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- Crítica | Elite (6ª temporada)
A temporada mais densa e menos histérica desde a primeira Divulgação: Netflix Os números não deixam negar que Elite é um dos maiores sucessos da Netflix desde seu lançamento. A série espanhola surgiu como um suspense adolescente em 2018 e de lá pra cá cresceu em audiência, elenco e alcance internacional. Mas à medida que novas temporadas iam surgindo foi ficando claro que, por vezes, os roteiristas e produtores não sabiam bem como administrar uma série com elenco fixo que se passa num colégio, afinal, por mais que demore, um dia todo mundo sai da escola. Foi então que os espectadores viram uma sólida primeira temporada aos poucos se desfazendo em trama rasas, personagens secundários desinteressantes e mudanças de elenco com motivações fracas nas temporadas seguintes. Eis que os criadores, Carlos Montero Castiñeira e Darío Madrona, assumiram a mesma ideia que a novela/série Malhação teve nos anos 90 de dar continuidade ao seu conteúdo tendo como plano de fundo o mesmo colégio, porém mudando o elenco e as tramas a cada novo ano. A quinta temporada foi claramente uma temporada de transição, onde os últimos nomes do elenco original deram espaço para os personagens secundários de temporadas anteriores assumirem o protagonismo. E aqui eu vou começar citando o que para mim foi a maior decepção com a sexta temporada, a falta de um fim simbólico para personagens que por anos seguiram carregando a série como Rebeka (Claudia Salas) e Cayetana (Georgina Amorós). O personagem Phillipe (Pol Granch) também deixou a série da temporada passada para essa, mas pelo menos teve um desfecho citado. Com o personagem Omar (Omar Ayuso) retornando na sétima temporada depois de também “sumir” na sexta, fica a expectativa de que em algum momento no futuro outros nomes também deem o ar da graça. Divulgação: Netflix Com as “vagas” de protagonistas em aberto, os personagens Isadora, interpretada pela argentina Valentina Zenere, e Iván, interpretado pelo brasileiro André Lamoglia, ganharam mais tempo em cena nesta temporada. Valentina já havia mostrado na quinta temporada o alcance do seu talento nas mais variadas situações que Isadora passou, porém André Lamoglia mostrou a que veio nessa temporada uma vez que seu personagem ganhou mais textura e mais profundidade, coisa que o ator soube entregar com sensibilidade e força projetadas em olhares sempre bem expressivos. Mas a bênção de Elite é também sua maldição mais uma vez. Antes mesmo da estreia da sexta temporada, a sétima já havia sido confirmada e dessa vez com uma gama nova de nomes que irão compor o elenco principal (inclusive o retorno de Omar como já citado). E isso preocupa uma vez que novos personagens da sexta temporada já não tiveram tanto espaço no texto dos oito episódios, como a carismática Rocío (Ana Bokesa) e o introspectivo Bilal (Adam Nourou). Os novos nomes que mais se projetaram na temporada foram o problemático casal de influencers Sara (Carmen Arrufat) e Raul (Alex Pastrana) e Nico (Ander Puig) que rouba a cena sempre que aparece. Então mais uma vez a série tem conteúdo demais para equilibrar em pouco tempo, e ainda assim parece que temos tramas que não saem do lugar. Ainda assim o roteiro traz temas socialmente relevantes como a homofobia no futebol, racismo, e transfobia abordados com clareza e precisão. Essa é a temporada mais densa, mais “sóbria” e menos festiva desde a primeira temporada. Existe um pessimismo no drama em todos os arcos que não permite uma leveza que se via aqui e acolá nas temporadas passadas. Isso não quer dizer que não tenha sexo, drogas, morte e todos os outros elementos hiperbólicos que configuram o estilo de Elite, porém houve uma preocupação maior com o que está sendo dito do que com o que está sendo mostrado por assim dizer. Se você chegou até a sexta temporada de Elite você já conhece a série, sabe do que ela se trata e como ela aborda suas problemáticas. Tem muitas consequências que às vezes tem poucas causas e vários furos no roteiro que a gente engole no calor do momento e isso tudo já virou marca. E se você chegou até a sexta temporada de Elite você também sabe exatamente o que esperar, então eu sinceramente não consigo compreender quem continue por aqui e espere que ela vire algo que não está no seu DNA. Mesmo tendo uma cena final digna da mais dramática das novelas mexicanas, esse foi um bom ano em Las Encinas onde ninguém se resolve por mais de dois dias, todo ano morre alguém e onde é proibido ter final feliz. Nota: 3/5
- Crítica | Desencantada
De fato, o encanto desapareceu Divulgação: Disney+ Antes de iniciar a crítica que vocês vieram ler, peço licença para voltarmos 15 anos no tempo para que eu possa brevemente escrever sobre Encantada (2007). À época, no auge dos meus 13 aninhos, eu não possuía plataforma para discorrer sobre a experiência incrível e – já sabia eu – inesquecível que tinha acabado de viver diretamente da sala de cinema, então permitam-me aproveitar essa oportunidade de hoje. Primeiro e mais importante de tudo: Amy Adams. Esse papel não ter rendido um Oscar a ela é um dos maiores crimes do cinema americano (e um grande exemplo de como a Academia falha em não considerar a comédia e o filme infantil como cinema). Não é qualquer um que consegue dar vida a uma princesa encantada cartunesca confusa ao acidentalmente cair na cidade mais caótica do mundo real. É muito específico. E, mesmo assim, ao longo de todo o filme, você sabe que Amy Adams nasceu para aquilo. Dos movimentos de mão, ao ritmo da caminhada em pequenos passos de valsa, ao gracioso balançar de cabelo até às expressões realisticamente artificiais – tudo em sua atuação consegue te convencer de que estamos, sim, diante de uma personagem 2d de carne e osso. Por mais absurdo que o plot seja, ela vende. O filme não funcionaria sem ela. Por sinal, todo o casting é impecável. James Marsden como príncipe Edward é um encaixe tão perfeito quanto o sapatinho de cristal no pé da Cinderela. O casal que ele forma com Adams encontram o contraste perfeito em Patrick Dempsey e Indina Menzel, expressamente mundanos, ainda que jamais ordinários (aliás, o que muitos consideram o único erro do filme – o fato de Indina, renomadíssima atriz da Broadway, não ter uma canção – é completamente entendível quando se lembra que ela não é uma personagem fantástica ainda). Divulgação: Disney+ Mas nem só de estrelas se faz um bom filme (eu sei que você também pensou em Cats). Não fosse pelo enredo ousado e inovador e pelas músicas absurdamente memoráveis, o filme não seria o clássico atemporal que nos faz parar para revê-lo pela enésima vez sempre que está passando. Sempre tive a suspeita de que Encantada foi a resposta da Disney à Shrek: uma paródia metalinguística sobre os contos de fadas que tornaram o Estúdio famoso. Porém, se este último, produzido na Dreamworks, concorrente direta da Disney, o fez em tom sarcástico, o primeiro, feito na própria empresa, não poderia