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  • Crítica | Chucky (2ª temporada)

    Nem com muita oração é possível se livrar do brinquedo assassino Divulgação: Syfy/USA Network Sendo uma agradável surpresa de 2021, a série do Chucky, ícone da cultura pop desde os anos 80, logo foi renovada para uma nova temporada que se encerrou recentemente. Após os terríveis acontecimentos que cuminaram em um aparente fim para o boneco na primeira temporada, os três adolescentes sobreviventes retornam pensando que está tudo bem e que dessa vez estão em paz. Para quem já conhece o nosso ruivo adorável, está familiarizado com a síndrome de barata que ele tem: simplesmente não morre. Nessa atual temporada, Chucky mais uma vez volta como representante do caos e infernizando a vida de Jake, Lexy, Devon e de quem mais se meter em seu caminho. A série retorna com seu mesmo tom de comédia que continua sendo benéfica para as artimanhas do boneco, e desta vez, levados a um cenário envolvendo a igreja, a blasfêmia é uma das protagonistas mais cômicas. Ela tem como um dos seus pontos positivos o seu texto sem muitas complicações, em que tudo se encaixa com clareza sem a necessidade de explicações mirabolantes ou fora da realidade da série. O uso do drama em meio a comédia tem um bom casamento, e tudo sempre regado a muito sangue e morte. Divulgação: Syfy/USA Network Uma das maiores proezas de Don Mancini é saber aproveitar bem o universo que construiu e os personagens que inseriu nele ao longo do tempo. Uma das mais recentes, chegada nos filmes pós 2010, foi Nica, interpretada por Fiona Dourif (filha do ator que dá voz ao Chucky, Brad Dourif), e que nesse novo ano teve mais destaque sofrendo nas mãos de Tiffany. A sua personagem é, de longe, a que mais sofreu como alvo do brinquedo assassino, e Fiona se destaca bem dentro do proposto. Jennifer Tilly também é outra que teve um dos melhores aproveitamentos na trama, a noiva do Chucky não tem nenhuma noção de limites e entrega bons momentos durante os episódios, em especial o que é focado nela e em sua família. Já sobre o elenco teen, os três protagonistas que se esforçaram na primeira temporada, voltaram com interpretações mais limitadas e às vezes até incômodas, em especial Zachary Arthur, o Jake. O que deixa mais evidente a falta de um brilho a mais nos três é a chegada de uma nova personagem. Nadine, vivida por Bella Higginbotham é uma das melhores adições do elenco, com naturalidade e um carisma magnético, ela brilha sem precisar fazer esforço. Outra adição notável foi a de Lachlan Watson, intérprete de Glen e Glenda, e que dá um show nos dois papéis, trazendo personagens que se tornaram memoráveis em 2004 e que desde então não apareciam em obras do brinquedo assassino. Rápido resumo sobre a história de Glen/Glenda. Em 2004, no filme 'O Filho de Chucky' ('Seed Of Chucky' no original, e que não foi traduzido para o português de maneira justa), Chucky e Tiffany têm um bebê, e passado todo o questionamento de como aquilo aconteceu, temos a primeira a aparição do então Glen, que tem uma história bastante sofrida ao tentar encontrar a si mesmo enquanto descobre que os pais são assassinos. Ainda nesse filme vemos sua transição para Glenda, e após isso mais questionamentos lhe surgem até que ao final temos Glen e Glenda separados. Lachlan Watson é uma pessoa não binária assim como Glen e Glenda, e é muito satisfatório ver essa retratação de forma respeitosa e coesa (que também foi mantida na dublagem, ao escalarem Maria Fontenelle, também pessoa não binária). Divulgação: Syfy/USA Network Retornando para a série; como dito antes, o cenário desse novo ano envolve a igreja, para onde os três protagonistas são enviados após um ocorrido no primeiro episódio. Esse novo ambiente possibilita uma infinidade de caminhos para Chucky e para a história num geral. O leque de piadas se abre com opções diversas também. O ranking de mortes continua subindo por onde ele passa, e cada vez com mais elaboração e criatividade, no entanto trazendo um pouco de cansaço em algumas delas. Há também fortes referências a outros filmes marcantes, e é inegável como o Chucky fica fofo amordaçado e amarrado igual ao Hanibal, além da presença do "Chucky do Bem", do Chucky marombado e do Chucky careca (o general), que revigoram a imagem do boneco. Com essa nova temporada, a série conseguiu se reinventar um pouco mais, e vamos combinar que não há limitações em uma história que é protagonizada por um brinquedo assassino, né? Apesar disso, ela já demonstrou um pouco de monotonia e repetições, mas, ainda assim entretém de maneira orgânica, além de trazer risadas e muita tensão. O chuckyverso é um universo com muitas possibilidades e com muitos personagens bons que podem ser abordados se utilizados bem. Fica o aguardo para o próximo halloween e uma terceira temporada, mas também um desejo para que não se prolongue e saiba aproveitar do hype, mas enquanto isso; wanna pray? Nota: 3,5/5

  • Crítica | Periféricos (1ª temporada)

    Duas ficções científicas pelo preço de uma Divulgação: Amazon Prime Video Narrativas crípticas e labirínticas parecem ter se tornado, para o bem ou para o mal, um sinônimo para as carreiras do casal Lisa Joy e Jonathan Nolan, criadores de 'Westworld'. Embora eles não tenham criado 'Periféricos' (o showrunner é o escritor Scott Smith, enquanto o casal atua como produtores executivos), seus DNAs podem ser encontrados por vários cantos da série, sejam nas suas virtudes ou nos seus defeitos. Adaptando o livro de mesmo nome de William Gibson (conhecido pela trilogia Neuromancer), 'Periféricos' se inicia no interior dos EUA em 2032, onde a jovem Flynne Fisher (Chloe Grace Moretz) ganha a vida trabalhando com jogos e simuladores em realidade virtual. Ao substituir seu irmão, o ex-soldado Burton (Jack Reynor), num novo jogo que a transporta para a Londres de 2099, ela logo percebe que o que está vivenciando talvez não seja uma simulação e sim um futuro real, o que a coloca em conflito com forças que operam nesse futuro para afetar a sua própria realidade. Se soa confuso, é porque a série intencionalmente o faz ser. A primeira metade do episódio inaugural consegue habilmente nos imergir nessa estranheza entre as duas linhas do tempo, principalmente na primeira incursão de Flynne a Londres, sob a pele do irmão. O próprio retrato da capital britânica é um dos pontos de maior destaque da série: mesmo sendo um futuro longínquo, a cidade parece muito próxima ao que conhecemos dela hoje, mas significativamente menos povoada, contando com um design antisséptico, estéril e desprovido de vida, que sempre nos causa desconforto. Divulgação: Amazon Prime Video As respostas para o por quê disso (e outras questões) demoram a chegar, e aí reside o maior problema da obra, que insiste em manter seu público no escuro mesmo quando não há necessidade para tanto. Apenas no episódio 4, por exemplo, há explicação para os eventos apocalípticos que ocorreram entre 2032 e 2099 e que justificam o interesse dos núcleos de personagens de Londres em quererem acessar o passado de 2032. Ao mesmo tempo, o universo aqui apresentado e sua mitologia são constante e irregularmente expandidos a cada episódio, o que muitas vezes é feito através de diálogos expositivos (embora a série se esmere em sua produção técnica e na identidade visual). Com isso, vemos os personagens de 2032 aceitarem passivamente o acesso que tem ao futuro como se não fosse nada demais, enquanto os de 2099 parecem sempre conversar em códigos, como se o roteiro quisesse soar o mais rebuscado possível (mesmo que um dos episódios seja intitulado Fuck You and Eat Shit). Felizmente, a segunda metade da temporada compensa o ritmo e o hermetismo da primeira, entregando um ritmo mais consistente (e algumas respostas). Nela, porém, também fica nítido que parece haver duas séries em uma - e aquela situada em 2032 em muitos momentos se mostra mais interessante do que a 2099. Não fossem os detalhes que nos lembram que é um sci-fi, poderia ser facilmente um thriller policial nos moldes de outras obras que se passam em cidades interioranas, como 'Justified'. Essa simplicidade narrativa acaba se tornando um contraponto interessante à complexidade vista nos núcleos de Londres, mas houve momentos em que desejei uma maior articulação entre essas duas metades da série. Apesar dessas desigualdades, 'Periféricos' consegue entregar uma intrigante, ainda que desafiadora, primeira temporada que pode satisfazer os fãs de obras mais voltadas ao mistério. Não é trabalho fácil adaptar a densidade dos livros de William Gibson, mas a série consegue superar boa parte dos seus tropeços iniciais e crescer episódio após episódio. Contanto que saiba casar bem suas duas metades, ela pode superar a sombra indesejável deixada por 'Westworld' e fazer seu próprio nome dentro da ficção científica na TV. Nota: 3,5/5

