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- Crítica | Mais Que Amigos (TIFF 22)
A comédia romântica do ano. Divulgação: TIFF De tempos em tempos surge uma comédia romântica nos cinemas que ninguém espera, mas acaba surpreendendo na bilheteria, fazendo com que o gênero aposte menos em seu potencial e acabe lançando filmes com a mesma fórmula mudando apenas o elenco. No entanto, enquanto alguns estúdios continuam apostando no mesmo, a Universal decidiu dar uma chance a uma comédia romântica com uma casal que, apesar de já ter sido feito antes, nunca foi apresentado desta maneira em uma grande produção. Bros, 'Mais Que Amigos' no Brasil, conta a história de Bobby (Billy Eichner), um podcaster, que enquanto cria o primeiro museu de história LGBTQI+ dos Estados Unidos, acaba se apaixonando por Aaron (Luke Macfarlane) após o conhecer em uma festa. Sendo um homem autodeclarado emocionalmente indisponível, Bobby faz de tudo para que Aaron o dê uma chance. Divulgação: TIFF Não tem como falar do filme sem falar do seu histórico elenco, onde todos os papéis importantes, LGBTQIA+ ou hétero, são interpretados por pessoas que fazem parte da comunidade. A narrativa envolvendo o elenco em si, é um dos muitos pontos altos, dando a cada ator uma personalidade semelhante a seus outros trabalhos, enquanto eleva seus lados cômicos e criam momentos importantes para todos, ao invés de serem abordadas apenas por suas sexualidades. Além disso, é visível o trabalho que o diretor, Nicholas Stoller, teve com Eichner, que co-escreve o roteiro, conseguindo criar uma das comédias mais engraçadas em muitos anos. Mesmo seguindo a estrutura básica de filmes do gênero e tendo alguns clichês, eles se encaixam perfeitamente no longa, não usando de um drama excessivo para criar uma falsa compaixão com o personagem. Divulgação: TIFF Mais Que Amigos é um excelente exemplo de como Hollywood deve parar de apostar em histórias parecidas, como também incluir minorias nelas, na frente e atrás das câmeras, para que assim realmente consiga as tratar de maneira digna e fiel. Nota: 4.5/5
- Crítica | Glass Onion: Um Mistério Knives Out (TIFF 22)
Rian Johnson fez de novo. Courtesy of TIFF Enquanto muitas pessoas acabam levando críticas negativas para tomar seus horizontes, Rian Johnson conseguiu criar um de seus maiores sucessos, ambos em crítica e espectadores, após o polêmico ‘Star Wars: Os Últimos Jedi’. ‘Entre Facas e Segredos’ conseguiu conquistar o público após muitos anos sem um grande sucesso no gênero “who done it?”. A sequência do filme continua seguindo o detetive Benoit Blanc (Daniel Craig), agora sendo convidado para uma celebração onde os convidados terão que tentar descobrir quem cometeu um assassinato fictício. Courtesy of TIFF Introduzindo uma nova leva de distintos personagens ‘Glass Onion: Um Mistério Knives Out’ mais uma vez nos introduz a um seleto grupo de pessoas privilegiadas e cheias de poder, que tentam parecer amigáveis entre si, mas, na verdade, ocorrem diversos problemas que podem acarretar em assassinatos. Com grandes nomes como Edward Norton, Kathryn Hahn, Leslie Odom Jr., Jessica Henwick, Madelyn Cline, Kate Hudson e Dave Bautista, quem realmente se destaca é Janelle Monáe, que (sem dar spoiler) consegue captar o espectador com sua performance cheia de nuances conseguindo esconder os mistérios até uma das muitas revelações do filme. Courtesy of TIFF O trabalho e carinho que Johnson tem pela nova franquia é visível. Mantendo a comédia, mistérios e reviravoltas do primeiro filme, o diretor consegue inovar, nos levando a um ambiente totalmente diferente do anterior, tanto esteticamente, como na história. Desta vez vemos amigos que se envolvem com um anfitrião bilionário, todos querendo algo em