fazê-lo. Conseguir abordar as extravagantes (e, convenhamos, por vezes bregas) utopias do mundo fantástico com iguais doses de humor e respeito com certeza exigiu uma dose de genialidade. O amor que o filme recebe até hoje condiz absolutamente com o mérito criativo da obra. Assim, diante de uma produção tão impecável, apenas comemorei o anúncio da sequência tantos anos depois. Aquele conhecido receio de “para que? só vai estragar o orginial” parecia descabido, afinal, com uma história tão rica e icônica, certamente a Disney iria investir em algo a altura. Mesmo que fosse inferior ao primeiro, precisaria de muito esforço para ser ruim. Mas, sinto dizer, o esforço foi quase o suficiente para isso. Divulgação: Disney+ Desencantada tem dois méritos: o primeiro é ter como base um universo tão querido pelo imaginário popular e saber bem aproveitar disso. Não digo apenas em relação ao primeiro filme, mas a todo o cosmo dos contos de fadas. As referências às diversas histórias que marcaram nossas infâncias se tornam uma diversão à parte, como brincar de Onde está Wally? no meio da sessão. É uma nostalgia deliciosa que torna o sorriso inevitável. Em segundo lugar, novamente, Amy Adams. Não fosse suficientemente difícil viver Giselle da primeira vez, agora ela enfrenta o desafio de incorporar, ao mesmo tempo (literalmente) princesa e madrasta, mocinha e vilã. E ela consegue. Em questão de segundos, muda a postura, a entoação e o olhar, sem jamais perder o cartunesco que vive na personagem. Dá gosto ver uma atriz de 48 anos (o que equivale a 70 em Hollywood) vivendo um papel de frescor tão jovem – e o melhor, se divertindo com isso! É visível o quanto reviver Giselle, agora também como produtora do longa, foi uma ótima experiência. Acredito, ainda, que o mesmo possa ser dito para todo o elenco e equipe de produção. De alguma forma, é possível sentir o prazer de (re)criar um mundo tão especial e recheado de magia. É uma pena que o restante não corresponda a esse encantamento – com o perdão do trocadilho. Lembro de ter estranhado quando a Disney divulgou a estreia diretamente em seu streaming e não nos cinemas, mas, depois de assisti-lo, faz todo o sentido. Toda a direção de arte, ainda que simpática, deixa claro o baixo orçamento – especialmente os efeitos especiais, que mais parecem efeitos de qualquer episódio de meia temporada de Feiticeiros de Waverly Place. Divulgação: Disney+ Dessa vez, a história de amor é entre Giselle e sua Morgan (as vezes sua filha, as vezes sua enteada), que, agora adolescente, enfrenta dificuldade de entender a “mãe”. No entanto, ao contrário do que o filme tenta nos convencer, Morgan está certa: Giselle, ainda presa entre a realidade e o reino de Andalasia, não é mais uma excêntrica mas cativante personagem, ela só é… chata. Egoísta ao deslocar toda a família para o subúrbio para satisfazer seus sonhos incompatíveis com o mundo que escolheu viver; inconveniente com as constantes canções motivacionais; e intrometida na vida alheia. Esse, ao meu ver, é o principal problema de Desencantada. O que era para ser um tributo ao primeiro, tornou-se uma versão que nos faz questionar se não estávamos enganados por 15 anos. Como ousam dar músicas tão monótonas e esquecíveis para a mesma personagem que eternizou” Como Ela Sabe que a Ama?”? Chata também é a história. A vilã (interpretada pela Maya Rudolph no seu melhor estilo Maya Rudolph), cuja única motivação é ser a dona da rua, não convence. Suas minions, releituras das meia-irmãs de Cinderela, não convencem no humor (apesar de feitas pelas maravilhosas Yvette Nicole-Brown e Jayma Mays, o que prova a fragilidade do roteiro). O “príncipe encantado” tem tão pouco tempo de desenvolvimento que sequer lembro seu rosto mesmo horas depois de ter visto o filme. Os demais personagens antigos funcionam, mesmo que unicamente através da memória do primeiro. Como bom personagem animado, Marsden não envelheceu um dia e está ainda mais cativante, mas é uma pena que não tenham dado mais espaço para seu Edward, que, trabalhando com o pouco que tem, rouba a cena sempre que aparece. O mesmo acontece com Dempsey, que, apesar de finalmente ter a chance de brincar de contos de fadas, o faz nas cenas mais dispensáveis. Rachel Covey, que retorna como Morgan, é quem se deu melhor em relação ao novo roteiro e, apesar de ser seu segundo grande projeto (ambos com a mesma personagem), consegue entregar tudo que a história pede. E, não menos importante, Indina Menzel ganha destaque e, finalmente, canta! Não diria que me arrependi de ver o filme. Os sorrisos que dei ao reviver uma história tão querida serão sempre válidos. No entanto, termino o filme me perguntando se não seria preferível só ter assistido Encantada de novo… pela octogésima vez. Nota: 2,5/5
- Crítica | Verão Fantasma (Mostra Online Floripa Que Horror!)
Onírico e musicalizado, o filme valsa pelo horror com liberdade Divulgação Ambientando em uma casa de praia que parece estar dimensionalmente distante da sociedade, 'Verão Fantasma' dá um mergulho no horror com uma abordagem não convencional. A história discorre em volta de Martin, personagem introspectivo que se isola nesse local em busca de um amigo de infância que desapareceu. É ali onde ele conhece Lucas, com quem acaba se envolvendo, até que surgem mais personagens 'intrusos' nesse cenário. Com uma textura de gravação caseira, o filme traz à tela uma sensação onírica através da trama, com um leve vai e vem entre presente e passado, ele vai se moldando inicialmente num leve drama até apresentar suas características de horror. Um ponto positivo do longa está na decisão criativa de mesclar o horror com o musical, algo já visto em 'Sinfonia da Necrópole' no próprio cenário nacional, e indo mais longe, em 'The Rocky Horror Picture Show'. Em 'Verão Fantasma', essa mescla é o que lhe dá um diferencial dentro do próprio enredo, deixando de lado a parte visual do terror sobre o que vai acontecendo aos personagens, ele foca no 'pós', utilizando os seus "fantasmas", por assim dizer. Ainda nesse tópico de musical, antes se apossar desse gênero, ele já dá indícios de que vai seguir uma rota diferente, no entanto, com cenas cansativamente arrastadas, ele apresenta momentos em que os personagens se descontraem através da música que destoam um pouco da proposta. Já a parte musical, em que há o uso de uma ópera bastante macabra, ele consegue se sair melhor, com uma execução originalmente sua e com uso de efeitos visuais que trazem melhoria para seu enredo. A utilização gráfica de elementos do mar o deixam num patamar só seu, onde pode trabalhar livremente. Divulgação O seu roteiro demonstra um desejo ávido de fazer cinema, de querer estar nesse ambiente de filmes, e apesar dos deslizes, o esforço merece gratificações. Já em relação a seus personagens, há uma falha de desenvolvimento, ele nos apresenta um protagonista que é visivelmente introspectivo, mas que não o trabalha ou o aprofunda bem, deixando-o um tanto superficial. Seus companheiros de cena também sofrem dessa mesma falta. Há também uma ausência de entrega no que diz respeito ao elenco, não vemos atuações marcantes ou que mereçam destaque. Apesar da simplicidade da produção, 'Verão Fantasma' merece créditos pela ideia e criatividade. Sendo seu ato final o melhor, ele ainda consegue se sair bem em seu início até chegar no ápice. Tem uma trilha simples, mas que se encaixa com a sua proposta, e que dá um toque de horror com uma sensação de nostalgia. Experimental e audacioso, ele é uma boa experiência para quem já curte o horror, e é um respiro de alívio em relação a ampliar temas e gêneros dentro do cinema nacional. Nota: 3/5