  • Crítica | A Mulher Rei

    Já que é pra ser comercial que seja então decolonial Divulgação: Sony Pictures Inspirado no grupo de guerreiras africanas do Reino de Daomé (território do atual país Benin) chamadas “agojie”, ou amazonas de Daomé como eram conhecidas pelo europeus, A Mulher Rei tem como protagonista a General Nanisca (Viola Davis), a líder do exército de elite do Rei Guezô de Daomé (John Boyega), que está sempre protegendo o reino e aconselhado seu rei nas decisões mais estratégicas e delicadas em relação aos reinos vizinhos – que caçam e sequestram uns aos outros para vender seus cativos como escravos para o europeu – e em relação aos europeus – que exploram a mão-de-obra e as matérias-primas africanas. A palavra de ordem aqui é representatividade. É inconcebível pensar que, há uns 20 anos no mínimo, um grande estúdio norte-americano investiria num filme sobre a grandiosidade de uma mulher negra africana lutando contra um sistema escravagista e degolando europeus. Os constantes debates sobre a relevância do papel feminino na sociedade (e na história) e sobre a importância de estudo da história negra africana galgaram o caminho até a execução de A Mulher Rei. Então apenas o fato de o filme existir já é relevante e histórico. Os pormenores da história são contados através de Nawi (Thuso Mbedu), uma jovem que se recusa a ter um casamento arranjado pelo pai e acaba virando recruta das agojie, e de outras soldados que compõem o exército de guerreias. Destaque para a personagem Amenza, interpretada com vigor pela expressiva atriz Sheila Atim, que dá suporte emocional e físico para Nanisca. Viola Davis é irretocável e aqui ela emprestou seu corpo sua alma para protagonista da aventura, mas ela não carregou o filme só, as atrizes Thuso Mbedu, Lashana Lynch, Sheila Atim e até mesmo Adrienne Warren – que tem menos tempo em cena dos que as outras – têm cenas enfáticas tanto nas sequências de ação quanto na distribuição de momentos chave no roteiro. Mas falando em representatividade, pareceu preguiçosa a opção de colocarem dois atores britânicos para interpretar um personagem português e um brasileiro. Divulgação: Sony Pictures Mas é válido provocar que aqui a função é mais importante do que a forma. Por mais que “o que está sendo dito” seja novo, seja impositivo e seja revolucionário, a “maneira que está sendo dita” é um tanto conhecida e repetida. E não estou falando puramente da jornada do herói (das heroínas) e da narrativa em 3 atos usadas com facilidade para preencher as lacunas dos fatos históricos e compor o roteiro, mas de escolhas de referências feitas pela diretora Gina Prince-Bythewood. Gina é uma diretora versátil que dedicou quase toda sua filmografia a produções de cinema e televisão focadas em personagens negras e negros. Ela já dirigiu ação, romance, drama, comédia e vemos aqui que ela sabe dosar tudo isso, mas a soma dos fatores faz com que o resultado seja um filme de ação padrão Hollywood da melhor qualidade, com um romance como roteiro secundário, personagens coadjuvantes que roubam a cena e um final glorioso, e isso não é reclamação, se for para ter filmes assim que sejam contando novas histórias e histórias mais relevantes, mas faltou identidade própria para o filme se tornar ainda mais memorável. De qualquer forma é bom poder dizer com um certo alívio que Hollywood, mesmo que tardiamente, abriu os olhos para a “história que a História não conta” – citando o saudoso samba-enredo mangueirense de Deivid Domênico e companhia. São quase 100 anos da grande indústria de cinema estadunidense dando ênfase (as vezes necessária, as vezes apelativa e as vezes puramente sádica) a história negra como pessoas sofridas e resistentes ao sistema de escravidão que implica até hoje numa sociedade doente e racista. O pré-escravização e o passado glorioso do negro parecem nunca ter interessado estúdios majoritariamente formados por velhos homens brancos e o motivo é retórico. Mas não pense que por isso os negros deixaram de contar suas histórias. Existem, por exemplo, grandes produções da chamada Nollywood (a “Hollywood” da Nigéria) que abordam a história, a cultura e a fantasia africana sob as mais diferentes perspectivas. E por mais que não tenham o primor técnico das produções americanas, esses filmes tem uma textura narrativa e uma estética que não se consegue replicar. A Mulher Rei se consolida como um filme confiante e emotivo. E mesmo que não fosse tudo isso, apenas pelo fato de ter incomodado a grande parcela incel da sociedade que tem medo de mulher em posição de destaque e acha que o negro protagonista é mimimi, aqui, ou woke, lá, ele pode sair de cena satisfeito com o que realizou. Nota: 4/5

  • Crítica | Encantado's (1ª temporada)