troca por sua amizade, o que acaba levando-os para a Grécia. Apesar do filme se prolongar em alguns momentos, a energia dos atores contagia o espectador, que sempre está sendo entretido por um grande nome de Hollywood. Johnson também consegue adicionar referências datadas de 2020, desde o filme se passar no começo da pandemia, até citação a nomes de Hollywood e videogames populares do momento, que nos lembram de um tempo recente, mas que parece fazer parte de uma década atrás. Apesar de não ser gravado em filme como o seu antecessor, o visual do longa se mantém em um alto nível, adaptado a ambientações mais vividas e com tons claros. Mesmo com um jogo de câmera rápido e sagaz, Rian não busca esconder o mistério, sempre fornecendo todas as informações necessárias para resolvê-lo, mas tenta os guardar através de distrações criadas pelos próprios personagens. Courtesy of TIFF ‘Glass Onion: A Knives Out Mystery’ pode não ser melhor que ‘Knives Out’, mas ainda assim Rian Johnson consegue entregar mais um ótimo trabalho que vai entreter milhares de pessoas, desta vez em suas casas. Com um grande e chamativo elenco, o filme usa uma maneira esplêndida que vai agradar todos os fãs. Um mistério que ninguém vai ter que resolver é sobre um terceiro filme da franquia, já que Johnson e Craig confirmaram que a história de Benoit Blanc não acaba por aqui. Nota: 4/5
- A Academia de Cinema anunciou os filmes pré-selecionados para representar o Brasil no Oscar 2023
Marte Um, A Mãe e A Viagem de Pedro estão entre os longas pré-selecionados pela instituição. Divulgação; Paloma A Academia Brasileira de Cinema e Artes Audiovisuais anunciou hoje, 30 de agosto, os 6 filmes que possivelmente representarão o Brasil na corrida de Melhor Filme Internacional do Oscar 2023: A Mãe (Cristiano Burlan): A trama segue uma nordestina, vivida pela Marcélia Cartaxo, que mora na periferia de SP, em busca do filho que foi supostamente morto pela polícia. Elenco: Marcelia Cartaxo, Mawusi Tulani e Helena Ignêz A Viagem de Pedro (Laís Bodanzky) Segue Pedro (Cauã Reymond), o ex-imperador do Brasil, que busca forças físicas e emocionais pra enfrentar seu irmão, que usurpou seu reino em Portugal. Elenco: Cauã Reymond, Victoria Guerra, Rita Wainer, Luisa Cruz, Luise Heyer, João Lagarto e Isac Graça Marte Um (Gabriel Martins): A trama segue os Martins, família negra de classe média baixa, seguem a vida entre seus compromissos do dia-a-dia e seus desejos e expectativas, mesmo com a tensão de um governo conservador que acaba de assumir o poder no país. Elenco: Rejane Faria, Carlos Francisco, Camilla Damião, Cícero Lucas, Ana Hilário e Tokinho Carvão (Carolina Markowicz): A trama segue uma família no interior do Brasil que luta para cuidar de seu patriarca acamado quando uma enfermeira obscura oferece a eles um acordo para hospedar um traficante argentino que precisa urgentemente de um lugar para se esconder. Elenco: Maeve Jinkings, César Bordon, Rômulo Braga, Camila Márdila e Aline Marta Paloma (Marcelo Gomes): Inspirado em acontecimentos reais, o filme narra a história de Paloma, uma agricultora, mulher trans, que resolve casar-se num rito religioso com Zé, um servente de pedreiro. Desafortunadas coincidências transformam o evento numa manchete de noticiário nacional. A pacata vida da cidade no interior do Ceará é abalada pelo ímpeto de Paloma em se casar numa cerimónia litúrgica. Pacificado (Paxton Winters): A trama segue Tati, uma menina introspectiva de 13 anos que luta para se conectar com seu estranho pai, Jaca, libertado da prisão no momento turbulento das Olimpíadas do Rio. Elenco: Débora Nascimento, Cássia Nascimento e Bukassa Kabengele O anúncio do escolhido será feito dia 5 de setembro, próxima segunda-feira, pela Academia.
