma adaptação à sua altura. Embora não adapte uma obra específica do universo de D&D, Honra Entre Rebeldes consegue habilmente nos transportar para o sentimento de fazer parte deste universo, definindo uma clássica equipe de protagonistas: o bardo Edgin (Chris Pine), a bárbara Holga (Michelle Rodriguez), o feiticeiro Simon (Justice Smith) e a druida Doric (Sophia Lillis). A sinergia e química desse quarteto principal — que busca se vingar de um ex-parceiro, o ladino Forge (Hugh Grant), que os traiu e se aliou à uma maligna feiticeira (Daisy Head) — se mostra o coração e a alma do filme, já que não apenas somos levados numa missão que poderia ter saído diretamente de uma partida de RPG, mas também há espaço para a exploração e desenvolvimento de suas jornadas e dramas pessoais. Ao construir as diversas etapas desta missão, Honra Entre Rebeldes se revela uma obra dinâmica, mesmo na sua duração relativamente maior do que precisava. Cada setpiece, cada ambientação e pedaço deste mundo apresentado não são apenas deleites para os fãs de D&D, mas apresentam uma razão de ser, construindo e intensificando um senso de aventura constante que permeia toda a obra. Em particular, toda a sequência em um mundo subterrâneo, o Underdark, e o clímax na arena (este com direito a uma participação super especial) são os dois momentos nos quais o filme mais brilha, especialmente pela dinâmica do quarteto principal. No caso do Underdark, o filme cresce também pela presença de Regé-Jean Page como o paladino Xenk Yendar, com o ator roubando tanto a cena pela seriedade e gravidade que traz (e que contrapõe brilhantemente com os demais personagens) que é um pecado que sua participação seja tão curta. Foto: Divulgação Aliás, esse equilíbrio entre o humor e a seriedade é tanto uma força quanto uma fraqueza do filme. Levando em conta A Noite do Jogo, a produção anterior dos diretores Jonathan Goldstein e John Francis Daley, bem como a própria campanha de divulgação, eu esperava encontrar uma obra mais humorada e engraçada, mas há um tom surpreendentemente sério em determinados momentos (embora nunca demais). Parece até estranho pedir por mais humor para um blockbuster, sendo que já somos soterrados pelas piadas ruins dos filmes da Marvel, mas qualquer um que tenha assistido A Noite do Jogo sabe das habilidades de Goldstein e Daley para um timing cômico único e certeiro (e não é à toa este filme é uma das minhas comédias favoritas da década passada). Esse timing cômico é presente aqui — a sequência no cemitério é o ápice disso —, mas aquém do que a dupla pode entregar, sendo preterido em favor do já referido senso de aventura. Pode ser uma boa notícia para muitos, mas acaba tornando o filme um tanto “plano”, investido numa nota só do início ao fim — embora seja uma boa nota. Mesmo que não chegue a cumprir o que prometeu (e peque em alguns elementos como os efeitos visuais em algumas sequências), Dungeons & Dragons: Honra Entre Rebeldes é uma obra leve, descompromissada e que resgata uma certa ingenuidade que dificilmente se encontra na fantasia contemporânea, após o sucesso de obras mais adultas como Game of Thrones. Para os não-fãs de D&D, é um frescor num cenário onde a “fórmula Marvel” dá cada vez mais indícios de se esgotar. Para os fãs, é como ver aquela partida nostálgica e divertida de RPG que você jogou com seus amigos ganhar vida nas telonas, ainda que aqui e ali pudesse ser mais memorável. Nota: 3,5/5
- Crítica | Enxame (1ª temporada)
Uma série que vai além de uma sátira da realidade Foto: Divulgação A que ponto você iria por um artista que você é fã? Esta é a grande pergunta que Enxame, um dos lançamentos recentes do Prime Video faz ao espectador durante os episódios do seriado. Com grande inspiração da cultura dos fandoms, uma nova perspectiva a idolatria a cantores e famosos é estabelecida na trama. Idealizada por Donald Glover e Janina Nabers (Atlanta), a trama acompanha Dre, uma das grandes fãs da cantora Ni’Jah. Ela mantém nas redes sociais um fã-clube denominado "O Enxame", onde compartilha vídeos e fotos da artista. Sua obsessão pela cantora chega a um nível preocupante quando um fato entre Dre e sua irmã, Marissa (Chloe Bailey) acontece, escalonando a trama a um nível inesperado. Esta obra é obviamente inspirada na carreira da cantora Beyoncé e no impacto que teve em seus fãs, já que ela é a maior cantora viva atualmente e representa muito a cultura negra. Como em qualquer fandom, existem