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  • Análise | The Last Of Us 1x08 ("When we are in need")

    Cada vez mais os infectados são adereços. E isso é bom. Foto: Divulgação Semana após semana, The Last of Us vem provando que não é a série de “zumbi” (que a equipe da série não me veja escrevendo isso, já que eles mesmos proibíram o uso da “palavra com z”, apenas usando o termo “infectado” para os mortos-vivos que aparecem na série) que o público, especialmente o que acompanha a narrativa desde os games, esperava. Essas criaturas, outrora humanas e hoje dominadas por um fungo parasita altamente contagioso, aparecem vez ou outra para dar um toque de ação e lembrar o porquê daquele contexto pós-apocalíptico, mas não fazem muito mais que isso. E há de se entender, em partes, a fúria de alguns fãs: os infectados são, sim, elementos bastante interessantes e ainda há muito que se revelar sobre eles (há emoções e raciocínio humano por trás de todo aquele cogumelo? quais os tipos de infectados e como eles se dividem?). Mas The Last of Us não é uma série de zumbi. Os oito episódios até aqui exibidos não deixam dúvidas de que estamos assistindo uma história sobre conexões humanas nas condições menos humanas possíveis, sobre a dualidade entre dois instintos tão inerentes: o de sobrevivência e o de empatia. Tanto que um recurso recorrente tem sido a apresentação de personagens queridos que morrem no mesmo arco narrativo, senão no mesmo episódio: Sarah, Marlene, Tess, Bill, Frank, Henry e Sam. No oitavo episódio, penúltimo da temporada, esse padrão muda. Somos introduzidos à cidade de Silverlake, povoada por uma comunidade em extrema vulnerabilidade, liderada pelo extremista religioso David (Scott Shepherd). Apesar de todos na cidade confiarem nele, sabemos desde o início que há algo de errado em sua personalidade. Quem também sente tal desconfiança é Ellie (Bella Ramser), que, ao sair para caçar um veado enquanto tenta cuidar e prover para um Joel (Pedro Pascal) ainda extremamente ferido, encontra David e James (Troy Baker), um de seus subordinados. Tentando impor mais segurança que sua imagem de menina consegue sustentar, Ellie ameaça os dois homens, que, por sua vez, tentam lhe vender a promessa de acolhimento em Silverlake. Um acordo é feito quando, em troca de metade do veado e de deixá-los vivos, Ellie aceita remédios para tratar a infecção de Joel. Mas a sagacidade de uma pré-adolescente que cresceu num mundo apocalíptico só vai até certo grau, jamais sendo superada pela de um homem que ganhou a vida manipulando outros. Ao lhe ser revelado que ela e o amigo são suspeitos de matar um membro da comunidade, Ellie se dá conta que está numa emboscada e consegue fugir com os remédios, que aplica em Joel quando retorna. Retornando para a uma comunidade que, suspeitamente, agora possui alimento – coisa escassa algumas cenas atrás, David é questionado por James sobre suas decisões e intenções com a menina. Em reunião com a comunidade, tenta explicar sua misericórdia quase divina, ao mesmo tempo que perde o controle e agride uma de suas fiéis, filha da vítima, que clama por vingança. As pulgas atrás da orelha das primeiras cenas começam a se justificar, e membros de Silverlake partem em busca da redenção de Ellie e da cabeça de Joel. Percebendo que a ameaça se aproxima, Ellie protege um Joel ainda debilitado e parte para distrair seus atacantes, sendo logo capturada por eles. Ela acorda numa cela, com David à sua espera. Ao perceber um pedaço de orelha humana no chão, Ellie e nós entendemos, enfim, como aquela população vinha se alimentando diante de tamanha escassez. Se antes amedrontada, Ellie agora está também enojada e rejeita as investidas do homem, agredindo-o e esgotando toda piedade que ele fingia ter por ela. O embate entre os dois desemboca numa perseguição silenciosa no local de concentração de Silverlake, que é tomado por chamas. É uma sequência tão tensa quanto excelente, desembocando numa tentativa de estupro e no assassinato de David por uma Ellie descontrolada de medo, que enfim consegue liberar todo ódio e violência que vinha guardando desde o primeiro episódio. Joel, que juntou toda a pouca energia que tinha para procurar sua protegida, a encontra fugindo do pesadelo que acabou de viver. Desorientada e avessa ao toque, Ellie se debate contra Joel, que, confuso, a conforta, chamando-a de “baby girl”. Não acho que esse seja o melhor episódio de TLOU (afinal, nessa mesma disputa tem "Long, Long Time", talvez um dos melhores episódios de série do ano), mas considero o mais importante. É como se tudo que assistimos até aqui fosse um aquecimento para mostrar o potencial de amor entre duas pessoas extremamente machucadas, e esse episódio viesse para justificar Joel finalmente se despindo das armaduras emocionais e Ellie se deixando ser vulnerável e abraçada. Ao meu ver, o título do episódio, “When we are in need”, confirma essa suspeita. Destaque necessário para Bella Ramsey, que carrega a narrativa pelo segundo episódio seguido e não deixa nada a desejar. Sua personagem exige timing cômico, um olhar sombrio e machucado e, nesse episódio, um senso de terror. Três facetas dificílimas de serem alcançadas até mesmo isoladamente. Muito tem se falado sobre Pedro Pascal, mas há de se reconhecer, também, que sem Bella, dificilmente a série nos tocaria tanto. Como falei lá em cima, The Last of Us nos fala de conexões. Na série, os maiores riscos são os seres humanos – mas também é só pelos seres humanos que vale a pena lutar. É preciso personagens complexos, profundos, vivos e com vontade de viver para que essa história seja contada. Infelizmente, os infectados não preenchem esses requisitos.