- Crítica | Os Fabelmans (TIFF 22)
Spielberg acerta mais uma vez ao mostrar um íntimo retrato de sua infância. Courtesy of TIFF Não é de hoje que diretores veem suas infâncias como uma inspiração a uma de suas películas. Recentemente, tivemos dois grandes acertos, 'Roma' e ‘Dor e Glória’, e até filmes divisivos como 'Belfast' e ‘A Mão de Deus’. Durante a pandemia, um dos grandes diretores da sétima arte decidiu que, enquanto se encontrava trancado com seus familiares, iria desenvolver o filme que sempre quis fazer. E assim nasce oficialmente ‘The Fabelmens', filme semi-biográfico baseado na vida de Steven Spielberg. Desde o primeiro momento do filme, Spielberg mostra que esta história não é só sobre ele, e sim seu amor por ele. Começando com a primeira experiência de Sammy Fabelman (Gabriel LaBelle) no cinema, o provocando a tentar recriar o que foi visto na tela, até anos depois, quando Sammy junta todos os amigos para fazer seus longas. Através dos filmes criados pelo personagem, ele sonda a genialidade do diretor,. Mas a real magia dessas sequências é a simplicidade, que enquanto mostram imagens de alta qualidade que não geram uma grande diferença ao público comparado ao real filme, conseguem fazer o espectador comprar a história que um adolescente está produzindo os filmes em questão. Courtesy of TIFF Junto a Labelle, estão Paul Dano e Michelle Williams, interpretando os pais de Sammy, e Seth Rogen, que dá vida a um amigo do casal, além das participações especiais feitas por David Lynch e Judd Hirsch. Enquanto Dano entrega um personagem recorrente em filmes, o pai que duvida do talento do protagonista, Williams brilha como a mãe, que, apesar de fazer tudo pelos seus filhos, também lida com seus próprios problemas e dilemas. Rogen mostra um novo lado dele, e mesmo tendo momentos cômicos, consegue entregar uma performance que não necessita de risadas para ser lembrada. No entanto, quem rouba a cena, mesmo com poucos minutos de tela, são as duas participações especiais, que conseguem não somente guiar o protagonista a um novo rumo, mas também trazer novos elementos à narrativa. Este é mais uma das muitas colaborações de Spielberg com Tony Kushner no roteiro, time que recentemente trouxe a nova e aclamada versão de ‘Amor, Sublime Amor’ às telonas. Descrito como um processo de terapia pelo diretor, é visível como ele tem um carinho especial por todos os personagens, mas não teme mostrar em nenhum momento a real, triste e pesada realidade que o filme se encontra, um lugar com anti-semitismo e problemas familiares. Courtesy of TIFF Mais uma vez, Steven Spielberg prova que não devemos duvidar de sua capacidade, e constrói uma apaixonante e inspiradora versão de sua adolescência. Além de contar com incríveis atuações, o filme vem com visuais magníficos, que maravilham o espectador enquanto o transporta ao período temporal. 'The Fablemens' foi a escolha certa feita pelo diretor, que continua provando que se depender de sua criatividade e entusiasmo sua carreira está longe de acabar. Nota: 4
- Giovanna Lancellotti é Carmen Miranda no cinema, em novo filme de Esmir Filho
Longa será filmado em 2027 nos Estados Unidos e no Brasil, com produção da Ananã, Producing Partners, GL e H2O. Imagem: Divulgação O cinema brasileiro se prepara para um de seus projetos mais ambiciosos dos últimos tempos: a cinebiografia de CARMEN, que apresentará Giovanna Lancellotti no papel da eterna "Pequena Notável". Com direção de Esmir Filho (“Homem com H”), o longa-metragem vai retratar a trajetória da mulher icônica que foi uma das maiores estrelas de Hollywood de todos os tempos. O projeto surgiu há quatro anos quando a atriz, que se tornou produtora do filme, ficou fascinada pela personagem e se debruçou em uma minuciosa pesquisa sobre Carmen Miranda. Com roteiro, ainda em desenvolvimento, assinado por Mariana Bardan e Eduardo Melo (“Cangaço Novo"), o projeto une grandes nomes da indústria audiovisual brasileira e internacional. A produção é da Ananã Produções, de Julio Uchôa, da novaiorquina Producing Partners (vencedora de 3 prêmios Emmy e com 13 indicações), dos sócios brasileiros Tatiana Issa e Guto Barra, e da GL Filmes, de Giovanna Lancellotti. A H2O Produções é coprodutora, tendo os produtores associados Sandro Rodrigues e Irina Neves à frente do projeto. A distribuição nos cinemas brasileiros será realizada pela H2O Films. As filmagens serão realizadas nos Estados Unidos (Nova York) e no Brasil (Rio de Janeiro, Maricá e Petrópolis), no segundo semestre de 2027, e o lançamento comercial está apontado para 2028. Nas fotos de Bob Wolfenson, Giovanna veste o figurino inspirado na icônica apresentação de Carmen, em 1941, com o número “Rebola a Bola”. Giovanna Lancellotti iniciou a preparação para o filme há dois anos, com um rigoroso e abrangente processo artístico, corporal e de pesquisa. No Rio de Janeiro, tem aulas semanais de preparação de corpo e coreografia com Márcia Rubin e Vanessa Garcia, que conduzem um minucioso trabalho para aproximar os dois corpos, da atriz e da personagem, investigando a essência e os afetos que moldam os movimentos de Carmen Miranda. Felipe Habib, que assina a direção de performance e preparação musical do longa, realiza encontros semanais com a atriz para conduzir seu desenvolvimento técnico, ampliando sua extensão vocal e complexidade musical para responder às exigências artísticas da personagem. Nas fases de pré-produção e no set de filmagem, Felipe acompanhará de perto Giovanna e todo o elenco que canta e toca no filme, alinhando a entrega da performance musical à interpretação cênica em tempo real. “Carmen” tem patrocínio da Caixa Vida e Previdência, Caixa Consórcio e JGP Gestão de Recursos, além do investimento institucional da CODEMAR (Companhia de Desenvolvimento de Maricá), com apoio da Caixa Seguridade.