pessoas que exageram ou que necessitam de uma atenção maior e encontram em seus ídolos aquilo que não tem por quem está ao seu redor. Foto: Divulgação Mas Enxame vai muito além do que ser uma sátira. Ela mergulha em questões profundas, principalmente sobre saúde mental e a toxidade das redes sociais de uma forma que poucas séries conseguem. Ela nos faz pensar em como tudo aquilo que é dito on-line pode atingir alguém, mesmo que seja postado sem um objetivo em mente. Dominique Fishback é, definitivamente, um nome a ficar atento para o Emmy 2023. Durante os sete episódios da série, a atriz nos leva em seus altos e baixos tornando Dre mais complexa do que podemos imaginar. A série não seria a mesma sem o seu talento e sua devoção a personagem. Ao mesmo tempo que torcemos para ela, somos contra algumas atitudes, e isso faz com que o espectador até se questione. Durante o trajeto da temporada, algumas histórias que foram abertas são resolvidas de forma rápida e superficial, tornando a experiência um pouco decepcionante do que poderia ser, mas ainda assim não compromete o desfecho da trama. E este desfecho, que é bastante subjetivo por sinal, abre portas para amplas discussões. Enxame é o tipo de série que prende o espectador, mesmo em momentos que tenha dificuldade de desenvolver sua trama. É a combinação perfeita de thriller, terror e comédia. Traz um grande olhar sobre a cultura pop e como ela impacta nossa sociedade, sem precisar se justificar ou julgar por isso. E sempre nos leva a mesma pergunta: A que ponto você iria por um artista que você é fã? Nota: 4/5
- Crítica | Air: A História Por Trás Do Logo
Novo longa de Ben Affleck brilha com ótimo elenco e execução carismática Foto: Divulgação Nenhuma alma viva consegue dizer não à febre dos anos 80. É aquela atmosfera que apela para a criança interior; a emoção, o suor, os fliperamas, as roupas legais, a boa música... Junte tudo isto ao fictício e extremamente atrativo american dream e pronto: está aí um excelente pano de fundo para construir qualquer tipo de filme. É meio caminho andado pra acertar. Nestes termos, é certo que o descontraído Air: A História Por Trás Do Logo, de Ben Affleck, garanta seus 50% de acertos já nos minutos iniciais do filme. Utilizando do célebre 1984, de George Orwell, para situar a temporalidade do filme, temos Jason Bateman (num shaggy hair que talvez ele devesse adotar por uns tempos, mas essa é só a minha opinião) como o realíssimo Rob Strasser, à época responsável pelo marketing da Nike, numa reunião com outros desestimulados executivos da empresa, já que ela amargava o terceiro lugar com 17% no mercado de basquete totalmente dominado pela Converse e Adidas, respectivamente. O forte da norte-americana eram os esportes olímpicos (a ex-atleta Caitlyn Jenner é citada como uma espécie de outdoor da marca), com tênis e trajes de corrida. A Nike não era a primeira escolha dos atletas de basquete. Ou a segunda. Ou a terceira. E o 13º trabalho de Hércules que no longa é Sonny Vaccaro, personagem que Matt Damon interpreta com uma facilidade que dá gosto, que é um tipo de “olheiro”, é garantir que alguns jovens de times de basquete, ainda no ensino médio, criem vínculos com a marca, ganhando um par de tênis da Nike. Hoje em dia é impensável não associar o swoosh (o nome daquele sinal característico que era pra ser um som) à cultura do basquete, do hip-hop, da cultura negra estadunidense em geral, mas em 1984 a divisão de basquete precisava de um milagre. Um não, alguns. Num momento de epifania, Sonny enxerga longe e vê que a salvação da companhia estaria nos pés do ainda rookie, mas já disputado pelas gigantes do ramo, Michael Jordan. O primeiro milagre seria fazê-lo querer usar um tênis da Nike, já que o jovem parecia ter horror à marca, que não tinha o drip. A escolha interessante do filme de não mostrar o rosto do jovem Jordan, e utilizar um dublê em cena, atrai a atenção ao invés de desviá-la. É o lendário Michael Jordan, quem não o conhece? E se, por acaso, houver alguém que entre à sala do cinema sem o conhecer, assim que sair, terá vontade de pesquisar sobre ele imediatamente. O rosto que não vemos está ali mais presente do que se de fato estivéssemos enxergando-o, de frente. Foto: Divulgação O outro milagre convencer o excêntrico coach bilionário budista-clichê e levemente ególatra Phil Knight, que Ben Affleck interpreta alternando entre a face emotiva e relacionável, e a face sarcástica e borderline