  • Crítica | Vulcões - A Tragédia de Katia e Maurice Krafft

    Quando o cinema nos permite imergir nas possibilidades do amor (e da obsessão) Foto: Divulgação Toda vez que me ponho a pensar na vastidão do universo, sinto uma pontada de melancolia me dominar. Independentemente de sua fé ou crença (se é que tenha uma), há um certo peso esmagador quando nos enxergamos como o que realmente somos dentro da infinitude do cosmos — minúsculos e até insignificantes. Nem precisamos ir tão longe: basta olharmos para a Terra e a natureza, suas forças impiedosas e alheias a nós, humanos, conforme exercem seus poderes de destruição e criação. Poucas forças da natureza representam tanto essa capacidade e dualidade quanto vulcões, e é nessa convicção que Vulcões: A Tragédia de Katia e Maurice Krafft se sustenta, usando a história de vida (e morte) do casal de vulcanólogos franceses Katia e Maurice Krafft. Apesar do subtítulo em português enfocar a tragédia (o casal morreu durante a erupção do Monte Ouzen, no Japão, em 1991), o documentário é tudo, menos trágico. Sim, o poder destrutivo dos vulcões observados e visitados pelos Krafft está sempre presente, mas mais do que isso, o filme está interessado em nos mostrar o que os atraiu tanto nesses vulcões, de forma que nos sintamos atraídos também. Para isso, a diretora Sara Dosa se vale das próprias imagens de arquivo do casal, que gravavam ostensivamente suas expedições aos vulcões em erupção. Esses materiais, aliados aos diversos registros de entrevistas dadas por eles (em especial Maurice) durante os anos 1960 e 1990 e as leituras dos diários de Katia, permite que adentremos as vidas particulares e profissionais de ambos, como se eles mesmos fizessem esse convite do pós vida para os conhecermos melhor e entendermos (e vivenciarmos) a obsessão que os guiava. Foto: Divulgação As intenções de Dosa são claras: usar a história de amor dos Krafft para entrelaçá-la com o amor de ambos pelos vulcões. Mas sua abordagem passa longe de ser chapa-branca: uma vez que temos acesso direto ao que Katia e Maurice gravaram, é fácil entender o que os uniu em primeiro lugar e os manteve juntos mesmo com suas nítidas diferenças até o último dia de vida dos dois. É inevitável pensar em diversos momentos do documentário: “eles são loucos”, e ao mesmo tempo... é fácil entender porque eles foram atraídos por algo tão comum. Mesmo nos instantes mais trágicos — erupções no Congo, nos EUA, na Colômbia e a no Japão que ceifou suas vidas —, há uma beleza magnética e desafiadora em imagens de montanhas cuspindo fogo e gases, em rios de lava que trazem destruição e lava, nos atraindo na medida em que nos assombra. Se há um porém aqui, é na escolha da narração em off. Não só porque a maioria dos materiais de arquivo falam por si só (e em diversos momentos Dosa entende isso, dando voz a Katia e Maurice e a eles apenas), mas porque o tom monocórdico adotado por Miranda July, ao mesmo tempo em que consegue fugir dos chavões de documentários sobre natureza, também parece deslocado, incoerente com o tom que o próprio longa adota. Depois de um tempo é até possível se acostumar com esse modelo de narração, mas acaba sendo o calcanhar de Aquiles da obra. A despeito dessa estranha escolha, contudo, Vulcões: A Tragédia de Katia e Maurice Krafft consegue com maestria nos por na pele de Katia e Maurice, entender esse amor tão obsessivo por vulcões e partilhar desse amor por pouco mais de 1 hora e meia. Uma das mágicas do cinema é nos permitir empatizar e viver sentimentos e conexões que de forma alguma vivenciaríamos na vida real. Nesse aspecto, portanto, Vulcões: A Tragédia de Katia e Maurice Krafft é mais do que bem-sucedido, mesmo que jamais passemos perto de um vulcão.´ Nota: 4,5/5

  • Crítica | Império da Luz

    Um filme que tenta ser várias coisas e falha em quase todas elas Foto: Divulgação Na esteira de longas autobiográficos e/ou descritos como “cartas de amor ao cinema” (um termo que cada vez menos me soa um elogio), Império da Luz traz um Sam Mendes se rendendo à nostalgia, evocando o início turbulento dos anos 1980 na Inglaterra para interconectar uma série de temas: um estudo de personagem da protagonista vivida por Olivia Colman, as tensões raciais do período e uma ode ao poder transformador do cinema. Colman dá vida a Hilary Small, a gerente de um cinema decadente, o Empire, localizado numa cidade costeira. Pelos primeiros 15 minutos somos apresentados à deprimente vida de Hilary: ela esteve internada em um hospital psiquiátrico, está tomando remédios para controlar as oscilações de humor, tem um caso com seu chefe e, mesmo trabalhando num cinema, não vê os filmes exibidos. Tudo muda quando ela conhece o novo funcionário, Stephen (Micheal Ward), um filho de imigrantes negros caribenhos, e o romance aflora entre os dois, embora ameaçado pelas instabilidades emocionais de Hilary e a tensão racial que afeta duramente o rapaz. Norteado inicialmente pelo drama romântico do casal, Império da Luz não demora a tentar ser outras coisas, conforme mostrado no parágrafo inicial. Mas o roteiro, assinado pelo próprio Mendes, logo revela suas vulnerabilidades, como se ele tentasse equilibrar várias bolas no ar e deixasse quase todas cair no chão. A premissa sugere a tal “carta de amor ao cinema”, o que é amplificado pela locação, magistralmente trabalhada pela direção de arte para retratar tanto a opulência quanto a decadência do Empire, bem como pela fotografia do sempre brilhante Roger Deakins (embora sua abordagem mais estilizada pareça fora de lugar aqui). Entretanto, o filme está sempre se recusando a mostrar os filmes em exibição, mesmo os mencionando aos montes, o que soa uma decisão no mínimo incoerente. Embora seja apresentada a justificativa de que a protagonista não assiste esses filmes, logo fica claro que é uma desculpa rasa para forçar uma certa catarse que vem no último ato (a qual não pude deixar de associar com a controversa cena final de Babylon, esta muito mais coesa com o filme em questão). Foto: Divulgação Aliás, “raso” é um adjetivo pertinente para o filme, o que é esperado dada a quantidade de temas que quer abordar sem nunca se aprofundar de fato neles. A abordagem do racismo é simplesmente desastrosa: tal qual Green Book, a escolha de tratá-lo pela ótica da personagem branca, tratando-a como ingênua e ignorante a respeito dos males do preconceito — enquanto trata o personagem negro mais como um totem do que como uma pessoa de verdade em alguns momentos — se revela uma decisão covarde de um homem branco e privilegiado, que parece ter descoberto apenas recentemente que é branco e privilegiado. Da mesma forma, há algum interesse em trazer também uma discussão sobre desigualdade de gênero, mas esta fica limitada a frases vociferadas pela personagem de Colman e pelo antagonista medíocre vivido por Colin Firth, sem nunca ir além disso. É nítido que o viés habitualmente estilizado de Mendes trabalha contra sua própria obra, revelando uma abordagem higienizada e embelezadora dos temas que se propõe a discutir. A única razão pela qual o filme não chega a ser um desastre completo é a força das atuações de Colman e Ward. Ela é uma das melhores atrizes de sua geração, e consegue fazer o que o roteiro é incapaz de dizer, incorporando as diversas facetas da sua personagem desequilibrada e trágica. Seus momentos explosivos e desvairados poderiam soar como caricaturais e forçados na mão de atrizes menos talentosas, mas nas mãos dela soam poderosamente naturais e críveis. Já Ward traz uma performance mais contida, mas que consegue se elevar para além do papel de totem que lhe é imposto pelo roteiro. Ainda assim, se é para vê-lo como um imigrante afro-caribenho fã de reggae na Inglaterra dos anos 1980, recomendo assisti-lo em Lovers Rock, de Steve McQueen, um filme que faz muito mais jus ao seu talento e carisma do que este aqui. Na safra de filmes feitos para premiações (os famosos “Oscar baits”), Império da Luz é um dos mais dolorosamente óbvios que vi em muito tempo. Em tese, tem muito ao seu favor — um diretor, equipe de produção e elenco oscarizados, além de temas que demonstram ser relevantes e a tal capacidade “metacinematográfica” que é irresistível a Hollywood. Mas, embora Colman e Ward brilhem e deem seu melhor, eles não podem fazer o filme ser mais do que é: uma obra rasa, ingênua e malconduzida, que na tentativa de dizer algo sobre vários assuntos pertinentes acaba dizendo pouco ou quase nada além do que saibamos e que já não tenhamos visto em obras melhores. É um filme cheio de boas intenções, mas parafraseando o velho ditado: de boas intenções as premiações estão cheias. Nota: 2/5