- Crítica | A Praia Do Fim Do Mundo (Mostra Cinema LABCeará - Lei Aldir Blanc)
A melancolia da arte como trunfo para mensagem de preservação Divulgação Localizada na cidade de Caucaia, no Ceará, a praia do Icaraí vem sofrendo uma destruição gradativa ao longo do tempo, com um abandono aparente por parte das autoridades responsáveis. A praia antes valorizada, acabou perdendo prestígio, se deteriorando em decorrência das ações humanas que culminaram em consequências naturais. 'A Praia do Fim Do Mundo', filme dirigido pelo cearense Petrus Cariry, se utiliza dessa trama e localidade para criar uma história original em Ciarema, uma cidade fictícia. Abordando o descaso do poder público com uma visão bastante artística, ele leva às telas uma mensagem de socorro inserida no meio de muita melancolia. Através das personagens Helena (Marcélia Cartaxo) e Alice (Fátima Macedo), que interpretam mãe e filha, acompanhamos todo o drama do abandono e do desabrigo das pessoas da comunidade que se veem obrigadas a irem embora por não haver uma solução viável para a permanência. A relação das duas é o que move toda a trama, com um toque de mistério envolvido, elas têm diálogos embativos em momentos específicos do longa, com um texto rápido e repleto de subjetividades. Apesar disso, ele se mantém enigmático do início ao fim, dando espaço para grandes cenas visuais e emblemáticas para a história, fazendo uso da ausência de falas por diversos momentos. Divulgação Ele se monta com uma trilha que tem um misto de instrumentais com sons naturais, tornando-o uma experiência imersiva muito agradável e reflexiva. Ajudando na imersão, há uma fotografia trabalhada em preto e branco e com foco nos cenários, expandido a visão do espectador para ir mais além do que o que está centrado em tela. Existe nele algo magnético, que concentra em seus minutos uma fórmula que faz com que o espectador fique antenado e atiça a curiosidade sobre o que está por vir. A direção de Petrus segue espetacular, e é muito satisfatório a forma como ele conduz cenas e atores, nos dando um conjunto de obra que encanta pelo trabalho bem executado. Marcélia Cartaxo, que é uma atriz sensacional, entrega aqui a sua personagem mais introversa com uma atuação acertada em todos os níveis que Helena pede. Seu maior poder está nos momentos de silêncio, em que ela conduz a personagem de tal maneira que torna impossível não apreciá-la e admirá-la ainda mais. Divulgação Perpassando por todos os dramas das personagens, o longa traz nas entrelinhas um sentimento de tristeza e de perda. Ele se utiliza de toque místico para retratar a urgência sobre a crise ambiental ali envolvida. Essa misticidade dá ao filme uma nova camada que consegue se mesclar diretamente com as histórias das personagens e com o enredo como um todo. Ele não entrega o mistério só por mistério, deixa subentendido várias nuances que vão se afunilando para um final consternador e ponderativo. 'A Praia do Fim do Mundo', além de seu propósito como filme e arte, é também mais um dos grandes acertos do cinema nacional e cearense. Tem uma veia artística esplêndida e deixa claro que estamos prontos para navegar por águas cada vez mais imersivas, criativas e fantasiosas. É um filme que vem pronto para ser discutido e apreciado, é desafiador e necessário, e pode ser considerado um presente de valor imensurável de Petrus Cariry para o público. Nota: 4,5/5
- Crítica | O Território (Citronela DOC - Festival de Documentários de Ilhabela 2022)
Lutando pela própria existência em meio a uma sociedade corrompida pela falta de empatia Divulgação: National Geographic A luta dos povos indígenas persiste desde a chegada dos portugueses ao Brasil, e, quando em 2018, para a vaga de presidência, ganhou o candidato que representava o avanço de tudo que havia de ruim, já se acendeu um alerta de que o país entraria em um período deturpado e de governabilidade excludente para quem não fosse rico ou branco. Bem antes disso já se ouvia os discursos acalorados contra demarcação de terras, o ódio escancarado contra indígenas e outras minorias, até que, mesmo após falas horrendas e de cunho depreciativo contra qualquer pessoa com o mínimo de decência, foi eleito o novo presidente. Com esse resultado, vieram os desmontes em diversas áreas do setor ambiental e de cuidado com Amazônia e natureza de modo geral, algo que foi se agravando mais e mais, e com a nomeação de um ministro do meio ambiente que tinha total intuito de destruí-lo em prol dos próprios bolsos, o pesadelo aumentou exponencialmente. O aumento de queimadas em regiões outrora de preservação e o aparelhamento com órgãos fiscalizadores para que se fizesse a famosa ‘vista grossa’, fizeram com que cada vez mais indígenas sofressem perdendo territórios e na maioria das vezes a própria vida. ‘O Território’, documentário produzido por Darren Aronofsky e Sigrid Dyekjaer e com direção de Alex Pritz, acompanha os Uru-eu-wau-wau, uma comunidade indígena no norte de Rondônia, e sua luta contra o desmatamento que se aproxima com rapidez da área demarcada onde vivem. Luta não somente pela preservação de sua terra, mas da própria existência. Com uma visão intimista sobre o cotidiano dos Uru-eu-wau-wau, a produção nos coloca dentro da situação de maneira que possamos enxergar a gravidade disso tudo de forma crua e sem qualquer maquiagem. Divulgação: National Geographic A nossa Amazônia é, por enquanto, ainda extremamente bonita, com uma extensão de florestas e rios, ela é como um paraíso que merece toda a preservação. Toda essa beleza foi transmitida para as telas neste documentário, que tem uma fotografia sublime e encantadora, e traz uma qualidade visual ímpar para a obra. A produção soube explorar com exuberância o poder que a natureza tem, repassando um aconchego e um desejo de estar ali naquele meio. O que agrega ainda mais valor a isto é a trilha, que veio simples e bem elaborada dentro da proposta do que o documentário queria mostrar ao público. Com um propósito óbvio desde seu início, ele aborda a temática mostrando a ação dos dois lados, explorando as possíveis motivações por trás das atitudes das pessoas que cometiam queimadas, e como isso estava muito acima deles. Fica claro o uso de peões menores para alardear o pânico enquanto os verdadeiros beneficiários agiam de longe. O ápice do documentário é, sem sombra de dúvidas, a infelicidade de registrar enquanto era produzido a morte de um membro importante dos Uru-eu-wau-wau, e a tristeza que isso desencadeia na comunidade. A maneira como eles reagem a esse evento trágico causado pelo homem branco, apesar de dolorosa é também bonita, a forma como eles enxergam a passagem de um de seus membros e como buscam força nisso para prosseguir na causa com mais afinco. 'O Território' é um documentário cru e objetivo, que usa da arte e das qualidades técnicas para transmitir algo tão importante. Além da mensagem, é bonito também poder conhecer um povo que enxerga a natureza como parte de si e o respeito que têm com tudo ao seu redor, o tratamento que dão à sua terra e a importância gigantesca que veem nela. Enquanto para o outro lado aquele território só é visto como uma possibilidade de lucro e benefícios que só surgiriam com a destruição do local e seus moradores. É, acima de tudo, uma produção urgente e necessária, que dá luz sobre os malefícios enfrentados atualmente em escala nacional. Nota: 5/5