- 'Sem Pai Nem Mãe', comédia de André Klotzel protagonizada por Alexandre Nero, chega aos cinemas em 19 de novembro
Com Manoela Aliperti, Caio Horowicz e Pamella Machado no elenco, longa ganha pôster oficial. Imagem: Divulgação A comédia dramática “Sem Pai Nem Mãe”, escrita, produzida e dirigida por André Klotzel (“A Marvada Carne”, “Memórias Póstumas” “Reflexões de um Liquidificador”), chega aos cinemas de todo o Brasil no dia 19 de novembro. O filme, estrelado por Alexandre Nero, Manoela Aliperti, Caio Horowicz e Pamella Machado, ganhou seu primeiro pôster oficial. A trama gira em torno de Artur (Nero), um comediante com uma vida desregrada, um relacionamento em conflito e uma casa que vive de portas escancaradas. Absorto com a produção de um livro sobre uma jovem guerrilheira dos tempos da ditadura, tem a única versão do texto levada por ladrões que roubam sua casa e seu laptop. No elenco estão ainda Paulo Tiefenthaler, Julia Ianina, Dalton Vigh, Rafael Losso, Aramis Trindade, Rubens Santos, Bruno Bellarmino, Karen Accioly, João Paulo Bienemann, além das participações de Luis Miranda e Paulo Vieira. Imagem: Divulgação O roteiro de “Sem Pai Nem Mãe” é assinado pelo próprio André Klotzel, ao lado de José Roberto Torero. A Brás Filmes, produtora de Klotzel, distribui e produz o longa, juntamente dos coprodutores da Aurora Filmes e Plate Filmes, Rui Pires e André Montenegro. Sinopse oficial: Artur é um comediante de stand-up com uma vida desregrada, um relacionamento em conflito e uma casa que vive de portas escancaradas. Ele está totalmente absorto com a produção de um livro sobre uma jovem guerrilheira que, durante a Ditadura, participa de ações armadas. Quando a única versão do texto é levada por ladrões que roubam sua casa e seu laptop, Artur fica obcecado em encontrar os responsáveis para recuperar o computador, e terminar de contar a história da sua vida.
- Crítica | Ninguém Quer (1ª temporada)
Veronica Mars e Seth Cohen em uma série de comédia romântica? Nem precisava ser tão boa, mas é Foto: Divulgação/ Netflix Quando foi anunciada, eu já estava vendido só por saber que seria estrelada por Kristen Bell e Adam Brody, dois atores que adoro por ter acompanhado na adolescência Veronica Mars e O.C.: Um Estranho no Paraíso, duas das minhas séries teen favoritas. E quem conhece os dois sabe que Veronica e Seth formariam um belo casal e Ninguém Quer só comprova isso, mesmo com personagens diferentes. Aqui, Kristen é Joanne, uma mulher solteira que tem um podcast com a irmã Morgan (Justine Lupe), onde falam sobre suas desventuras românticas e sexuais. Já Adam faz o papel de Noah, um rabino que acabou de sair de um longo relacionamento. Os dois se conhecem em um jantar na casa de uma amiga em comum e o interesse é mútuo, mesmo com tantas diferenças já visíveis, mas a barreira religiosa pode impedir que as coisas entre eles evoluam. Criada por Erin Foster, é uma comédia romântica com todos os clichês possíveis e isso não é uma coisa ruim, pela maneira como eles são apresentados. Mesmo seguindo por caminhos previsíveis, a série tem um texto ágil, moderno e esperto, que sabe utilizar referências com dinamismo, fazendo do humor um de seus maiores trunfos, através do exagero e do sarcasmo. Bell e Brody têm um excelente timing cômico, e além, claro, de uma química maravilhosa que deixa impossível não torcer pelo casal. Ambos os personagens têm semelhanças com outros que já interpretaram, mas eles têm talento e carisma suficientes para se diferenciar. O fato de o empecilho principal do casal ser a religião é uma das coisas que mais me agrada porque traz uma certa inovação dentro do gênero. Claro que há uma ex na jogada, mas Noah sabe bem que é Joanne quem ele quer, no entanto o judaísmo tem algumas regras mais rígidas, e claro, a mãe dele, que não facilitam o envolvimento dele com uma shiksa (uma mulher mundana, digamos assim, em hebraico). Foto: Divulgação/ Netflix Além do casal principal, os excelentes coadjuvantes elevam o nível da série. Justine Lupe, a Willa de Succession, está excelente como Morgan e Timothy Simmons, o Jonah de Veep, fantástico na pele de Sasha, o irmão bobão de Noah. Eles até brincam que são “os irmãos derrotados”, o que é mais um clichê, mas clichês são clichês porque funcionam e aqui não fogem à regra. Sasha é também o marido dominado de Esther, papel de Jackie Thorn, que está muito bem