impiedosa, com direito às perucas esquisitas, os óculos extravagantes, e os conjuntos nada esteticamente agradáveis, a liberar a verba que seria destinada ao patrocínio de pelo menos três jogadores para apenas um — e este um em questão que mudaria, e mudou a história da empresa. Assistir à progressão do tiro no escuro dado por Sonny, que apostou tudo (incluindo o emprego e a posição dos outros colegas) é um trajeto levemente (levemente mesmo) aflitivo, ainda que se saiba o final da história. O que torna o trajeto divertido são as atuações de Chris Tucker, em seu bom retorno à indústria após sete anos, como Howard White, que hoje é Vice-Presidente da marca Jordan na Nike. Ele é naturalmente engraçado, com um tipo de humor diferente do que o personagem de Ben Affleck explora. Enquanto Phil (Ben Affleck) desperta vergonha alheia, Howard (Chris Tucker) traz o tom da cena, seja ela inclinada à emoção - como na cena do telefonema - ou para momentos de descontração - na reunião com a família Jordan. Se os 50% de acertos são pela ambientação, os outros 50% estão garantidos com o elenco, e deixe-me dizer, eu sei que Matt Damon é o protagonista deste filme, e ele está confortável e leve como o afetuoso, solitário e leal Sonny, mas Chris Messina e Viola Davis são dois motivos suficientes para continuar caso nenhum dos outros que eu citei sejam suficientes para segurar sua atenção. O desbocado, ganancioso, visionário e extremamente charmoso (é, eu sei) Chris Messina apresentou o famoso, que por mim até então era desconhecido, agente esportivo David Falk da melhor forma possível. E eu nem sei como ele é, mas acredito definitivamente que ele é assim. O cara rouba a cena e as interações por telefone (!) com Sonny (Damon) têm uma química incrível e vão arrancar boas risadas. Já Viola Davis é a Viola Davis e mostra porquê. Em entrevista, a atriz confidenciou o desafio de interpretar Deloris Jordan, a mãe e “mulher que orquestrou a carreira do grande atleta”, em partes pela responsabilidade e pela diferença no temperamento dela e de Deloris: ela tende a ser mais explosiva, já a mãe do astro é mais comedida. Mas, as grandes atrizes provam porque são grandes em papéis que parecem mais simples aos olhos do grande público. Com um tom contido que lhe é natural e um cuidado e força imponentes à uma mãe de um jovem negro em ascenção nos Estados Unidos, ela desempenha com beleza e maestria seu papel — que foi exigência de Michael Jordan para a realização do filme. Uma cena marcante é quando ela diz, neste tom de cuidado e convicção, a frase que encapsula a essência do filme: “a shoe is just a shoe until my son steps into it”. Foto: Divulgação Outro destaque em atuação é Matthew Maher (de Our Flag Means Death, Hello Tomorrow) como Peter Moore, o idealizador gráfico e mente por detrás do Air Jordan 1 e da clássica imagem que está presente em toda a linha Jordan. A idealização, confecção, até a apresentação do tênis aos Jordan são sequências interessantes pelas contextualizações. Em um desses momentos durante o processo, ficamos sabendo que, na época, a NBA exigia das marcas que os tênis utilizados na quadra tivessem a predominância da cor branca medida por uma porcentagem específica: 51%, e qualquer que fosse a desobediência, a marca pagava uma multa diária de 5000 dólares. O Air Jordan 1 nasce “transgressor” por ter as cores do Bulls, time de Jordan, e por não respeitar o decreto da NBA. Os ‘pep talks’, aqueles discursos motivacionais, estão por aqui e por ali, mas isto não incomoda. O longa caminha bem, é carismático, e é a direção que conduz de modo satisfatório sem apelar. Uma bela cena, num formato que lembra o mockumentary, mescla o ar de descontração, realidade e apelo emocional numa conversa franca entre George Raveling, personagem interpretado por Marlon Wayans e Sonny Vaccaro. Até para os céticos ou desacreditados de Ben Affleck como diretor, este é um filme para carimbar a cadeira dele no hall da direção, quer alguns queiram, quer outros não. Air: A História Por Trás Do Logo é um universo de referências para os admiradores das marcas, para os fãs de basquete, para os viciados na 80’s fever, ou para quem quer passar um tempo legal e ver boas atuações na telona. Inesperado como inspirar-se no comentário de um assassino à beira da execução para cunhar o lema da empresa (just do it), Air é uma ótima surpresa. Como se diz aqui em Salvador, Ben Affleck acertou grandão, sem medo. Nota: 4/5