    Com uma sucessão de acertos, a nova produção do Globoplay chega clamando para ser uma potência Divulgação: Globoplay Quando se fala em sitcom, os primeiros pensamentos são levados geralmente a 'Friends' e 'How I Met Your Mother', e algumas cabeças mais antigas vão dar um puxadinho para 'Seinfeld'. O gênero se popularizou lá pelos anos 50, com a chegada de 'I Love Lucy', 'The Dick Van Dyke Show' e outros clássicos que ficaram imortalizados na história da televisão. Trazendo para o cenário nacional, ao fazer essa pergunta as respostas seriam com séries majoritariamente dos anos 90 e anos 2000, por exemplo; 'A Grande Família', 'Sob Nova Direção', 'Tapas & Beijos', etc, no entanto, houve uma escassez do gênero por aqui, que acaba com a chegada de 'Encantado's'. Fruto da oficina de humor para roteiristas negros criada pela Globo, 'Encantado's' estreou no Globoplay no último dia 18. Criada por Renata Andrade e Thais Pontes, a série acompanha o supermercado Encantado's que também é a diretoria da escola de samba Jóia do Encantado, e quando o proprietário morre, seus dois filhos, Eraldo e Olímpia, recebem a missão de cuidar de ambas as coisas. Iniciando e finalizando no carnaval, temos onze episódios recheados de humor, samba e muita qualidade. Divulgação: Globoplay Escrita por Renata Andrade, Thais Pontes, Antonio Prata e Chico Mattoso, a série traz roteiros excelentes para seus episódios, no melhor estilo sitcom, elevando o grau de comédia em cada um deles, sendo seu melhor momento o 'Coisinha do Pai'. Com textos ágeis, ela se monta ao redor de um caos maravilhoso que possibilita instantes graciosos com um humor refinadíssimo captado pelos menores detalhes. Seu maior acerto está em não usar um tom escrachado e batido, comum na televisão brasileira, e que funcionou muito bem nos anos 2000, e saber dosar com atenção seus momentos de graça. Não somente o humor, a série mostra sua sagacidade ao estar atenta a pautas atuais, inserindo-as em seus diálogos de forma sutil, mas certeira, e sempre com um tom leve. Tem um desenvolvimento de história fascinante e traz uma naturalidade impecável. Ela passeia pelo drama, misticismo e romance sem alterar o tom do seu gênero, unifica os tópicos que levanta com piadas afiadas e que caem bem para cada situação. O seu elenco é uma obra de arte à parte, sendo ele integrado massivamente por atores e atrizes pretos. É de se pensar que uma série estreante, e com tantos personagens, fosse acabar se perdendo em algum momento, o que é bastante comum, se você analisar, ter algumas personas ficando de escanteio e até esquecidas. Contudo, o que temos aqui é um conjunto espetacular e bem engendrado em que tudo se encaixa. O enredo desenvolve bem os seus personagens principais e utiliza seus coadjuvantes com muita competência, fazendo com que todo o cast trabalhe bem e entregue uma interpretação condizente com o proposto para cada um deles. Divulgação: Globoplay A direção é comandada por Henrique Sauer, Naína de Paula e Deo Cardoso (diretor do filme cearense Cabeça de Nêgo), e é outro ponto positivo para esta produção. Assim como o roteiro, ambos estão afiados e conseguem transmitir o que a obra pede, com uma execução caprichada eles elevam ainda mais a qualidade que a série já tem. Além disso, há também uma fotografia muito bem pensada, que traz uma vivacidade que se encaixa magistralmente com o restante. Provando o que já era óbvio, 'Encantado's' mostra que nossa terra está mais que capacitada e pronta para entregar obras de qualidade em todos os gêneros e com maestria, até melhor que muitas gringas. O que não falta nesse Brasilzão é gente competente e criativa, que trabalha incessantemente para elaborar produções de qualidade, e que merecem dia após dia mais reconhecimento e mais apreciação por parte do público. A série é de fácil identificação por retratar o cotidiano de um supermercado, além de fazer um misto com algo presente na cultura brasileira, que é o carnaval. É um dos grandes acertos do Globoplay nessa reta final do ano, e esperamos que possam vir mais temporadas, e mais novas séries dessa oficina de humor. Nota: 5/5

  • Crítica | Aftersun

    A máxima de “cinema como a arte de esculpir com o tempo” levada a sério Divulgação: O2 Play/MUBI Ao decidir contar uma história em filme, o artista tem em suas mãos o desafio de dar ao público uma narrativa completa e suficientemente interessante em um período extremamente limitado. Para isso, normalmente fazem uso de conflitos grandiosos, clímaxes espetaculares e ações inusitadas. Do outro lado da tela, o público, já acostumado com esse padrão, espera esse momento extraordinário acontecer – e ele quase sempre acontece. Mas esse não é o caso de Aftersun, estreia da diretora Charlotte Wells, que também assina o roteiro. E por mais intimidador que possa parecer fugir desse padrão, originalidade de Welles teve resultado positivo: ao longo de 2022, a obra vem sendo aclamada nas mais diversas premiações internacionais, desde o Festival de Cannes ao British Independent Film Awards. Como um bom filme, Aftersun não faz questão de se explicar e conta com a paciência e lucidez do público. Desde o início sabemos se tratar da história de Calum (Paul Mescal), a completar 31 anos, e de Sophie (Francesca Corio), de nove. Mas quem são eles? Porque estão sozinhos nesse quarto? Calum parece jovem e descontraído demais para ser pai da menina, mas então por que estão juntos nessa viagem? Quem confiou a criança a um adulto com cara de adolescente e braço quebrado, incapaz de acender seu próprio cigarro? Devemos nos preocupar com a segurança dela? Qual a última vez que vimos um homem adulto e uma menina em relação tão íntima? Divulgação: O2 Play/MUBI Enquanto Sophie dorme, Calum liga para a recepção e reclama que, apesar de ter especificamente solicitado duas camas separadas, o quarto que foram alocados possui apenas uma, de casal. E assim entendemos que Sophie está em boas mãos. Algumas cenas depois, Calum corrige outros hóspedes que, assim como nós, parecem não entender a relação. Agora está afirmado que os personagens são, sim, pai e filha. É nessa calmaria que o filme se leva. Não adianta fazer perguntas, elas não serão respondidas ao nosso tempo. É preciso observar e esperar. Por sorte, ao fazer isso, contamos com o fascinante talento de Mescal, que consegue exprimir tudo que precisamos saber em toda sua sutileza e, com ela, cria uma dinâmica de imensa familiaridade em suas interações com Corio. Durante todo enredo temos a constante sensação de que estamos na iminência de que algo ruim vai acontecer. Na fotografia de Gregory Oke, as cores vibrantes contrastam com os enquadramentos inquietantes, dispostos, pela montagem de Blair McClendon, em planos muito mais longos do que estamos acostumados e de um sonoridade perturbadoramente silenciosa, instaurando um clima de desconforto e melancolia que nos deixam em estado de alerta. Mas nada nunca acontece, pelo menos não imediatamente. Os conflitos existentes – como a máscara de snorkel perdida em alto mar ou o desentendimento a respeito de uma canção do karaokê – não passam de atritos comuns numa relação indubitavelmente amorosa entre pai e filha. Até o ápice da tensão do filme, com um Calum embriagado mergulhando de madrugada enquanto Sophie tenta se enturmar com os adolescentes do hotel e fica trancada para fora do quarto, se resolve com um simples pedido de desculpas. E a vida segue. Divulgação: O2 Play/MUBI O longa não é sobre as férias de Calum e Sophie, mas sim sobre as memórias dessas férias. De fato, algo ruim aconteceu: não sabemos como, quando ou onde, mas Calum morre pouco tempo depois das férias. Entramos na mente da Sophie adulta (Celia Rowlson-Hall), de mesma idade que o pai tinha durante a história central, e, a partir de vídeos antigos e lembranças por esses despertadas, tentamos remontar aquela viagem de verão à Turquia para assimilar detalhes que a inocência infantil não permitiu que fossem enxergados (ou até foram, porém não com a maturidade devida). E os detalhes estão ali: no Tai Chi, nos livros de autoajuda, na outra rodada de bebida, na cuspida no espelho… Queremos conhecer aquele pai, de novo. Agora, talvez, um pouco melhor. Em Aftersun, assim como na vida, a história não é definida em alguns minutos. Não vai existir um grande plot twist e tampouco um mentor vai surgir nos orientando como seguir a jornada em busca do final feliz. Aqui, quem dá a ação e torna o conflito grandioso é o tempo – os 101 minutos de filme e as duas décadas que separam a Sophie criança da Sophie adulta. Nota: 4,5/5