- Crítica | Smiley (1ª temporada)
Um suntuoso banquete de clichês, romance e conforto Divulgação: Netflix Rejeição: substantivo; ação ou efeito de rejeitar (demonstrar repúdio). O ato de rejeitar é algo muitas vezes impulsivo baseado nos gostos pessoais de um indivíduo, somado muitas vezes à inaptidão de se abrir para novos horizontes. Em outras vezes, é algo que se determina por atitudes que nos causam afastamento. Em ambos os casos, quando se trata da relação humana, gera desconforto, no mínimo, além de raiva, mágoa, etc. É um tema bastante recorrente em obras que envolve o famoso 'enemies to lovers', presente em comédias românticas e romances, elevando o grau do clichê a níveis estratosféricos, ao passo que também continua a gerar emoções no espectador quando bem feito. 'Smiley', série espanhola que silenciosamente estreou na Netflix no dia 7 de dezembro, traz como tema principal o possível romance entre dois caras que teimam que se detestam. Ela nos apresenta Àlex e Bruno, dois homens gays na faixa dos 30 que por um grande acaso (ou não?) acabam se conhecendo. Ambos são marcados por relações afetivas passadas que não geraram bons frutos, e evidenciam isso cada vez que entram em contato um com o outro. Àlex é um barman orgulhosamente padrão que trabalha em um bar queer, enquanto Bruno é um arquiteto e alguém relativamente mais introverso. Ambos se esforçam para fazer o outro odiá-lo, e é justamente isso que os aproxima. Comédias românticas têm uma dependência de alguns fatores; o carisma dos protagonistas e a química deles são alguns dos mais importantes, outra coisa muito pertinente é a presença obrigatória de clichês. Se tratando da série, ela tem todos os fatores a seu favor, e um grande ponto positivo foi a decisão de escolher um cenário com gays adultos e marcados para guiar a história. Por mais que seja fofo ver diversas produções LGBTQIA+ em que os personagens estão vivendo seu primeiro amor, é revigorante quando surge algo que traz uma nova abordagem, além do grande bônus de ela ser bem produzida. Apesar de algumas coisas serem melhor compreendidas por quem tem certas vivências, ela consegue conversar bem com o espectador de maneira geral, independente da identificação com a história. A retratação da vida adulta e seus flagelos é bem colocada em diversas situações diferentes, e o texto fluido atrai a atenção do público de forma rápida. Além da presença de um elenco que tem uma energia de grupo que se encaixa com facilidade, aprimorando também seus personagens de maneira individual. Miki Esparbé traz um Bruno cativante mesmo que pareça arisco, enquanto Carlos Cuevas tem um Àlex carismático e irritante de um jeito atraente, além dos diversos coadjuvantes trabalhados durante os oito episódios. Divulgação: Netflix Solidão: substantivo; estado de quem está só, retirado do mundo ou de quem se sente desta forma mesmo estando rodeado por outras pessoas; isolamento. Um dos temas que aparece na série, a solidão, é retratada através de alguns personagens e com visões diferentes em cada um. A forma como a solidão atinge o ser humano muda de acordo com a perspectiva de cada um, por vezes é possível que vista de fora pareça dolorosa, mas quando vivenciada pela pessoa, é, na verdade, solitude. Essas abordagens dão uma camada a mais para a trama, exaltando ainda mais o seu comprometimento com quem está assistindo, ela não apenas insinua, ela adentra no tema. A série utiliza de dois personagens para aprofundar esse tópico, Javi e Ramiro, ambos mais velhos que os demais, e com histórico de escolhas que os levaram até onde estão. Não há sutileza em relação a isso, a série é direta e põe em tela o que deseja que seja visto e compreendido, traçando diálogos dolorosos e pessoais, fazendo o espectador mergulhar nessa vastidão. Ela também faz uso de aplicativos de pegação para amplificar a solidão na trama. Os momentos de vulnerabilidade dos personagens, onde estão curvados pela tristeza e sucumbem sempre ao mesmo caminho do qual eles próprios já estão cansados. A verossimilhança com a realidade faz com que essa parte se torne um pouco mais carrasca, é comum recorrer a aplicativos para sanar desejos ao passo que eles também fazem crescer um sentimento no íntimo da pessoa que gera uma repulsa. A repetição e a conexão robótica com outros usuários trazem à tona a sensação de fracasso e derrota, e vemos em tela com clareza a utilização disso para repassar todos esses sentimentos. Outro personagem em que é possível reparar uma nova abordagem de solidão, é Albert, interpretado pelo querido Eduardo Lloveras. Apesar de casado e estar em um relacionamento estável, vemos uma derrocada do personagem que parece não condizer com sua vida atual. A interpretação de Lloveras externa, inicialmente de maneira mais branda, esse sentimento, e que mesmo rodeado de amigos e de sua família, alguns acontecimentos o colocam dentro de uma espiral que parece ir cada vez mais para baixo. Divulgação: Netflix Atração: substantivo; cobiça, interesse ou vontade que alguém possui em relação a outra pessoa, ou coisa. Obviamente em uma produção como tema central o romance faria uso de atração entre seus personagens. Como dito anteriormente, os protagonistas tentam se repelir a todo custo, dando razões para odiarem um ao outro enquanto fingem que não estão atraídos. Nesse ponto, os atores escancaram a química que têm, fazendo com que Bruno e Àlex ganhem a torcida de quem assiste. Não se limitando apenas a eles dois, a série transita por diversos personagens enquanto brinca com o que os atrai, seja outra pessoa ou algo que almejam. Em relação à atração entre pessoas, ela trata com várias abordagens, desde a somente física até a romântica, e trabalha as subtramas de acordo com o que pretende expor. Não somente isso, ela faz uso também da aversão em alguns casos, quando há a perda de interesse e fica óbvio que talvez ali não exista mais algo que antes havia. Conforto: substantivo; ação ou efeito de confortar, estado da pessoa que se sente confortado, aliviado. Sendo uma obra LGBTQIA+ bem produzida e caprichada, 'Smiley' acaba se tornando aquela 'comfort series', pela forma com que aborda os temas que propõe e como consegue abarcar tantas personalidades e histórias dentro de sua trama. Sem qualquer prepotência, ela se mostra uma série objetiva e com diversas camadas no decorrer de seus episódios, sem medo de abordar temas conflituosos que poderiam gerar aversão do público. É demasiadamente reconfortante como ela se esforçou para caber dentro de tantas vivências e respeitosamente trouxe para as telas suas tramas diversificadas. Por mais que haja momentos de tensão, ela unifica todos os sentimentos e no final prova que é possível trazer alegrias abordando a realidade. Ela traz conforto em seus clichês, em seu romance e em sua solidão. É uma série sobre ser gay na vida adulta em um mundo tão caótico e subversivo, e fez isso com maestria. Nota: 4/5