  • Crítica | Marcel The Shell With Shoes On

    Um abraço apertado que deixa o coração quentinho Foto: Divulgação É triste perceber que poucas pessoas assistiram e tiveram o prazer de ter contato com Marcel the Shell With Shoes On, tranquilamente um dos melhores filmes do ano passado. A pouca divulgação e distribuição não contribuíram para o seu melhor alcance, já que o longa não chegou às salas de cinema no Brasil e não houve qualquer previsão para sua estreia em plataformas de streaming por aqui. Felizmente, o longa foi merecidamente indicado e reconhecido em algumas premiações - entre elas o Oscar - pela excelente e majestosa animação que é, além do magnífico trabalho na sua produção, o que elevará sua visibilidade e dará a novos espectadores a chance de conhecer essa linda história. Aqui acompanhamos a rotina de Marcel, uma adorável concha que usa pequenos sapatos e leva uma vida agradável com sua avó Connie. Os dois protagonistas são criaturas que antes faziam parte de uma grande comunidade de conchas e agora vivem sozinhos, pois foram vítimas de uma desconhecida tragédia que deixou somente os dois como únicos sobreviventes. A vida de Marcel muda quando um documentarista o encontra no meio da bagunça de seu Airbnb e resolve postar na internet pequenos vídeos curtos sobre a rotina da pequena concha. O que antes começou com curtas sem propósitos, logo atinge enormes proporções e fazem de Marcel um sucesso nacional e uma celebridade amada por muitos fãs. Assim, com a visibilidade alcançada e os recursos que possuí, Marcel enxerga ali a possibilidade de reencontrar sua família há muito tempo perdida. Acompanhar o dia a dia de uma concha usando tênis é uma ideia que eu nunca imaginei para um filme, e pode até ter sido justamente por isso e pelo fato de não saber absolutamente nada pelo que esperar que ele foi capaz de me tocar e me fazer chorar tanto. Sinto que o cuidado que a equipe teve com esse longa transparece e fica notório em cada frame, que parecem sair da tela para encontrar e se conectar com o telespectador. A impressão que fica é que os envolvidos no projeto são seres humanos talentosos, cheios de coração e com uma linda mensagem para passar. Foto: Divulgação Por ser um longa independente, em stop-motion, com baixo orçamento e que teve uma produção que durou aproximadamente sete anos, a originalidade e criatividade extravasam e tomam conta, mas não são a única fonte de riqueza do filme. A mensagem passada é mais um troféu em meio a tudo que é construído e entregue ao telespectador. Desde perseverança, otimismo inabalável, inocência, fragilidade, e até coragem; tudo em tela é capaz de te fazer enxergar a magia das pequenas coisas e te deixar com o olhar atento para o que está ao nosso redor. E mesmo sendo relativamente curto, com 1h30min de duração, tem muita bagagem e muita coisa importante para contar. O diretor e roteirista Dean Fleischer Camp precisa ser exaltado e reconhecido por esse trabalho esplendoroso e pelo espetáculo que é essa obra. Foi criado aqui uma excelente e harmoniosa combinação entre animação em stop-motion, efeitos especiais e live action, bem como um texto que navega entre temas como amizade e companheirismo à formas de lidar com traumas e luto. Além do incrível trabalho do diretor, outra pessoa merecedora de crédito e exaltação é a atriz Jenny Slate que também assina o roteiro - juntamente com Fleischer e Nick Paley - dubla e é a responsável por dar vida à concha protagonista. A atriz consegue ao mesmo tempo mostrar tanto a fragilidade quanto a bravura de Marcel através de seu tom de voz que sem dúvidas foi um dos pontos altos do longa para mim. Por fim, Marcel the Shell With Shoes On é um comfort movie adorável, brilhante e repleto de criatividade que consegue ser fofo, mas nunca bobo, e que conta com um protagonista incrivelmente irresistível. Capaz de ser original ao mesmo tempo que é simples, mas com uma simplicidade que se eleva e se transforma em algo mais, pois transborda todo o amor envolvido nessa produção. Incrível como a cada segundo que passava e a cada cena de crescimento, amadurecimento e aprendizagem vivenciada por Marcel um sentimento tomava conta de mim e eu me encantava ainda mais por aquilo que estava assistindo. Sem dúvida alguma é um dos filmes mais originais que assisti nos últimos anos, com uma linda lição de vida e de amor que ficou comigo por bastante tempo. Nota: 5/5