  • Filmes nacionais que serão lançados em dezembro nos cinemas

    'A morte Habita à Noite', 'O Amor dá Voltas' e o aclamado documentário 'Deus Tem AIDS' estão entres os lançamentos do mês Divulgação: Vitrine Filmes Após um grande mês de novembro, recheado de filmes aclamados, dezembro chega mais fraco em quantidade, mas forte em qualidade. Confiram quais longas nacionais estrearão nos cinemas: 01/12: • Deus Tem AIDS (Documentário, 80 min) Direção: Fábio Leal e Gustavo Vinagre Sinopse: Quarenta anos após o início da pandemia de aids, sete artistas e um médico ativista, todos portadores do HIV, oferecem novas imagens e perspectivas para o enfrentamento da sorofobia no Brasil. • Pequenos Guerreiros (Infantil, 74 min) Direção: Bárbara Cariry Elenco: Georgina Castro, Bruno Goya, Juan Calado, Lara Ferreira e Daniel Almeida Sinopse: Cosme e Dona Maria, acompanhados do filho Benedito e dos sobrinhos Matheuzinho e Bruna, fazem uma viagem do litoral até a cidade de Barbalha, onde vão pagar uma promessa na Festa do Pau da Bandeira. A viagem é uma descoberta das paisagens, das histórias e das riquezas culturais do sertão. As três crianças vivem um processo de encantamento e afetividade e, depois da bonita aventura, Bruna, Matheuzinho e Benedito serão para sempre grandes amigos. • Na Rédea Curta (Comédia, 95 min) Direção: Ary Rosa e Glenda Nicácio Elenco: Sulivã Bispo, Thiago Almasy e Luciana Souza Sinopse: Da periferia de Salvador, criado apenas pela mãe, Júnior, aos 20 anos, descobre que vai ser pai e decide, a partir disso, ir atrás de seu pai. Mainha, mãe super protetora, se vê obrigada a revelar a identidade do pai de Júnio, que mora no interior do Recôncavo da Bahia, na cidade de Cachoeira. Inicia-se então uma divertida viagem de Mainha e Júnior em busca do pai, numa aventura repleta de confusões que no fim só servem para aproximar mais mãe e filho. Afinal, para Júnior, Mainha é insubstituível, e não há nada nem ninguém no mundo capaz de ocupar o seu lugar. • Nunca Mais Serei a Mesma (Documentário, 90 min) Direção: Alice Lanari Sinopse: Lorena , Brandy , Ana e Cecília nunca se encontraram, mas suas histórias sim. Elas têm distintas idades, origens e cores da pele, mas todas são mulheres latino-americanas que foram afetadas pela violência. • Êxtase (Documentário, 80 min) Direção: Moara Passoni Sinopse: Conta a história da jovem Clara, em sua luta para superar a anorexia. No filme, vivemos a intimidade de sua agonia, acompanhada pelo aguçamento dos seus sentidos e por uma paradoxal sensação de êxtase. Ao se privar de comida, ela cria uma rotina baseada em cálculo, repetição e ritual. Medo e vulnerabilidade são sentimentos constantes na infância de Clara. Para lidar com a situação, ela desenvolve um sistema de controle sobre a única coisa que ela de fato podia controlar: seu próprio corpo. 08/12: • O Tablado e Maria Clara Machado (Documentário, X min) Direção: Creuza Gravina Sinopse: A história do Teatro Tablado e de sua fundadora Maria Clara Machado contada através de sessenta e dois depoimentos de ex-alunos de diferentes gerações, como Marieta Severo, Malu Mader, Cláudia Abreu, Lúcio Mauro Filho, Marcelo Serrado, Bárbara Heliodora, Ernesto Piccolo, Lupe Gigliotti, Louise Cardoso, Cacá Mourthé, Leandro Hassum, Andréa Beltrão e muitos outros, além dos professores do curso de teatro e de amigos que acompanharam o trabalho da escritora, como Gilberto Braga e Marcos Palmeira. • Pronto, Falei (Comédia, 90 min) Direção: Michel Tikhomiroff Elenco: Nicolas Prattes, Rômulo Arantes Neto, Kéfera Buchmann e Duda Santos Sinopse: Renato é um jovem tímido e inseguro, que expressa o que verdadeiramente pensa apenas através de e-mails. Escreve para o colega de trabalho, para a namorada, para os pais... não esconde nada, diz tudo o que pensa. Absolutamente tudo! E na hora de enviar... não envia. Grava na pasta de rascunhos. Um dia, sem nenhuma explicação, todos os seus rascunhos são enviados e, de uma hora para outra, ele precisa enfrentar as terríveis consequências de ser quem realmente é. • Muco - Contradição na Tradição (Documentário, X min) Direção: Oberom Sinopse: Dois irmãos brasileiros viajam à Índia a fim de entender as implicações que a prática milenar do Yoga, e seus princípios éticos (os Yamas), têm em nossa sociedade. Ao longo da jornada desvelam-se verdades ocultas da Índia que colocam em xeque a própria tradição do Yoga. • Sol (Drama, 107 min) Direção: Lo Politi Elenco: Romulo Braga, Everaldo Pontes e Malu Landim Sinopse: Um pai recém-separado, que não consegue se reconectar com a filha de dez anos, é obrigado a viajar com ela para o interior do País em busca do próprio pai que o abandonou quando criança e agora quer morrer. O convívio forçado com o pai que ele odeia e a imediata conexão de sua filha com o avô testa todos os seus limites, mas lhe dá a chance de se reaproximar da filha. • Clarice Lispector - A Descoberta do Mundo (Documentário, 102 min) Direção: Taciana Oliveira Sinopse: Ensaio documental criado a partir de uma seleção de depoimentos da escritora Clarice Lispector e entrevistas com amigos e familiares em uma costura poética visual de trechos adaptados da sua obra. Exibição de material inédito e resgate da participação da escritora no programa "Os mágicos" da TV Educativa, em dezembro de 1976. • # (Drama, 102 min) Direção: Caio Sóh Elenco: Paula Burlamarqui, Rhay Polster e Leo Rosa Sinopse: Bia Leal é uma celebridade moderna, modelo e blogueira bem-sucedida que está se preparando para a sua festa de comemoração de aniversário. Ao mesmo tempo, fica cada vez mais desconectada do mundo real e de sua própria família. Ela vive o seu melhor momento até que uma ameaça a faz questionar sua realidade. 15/12: • A Morte Habita à Noite (Drama, 94 min) Direção: Eduardo Morotó Elenco: Roney Villela, Mariana Nunes e Rita Carelli Sinopse: Após ser abandonado por Lígia, Raul deseja a bebida com mais vigor, contrai tuberculose e, entre postos de saúde e trabalhos transitórios, constrói uma doce relação com Cássia, uma jovem de dezenove anos. É a primeira vez que ela se apega de verdade a alguém. Porém, Raul, ainda fragilizado pelo sumiço de Lígia e pela doença, resiste em transformar a amizade numa relação amorosa. Com corpo e mente bastante corroídos pela doença, depara-se com Inês, uma mulher misteriosa que surge em seu quarto para uma última conversa. 22/12: • O Amor Dá Voltas (Drama, 94 min) Direção: Marcos Bernstein Elenco: Cleo Pires, Igor Angelkorte, Juliana Didone Sinopse: Os encontros e desencontros amorosos de André, um jovem médico que, ao retornar ao Brasil, após mais de um ano cuidando de doentes na África, descobre que havia trocado cartas de amor não com sua namorada de longa data, mas sim com a irmã da moça. Confiram a programação dos cinemas de sua cidade (principalmente os de rua) para não perderem nenhum lançamento. Informações coletas no Filme B e Ingresso.com