- Crítica | Os Banshees de Inisherin
Um passaporte direto para Inisherin Divulgação: Searchlight Pictures Qual seria sua reação se um de seus amigos mais próximos deixasse de gostar de você do dia para a noite, e, sem sequer dar uma explicação? Esse é o dilema que Pádraic (Colin Farrell) passa quando Colm (Brendan Gleeson) decide que seu antigo amigo não faz parte da nova etapa de sua vida. Martin McDonagh (Três Anúncios Para Um Crime) consegue achar o tom perfeito em ‘Os Banshees de Inisherin’, que enquanto traz algumas das situações mais inusitadas, consegue as transformar em ótimos momentos dramáticos. Um dos muitos acertos do longa é o seu elenco, que muitas vezes nem precisa falar para nos levar a uma cidade do interior da Irlanda, neste caso a ilha fictícia de Inisherin. Farrell e Gleeson entregam uma dinâmica tão boa enquanto “brigados” que até me faz querer um prequel só para ver a antiga relação deles. O filme também conta com Kerry Condon interpretando Siobhán, irmã de Pádraic e Barry Keoghan interpretando Dominic, o filho do policial da ilha, que é considerado por muitos como o mais burro do local, ambos conseguem ter ótimos momentos em tela, e além de ajudar a principal dinâmica do filme, também mostram desenvolvimento de seus personagens. Ao pensar nas lindas locações que o filme se passa, não surpreende que o diretor de fotografia, Ben Davis, entrega visuais deslumbrantes, que até poderiam servir como uma propaganda para o turismo local. Além de conseguir perfeitamente capturar incríveis visuais naturais, os elementos adicionados à tela, no contexto da história, muitas vezes conseguem elevar as imagens criadas que deixam o público de boca aberta. Divulgação: Searchlight Pictures Se tem uma coisa que o espectador vai lembrar após sair da sala do cinema, é a única e incrivelmente criativa história de McDonagh. A incrível conexão que o espectador pode ter com pelo menos um dos personagens apresentados, cria um ambiente de autorreflexão, onde os temas mostrados brilham ao deixar quem o assiste pensando. Outro enorme elemento usado pelo diretor é a comédia, que eleva a história surrealista para um lugar onde todos os elementos exagerados funcionam. ‘Os Banshees de Inisherin’ é uma das melhores comédias do ano, e, ao passo que consegue trazer temas atemporais. O filme traz grandes atuações de Colin Farrell e Brendan Gleeson com uma dinâmica fantástica, além da incrível participação de Kerry Condon e Barry Keoghan. Apesar de ser uma história incrivelmente criativa, o filme pode acabar caindo no mesmo lugar do último longa do diretor, que apesar de ter chegado na temporada de premiações, caiu no esquecimento da maior parte dos espectadores. Nota: 4,5/5 *assistido em Toronto, Canadá
- Crítica | Chucky (2ª temporada)
Nem com muita oração é possível se livrar do brinquedo assassino Divulgação: Syfy/USA Network Sendo uma agradável surpresa de 2021, a série do Chucky, ícone da cultura pop desde os anos 80, logo foi renovada para uma nova temporada que se encerrou recentemente. Após os terríveis acontecimentos que cuminaram em um aparente fim para o boneco na primeira temporada, os três adolescentes sobreviventes retornam pensando que está tudo bem e que dessa vez estão em paz. Para quem já conhece o nosso ruivo adorável, está familiarizado com a síndrome de barata que ele tem: simplesmente não morre. Nessa atual temporada, Chucky mais uma vez volta como representante do caos e infernizando a vida de Jake, Lexy, Devon e de quem mais se meter em seu caminho. A série retorna com seu mesmo tom de comédia que continua sendo benéfica para as artimanhas do boneco, e desta vez, levados a um cenário envolvendo a igreja, a blasfêmia é uma das protagonistas mais cômicas. Ela tem como um dos seus pontos positivos o seu texto sem muitas complicações, em que tudo se encaixa com clareza sem a necessidade de explicações mirabolantes ou fora da realidade da série. O uso do drama em meio a comédia tem um bom casamento, e tudo sempre regado a muito sangue e morte. Divulgação: Syfy/USA Network Uma das maiores proezas de Don Mancini é saber aproveitar bem o universo que construiu e os personagens que inseriu nele ao longo do tempo. Uma das mais recentes, chegada nos filmes pós 2010, foi Nica, interpretada por Fiona Dourif (filha do ator que dá voz ao Chucky, Brad Dourif), e que nesse novo ano teve mais destaque sofrendo nas mãos de Tiffany. A sua personagem é, de longe, a que mais sofreu como alvo do brinquedo assassino, e Fiona se destaca bem dentro do proposto. Jennifer Tilly também é outra que teve um dos melhores aproveitamentos na trama, a noiva do Chucky não tem nenhuma noção de limites e entrega bons momentos durante os episódios, em especial o que é focado nela e em sua família. Já sobre o elenco teen, os três protagonistas que se esforçaram na primeira temporada, voltaram com interpretações mais limitadas e às vezes até incômodas, em especial Zachary Arthur, o Jake. O que deixa mais evidente a falta de um brilho a mais nos três é a chegada de uma nova personagem. Nadine, vivida por Bella Higginbotham é uma das melhores adições do elenco, com naturalidade e um carisma magnético, ela brilha sem precisar fazer esforço. Outra adição notável foi a de Lachlan Watson, intérprete de Glen e Glenda, e que dá um show nos dois papéis, trazendo personagens que se tornaram memoráveis em 2004 e que desde então não apareciam em obras do brinquedo assassino. Rápido resumo sobre a história de Glen/Glenda. Em 2004, no filme 'O Filho de Chucky' ('Seed Of Chucky' no original, e que não foi traduzido para o português de maneira justa), Chucky e Tiffany têm um bebê, e passado todo o questionamento de como aquilo aconteceu, temos a primeira a aparição do então Glen, que tem uma história bastante sofrida ao tentar encontrar a si mesmo enquanto descobre que os pais são assassinos. Ainda nesse filme vemos sua transição para Glenda, e após isso mais questionamentos lhe surgem até que ao final temos Glen e Glenda separados. Lachlan Watson é uma pessoa não binária assim como Glen