  • Crítica | Entre Mulheres

    As mulheres conversam e finalmente, nós as escutamos Foto: Divulgação Por um tempo indeterminado, as mulheres de uma comunidade religiosa isolada foram drogadas com tranquilizante para vacas e estupradas regularmente durante o sono. Ao fazer denúncias para seus líderes, elas eram informadas de que estavam sendo violentadas por fantasmas, demônios, sendo punidas por erros que cometeram enquanto estavam acordadas. E elas acreditaram nessa mentira até que duas meninas conseguiram ver um dos estupradores fugindo após o ato. Alguns dos homens foram presos e os que não foram foram à cidade para pagar a fiança. As mulheres da colônia, sem supervisão por um curto período de tempo, têm cerca de 48 horas para decidir como será seu futuro. A história, adaptada de um livro homônimo de Miriam Toews, que por sua vez baseou sua escrita no caso real ocorrido na Colônia de Manitoba, na Bolívia, é dura. E o longa consegue ter sucesso sendo exatamente o que seu nome apresenta: Mulheres conversando. Em um filme sobre empatia, raiva e perdão, a diretora Sarah Polley tem um cuidado que raramente vemos em diretores masculinos, fugir da facilidade que seria retratar uma cena de estupro para causar impacto e então se abster de dramatizar qualquer violência, optando por apresentar as consequências internas em cada mulher e na comunidade em geral ao invés do terrível incidente. Essa delicadeza, apresentada através do debate entre as mulheres escolhidas para representar a comunidade, é o ponto mais forte do filme. Com uma dinâmica quase que teatral, Entre Mulheres traz uma rotação de fortes atrizes para o debate - Claire Foy, Jessie Buckley, Rooney Mara, Michelle McLeod, Judith Ivey e Sheila McCarthy entregam performances intensas e conseguem representar bem um roteiro impactante ao discutir se devem fugir ou ficar e lutar contra os homens da colônia. Com cada uma trazendo seus pontos de vista, o longa mostra com sutileza como o luto e o trauma se formam e enraízam de formas diferentes em cada uma, como a tristeza pode se transformar em ódio ou cansaço ou até em perdão, e como não podemos vilanizar nenhuma das personagens por terem seus pontos de vista, porque afinal, e digo isso como uma mulher “do mundo real”, estamos todas cansadas de precisar lutar por direitos que nunca deveriam ser questionados. Foto: Divulgação Algumas ferramentas utilizadas para criar o clima do filme são as incríveis trilha sonora, produzida pela já vencedora de um Oscar Hildur Guðnadóttir, e os figurinos, que apesar de simples conseguem mostrar com sucesso o contraste existente entre a situação vivida pelas mulheres da colônia e o ano em que elas estavam. Esteticamente, o filme traz uma paleta de cores sóbrias que busca transmitir esse sentimento de tristeza e escuridão. Porém que resulta em tudo ser um pouco visualmente desagradável, sendo até um dos fatores que podem tornar o filme “chato” para algumas pessoas. Outro ponto que me desagrada é, ironicamente, o único personagem masculino presente no debate. August (Ben Whishaw) é um ex-colono que voltou depois de ir para faculdade para ensinar na escola da comunidade. Por ser amigo de Ona (Rooney Mara) ele é escolhido para acompanhar a reunião e auxiliar escrevendo tudo que fosse necessário, afinal as mulheres não sabem ler ou escrever. August não me incomoda por inteiro, apenas essa sensação de “mas nem todo homem é ruim” e “desculpa por ser homem” que o personagem pode passar em alguns momentos, afinal, nós sabemos que nem todos os homens são ruins, mas quando estamos falando de uma comunidade inteira de mulheres sendo drogadas e estupradas desde seus 4 anos de idade, qual a necessidade de debater esse fator? Por fim, Entre Mulheres tem seus defeitos, mas os supera sendo um filme honesto e cru sobre a cura, e isso é o que encanta. Não precisamos ver o mal acontecendo ou seus feitores sendo julgados, ver um grupo de mulheres que sequer sabiam o que era o abuso tomando partido de suas vidas é o suficiente. Afinal, ser mulher ainda requer continuar em movimento quando você está tão cansada, fraca e machucada. Que possamos continuar falando até que isso mude. Nota: 4/5

  • Crítica | To Leslie

    Uma válida história de redenção, mas que não diz muito mais do que já sabíamos Foto: Divulgação Seis anos após ganhar na loteria, Leslie (Andrea Riseborough), uma mãe solo de um pequena cidade no interior do Texas, acaba perdendo tudo para o alcoolismo. Leslie havia abandonado todos, inclusive seu filho adolescente, a quem recorre inicialmente quando foi expulsa do lugar onde vivia. James (Owen Teague), agora um homem, tenta ajuda-la, mas as constantes recaídas de sua mãe acabam desapontando o rapaz e fazendo Leslie voltar para sua cidade natal e confrontar seu passado. Baseado em fatos verídicos, o filme ganhou maior notoriedade por causa da polêmica envolvendo a campanha de indicação de Riseborough ao Oscar de Melhor Atriz, porque provavelmente sem isso ele não chamaria muita atenção. Não que seja ruim, longe disso, mas não consegue se sobressair entre tantos outros que tratam do mesmo tema. Seu trunfo maior está, de fato, na performance magnética de Riseborough. Ela consegue nos fazer navegar por um mar de sentimentos em relação a sua personagem, uma mulher maltratada pela vida, mas que maltratou tantas pessoas que passaram pela sua. Ela nos faz sentir raiva, decepção e finalmente empatia, no seu árduo processo de sobriedade. Leslie ganhou 190.000 dólares, perdeu o dinheiro e ela mesma pelo caminho. Leslie volta à cidade quando seu filho a expulsa e ele busca antigos amigos dela para ajudá-la. É ai que entram Allison Janney e Stephen Root, dois ótimos atores com potenciais desperdiçados. Root é Dutch, que está mais propenso a dar uma nova chance a Leslie, já Janney é Nancy, que faz o papel da amiga magoada e que joga verdades na cara de Leslie sempre que possível. É como se a personagem tivesse uma nota só e apenas no final ela demonstrasse um pouco mais de complexidade. É um filme sobre Leslie, claro, mas isso não é significa que os outros personagens não devam ser trabalhados. Foto: Divulgação O roteiro, ainda que percorra por todos os caminhos já esperados, nos escancara essa mulher tão cheia de falhas, que cometeu tantos erros e paga um preço alto por eles. Não fui atrás da história em que é baseado, porque queria me ater ao que vi em tela. O longa muda um pouco de tom quando surge Sweeney (Marc Maron), um gerente de um hotel de beira de estrada que quer ajudar Leslie ainda que ela não queira ser ajudada. É um tipo comum em filmes assim, pois são motores que levam a protagonista a chegar onde o roteiro almeja: a redenção. Na primeira metade do longa, em que Leslie vai cometendo sua sucessão de erros, há um pouco do fator surpresa, mas a medida que vai se desenrolando, é como se eu soubesse o que aconteceria a cada nova cena. Sweeney surge como um farol para uma mulher completamente perdida e dali é que se pode haver esperança. Ele não quer saber quem ela foi, quer saber quem ela ainda pode ser. A atuação e o carisma de Maron conseguem elevar o seu personagem e nos faz torcer por um final feliz. Michael Morris tem um forte controle da direção. O tom é mais intimista, porque afinal é sobre aquela mulher e aquela jornada. Leslie achou que tinha a maior sorte do mundo ganhando aquele dinheiro que ela não soube manter, mas em uma mensagem mais otimista e um tanto clichê, o que ela precisava mesmo, o dinheiro não podia comprar. Não é um filme inesquecível, mas o que ele se propõe a fazer, faz bem feito em sua maior parte. Talvez dure um pouco mais do que o necessário, e uma edição melhor poderia trazer mais dinamismo, mas não é algo que chegue a atrapalhar. Vale a pena ser visto, se emocionar e torcer por Leslie, porque às vezes tudo o que a gente precisa é de uma boa e velha história de superação. Nota: 3,5/5