  • Crítica | Pinóquio de Guillermo Del Toro

    Um conto (não tão) infantil sobre a insurgência Divulgação: Netflix Há tantos filmes baseados em Pinóquio (o mais conhecido deles, obviamente, sendo o da Disney de 1940) que é até difícil de imaginar o que poderia ser trazido de novo em uma nova versão. Mas nunca se deve subestimar a capacidade imaginativa de Guillermo Del Toro e sua paixão pelo horror e pelo macabro, capazes de trazer frescor a uma história tão conhecida e replicada. O diretor mexicano posiciona seu filme na Itália fascista do período entreguerras, abrindo com um delicado e melancólico prólogo que nos mostra a vida de Gepeto (David Bradley) com seu filho Carlo (Gregory Mann) antes da trágica morte deste durante a I Guerra Mundial. Anos depois, um amargurado e bêbado Gepeto, sob a vigilância do Grilo Falante (Ewan McGregor), decide criar um boneco de madeira (também Mann) que ganha vida sob as mãos da Fada Madrinha (Tilda Swinton) e se vê dividido entre o amor ao seu pai, o desejo de conhecer o mundo e a lealdade ao regime de Mussolini, cuja sombra paira sobre todos. Ao situar o longa num período tão sombrio da história italiana, Del Toro subverte o tom original do livro - que muitas vezes foi usado como um conto de advertência moral às crianças obedientes - para transformar Pinóquio num símbolo de insurgência contra o fascismo. O diretor não se furta em ridicularizar o regime - trazendo até mesmo a figura de Mussolini para ser humilhada em determinada consequência -, e embora essa ambientação e inserção na história seja mais circunstancial do que prioritária à narrativa, não deixa de ser uma atualização bem-vinda aos temas do livro e que conversam com o cenário de extremismo político que vivenciamos atualmente. Essa abordagem mais diretamente política é um retorno bem-vindo após o tom mais comedido de obras como "A Forma da Água", levando em conta que o diretor não se fez de tímido em tratar temas difíceis como a Guerra Civil Espanhola em alguns dos seus longas iniciais, como "A Espinha do Diabo" e "O Labirinto do Fauno". Ao mesmo tempo, Del Toro não perde de vista o cerne da história, que é a relação de profundo amor entre Gepeto e Pinóquio, ainda que os personagens falhem um com o outro. Embora os traços mais memoráveis do protagonista sejam preservados - sua propensão à mentira e a se meter em enrascadas -, é interessante ver como aqui a desobediência do personagem é trabalhada dentro da relação com Gepeto, que também precisa superar seus próprios conflitos (em especial o luto por Carlo) para ser um pai melhor para sua criação. Todos esses temas são trabalhados dentro de uma eficiente mistura entre o lúgubre e fabuloso que se tornou a marca do diretor. Não deixa de ser um filme para crianças, mas em muitos momentos insere um teor mais sombrio e adulto que surpreende - mas nunca se dissocia do lado mais infantil. O trabalho de stop-motion é um primor técnico, assim como o elenco de vozes reunidas, onde se destacam McGregor (que faz também o trabalho de narrador), Bradley, Mann (no papel duplo de Carlo e Pinóquio) e Swinton (também em um papel duplo, como a Fada Madrinha e a Morte). "Pinocchio" não leva o nome de seu diretor à toa, já que carrega consigo alguns dos pontos mais fortes da trajetória e do estilo de Del Toro. Apelando tanto para crianças quanto para adultos com suas temáticas que até chegam a assustar, mas sem nunca perder um verniz humorístico e leve, o filme promove uma releitura do tom moralista da história original para apresentar a insurgência como o único caminho possível para se lidar com o autoritarismo e o fascismo. Tudo isso é amparado na magia do stop-motion, que ajuda a distinguir o filme dentre as várias versões de Pinóquio e se firmar como uma das melhores animações do ano. Nota: 4.5/5

  • Crítica | Smiley (1ª temporada)