como a megera da vez, por ser amiga de Rebecca (Emily Arloock), mas que Joanne vai conquistando também aos poucos. As mães, devo dizer, também são outro achado. Bina é a mãe de Noah, que, obviamente não aceita seu filho com uma mulher tão livre quanto Joanne e tem algumas sacadas maravilhosas. É quase uma vilã que a gente adora odiar, graças ao talento de Tovah Feldshuh. Com um pouco menos de destaque temos Lynn, mãe de Joanne, que rouba a cena sempre que aparece por ser meio alheia a tudo de um jeito maravilho e que Stepahanie Faracy consegue fazer com maestria. São dez episódios facilmente devoráveis que parecem até menos por conta do formato Netflix, onde um termina e outro já começa, sem parecer fim de nada, mas apenas um corte de uma cena para outra, ainda que seja uma pouco episódica. Há uma leveza na trama que a deixa muito gostosa de se assistir e a construção do relacionamento é um tanto crível, ainda que rápida, mas condiz com o desenvolvimento dos personagens, porque parecia ser tudo que eles necessitavam naquele momento da vida. Há pouca complexidade envolvida e poderia ter mais para enriquecer a série, mas às vezes tudo que a gente precisa depois de um dia difícil é torcer para um casal e dar boas risadas. Ninguém Quer é justamente isso e não tem pretensão de ser mais. Há potencial para muitas temporadas e espero que elas venham, só não demorem dois anos para chegar. O que já é ótimo ainda tem espaço para amadurecer. Nota: 4/5
- Crítica | A Substância
A mulher que virou suco Foto: Divulgação Se em Barbie (2023), a diretora Greta Gerwig cria um universo comicamente superficial, em A Substância (2024) temos um universo superficialmente grotesco. No geral, ambos os filmes abordam a matriz do tema que move a engrenagem de todas as problemáticas: o patriarcado. Partindo de uma perspectiva de um mundo dentro do mundo, o cenário que acompanhamos é sempre fechado e visto apenas pela perspectiva da personagem, seja de Elisabeth Sparkle ou da Barbie. A Barbie se vê ameaçada em um mundo dominado por Ken's; já Elisabeth é substituída quando se dá conta de que, nesse mundo, é o olhar masculino quem dita as regras. Em A Substância, uma atriz é considerada "velha demais" para continuar trabalhando em Hollywood. Ela decide recorrer a um controverso programa de rejuvenescimento, que usa uma substância milagrosa para restaurar sua juventude. No entanto, o tratamento tem um custo alto: Elisabeth (Demi Moore) começa a dividir seu corpo com uma versão mais jovem e melhorada de si mesma, chamada Sue (Margaret Qualley). Conforme Sue ganha controle, Elisabeth perde sua própria identidade, mergulhando em um pesadelo surreal. Desde a cena do “parto” de Sue, que resulta nessa troca de corpo, é como se a personagem partisse da mesma lógica da Barbie quando transita entre a Barbieland e o mundo real. Se em um mundo os problemas do patriarcado ainda conseguem ser mascarados, no outro, eles são escancarados e assombram a personagem. Sue é quase como uma espécie de Barbie instrutora de zumba, insistindo em viver em um mundo artificial e idealizado, longe dos verdadeiros problemas, seja o patriarcado ou a simples ação natural do tempo. Entre essas transições, que ocorrem a cada sete dias entre um corpo e outro, até que ambos os mundos colidem e o problema vem à tona — o que ocorre justamente quando, em Barbie (2023), a personagem de Margot Robbie vê seu mundo sendo tomado pelos Ken's. Há um minimalismo na forma que é facilmente justificado em A Substância, quando o filme se inclina a explicar como funciona cada mecanismo daquele universo que nos é apresentado, ao mesmo tempo que maximiza questões através de personagens caricaturais e situações de completo exagero. Por vezes, o filme está tão focado em causar mal-estar que perdemos qualquer percepção da realidade, com hiperestímulos que acabam derrapando nos mesmos problemas de Triângulo da Tristeza (2022). Isso não é necessariamente um problema, mas quando juntamos isso aos flashbacks incessantes e à montagem dialética, que parte para um caminho mais didático e insiste em contar a mesma história mais de uma vez, quase subestimando o espectador, o filme acaba pecando nessa falta de sutileza. Por outro lado, a caricatura dos personagens masculinos é bem-vinda dentro da proposta do filme, pela forma como as mulheres precisam lidar com homens medíocres a nojentos. Tudo isso é