  • Crítica | Belas Promessas

    Para que (e quem) serve a política? Foto: Divulgação Todos nós conhecemos aquele velho dito: “se quer descobrir a verdadeira natureza de um homem, dê-lhe poder”. Mas e quando a mera possibilidade de poder já é o suficiente para desnudar a natureza de uma pessoa? É o que mostra Belas Promessas, dirigido por Thomas Kruithof e estrelado por Isabelle Huppert e Reda Kateb. Huppert interpreta Clémence Collombet, prefeita de uma cidade suburbana e empobrecida nos arredores de Paris, enquanto Kateb dá vida ao seu assessor, braço direito e amigo, Yazid Rabbi. Prestes a terminar seu segundo mandato e sem interesse em concorrer a um terceiro, Collombet se concentra em tentar salvar os Bernardins, um decadente conjunto habitacional no qual residem diversos imigrantes. Contudo, ela recebe a proposta de ser ministra do atual governo francês, e as consequências desse convite logo afetam não só a ela, como a Yazid e à própria cidade. Os minutos iniciais capturam muito bem a química da dupla principal, com Huppert e Kateb rapidamente nos convencendo da camaradagem e amizade de anos que os personagens possuem. Ela, uma das melhores atrizes de sua geração e de seu país (senão a melhor) está soberba como sempre, interpretando uma mulher que a princípio se mostra íntegra e de fato preocupada com as necessidades dos seus cidadãos, mas passa por uma gradativa e dúbia mudança após receber o convite para ser ministra, apresentando um lado mais ambicioso e traiçoeiro. Há uma nítida diferença entre a Clémence da primeira metade do filme e a da segunda, identificada pela forma como Huppert traz diferenças sutis na composição da personagem, que nos fazem perguntar: será que ela sempre foi assim e não percebemos antes? Foto: Divulgação Mas apesar do brilhantismo habitual da atriz, diria que o dono do filme é Kateb, que traz uma performance tão (se não mais) complexa, com um personagem que parece ter tanto a guardar para si mesmo enquanto trabalha com e para os outros, mas também vai se desnudando e encontrando sua própria voz conforme o filme avança. A sua conexão pessoal com os Bernardins — tratada no início do filme como um passado do qual quer se desapegar e depois como a sua tábua de salvação — permite que ele e Clémence troquem de lugares no decorrer da narrativa. Apesar desses vários pontos positivos, o roteiro falha em tentar incorporar alguns pontos que no fim das contas soam um tanto deslocados, como a subtrama do jovem que se choca com Yazid e dos sublocatários ilegais. Já o final soa um tanto otimista demais para o que foi apresentado antes — embora às vezes seja bom nos lembrarmos de que a política, quando bem-feita, pode mudar para melhor as vidas dos cidadãos. Ainda assim, Belas Promessas consegue trazer uma abordagem sóbria e realista sobre as maquinações políticas, evitando as tramoias e conspirações típicas em produções hollywoodianas para mostrar uma política mais mundana e cotidiana, ainda que em certos momentos beba da inspiração dos thrillers políticos da Nova Hollywood dos anos 1970, como “Todos os Homens do Presidente”. Ao nos aproximar de um microcosmo tão relacionável — apenas uma prefeita e sua pequena cidade —, a obra consegue ser exitosa em sua proposta, muito também por mérito das ótimas atuações de Huppert e Kateb. Nota: 4/5

  • Crítica | Willow (1ª temporada)

    Uma legacy sequel (ainda) mais mediana que seu filme original Divulgação: Disney+ Das propriedades da Lucasfilm, 'Willow' sempre foi o patinho feio. O filme de 1988, dirigido por Ron Howard e estrelado por Warwick Davis e Val Kilmer, navegava na onda de fantasia sombria de outras produções oitentistas, mas nunca conseguiu alcançar o sucesso que as demais franquias da empresa - 'Star Wars' e 'Indiana Jones' - possuem. Assistindo, é fácil saber o por quê: é uma aventura divertida, mas genérica e pouco memorável. Dito isso, o que explica a Disney querer investir numa série para dar sequência a essa história depois de quase 35 anos? Assistindo a primeira temporada de 'Willow', a resposta ainda me escapa. Alguns poderiam dizer que se trata de mais uma obra vítima do efeito das “legacies sequels”, tal qual as últimas trilogias de Star Wars ou Jurassic World; ou seja, uma obra que ressuscita uma franquia antiga, buscando uma passagem de manto dos personagens clássicos para os novos, mas muitas vezes reciclando as tramas dos filmes clássicos sob o verniz de algo novo. Ainda assim, 'Willow' nunca pareceu uma obra tão influente assim na cultura pop para ser trazida de volta dessa maneira, embora propostas de continuações surgissem nessas últimas quatro décadas. Talvez o fato de ser um filme de impacto modesto pudesse proporcionar à série uma maior liberdade criativa e mais desprendimento das amarras às quais as legacies sequels se veem presas, mas não é o que acontece. A trama se passa cerca de 20 anos após o filme, com a rainha Sorsha (Joanne Whalley) governando o reino de Tir Asleen e se preparando para casar sua filha Kit (Ruby Cruz) com o herdeiro do reino vizinho, Graydon (Tony Revolori), embora a paixão da princesa seja de fato a cavaleira Jade (Eryn Kellyman). Mas quando o irmão gêmeo de Kit, Airk (Dempsey Brik), é sequestrado durante um misterioso ataque, ela parte com Jade, Graydon, o mercenário tagarela Boorman (Amar Chadha-Patel) e a cozinheira Dove (Ellie Bamber) para encontrá-lo, recorrendo à ajuda de Willow (Warwick Davis) para guiá-los. Divulgação: Disney+ Se no filme, o mote principal era Willow e Madmartigan (Val Kilmer) protegendo a escolhida Elora Danan, à época um bebê apenas, aqui no primeiro episódio se insinua a seguinte questão: quem é ela e onde está? Contudo, a série não demora a dar a resposta (spoiler: é alguém do grupo principal de personagens) e, se soa frustrante que esse aparente mistério seja resolvido tão cedo, pelo menos dá à personagem em questão um interessante, embora irregular, arco de crescimento. De fato, alguns dos melhores momentos da temporada vêm através do desenvolvimento dos personagens, seja a relação de Kit e de Jade, a rixa da princesa com Dove que previsivelmente se torna amizade, ou os conflitos internos de Graydon (talvez meu personagem favorito) e seus sentimentos crescentes por Dove. Somente Boorman não parece se distanciar da sua proposta original, que é a de servir como um substituto para Madmartigan (lembra do que falei sobre legacies sequels reciclando o antigo em novo?). Aliás, a própria ausência de Madmartigan é um mote em determinados pontos da trama, lançando uma sombra principalmente sobre Kit, que deseja entender por que o pai escolheu proteger Elora Danan ao invés de cuidar dela e do irmão. Ironicamente, em meio a essa galeria de novos e promissores personagens, quem acaba escanteado é o próprio personagem que dá nome à série. A figura de Willow por vezes como um coadjuvante já era aparente no filme original, mas aqui se torna um problema crítico, já que a necessidade de passar seu manto para os protagonistas mais jovens faz com que o roteiro muitas vezes o tire de cena ou diminua suas habilidades (a famosa “nerfada”), prejudicando até mesmo sua figura como mentor. Há sugestões de tragédias envolvendo o personagem, especialmente em relação à sua família, mas nunca há espaço o suficiente para isso. O que é uma pena, porque Warwick Davis consegue equilibrar bem a amabilidade e rabugentice do personagem, especialmente em sua relação com Elora Danan, mas os momentos em que seu personagem não tem o que fazer são frequentes demais para uma série que leva seu nome. E é uma pena ver que os problemas da série vão além da subutilização do seu suposto protagonista. A estrutura episódica do filme é replicada aqui, conferindo à série também um ar de RPG com missões individuais, mas em diversos momentos a impressão que se tem é de os roteiristas estão apenas empurrando a barriga a trama até o conflito com as forças que raptaram Airk, de modo que o último episódio se revela extremamente anticlimático em relação a esse conflito, mesmo com a promessa de uma ameaça muito maior no horizonte. Além disso, embora a série consiga expandir a mitologia delineada na obra original, o apresentado soa extremamente insuficiente e ainda bastante genérico (um problema também herdado da obra original). Há algumas subversões e modernizações bem-inseridas (o casal queer de Kit e Jade ou a piada em torno dos trolls como seres elegantes e não bárbaros), o que não é o caso das canções de rock trazidas nos finais dos episódios, cujas inserções soam sempre forçadas. E embora eu aprecie que aqui não se busque trazer uma fantasia mais adulta como a vista em obras como 'Game of Thrones' e 'The Rings of Power', não são poucos os momentos em que a série se mostra boba até demais, inclusive minando o impacto de muitas cenas por querer adotar um humor fora de tom e também por desperdiçar alguns personagens que poderiam render mais, como atestam as participações de atores como Ralph Ineson, Hannah Waddingham e Christian Slater. Ao fim, 'Willow' pode ser uma aventura despretensiosa e leve em meio às demandas por fantasias mais realistas e adultas, mas não consegue se livrar de problemas que já existiam no filme original, enquanto também é atrapalhada por problemas próprios. Ao final, não há muito aqui que justifique dar continuidade a um filme tão pouco memorável de 35 anos atrás, mas aparentemente nada pode parar a máquina de dinheiro da Disney, que está disposta a criar sequências ainda mais medianas de um filme que já era mediano. Nota: 2,5/5