    Um suntuoso banquete de clichês, romance e conforto Divulgação: Netflix Rejeição: substantivo; ação ou efeito de rejeitar (demonstrar repúdio). O ato de rejeitar é algo muitas vezes impulsivo baseado nos gostos pessoais de um indivíduo, somado muitas vezes à inaptidão de se abrir para novos horizontes. Em outras vezes, é algo que se determina por atitudes que nos causam afastamento. Em ambos os casos, quando se trata da relação humana, gera desconforto, no mínimo, além de raiva, mágoa, etc. É um tema bastante recorrente em obras que envolve o famoso 'enemies to lovers', presente em comédias românticas e romances, elevando o grau do clichê a níveis estratosféricos, ao passo que também continua a gerar emoções no espectador quando bem feito. 'Smiley', série espanhola que silenciosamente estreou na Netflix no dia 7 de dezembro, traz como tema principal o possível romance entre dois caras que teimam que se detestam. Ela nos apresenta Àlex e Bruno, dois homens gays na faixa dos 30 que por um grande acaso (ou não?) acabam se conhecendo. Ambos são marcados por relações afetivas passadas que não geraram bons frutos, e evidenciam isso cada vez que entram em contato um com o outro. Àlex é um barman orgulhosamente padrão que trabalha em um bar queer, enquanto Bruno é um arquiteto e alguém relativamente mais introverso. Ambos se esforçam para fazer o outro odiá-lo, e é justamente isso que os aproxima. Comédias românticas têm uma dependência de alguns fatores; o carisma dos protagonistas e a química deles são alguns dos mais importantes, outra coisa muito pertinente é a presença obrigatória de clichês. Se tratando da série, ela tem todos os fatores a seu favor, e um grande ponto positivo foi a decisão de escolher um cenário com gays adultos e marcados para guiar a história. Por mais que seja fofo ver diversas produções LGBTQIA+ em que os personagens estão vivendo seu primeiro amor, é revigorante quando surge algo que traz uma nova abordagem, além do grande bônus de ela ser bem produzida. Apesar de algumas coisas serem melhor compreendidas por quem tem certas vivências, ela consegue conversar bem com o espectador de maneira geral, independente da identificação com a história. A retratação da vida adulta e seus flagelos é bem colocada em diversas situações diferentes, e o texto fluido atrai a atenção do público de forma rápida. Além da presença de um elenco que tem uma energia de grupo que se encaixa com facilidade, aprimorando também seus personagens de maneira individual. Miki Esparbé traz um Bruno cativante mesmo que pareça arisco, enquanto Carlos Cuevas tem um Àlex carismático e irritante de um jeito atraente, além dos diversos coadjuvantes trabalhados durante os oito episódios. Divulgação: Netflix Solidão: substantivo; estado de quem está só, retirado do mundo ou de quem se sente desta forma mesmo estando rodeado por outras pessoas; isolamento. Um dos temas que aparece na série, a solidão, é retratada através de alguns personagens e com visões diferentes em cada um. A forma como a solidão atinge o ser humano muda de acordo com a perspectiva de cada um, por vezes é possível que vista de fora pareça dolorosa, mas quando vivenciada pela pessoa, é, na verdade, solitude. Essas abordagens dão uma camada a mais para a trama, exaltando ainda mais o seu comprometimento com quem está assistindo, ela não apenas insinua, ela adentra no tema. A série utiliza de dois personagens para aprofundar esse tópico, Javi e Ramiro, ambos mais velhos que os demais, e com histórico de escolhas que os levaram até onde estão. Não há sutileza em relação a isso, a série é direta e põe em tela o que deseja que seja visto e compreendido, traçando diálogos dolorosos e pessoais, fazendo o espectador mergulhar nessa vastidão. Ela também faz uso de aplicativos de pegação para amplificar a solidão na trama. Os momentos de vulnerabilidade dos personagens, onde estão curvados pela tristeza e sucumbem sempre ao mesmo caminho do qual eles próprios já estão cansados. A verossimilhança com a realidade faz com que essa parte se torne um pouco mais carrasca, é comum recorrer a aplicativos para sanar desejos ao passo que eles também fazem crescer um sentimento no íntimo da pessoa que gera uma repulsa. A repetição e a conexão robótica com outros usuários trazem à tona a sensação de fracasso e derrota, e vemos em tela com clareza a utilização disso para repassar todos esses sentimentos. Outro personagem em que é possível reparar uma nova abordagem de solidão, é Albert, interpretado pelo querido Eduardo Lloveras. Apesar de casado e estar em um relacionamento estável, vemos uma derrocada do personagem que parece não condizer com sua vida atual. A interpretação de Lloveras externa, inicialmente de maneira mais branda, esse sentimento, e que mesmo rodeado de amigos e de sua família, alguns acontecimentos o colocam dentro de uma espiral que parece ir cada vez mais para baixo. Divulgação: Netflix Atração: substantivo; cobiça, interesse ou vontade que alguém possui em relação a outra pessoa, ou coisa. Obviamente em uma produção como tema central o romance faria uso de atração entre seus personagens. Como dito anteriormente, os protagonistas tentam se repelir a todo custo, dando razões para odiarem um ao outro enquanto fingem que não estão atraídos. Nesse ponto, os atores escancaram a química que têm, fazendo com que Bruno e Àlex ganhem a torcida de quem assiste. Não se limitando apenas a eles dois, a série transita por diversos personagens enquanto brinca com o que os atrai, seja outra pessoa ou algo que almejam. Em relação à atração entre pessoas, ela trata com várias abordagens, desde a somente física até a romântica, e trabalha as subtramas de acordo com o que pretende expor. Não somente isso, ela faz uso também da aversão em alguns casos, quando há a perda de interesse e fica óbvio que talvez ali não exista mais algo que antes havia. Conforto: substantivo; ação ou efeito de confortar, estado da pessoa que se sente confortado, aliviado. Sendo uma obra LGBTQIA+ bem produzida e caprichada, 'Smiley' acaba se tornando aquela 'comfort series', pela forma com que aborda os temas que propõe e como consegue abarcar tantas personalidades e histórias dentro de sua trama. Sem qualquer prepotência, ela se mostra uma série objetiva e com diversas camadas no decorrer de seus episódios, sem medo de abordar temas conflituosos que poderiam gerar aversão do público. É demasiadamente reconfortante como ela se esforçou para caber dentro de tantas vivências e respeitosamente trouxe para as telas suas tramas diversificadas. Por mais que haja momentos de tensão, ela unifica todos os sentimentos e no final prova que é possível trazer alegrias abordando a realidade. Ela traz conforto em seus clichês, em seu romance e em sua solidão. É uma série sobre ser gay na vida adulta em um mundo tão caótico e subversivo, e fez isso com maestria. Nota: 4/5

  • Crítica | Meu Policial

    Com uma história sem charme, filme se monta sobre um grande e monótono flashback Divulgação: Amazon Prime Video A infelicidade romântica entre casais homossexuais sempre pareceu ser algo mais atrativo entre as produções com essa temática. Dando uma folga por um tempo e com lançamentos recentes de romance e leveza, 'Meu Policial' resolveu surgir trazendo de volta uma tentativa de drama baseada no sofrimento gay. A história, adaptação de livro homônimo, gira em torno de um romance proibido entre um curador de museu e um policial, que é casado com uma professora, em uma Inglaterra dos anos 50 onde a homossexualidade ainda era crime. O longa começa no presente, com os personagens já idosos, onde o curador está debilitado e necessita de auxílio e é recebido na casa do agora ex-policial e sua esposa, que são as únicas pessoas que ele conhece. Após essa apresentação, ele dá início a um longo e cansativo flashback mostrando o passado dos três e como se envolveram. A trama não é nova nem revolucionária em nenhum aspecto, além de batida tem uma execução cansativa, com um roteiro que se estende por longas duas horas, ele prova que mesmo com temas repetidos é possível errar ainda mais. A direção simplista faz com que ele se torne ainda menos atrativo, ao tentar repassar uma sensação de intimidade e visceralidade, ele mostra a sua falha que poderia ser a mais corrigível. O enredo, como já dito antes, se molda em forma de flashback, ele viaja no tempo sem ter um desenvolvimento de fato na trama, e entrega uma história rasa que não consegue emular nenhum sentimento do público. Apesar de tentar ter um tom dramático, ele faz com que o espectador sinta como se estivesse assistindo a algo supérfluo e alheio à sua atenção, que quando acabar não vai ficar nas lembranças o que viu. Divulgação: Amazon Prime Video O maior destaque fica por conta de David Dawson, que tem uma atuação certeira em relação ao que seu personagem pede. O seu Patrick consegue transparecer o seu sofrimento e sua interpretação faz com que ele seja o mais interessante dali, com camadas que ficam fáceis de compreender. Emma Corrin também faz uma boa entrega mesmo que sua personagem seja a mais limitada dentro da história. Nessa questão, só não se salva o intérprete de Tom Burgees, o policial, Harry Styles não tem nenhuma profundidade dramática, tornando o seu personagem o mais desinteressante e com uma ausência notável de emoções, apesar da direção cômoda em relação a ele. Não tem uma trilha que se destaque, ficando entre mediana e boa, mas que não se conecta com a trama e nem consegue fazer conexão com os sentimentos que o filme falha em repassar. Apesar de tudo, ele é visualmente agradável de assistir, a sua fotografia em tons frios fazem os olhos do público se sentirem bem, e é o que melhor se encaixa levando em conta o que o longa tenta propor. Para encerrar, a produção surgiu com um burburinho, mas que deixou claro ao chegar que não tinha potência para fazer barulho. Todas as suas peças são mal encaixadas, mesmo com as exceções boas. É uma sucessão de falhas que tornam o conjunto todo uma obra pífia. 'Meu Policial' é uma tentativa de romance que saiu sem forma, não tem charme algum, não consegue repassar sentimentalismo nem emoção e não tem um atrativo real além da curiosidade pelo cast (que, querendo ou não, já é algo com resposta óbvia antes mesmo do play). Nota: 2/5

  • Crítica | Reservation Dogs (2ª temporada)