capturado pelas lentes da diretora Coralie Fargeat, que utiliza grande angular para apresentar a figura do homem que invade o espaço da mulher com seu olhar evasivo e sua postura opressora. Temos essa representação máxima na figura do personagem de Dennis Quaid. Foto: Divulgação De início, a trama do filme parece se inclinar a algo que me remeteu ao filme A Malvada (1950), no sentido de abordar o envelhecimento e a perda de fama em Hollywood, bem como a influência corrosiva dessa indústria em suas estrelas. Ao mesmo tempo, ele parece se fechar na realidade apenas da personagem de Demi Moore, uma mulher vaidosa e apegada à fama. O conto moral deixa aberta uma lacuna que cabe ao espectador preencher com suas próprias percepções. Eu, particularmente, penso na idealização do corpo feminino na nossa sociedade, partindo da estética Kardashian-Jenner, onde o corpo passa por tendências e se torna uma mercadoria, tratado como um fetiche de consumo. Qualquer corpo fora do padrão é subjugado. Podemos até mesmo considerar a questão do Ozempic, que tem se tornado um problema de saúde pública, para atualizar ainda mais o assunto e aproximá-lo da nossa realidade. Apesar de o filme não se passar na era das mídias sociais, onde o esteticismo físico e o estilo de vida irrealista são projetados para serem engajados por curtidas e compartilhamentos, o universo apresentado funciona muito bem no zeitgeist atual. O filme funciona como uma sátira que denuncia a obsessão da sociedade pela eterna juventude, usando as redes sociais como uma espécie de vitrine do corpo ideal. Essa busca muitas vezes é alcançada por procedimentos cada vez mais invasivos. Em uma sociedade onde as pessoas estão cada vez mais dispostas a mutilar seus corpos para atingir padrões de beleza irreais, a diretora Coralie Fargeat resolve representar esse momento através de cenas de horror corporal. Quando essa temática é representada pelo horror corporal e caminha para o fantástico, o filme começa a prender um pouco mais minha atenção. Fargeat leva a premissa do horror corporal longe demais, quase como se estivesse empenhada em completar uma lista de verificação do tema. Unhas e dentes são arrancados, feridas são cutucadas, e novas transmutações surgem, quase como um Frankenstein amontoado de carne. Sequências claustrofóbicas e hiperestilizadas tornam-se o tropo do filme sobre o medo de envelhecer, um medo porque uma mulher mais velha é facilmente substituída. O homem se interessa pelo jovial, quase como um obsessor que se alimenta da juventude da mulher enquanto estética e imagem, e qualquer coisa diferente disso não o interessa, sendo descartável. No entanto, o filme flutua entre o sofisticado e o exagerado, sem conseguir equilibrar essas tonalidades de maneira eficiente. Há uma incerteza sobre qual direção seguir, o que acaba gerando confusão no tom e deixando a narrativa em conflito com sua própria identidade. O filme tem uma mensagem clara e sabe o que quer dizer, mas o problema é que ele insiste em garantir que o espectador entenda isso repetidamente. No final, Elisabeth Sparkle é tão subjugada pela sociedade que, mesmo quando retorna em sua versão mais jovem, o sistema a "espreme". Confesso que não resisti e vou acabar usando o trocadilho mais óbvio para este filme: trata-se de uma substância ou, simplesmente, da falta dela. Gosto de como a última metade do filme se torna insana ao partir para o grotesco total, mas o problema é a falta de foco claro, pois o filme salta constantemente e carece de consistência. Mas há um ponto na existência desse filme que me provocou uma reflexão específica. Sue, que seria uma espécie de "duplo" mais jovem de Elisabeth, tem um corpo escultural adaptado às exigências patriarcais: pernas longas e torneadas, seios empinados, pele macia e cabelos sedosos. Logo na primeira cena em que a personagem de Margaret Qualley nos é apresentada, a diretora tenta simular o que Laura Mulvey traz através da teoria feminista com o conceito de "olhar masculino". Esse conceito não se refere necessariamente à figura da mulher sexualizada na tela, mas sim à montagem dialética da imagem da mulher atraente alternando para um homem olhando para ela, transferindo todo o valor da imagem para o espectador. Dessa forma, quando Fargeat filma toda a sequência de Margaret Qualley sensualizando em frente à câmera, há uma emulação desse olhar masculino, nos obrigando a desejar esses corpos, de modo que as imagens contradizem a intenção inicial. Isso levanta um questionamento: vale a pena satisfazer o olhar do espectador heterossexual no início do filme para tentar chocá-lo com o grotesco no final? Isso se configura, de fato, como uma estratégia subversiva? O desejo não é o problema em si; o problema surge quando apenas os corpos femininos estão dentro dessa configuração. Nota: 2,5/5