  • Análise | The Last Of Us 1x01 ("When You're Lost in the Darkness")

    Com primeiro episódio forte, série da HBO mostra que a espera valeu a pena Divulgação: HBO 2023 acabou de começar, mas, sem dúvidas, já temos uma das séries mais comentadas e populares do ano. ‘The Last of Us’ deu seu pontapé inicial ontem, 15, na HBO (também disponível no streaming HBO Max) com a difícil missão de adaptar um dos jogos mais conceituados pela crítica e amado pelo público de todos os tempos. O principal elemento do universo de TLOU é o fungo cordyceps que, já no seu início, começa a parasitar humanos causando uma infecção cerebral. Nesse primeiro episódio com quase 1h30 de duração, a série tem a difícil missão de apresentar um universo e personagens que serão indispensáveis para a trama, além de explicar (mesmo que brevemente) o que aconteceu para que chegassem até ali. Por isso, com um prólogo muito interessante, conhecemos um pouco mais sobre o fungo, com a série abrindo com um programa de televisão da emissora ABC nos anos 1960 explicando a diferença de uma pandemia de vírus de uma infecção por fungo. Logo depois, conhecemos Joel (Pedro Pascal) e sua vida pré-apocalíptica até o momento em que a infecção se espalha. Já nesse começo, sentimos o impacto dramático proposto pela série e conseguimos compreender bem a relação afetuosa de Joel com sua filha. Esse rápido vislumbre da vida dos dois é fundamental para entendermos como o mundo na história mudou radicalmente com a mutação do fungo e de como nada seria a mesma coisa. Para aqueles já familiarizados com a narrativa do game, essa sequência inicial não trouxe surpresas, mas, emocionou da mesma forma. Mesmo sendo uma adaptação extremamente fiel, ‘The Last of Us’ consegue sensibilizar da mesma forma. Com ótimas atuações de Pedro Pascal e de Nico Parker, vimos Joel perder tudo que importava em uma cena tão desesperadora que conseguimos compreender um pouco do seu jeito nas cenas subsequentes. Vale destacar aqui também as incríveis cenas dentro do carro e toda a agonia que ela conseguiu proporcionar para o telespectador que assistia tenso o desenrolar da situação. Dividindo o episódio, temos um salto temporal de quase vinte anos e encontramos aqui um mundo completamente diferente e destruído pela infecção. Joel mora na zona de quarentena de Boston, rigidamente administrada pela Agência Federal de Resposta a Desastres (FEDRA) com sua parceira Tess e os dois trabalham paralelamente como contrabandistas no local. Nesse contexto, também conhecemos os Vagalumes, um grupo rebelde de oposição à FEDRA que luta a favor da democracia e da liberdade. Quando Joel não consegue contatar o seu irmão em Wyoming, ele e Tess tentam comprar uma bateria de carro e acabam indo ao encontro do grupo rebelde. Lá, os dois se deparam com Marlene, líder dos Vagalumes que está ferida. Nessa situação, ela pede para que Joel e Tess levem Ellie (Bella Ramsey) até o Capitólio Estadual de Massachusetts para entregá-la aos Vagalumes em troca de insumos. Essa apresentação do universo e das suas novas configurações foi um pouco superficial, mas, sem dúvidas, será extremamente mais explorada nos próximos episódios. O objetivo é familiarizar o telespectador com o universo e esse primeiro episódio consegue fazer isso muito bem já que era preciso mostrar tanto a vida pré-apocalíptica do Joel, quanto seu encontro com Ellie, já que isso é a espinha dorsal da história que teremos pela frente. ‘The Last of Us’ consegue, neste primeiro episódio, se apresentar bem para o público e atiçar a curiosidade em relação ao universo e em relação ao mistério que envolve a Ellie. Com mais oito episódios pela frente, não há o que questionar em relação a qualidade da série desde esse primeiro momento, resta saber se ela seguirá em alto nível ao contar uma das histórias mais bonitas, verdadeiras e brutais do mundo dos games.