    A nova leva de episódios eleva o já altíssimo nível da série Divulgação: FX Uma grata surpresa do ano passado, 'Reservation Dogs' finalmente retorna com novos episódios no Star+. A temporada começa praticamente onde a passada terminou, com Elora (Devery Jacobs) abandonando Bear (D’Pharaoh Woon-A-Tai) e partindo para a Califórnia com Jackie (Elva Guerra). Willie Jack (Paulina Alexis) e Cheese (Lane Factor) tentam confortar o amigo, enquanto também estão magoados com Elora. A dor da perda de Daniel (Dalton Cramer) ainda reflete na maioria dos personagens e nas atitudes que os movem. Se na temporada anterior Bear e Elora tinham um protagonismo maior, nesta eles dividem mais os holofotes com Willie Jack e Cheese. Não que eles tenham ficado de lado, porém, todos têm seus momentos de destaque e o texto aprofunda melhor cada um deles. O amadurecimento é o foco dos novos episódios, e o roteiro trabalha isso de uma maneira brilhante, dosando perfeitamente humor e drama. Nos primeiros episódios, acompanhamos Elora e Jackie na tentativa de chegar à Califórnia, se metendo em várias enrascadas, como esperado. É uma delícia de se assistir, enquanto a amizade das duas vai se desenvolvendo e se tornando uma das melhores da série. Apesar dessa nova amiga, Elora não consegue se esquivar da culpa de deixar Bear, mas ainda julga que fez o certo. Quando um acontecimento a faz retornar à reserva, ela precisa mais do que nunca do apoio de todos. Eles estão lá por ela, mas ainda há uma barreira no grupo e algumas coisas precisam ser ditas. A dinâmica gera conflito entre eles, o que é bem interessante de se acompanhar. Não há lados corretos, há jovens que erram e acertam e há um forte laço de amizade que ainda pode ser atado novamente. Devory James já havia mostrado seu talento na temporada passada e nessa ela confirma a que veio. A moça é um achado, assim como a maioria do elenco. Bear se sente abandonado, Willie Jack se sente traída (principalmente pelo fato de Elora ter ido embora com Jackie, uma suposta inimiga) e Cheese é o Cheese, que só quer que tudo e todos fiquem bem. Bear tem que lidar com o fato de ser deixado mais uma vez, antes por seu pai e por Daniel (como ele mesmo questiona) e agora por Elora. Ao longo da temporada, ele vai ganhando mais maturidade para lidar com as situações, seja no trabalho ou no eventual retorno de Elora à comunidade. O rapaz passa a trabalhar em uma construção ao lado do pai de Daniel. Em uma belíssima cena, os dois conversam em cima de um telhado enquanto o sol se põe, sobre a perda de Daniel. Os diálogos, a direção, a fotografia, tudo colabora para a perfeição, mas a atuação deles, e principalmente de Woon-A-Tai, eleva tudo a outro patamar. Os conflitos e dores do personagem estão expostos ali, tudo dentro de um garoto de tão pouca idade que não deveria ter que lidar com tanto. Willie Jack tem um dos melhores arcos da temporada, onde Paulina Alexis tem a chance de brilhar. Sem papas na língua, ela fere e ajuda na mesma medida, o que só dá à personagem mais camadas e complexidade. Quando uma professora entrega uma carta de Daniel a ela, em um dos melhores episódios do ano, não só da série, a jovem decide ir visitar a mãe de Daniel na prisão. A trama emociona e evoca fortemente a ancestralidade nativo-americana deles de uma maneira genuinamente bonita e tocante. É simplesmente de arrepiar. A cena é forte, cheia de diálogos impactantes que ressaltam a dor das personagens, bem dirigida e com atuações fantásticas. Como na temporada de estreia Willie Jack era responsável por boa parte do humor, aqui ela ainda é, mas trazer mais dramaticidade para sua história dá mais densidade a ela e mostra a versatilidade de Alexis, que passeia facilmente entre as tiradas cômicas e os momentos mais emotivos. Cheese, que é um poço de carisma, prefere o bem-estar de todos e sem se importar com ele próprio. Em um dos episódios, o menino é preso em um tipo de detenção para menores. Não só o episódio nos mostra bem mais do personagem, de como ele é inteligente, ainda que enxergue o mundo com uma certa inocência, mas também da amizade e de como ele é importante para o grupo, quando eles aparecem para resgatá-lo. O mais surpreendente? Cheese se recusa a ir e escolhe esperar. Não é tão surpreendente assim, porque passamos a conhecer ainda mais dele e sabemos que ele, geralmente, escolhe fazer o certo. Se os outros três principais são mais conflituosos em suas escolhas e nem sempre escolhem fazer o mesmo, ainda que saibam que podem machucar alguém, em Cheese vemos esse contraponto, de alguém que teima em se importar com o próximo e ter empatia. A empatia por ele é verdadeiramente é recíproca, pelo menos do ponto de vista de telespectador. O fato de a temporada ter dois episódios a mais do que a anterior, ajuda a coadjuvantes ganharem mais tempo de tela, como no ótimo episódio que foca na mãe de Bear e suas amigas. Imagino que muita gente não vá gostar dele por tirar o foco dos jovens. Mas é tão divertido, parece um filme bacana da Sessão da Tarde com um bocado de comédia. No entanto, essa meia hora ainda tem uma boa dose de drama, que desenvolve as personagens e nos ajuda a entender mais sobre elas e as suas relações com seus parentes mais jovens. O oficial Big (Zahn McClarnon), assim como no ano anterior, também tem seu episódio de destaque. É divertido, mas é de longe o que menos gostei, devo dizer. É inegável que eu adoro séries adolescentes, mas há uma parcela da população que ainda vira o rosto quando elas são o assunto, apesar da qualidade de várias delas. Ainda assim, muitas fazem um sucesso estrondoso, como ‘Euphoria’ (HBO Max), ‘Sex Education’ (Netflix), ‘Elite’ (Netflix), para citar só alguns exemplos atuais. Assisto e gosto de todas, ciente de suas qualidades e defeitos, mas nenhuma delas consegue fazer o que ‘Reservation Dogs’ faz. Em termos de qualidade, para mim, essa temporada só perde para a última de ‘Better Call Saul’ como uma das melhores do ano. Hoje em dia, o gênero é muito mais inclusivo do que já foi em meados dos anos 1990 ou 2000, mas a representatividade nativo-americana era pouquíssimo explorada até então. ‘Reservation Dogs’ chega com uma equipe talentosíssima de indígenas americanos por trás e na frente das câmeras, contando histórias belíssimas, emocionantes e engraçadas. A 2ª temporada pega tudo que deu certo na já excelente 1ª e eleva o nível do jogo, aprofundando seus personagens e suas raízes, em 10 incríveis episódios de pouco mais de 30 minutos (às vezes até menos), tudo isso embalado por uma trilha sonora para ninguém botar defeito. Sterlin Harjo e Taika Waititi sabem onde querem levar a narrativa e como chegar lá. Contar a história de descendentes de povos originários não é uma tarefa fácil e eles o fazem não só com uma trama extremamente atual, mas que honra suas origens e é um deleite de se acompanhar. Nota: 5/5