e Glenda, e é muito satisfatório ver essa retratação de forma respeitosa e coesa (que também foi mantida na dublagem, ao escalarem Maria Fontenelle, também pessoa não binária). Divulgação: Syfy/USA Network Retornando para a série; como dito antes, o cenário desse novo ano envolve a igreja, para onde os três protagonistas são enviados após um ocorrido no primeiro episódio. Esse novo ambiente possibilita uma infinidade de caminhos para Chucky e para a história num geral. O leque de piadas se abre com opções diversas também. O ranking de mortes continua subindo por onde ele passa, e cada vez com mais elaboração e criatividade, no entanto trazendo um pouco de cansaço em algumas delas. Há também fortes referências a outros filmes marcantes, e é inegável como o Chucky fica fofo amordaçado e amarrado igual ao Hanibal, além da presença do "Chucky do Bem", do Chucky marombado e do Chucky careca (o general), que revigoram a imagem do boneco. Com essa nova temporada, a série conseguiu se reinventar um pouco mais, e vamos combinar que não há limitações em uma história que é protagonizada por um brinquedo assassino, né? Apesar disso, ela já demonstrou um pouco de monotonia e repetições, mas, ainda assim entretém de maneira orgânica, além de trazer risadas e muita tensão. O chuckyverso é um universo com muitas possibilidades e com muitos personagens bons que podem ser abordados se utilizados bem. Fica o aguardo para o próximo halloween e uma terceira temporada, mas também um desejo para que não se prolongue e saiba aproveitar do hype, mas enquanto isso; wanna pray? Nota: 3,5/5
- Crítica | Periféricos (1ª temporada)
Duas ficções científicas pelo preço de uma Divulgação: Amazon Prime Video Narrativas crípticas e labirínticas parecem ter se tornado, para o bem ou para o mal, um sinônimo para as carreiras do casal Lisa Joy e Jonathan Nolan, criadores de 'Westworld'. Embora eles não tenham criado 'Periféricos' (o showrunner é o escritor Scott Smith, enquanto o casal atua como produtores executivos), seus DNAs podem ser encontrados por vários cantos da série, sejam nas suas virtudes ou nos seus defeitos. Adaptando o livro de mesmo nome de William Gibson (conhecido pela trilogia Neuromancer), 'Periféricos' se inicia no interior dos EUA em 2032, onde a jovem Flynne Fisher (Chloe Grace Moretz) ganha a vida trabalhando com jogos e simuladores em realidade virtual. Ao substituir seu irmão, o ex-soldado Burton (Jack Reynor), num novo jogo que a transporta para a Londres de 2099, ela logo percebe que o que está vivenciando talvez não seja uma simulação e sim um futuro real, o que a coloca em conflito com forças que operam nesse futuro para afetar a sua própria realidade. Se soa confuso, é porque a série intencionalmente o faz ser. A primeira metade do episódio inaugural consegue habilmente nos imergir nessa estranheza entre as duas linhas do tempo, principalmente na primeira incursão de Flynne a Londres, sob a pele do irmão. O próprio retrato da capital britânica é um dos pontos de maior destaque da série: mesmo sendo um futuro longínquo, a cidade parece muito próxima ao que conhecemos dela hoje, mas significativamente menos povoada, contando com um design antisséptico, estéril e desprovido de vida, que sempre nos causa desconforto. Divulgação: Amazon Prime Video As respostas para o por quê disso (e outras questões) demoram a chegar, e aí reside o maior problema da obra, que insiste em manter seu público no escuro mesmo quando não há necessidade para tanto. Apenas no episódio 4, por exemplo, há explicação para os eventos apocalípticos que ocorreram entre 2032 e 2099 e que justificam o interesse dos núcleos de personagens de Londres em quererem acessar o passado de 2032. Ao mesmo tempo, o universo aqui apresentado e sua mitologia são constante e irregularmente expandidos a cada episódio, o que muitas vezes é feito através de diálogos expositivos (embora a série se esmere em sua produção técnica e na identidade visual). Com isso, vemos os personagens de 2032 aceitarem passivamente o acesso que tem ao futuro como se não fosse nada demais, enquanto os de 2099 parecem sempre conversar em códigos, como se o roteiro quisesse soar o mais rebuscado possível (mesmo que um dos episódios seja intitulado Fuck You and Eat Shit). Felizmente, a segunda metade da temporada compensa o ritmo e o hermetismo da primeira, entregando um ritmo mais consistente (e algumas respostas). Nela, porém, também fica nítido que parece haver duas séries em uma - e aquela situada em 2032 em muitos momentos se mostra mais interessante do que a 2099. Não fossem os detalhes que nos lembram que é um sci-fi, poderia ser facilmente um thriller policial nos moldes de outras obras que se passam em cidades interioranas, como 'Justified'. Essa simplicidade narrativa acaba se tornando um contraponto interessante à complexidade vista nos núcleos de Londres, mas houve momentos em que desejei uma maior articulação entre essas duas metades da série. Apesar dessas desigualdades, 'Periféricos' consegue entregar uma intrigante, ainda que desafiadora, primeira temporada que pode satisfazer os fãs de obras mais voltadas ao mistério. Não é trabalho fácil adaptar a densidade dos livros de William Gibson, mas a série consegue superar boa parte dos seus tropeços iniciais e crescer episódio após episódio. Contanto que saiba casar bem suas duas metades, ela pode superar a sombra indesejável deixada por 'Westworld' e fazer seu próprio nome dentro da ficção científica na TV. Nota: 3,5/5
- Crítica | Reservation Dogs (2ª temporada)
A nova leva de episódios eleva o já altíssimo nível da série Divulgação: FX Uma grata surpresa do ano passado, 'Reservation Dogs' finalmente retorna com novos episódios no Star+. A temporada começa praticamente onde a passada terminou, com Elora (Devery Jacobs) abandonando Bear (D’Pharaoh Woon-A-Tai) e partindo para a Califórnia com Jackie (Elva Guerra). Willie Jack (Paulina Alexis) e Cheese (Lane Factor) tentam confortar o amigo, enquanto também estão magoados com Elora. A dor da perda de Daniel (Dalton Cramer) ainda reflete na maioria dos personagens e nas atitudes que os movem. Se na temporada anterior Bear e Elora tinham um protagonismo maior, nesta eles dividem mais os holofotes com Willie Jack e Cheese. Não que eles tenham ficado de lado, porém, todos têm seus momentos de destaque e o texto aprofunda melhor cada um deles. O amadurecimento é o foco dos novos episódios, e o roteiro trabalha isso de uma maneira brilhante, dosando perfeitamente humor e drama. Nos primeiros episódios, acompanhamos Elora e Jackie na tentativa de chegar à Califórnia, se metendo em várias enrascadas, como esperado. É uma delícia de se assistir, enquanto a amizade das duas vai se desenvolvendo e se tornando uma das melhores da série. Apesar dessa nova amiga, Elora não consegue se esquivar da culpa de deixar Bear, mas ainda julga que fez o certo. Quando um acontecimento a faz retornar à reserva, ela precisa mais do que nunca do apoio de todos. Eles estão lá