- Crítica | O Dia Que Te Conheci
O amor que encontramos no relacionável e no cotidiano Foto: Divulgação A comédia romântica é, por definição, um gênero que sempre exigiu uma certa suspensão de descrença do seu público, para abraçarmos as mais belas, poderosas e irreais histórias de amor. Em tempos de tanto cinismo (e de tanta autoconsciência), não é surpresa que o gênero pareceu quase em extinção, perante um público que não sabia mais comprar esse tipo de história sem apontar os “furos de roteiro” ou saltos de lógica. O Dia Que Te Conheci não visa reinventar a roda das comédias românticas: apenas quer contar sua singela história. Através de uma condução simples (mas sempre muito segura, a julgar pelos planos longos e a confiança nos silêncios além das palavras), o diretor mineiro André Novais Oliveira — um dos principais expoentes da rica cena audiovisual que tem se desenvolvido na região metropolitana de Belo Horizonte — busca fazer com que nos apaixonemos por Zé (Renato Novaes) e Luisa (Grace Passô) tanto quanto eles se apaixonam um pelo outro. E consegue. Adotando uma estrutura que vagamente remete a obras como a trilogia do Amanhecer ou Rye Lane — mas de maneira muito autoral e orgulhosamente local —, Novais foca primeiro em nos ambientar ao cotidiano de Zé. Este é uma figura como tantas outras: tem problemas para acordar (motivados, descobrimos depois, pelos remédios que anda tomando), corre atrás do seu busão, bisbilhota o que o passageiro da frente está vendo no celular, vai comprar um pastel enquanto o busão está quebrado — acompanhado de ninguém menos que FBC, numa divertida ponta. Há algo de tão relacionável no seu dia-a-dia, que nos gera tanta identificação, que é até difícil de perceber o que irá se desenrolar entre ele e Luísa no momento em que essa aparece em cena (e na vida dele). Foto: Divulgação Talvez seja aí que reside a grande mágica do filme: os pequenos momentos e decisões, os instantes quase banais que se acumulam e permitem ao longa explorar a gradativa e singela química entre os dois protagonistas. De uma carona para uma cerveja, passando por conversas sobre antidepressivos até uma ida ao apartamento que se revela algo mais, o grande mérito de Novais Oliveira é transformar os personagens nessas pessoas reais, que poderíamos ver no nosso dia-a-dia — ou até ser nós mesmos. A dupla principal de Novaes e Passô é um acerto e tanto, provando-se essenciais para fundamentar o romance aqui apresentado. Se ambos os personagens não deixam de atender certos estereótipos do gênero — ele mais tímido e retraído, ela expansiva e magnética —, as performances inserem uma gratificante naturalidade que torna a química e a atração entre eles ainda mais palpáveis. Essa naturalidade também se revela no fato de termos duas pessoas negras e fora dos padrões estéticos e corporais como protagonistas, se apaixonando e encontrando um no outro de maneira tão bonita e orgânica. Além disso, também está presente no “sotaque fílmico” da obra: parece simples, mas que delícia é ouvir um “sô” legitimamente belorizontino e não de algum ator de outro estado fazendo um sotaque mineiro estereotipado. “Hoje vai ser diferente”, diz Zé ao final do longa. É a quebra da rotina, do cotidiano, mas pelo melhor motivo possível. Ele e Luisa ficarão juntos? Essa pergunta nunca importa muito numa comédia romântica, embora aqui fiquemos desejosos de saber mais sobre o que haverá para eles. Ainda assim, permanecem a beleza de acompanhar o primeiro dia destes dois personagens, a conexão que gradativamente se estabelece entre eles e a promessa de um amor tão bonito — e que é bonito por se fundamentar no ordinário, no que é relacionável e está tão próximo deles e de nós. O Dia Que Te Conheci é um filme prazeroso de se assistir justamente por pegar a simplicidade e torná-la tão mágica e apaixonante. Nota: 4/5
- Crítica | Até Que a Música Pare