  • Crítica | Skinamarink

    Uma experiência aterradora sobre nossos medos mais primitivos Divulgação O cinema experimental tende a causar seu devido estranhamento no grande público. “Filme excêntrico conceitual indie? Tô fora” – dizem. E bom, a verdade é que muito do que se vende como “experimental” acaba se mostrando miseravelmente chato à medida em que exige demais daquilo que se diz estar escondido nas entrelinhas. Porém, em ‘Skinamarink’, longa-metragem de estreia do diretor e roteirista Kyle Edward Ball, essa lógica é subvertida em favor de uma experiência única que foge (e muito) do convencional. Não à toa, a produção causou grande burburinho nas redes ao ser considerado por muitos o filme mais assustador do ano. A trama segue Kevin e Kaylee, duas crianças que acordam no meio da noite e percebem que seu pai desapareceu sem deixar rastros. Além disso, portas, janelas e outros objetos parecem seguir o mesmo destino. No decorrer do filme, acompanhamos os garotos durante a madrugada e suas reações perante as coisas estranhas que estão acontecendo dentro da casa. Vale dizer, desde já, que tudo isso ocorre de maneira desconexa, em que grande parte da condução narrativa ocorre fora dos nossos olhos, já que vemos tetos, chão, paredes e as silhuetas dos pequenos, mas nunca seus rostos. Em uma incursão mais profunda, percebemos que a história possui muito mais camadas do que aparenta. A decisão de utilizar crianças como únicos personagens do enredo diz muito sobre a intenção do roteiro em deixar o espectador completamente à deriva. Pouco se sabe sobre o background daquela história, e é apenas através de alguns diálogos confusos entre os dois irmãos que podemos ir tendo a mera ideia do que realmente se passa – o que torna tudo ainda mais assustador. Divulgação A proposta é justamente causar estranheza, a qual vem atrelada a um sentimento deturpado de nostalgia. Isso porque o desenrolar da trama é especialmente voltado ao resgate de um dos sentimentos mais primitivos do ser humano: o medo do escuro. O longa explora nossos instintos mais infantis e utiliza um território familiar como artifício materializador de uma atmosfera hostil e obscura. Em síntese, a sensação de assistir aos momentos iniciais de 'Skinamarink' é análoga a de acordar de um pesadelo e se deparar com um quarto envolto na escuridão. Para criar essa atmosfera, o longa se utiliza de artifícios sensoriais para causar o efeito de “pesadelo”. Com uma câmera de efeitos granulados que remetem à tentativa dos olhos humanos de se adaptar ao escuro, a casa em que o filme é ambientado tem seus cômodos e corredores transformados em verdadeiros “espaços liminares”, termo utilizado para caracterizar lugares vazios, fora de contexto, que causam sensação desconfortável de medo, nostalgia e familiaridade. E é justamente nesse quesito que 'Skinamarink' é bem sucedido em sua empreitada, tornando-se impossível de esquecer. A atmosfera sombria pautada na incerteza do que se esconde nas trevas transforma o longa em uma verdadeira experiência imersiva. Tudo é perfeitamente pensado para causar desconforto: A câmera estática, o escuro, a ausência de som e o sentimento de dissociação da realidade atuam como condão de um filme que tem como principal objetivo assustar quem assiste. Os “jump scares” são moderados e, quando utilizados, encaixam muito bem com a situação em tela. Divulgação Todavia, é preciso fazer algumas ressalvas. Muito embora seja reducionista considerá-lo “chato”, o filme peca pelo excesso de cautela na hora de construir sua narrativa. Penso que poderia se dar muito melhor como um curta ou média metragem, já que, muito embora a tensão criada ajude a segurar os curiosos, a demora que o filme leva para engatar é uma verdadeira barreira, o que o torna maçante em diversos momentos. 'Skinamarink' é ousado, para dizer o mínimo. Redirecionar a atenção para imagens estáticas e deixar os sons e a imaginação do espectador fazerem o trabalho narrativo requer nada menos do que uma execução eficiente – e é o que ocorre aqui. Sabemos que trazer para as grandes telas experimentos dessa magnitude é uma tarefa difícil, e conseguir que deem certo é mais difícil ainda. Por isso, apesar de ter seus erros (e, confesso, a lentidão é o maior deles), o trabalho de Ed Ball é fulminante em sua finalidade. O medo é real, bruto e quase palpável. Assistir 'Skinamarink' à noite e sozinho foi talvez uma das experiências mais reais de terror que eu pude experienciar, com sequências que fazem gelar a espinha sem precisar mostrar muito, sendo essa é a genialidade de sua execução. Logo, fica de lição: não dá pra torcer o nariz logo de cara quando nos deparamos com “cinema experimental”, às vezes achamos coisa boa por aí. Nota: 4/5

  • Crítica | Avatar: O Caminho da Água

    Uma experiência cinematográfica que só James Cameron consegue proporcionar Divulgação: 20th Century Studios Um dos filmes mais esperados do ano, ‘Avatar: O Caminho da Água’, chegou recentemente aos cinemas e vem sendo bem recebido pelo público e crítica especializada. Mas será que a sequência do sucesso de 2009 - que por sinal, ainda é a maior bilheteria de todos os tempos - está a altura do seu antecessor? Ambientado após 14 anos do primeiro filme, acompanhamos a vida de Jake Sully (Sam Worthington) e Ney'tiri (Zoë Saldaña), que fazem de tudo para ficarem juntos após construírem sua família. No entanto, eles devem sair de casa e explorar as regiões de Pandora quando uma antiga ameaça ressurge, e Jake deve travar uma guerra difícil contra os humanos. Ao entrar numa sessão de ‘Avatar’, o espectador já espera efeitos visuais de alta qualidade. E, após assistir este longa, definitivamente as expectativas são mais do que superadas. Às vezes, custamos acreditar que boa parte do que é visto em tela é algo 100 por cento digital. A empresa Wētā FX (do diretor Peter Jackson), que também trabalhou nos visuais do primeiro filme, repetiu a parceria junto com James Cameron nesta sequência. Divulgação: 20th Century Studios E já que mencionamos James Cameron, neste longa ele dá uma aula de direção. Mesmo com grandes longas em seu currículo, ele consegue manter seu padrão de qualidade e não decepciona. Cameron sempre puxa o elenco a entregar o seu máximo em cada cena do filme. Outro fator que eleva a qualidade do filme é a forma como Pandora é ambientada. Conhecemos lugares que, até então, não haviam sido explorados no universo Avatar e é muito curioso como Cameron vem o expandindo. Foi muito legal conhecer os diferentes tipos de habitantes desse planeta e como cada tribo se difere da outra. A trama, indo no caminho inverso do primeiro filme, foca muito no emocional e na relação familiar que existe. Ao invés de piadas aqui e ali, temos momentos mais tocantes e que, para quem consegue se envolver na experiência, vai se emocionar de certeza. E ainda puxando pela emoção, muitas pontas são deixadas para futuras sequências, mais de uma forma muito seca e direta, o que talvez prejudica o roteiro. Apesar de ser básico e previsível em alguns aspectos narrativos, o roteiro acaba não prejudicando tanto a experiência de quem vai para se divertir. Mas, ao analisá-lo com mais cautela, podemos perceber que muito do que já foi usado no longa anterior e até em outros filmes de Cameron, se repetem aqui. Inclusive, podemos confirmar a grande obsessão dele em ver navios afundando. ‘Avatar: O Caminho da Água’ é uma grande experiência cinematográfica que só James Cameron consegue proporcionar. Com uma ambientação de deixar qualquer um surpreso e com um desenvolvimento de personagens que poderia ser melhor, o longa acaba agradando os fãs da franquia e pode até conquistar uma nova geração de fãs depois de mais de 12 anos do primeiro longa. Para futuras sequências, vai ser necessário sair dessa caixa de Pandora para não permanecer na mesmice. Nota: 4/5

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