por ela, mas ainda há uma barreira no grupo e algumas coisas precisam ser ditas. A dinâmica gera conflito entre eles, o que é bem interessante de se acompanhar. Não há lados corretos, há jovens que erram e acertam e há um forte laço de amizade que ainda pode ser atado novamente. Devory James já havia mostrado seu talento na temporada passada e nessa ela confirma a que veio. A moça é um achado, assim como a maioria do elenco. Bear se sente abandonado, Willie Jack se sente traída (principalmente pelo fato de Elora ter ido embora com Jackie, uma suposta inimiga) e Cheese é o Cheese, que só quer que tudo e todos fiquem bem. Bear tem que lidar com o fato de ser deixado mais uma vez, antes por seu pai e por Daniel (como ele mesmo questiona) e agora por Elora. Ao longo da temporada, ele vai ganhando mais maturidade para lidar com as situações, seja no trabalho ou no eventual retorno de Elora à comunidade. O rapaz passa a trabalhar em uma construção ao lado do pai de Daniel. Em uma belíssima cena, os dois conversam em cima de um telhado enquanto o sol se põe, sobre a perda de Daniel. Os diálogos, a direção, a fotografia, tudo colabora para a perfeição, mas a atuação deles, e principalmente de Woon-A-Tai, eleva tudo a outro patamar. Os conflitos e dores do personagem estão expostos ali, tudo dentro de um garoto de tão pouca idade que não deveria ter que lidar com tanto. Willie Jack tem um dos melhores arcos da temporada, onde Paulina Alexis tem a chance de brilhar. Sem papas na língua, ela fere e ajuda na mesma medida, o que só dá à personagem mais camadas e complexidade. Quando uma professora entrega uma carta de Daniel a ela, em um dos melhores episódios do ano, não só da série, a jovem decide ir visitar a mãe de Daniel na prisão. A trama emociona e evoca fortemente a ancestralidade nativo-americana deles de uma maneira genuinamente bonita e tocante. É simplesmente de arrepiar. A cena é forte, cheia de diálogos impactantes que ressaltam a dor das personagens, bem dirigida e com atuações fantásticas. Como na temporada de estreia Willie Jack era responsável por boa parte do humor, aqui ela ainda é, mas trazer mais dramaticidade para sua história dá mais densidade a ela e mostra a versatilidade de Alexis, que passeia facilmente entre as tiradas cômicas e os momentos mais emotivos. Cheese, que é um poço de carisma, prefere o bem-estar de todos e sem se importar com ele próprio. Em um dos episódios, o menino é preso em um tipo de detenção para menores. Não só o episódio nos mostra bem mais do personagem, de como ele é inteligente, ainda que enxergue o mundo com uma certa inocência, mas também da amizade e de como ele é importante para o grupo, quando eles aparecem para resgatá-lo. O mais surpreendente? Cheese se recusa a ir e escolhe esperar. Não é tão surpreendente assim, porque passamos a conhecer ainda mais dele e sabemos que ele, geralmente, escolhe fazer o certo. Se os outros três principais são mais conflituosos em suas escolhas e nem sempre escolhem fazer o mesmo, ainda que saibam que podem machucar alguém, em Cheese vemos esse contraponto, de alguém que teima em se importar com o próximo e ter empatia. A empatia por ele é verdadeiramente é recíproca, pelo menos do ponto de vista de telespectador. O fato de a temporada ter dois episódios a mais do que a anterior, ajuda a coadjuvantes ganharem mais tempo de tela, como no ótimo episódio que foca na mãe de Bear e suas amigas. Imagino que muita gente não vá gostar dele por tirar o foco dos jovens. Mas é tão divertido, parece um filme bacana da Sessão da Tarde com um bocado de comédia. No entanto, essa meia hora ainda tem uma boa dose de drama, que desenvolve as personagens e nos ajuda a entender mais sobre elas e as suas relações com seus parentes mais jovens. O oficial Big (Zahn McClarnon), assim como no ano anterior, também tem seu episódio de destaque. É divertido, mas é de longe o que menos gostei, devo dizer. É inegável que eu adoro séries adolescentes, mas há uma parcela da população que ainda vira o rosto quando elas são o assunto, apesar da qualidade de várias delas. Ainda assim, muitas fazem um sucesso estrondoso, como ‘Euphoria’ (HBO Max), ‘Sex Education’ (Netflix), ‘Elite’ (Netflix), para citar só alguns exemplos atuais. Assisto e gosto de todas, ciente de suas qualidades e defeitos, mas nenhuma delas consegue fazer o que ‘Reservation Dogs’ faz. Em termos de qualidade, para mim, essa temporada só perde para a última de ‘Better Call Saul’ como uma das melhores do ano. Hoje em dia, o gênero é muito mais inclusivo do que já foi em meados dos anos 1990 ou 2000, mas a representatividade nativo-americana era pouquíssimo explorada até então. ‘Reservation Dogs’ chega com uma equipe talentosíssima de indígenas americanos por trás e na frente das câmeras, contando histórias belíssimas, emocionantes e engraçadas. A 2ª temporada pega tudo que deu certo na já excelente 1ª e eleva o nível do jogo, aprofundando seus personagens e suas raízes, em 10 incríveis episódios de pouco mais de 30 minutos (às vezes até menos), tudo isso embalado por uma trilha sonora para ninguém botar defeito. Sterlin Harjo e Taika Waititi sabem onde querem levar a narrativa e como chegar lá. Contar a história de descendentes de povos originários não é uma tarefa fácil e eles o fazem não só com uma trama extremamente atual, mas que honra suas origens e é um deleite de se acompanhar. Nota: 5/5
- Crítica | Encantado's (1ª temporada)
Com uma sucessão de acertos, a nova produção do Globoplay chega clamando para ser uma potência Divulgação: Globoplay Quando se fala em sitcom, os primeiros pensamentos são levados geralmente a 'Friends' e 'How I Met Your Mother', e algumas cabeças mais antigas vão dar um puxadinho para 'Seinfeld'. O gênero se popularizou lá pelos anos 50, com a chegada de 'I Love Lucy', 'The Dick Van Dyke Show' e outros clássicos que ficaram imortalizados na história da televisão. Trazendo para o cenário nacional, ao fazer essa pergunta as respostas seriam com séries majoritariamente dos anos 90 e anos 2000, por exemplo; 'A Grande Família', 'Sob Nova Direção', 'Tapas & Beijos', etc, no entanto, houve uma escassez do gênero por aqui, que acaba com a chegada de 'Encantado's'. Fruto da oficina de humor para roteiristas negros criada pela Globo, 'Encantado's' estreou no Globoplay no último dia 18. Criada por Renata Andrade e Thais Pontes, a série acompanha o supermercado Encantado's que também é a diretoria da escola de samba Jóia do Encantado, e quando o proprietário morre, seus dois filhos, Eraldo e Olímpia, recebem a missão de cuidar de ambas as coisas. Iniciando e finalizando no carnaval, temos onze episódios recheados de humor, samba e muita qualidade. Divulgação: Globoplay Escrita por Renata Andrade, Thais Pontes, Antonio Prata e Chico Mattoso, a série traz roteiros excelentes para seus episódios, no melhor estilo sitcom, elevando o grau de comédia em cada um deles, sendo seu melhor momento o 'Coisinha do Pai'. Com textos ágeis, ela se monta ao redor de