  • Crítica | Gato de Botas 2: O Último Pedido

    Uma surpresa calorosa e emocionante para todos os públicos Divulgação: Paramount Pictures Se fosse possível mensurar o impacto cultural de ‘Shrek’, iríamos precisar de um bom tempo para elencar todas as qualidades da franquia de maior sucesso da Dream Works. Uma das boas heranças que os filmes do ogro mais amado dos cinemas trouxe para o público foi o spin-off ‘Gato de Botas’, lançado em 2011. Depois de quase doze anos do seu primeiro lançamento, o herói felino e destemido volta aos cinemas com a sequência ‘Gato de Botas 2: O Último Pedido’, nos relembrando do potencial que esse universo possui. Agora, Gato de Botas (Antonio Banderas/Alexandre Moreno) está de volta e pronto para novas façanhas, até o dia em que percebe que gastou oito das suas nove vidas em múltiplas aventuras. Assombrado pelo medo de sua morte final, o gato entra em uma jornada para encontrar a lendária Estrela do Desejo, um artefato capaz de realizar qualquer coisa, incluindo resgatar as sonhadas nove vidas. Entretanto, a corrida pela Estrela não será fácil, já que muitos estão interessados em seus desígnios mágicos. Com a direção de Joel Crawford e Januel Mercado, ‘Gato de Botas: O Último Pedido’ é uma animação satisfatória em tudo que se propõe a fazer. Diferentemente do seu filme antecessor, a sequência conta com um estilo de animação mais colorido e cartunesco, com movimentações semelhantes a ‘Homem-Aranha no Aranhaverso’ (2019). É assim que ocorre a combinação perfeita entre uma animação mais jocosa e um roteiro simples, porém repleto de camadas. Não é à toa que o longa consegue abraçar a ingenuidade dos contos de fadas e abordar também algumas temáticas mais delicadas, como autodescobrimento, solidão e o medo de nos tornarmos os nossos erros. Divulgação: Paramount Pictures É válido destacar também que o roteiro do longa, assinado por Paul Fisher e Tommy Swerdlow, é caracterizado pela clássica fórmula da “caça ao tesouro”, ou seja, há uma divisão de grupos em torno de um mesmo objetivo. Entretanto, seguir um modelo não representa necessariamente uma falha de originalidade. Essa falha acontece quando a execução de eventos não é autenticamente adaptada aos enredos individuais de seus personagens, o que não é o caso de ‘Gato de Botas 2’. Surpreendentemente, todos os núcleos grupais que acompanham nosso protagonista são bem explorados e ainda possuem aquele toque satírico e semiótico, característica já vista anteriormente em outras produções da Dream Works. Em geral, não encontramos com frequência o tapete voador do Aladdin, o sapatinho da Cinderela e a Espada Excalibur em um mesmo filme. São inúmeras as situações que exploram a riqueza das histórias infantis, porém imersas em um contexto nunca visto anteriormente. No mais, ‘Gato de Botas 2: O Último Pedido’ é uma surpresa cativante, divertida e extremamente calorosa, consagrando-se na difícil categoria de filmes sequenciais que conseguem superar o seu precursor. Com muita maestria, o longa nos mostra como, em tempos de crise, o lúdico é necessário para enxergarmos uma saída do abismo. Ao seu fim, sentimos aquela velha onda de reconforto e a certeza de que tudo que fazemos é sobre as pessoas que queremos manter por perto. Que satisfatório é pensar que a arte e a animação possam ser as responsáveis por experienciarmos esse tipo de sentimento. E quem sabe, talvez, outras sequências desse universo não estejam tão tão distantes assim. Nota: 4,5/5

  • Crítica | Hunters - A Caçada (2ª temporada)

    Após um primeiro ano conturbado, a série encerra tropeçando em erros antigos Divulgação: Amazon Studios Desde que foi anunciada pelo Prime Video em 2019, a série ‘Hunters’ (A Caçada, no português) foi alvo de grande repercussão. Não só pela inusitada presença do lendário Al Pacino em uma obra em formato seriado, mas principalmente por sua temática forte, acompanhando um grupo de judeus dos anos 70 que se une com o objetivo de caçar os nazistas responsáveis pelos horrores do holocausto. Seguindo uma primeira temporada recheada de altos e baixos, a produção retorna ao catálogo do streaming para sua segunda e última leva de episódios, trazendo os caçadores em 1979 em uma última missão: caçar Adolf Hitler. De início, percebe-se que a trama constrói um escopo muito mais sério do que foi feito em sua temporada de estreia. Se antes o ar satírico e jocoso tomava conta de grande parte das sequências, aqui é evidente o foco em manter a sobriedade das interações e discussões morais no decorrer dos episódios – uma tentativa forçada de “elevar a narrativa”. Na verdade, o que funcionou na temporada anterior é quase que abandonado nesse novo ano, motivo pelo qual permanece a sensação de que estamos vendo uma série diferente da que assistimos em 2020. Os novos episódios mostram os caçadores três anos após os eventos do final da primeira temporada, que contou com a morte de Meyer. De cara, é notório que tal decisão, embora ousada, reverbera de maneira bastante controversa nesses novos episódios. Isso porque, ao matar o personagem de Al Pacino, o criador David Weil cria um vácuo muito grande em um dos maiores sustentáculos da série. E pior: como tentativa de contornar isso, recorre a flashbacks à la “O Poderoso Chefão: Parte II” (1974), alternando entre o presente da série e o ano de 1976, em que conta a história de origem do grupo e cava mais a fundo as motivações do personagem de Meyer. Divulgação: Amazon Studios Com um quê de desespero para não perder a magnitude da presença de Pacino, a série mergulha em uma sucessão de eventos nesses flashbacks que dificilmente agregam à mitologia do personagem. O ator está ótimo como Meyer, é verdade, mas é inegável que a tentativa de dar complexidade ao ex-nazista se perde em seu próprio fim, entregando um desenvolvimento contraditório e carente de substância. Aliás, essa falta de substância parece ser um problema que afeta boa parte desse novo ano. Embora tenha evoluído no quesito linearidade, já que aqui temos um objetivo claro em mente desde o início, a condução da temporada se sustenta em momentos excessivamente expositivos e, em partes, desconexos do todo. Poucos são os momentos em que conseguimos, de fato, nos prender ao que está sendo mostrado sem sermos bombardeados com uma série de explicações e motivos. Encargo esse que não fica só na conta dos inúmeros monólogos que o personagem de Pacino tem, mas também pela necessidade de Weil de explicar cada detalhe que aparece na tela – por vezes, o suficiente é deixar à imaginação do espectador. Apesar disso, a série tem seus momentos de glória. A inserção de Chava (Jennifer Jason Leigh) se mostrou muito bem-vinda para dar uma guinada na história. As atuações também continuam muito boas; além de Pacino, temos um ótimo trabalho de Carol Kane, Lena Olin, Udo Kier e Logan Lerman, na pele do incorrigível Jonah, que aqui surge muito mais maduro. Somado a isso, a direção de fotografia e trilha sonora, seguindo o ano anterior, continuam de alta qualidade e condizentes com o restante dos aspectos técnicos. As cenas de ação, que aqui se maximizam, também constituem uma ótima direção que proporciona sequências satisfatórias. Divulgação: Amazon Studios Porém, o problema com essa temporada ultrapassa a primazia de seus aspectos técnicos. Isso porque, propor-se a contar uma história que tem o holocausto e o nazismo como cerne narrativo exige nada menos do que uma exímia responsabilidade. Em 'Hunters', entretanto, isso não se materializa: após uma primeira temporada rodeada de polêmicas envolvendo a romantização dos eventos e fetichização da violência, a série eleva o risco ao trazer para as telas a representação mais simbólica de todos esses horrores. Não só a tentativa de “explicar” as motivações de Meyer Offerman enquanto indivíduo que pensa apenas em seus próprios caprichos, mas principalmente o retrato do próprio Hitler pesam bastante na responsabilidade que a série deve ter com tais temas. O episódio final, muito embora tenha sido bem dirigido, traduz uma atmosfera dissociada de todo ideal pregado pela série desde o início; expor uma figura tão execrável ao grande público é realmente uma boa ideia? Com um conceito interessante e grandes nomes na produção e elenco, 'Hunters' tinha tudo para despontar como um carro chefe do streaming da Amazon. Contudo, após algumas más escolhas e desvios no percurso, a série termina deixando uma grande interrogação em que assiste. Afinal, qual a história que 'Hunters' queria contar? Sei que parece reducionista demais resumir a série a esses erros; afinal, tiveram sim bons momentos, mas ainda parece pouco perto do potencial que ela possuía. Nota: 2,5/5

  • Crítica | Matilda: O Musical

    Uma história carregada pela magia da música Divulgação: Sony Pictures/Netflix Criada por Roald Dahl em seu livro lançado em 88, Matilda é uma personagem bastante conhecida e querida pelo grande público, parte disso devido ao filme de 96, estrelado por Mara Wilson e dirigido por ninguém menos que Danny DeVito, que também interpreta o pai. Trinta e quatro anos após o livro e vinte e seis após o filme que se tornou clássico dos anos 90, Matilda ganhou uma repaginada para as telas, dessa vez no formato de um musical, adaptação de peça de teatro de bastante sucesso. Lançado pela Netflix no natal, ‘Matilda: O Musical’ chegou fazendo bastante barulho, não apenas metaforicamente. Com direção de Matthew Warchus, essa nova adaptação traz um tom ligeiramente diferente do conhecido, e que tem um encaixe mais certeiro para a época atual. Não tem como querer falar desse musical sem começar citando a tríade maravilhosa que é formada por Alisha Weir, Lashana Lynch e Emma Thompson, nos papéis de Matilda, Senhorita Honey e a diretora Agatha Trunchbull, respectivamente. Alisha traz uma protagonista de maneira brilhante e encantadora, além de ser um pouco mais travessa do que a versão conhecida e que dá à personagem um tom mais infantil, e ao mesmo tempo continua com aquela aura já conhecida de uma criança que é um gênio. Matilda reverbera durante todo o filme a clara falta de zelo paterno, mas sem se deixar afetar, e ainda traz consigo uma fortaleza ancorada na sensação de injustiça e revolta de que algo poderia e deveria ser feito. A relação com seus pais, interpretados por Stephen Graham e Andrea Riseborough é um dos tópicos mais interessantes de acompanhar, a forma como ela diverge dos dois e como se sobressai nas situações. Também é legal acompanhar a sua relação com a Sra. Phelps (Sindhu Vee), dona de uma livraria móvel que acolhe Matilda enquanto mergulha nos livros. Divulgação: Sony Pictures/Netflix Lashana Lynch, que chegou com o musical logo após uma interpretação forte e impactante em ‘A Mulher Rei’ e sua personagem guerreira Izogie, mostra agora uma figura completamente diferente. Srta Honey, a professora de Matilda, é uma doce órfã criada pela tia e que tem um apreço muito grande por educar e cuidar, e ela se apega à protagonista com bastante facilidade. Lynch tem uma interpretação tão marcante, doce e ao mesmo tempo suave de Honey, que torna impossível não se apaixonar por sua atuação e por sua personagem. Ela tem um brilho muito fácil e natural quando entra em cena que hipnotiza o espectador com muita facilidade, e sua harmonia com Alisha Weir torna a interação das duas ainda melhor. Já Emma Thompson, que iniciou o ano de 2022 com sua atuação visceral em ‘Boa Sorte, Leo Grande’ no festival de Sundance de janeiro passado, vem agora com uma Agatha Trunchbull um tanto caricata. A diretora conhecida por ser casca-grossa e odiar crianças é trazida para as telas com um tom mais cômico, que combina perfeitamente com a proposta do musical. A entrega de Thompson permite uma abordagem mais intimista da diretora, que, apesar de ter como hobby violar todos os direitos humanos possíveis, tem também uma nova camada em sua história. Além, é claro, de sua caracterização que lembra muito uma pessoa militar (algo que tem uma implicação direta com a história e a forma como ela lida à frente de uma escola). Vale aqui também uma citação ao pequeno Charlie Hodson, intérprete de Bruce, e Meesha Garbett que interpreta Hortensia, ambos estão bastante presentes durante o longa e em momentos musicais marcantes. Divulgação: Sony Pictures/Netflix Óbvio que, para se criar um bom musical, é necessário um trabalho bem pensado nas músicas que farão parte da história, e isso aqui foi feito muito, mas muito bem. Durante as duas horas vemos números bem elaborados com coreografias bem ensaiadas, além das canções que grudam na cabeça, e fazem com que o público mais aberto a esse tipo de obra se vicie com facilidade e queira repetir até não poder mais. Não só isso, é importante frisar também o talento e qualidade do elenco coadjuvante e de apoio, que demonstram aptidão para o que estão fazendo mesmo sendo em sua maioria ainda crianças. O longa tem cores fortes e vibrantes em quase todos os seus cenários, com exceção da escola, que tem propositalmente um tom mais taciturno e uma coloração sem vida. Fora isso, os cenários são bastante explorados durante os números musicais, levando o público a uma experiência quase imersiva nesse universo. Os figurinos também têm um trabalho bem executado, assim como maquiagem e efeitos, que vêm de acordo com a proposta do filme. Tem uma direção coesa para o que deseja repassar ao público e um roteiro leve, que, no entanto, executa bem algumas nuances dentro da trama que deixam o seu tom mais interessante e interpretativo do que um simples musical, além dos muitos simbolismos presentes. Divulgação: Sony Pictures/Netflix 'Matilda: O Musical' foi, sem sombra de dúvidas, um dos grandes acertos que a Netflix trouxe para seu catálogo, ele pode não encantar a todos, mas, com certeza vai chamar a atenção em algum momento até dos mais durões. Apesar de se estender um pouco e cometer alguns deslizes, ele cumpre o seu papel de entreter e trazer a magia de Matilda. Contudo, não adianta querer vê-lo com olhos nostálgicos, afinal de contas, aquela geração do primeiro filme hoje já tem idade para acompanhar com seus filhos, se tiver, não é mesmo? É uma proposta decente, bem realizada, merecedora do play e da atenção. Nota: 4/5

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