um caos maravilhoso que possibilita instantes graciosos com um humor refinadíssimo captado pelos menores detalhes. Seu maior acerto está em não usar um tom escrachado e batido, comum na televisão brasileira, e que funcionou muito bem nos anos 2000, e saber dosar com atenção seus momentos de graça. Não somente o humor, a série mostra sua sagacidade ao estar atenta a pautas atuais, inserindo-as em seus diálogos de forma sutil, mas certeira, e sempre com um tom leve. Tem um desenvolvimento de história fascinante e traz uma naturalidade impecável. Ela passeia pelo drama, misticismo e romance sem alterar o tom do seu gênero, unifica os tópicos que levanta com piadas afiadas e que caem bem para cada situação. O seu elenco é uma obra de arte à parte, sendo ele integrado massivamente por atores e atrizes pretos. É de se pensar que uma série estreante, e com tantos personagens, fosse acabar se perdendo em algum momento, o que é bastante comum, se você analisar, ter algumas personas ficando de escanteio e até esquecidas. Contudo, o que temos aqui é um conjunto espetacular e bem engendrado em que tudo se encaixa. O enredo desenvolve bem os seus personagens principais e utiliza seus coadjuvantes com muita competência, fazendo com que todo o cast trabalhe bem e entregue uma interpretação condizente com o proposto para cada um deles. Divulgação: Globoplay A direção é comandada por Henrique Sauer, Naína de Paula e Deo Cardoso (diretor do filme cearense Cabeça de Nêgo), e é outro ponto positivo para esta produção. Assim como o roteiro, ambos estão afiados e conseguem transmitir o que a obra pede, com uma execução caprichada eles elevam ainda mais a qualidade que a série já tem. Além disso, há também uma fotografia muito bem pensada, que traz uma vivacidade que se encaixa magistralmente com o restante. Provando o que já era óbvio, 'Encantado's' mostra que nossa terra está mais que capacitada e pronta para entregar obras de qualidade em todos os gêneros e com maestria, até melhor que muitas gringas. O que não falta nesse Brasilzão é gente competente e criativa, que trabalha incessantemente para elaborar produções de qualidade, e que merecem dia após dia mais reconhecimento e mais apreciação por parte do público. A série é de fácil identificação por retratar o cotidiano de um supermercado, além de fazer um misto com algo presente na cultura brasileira, que é o carnaval. É um dos grandes acertos do Globoplay nessa reta final do ano, e esperamos que possam vir mais temporadas, e mais novas séries dessa oficina de humor. Nota: 5/5
- Crítica | Aftersun
A máxima de “cinema como a arte de esculpir com o tempo” levada a sério Divulgação: O2 Play/MUBI Ao decidir contar uma história em filme, o artista tem em suas mãos o desafio de dar ao público uma narrativa completa e suficientemente interessante em um período extremamente limitado. Para isso, normalmente fazem uso de conflitos grandiosos, clímaxes espetaculares e ações inusitadas. Do outro lado da tela, o público, já acostumado com esse padrão, espera esse momento extraordinário acontecer – e ele quase sempre acontece. Mas esse não é o caso de Aftersun, estreia da diretora Charlotte Wells, que também assina o roteiro. E por mais intimidador que possa parecer fugir desse padrão, originalidade de Welles teve resultado positivo: ao longo de 2022, a obra vem sendo aclamada nas mais diversas premiações internacionais, desde o Festival de Cannes ao British Independent Film Awards. Como um bom filme, Aftersun não faz questão de se explicar e conta com a paciência e lucidez do público. Desde o início sabemos se tratar da história de Calum (Paul Mescal), a completar 31 anos, e de Sophie (Francesca Corio), de nove. Mas quem são eles? Porque estão sozinhos nesse quarto? Calum parece jovem e descontraído demais para ser pai da menina, mas então por que estão juntos nessa viagem? Quem confiou a criança a um adulto com cara de adolescente e braço quebrado, incapaz de acender seu próprio cigarro? Devemos nos preocupar com a segurança dela? Qual a última vez que vimos um homem adulto e uma menina em relação tão íntima? Divulgação: O2 Play/MUBI Enquanto Sophie dorme, Calum liga para a recepção e reclama que, apesar de ter especificamente solicitado duas camas separadas, o quarto que foram alocados possui apenas uma, de casal. E assim entendemos que Sophie está em boas mãos. Algumas cenas depois, Calum corrige outros hóspedes que, assim como nós, parecem não entender a relação. Agora está afirmado que os personagens são, sim, pai e filha. É nessa calmaria que o filme se leva. Não adianta fazer perguntas, elas não serão respondidas ao nosso tempo. É preciso observar e esperar. Por sorte, ao fazer isso, contamos com o fascinante talento de Mescal, que consegue exprimir tudo que precisamos saber em toda sua sutileza e, com ela, cria uma dinâmica de imensa familiaridade em suas interações com Corio. Durante todo enredo temos a constante sensação de que estamos na iminência de que algo ruim vai acontecer. Na fotografia de Gregory Oke, as cores vibrantes contrastam com os enquadramentos inquietantes, dispostos, pela montagem de Blair McClendon, em planos muito mais longos do que estamos acostumados e de um sonoridade perturbadoramente silenciosa, instaurando um clima de desconforto e melancolia que nos deixam em estado de alerta. Mas nada nunca acontece, pelo menos não imediatamente. Os conflitos existentes – como a máscara de snorkel perdida em alto mar ou o desentendimento a respeito de uma canção do karaokê – não passam de atritos comuns numa relação indubitavelmente amorosa entre pai e filha. Até o ápice da tensão do filme, com um Calum embriagado mergulhando de madrugada enquanto Sophie tenta se enturmar com os adolescentes do hotel e fica trancada para fora do quarto, se resolve com um simples pedido de desculpas. E a vida segue. Divulgação: O2 Play/MUBI O longa não é sobre as férias de Calum e Sophie, mas sim sobre as memórias dessas férias. De fato, algo ruim aconteceu: não sabemos como, quando ou onde, mas Calum morre pouco tempo depois das férias. Entramos na mente da Sophie adulta (Celia Rowlson-Hall), de mesma idade que o pai tinha durante a história central, e, a partir de vídeos antigos e lembranças por esses despertadas, tentamos remontar aquela viagem de verão à Turquia para assimilar detalhes que a inocência infantil não permitiu que fossem enxergados (ou até foram, porém não com a maturidade devida). E os detalhes estão ali: no Tai Chi, nos livros de autoajuda, na outra rodada de bebida, na cuspida no espelho… Queremos conhecer aquele pai, de novo. Agora, talvez, um pouco melhor. Em Aftersun, assim como na vida, a história não é definida em alguns minutos. Não vai existir um grande plot twist e tampouco um mentor vai surgir nos orientando como seguir a jornada em busca do final feliz. Aqui, quem dá a ação e torna o conflito grandioso é o tempo – os 101 minutos de filme e as duas décadas que separam a Sophie criança da Sophie adulta. Nota: 4,5/5