Uma história sobre luto, conservadorismos e tartarugas Foto: Divulgação As angústias e as dores de viver a solidão são sempre muito palpáveis e parece que esses sentimentos se intensificam ainda mais com o passar da idade. O marasmo da rotina, a distância dos familiares, o luto por uma perda. Tudo parece maior em um eco de silêncio. É isso que vemos quando somos introduzidos à vida de Chiara, matriarca de uma família de descendência italiana que vive no interior do Rio Grande do Sul. Depois que o último de seus filhos sai do lar para morar sozinho, ela decide acompanhar o marido em uma de suas viagens a trabalho para não ficar só em casa. Alfredo, que trabalha fornecendo produtos de bar em bar pela estrada da Serra Gaúcha há anos, é acompanhado pela esposa. Juntos entre botecos e rodovias, uma descoberta inquietante sobre a vida que Alfredo vive na estrada, envolvendo baralhos de carta, notas fiscais e até uma tartaruga, colocará à prova a confiança e o que eles sabem um do outro. Lançado nos cinemas nesta quinta-feira, 3, o longa brasileiro Até que a Música Pare é uma coprodução entre Brasil e Itália, gravada no interior do Rio Grande do Sul e dirigida por Cristiane Oliveira (responsável pelo ótimo Primeira Morte de Joana). Sendo o terceiro longa-metragem da diretora, a obra é um drama baseado em histórias reais ouvidas por Cristiane de amigos, retrata essas angústias sentidas por sua protagonista e as turbulências sentidas por ela em um período tão delicado. Utilizando-se bem da rachadura causada pelo bolsonarismo nas famílias brasileiras, o roteiro de Até que a Música Pare não é nem um pouco sutil ao demonstrar como o conservadorismo se pauta dentro desses cenários particulares num acúmulo de ações demonstradas em pequenas atitudes. Além disso, a fé também parece ser um ponto-chave na vida de muita gente e na para Chiara e Alfredo, sua presença, assim como o conservadorismo, é uma sólida rocha nas fundações dessa família, e isso causa rupturas. Foto: Divulgação Ao focar em diálogos extremamente expositivos, Até que a Música Pare deixa tudo muito claro e explicado para o seu telespectador, mesmo que muitas vezes isso seja desnecessário. E mesmo que essa alegoria política faça muito sentido para sua trama, em alguns momentos ela soa exagerada dentro da sua narrativa, que se torna morosa e lenta por essa demasiada exposição em seu texto. Com um elenco que cumpre o que se propõe, em destaque, obviamente, a sua protagonista interpretada Cibele Tedesco, o longa também nos ambientaliza bem no cenário interiorano gaúcho com uma fotografia muito bonita, combinando bem também com uma trilha sonora bem marcante. Pensando na linguagem, o drama de Cristiane Oliveira possui, de cara, um grande diferencial: é quase todo falado em talian , dialeto que nasce de uma mescla entre o português e o italiano, muito presente no interior do Rio Grande do Sul. O dialeto foi, recentemente, reconhecido pelo Inventário Nacional Da Diversidade Linguística e sob esses aspectos culturais tão particulares, Até que a Música Pare conserva essa mescla de culturas que existem no Brasil. De forma geral, o longa retrata bem essa sensação de solitude, mas peca em um didatismo desnecessário. Porém, ainda é um bom retrato de um Brasil escondido no interior e que carrega semelhanças com muitas das vivências que conhecemos. Não é o melhor retrato sobre uma história da terceira idade, mas cumpre o seu papel. Nota: 3/5
- Crítica | Industry (3ª temporada)
Sem medo de se reinventar, série se consolida como uma das melhores do ano Foto: Divulgação/ HBO Se você perguntasse, lá por volta de 2020, a qualquer uma das (poucas) pessoas que estavam assistindo a primeira temporada de Industry sobre o que era a série, provavelmente elas diriam algo do tipo: “é uma mistura de Succession com Gossip Girl”. Não que a resposta não fizesse sentido — afinal a série se propunha a trazer dramas juvenis para um ambiente corporativo repleto de um linguajar técnico hermético —, mas após a conclusão da sua terceira e mais recente temporada, eu vou além dessa definição para dizer que Industry é a herdeira de Mad Men: Inventando Verdades e Halt and Catch Fire que não merecíamos, mas precisávamos. Não digo isso apenas pela série ser ambientada em um universo profissional específico (agora um banco, no lugar de uma agência de publicidade ou uma empresa de computadores), mas sobretudo pela sua capacidade assombrosa de se reinventar. Em entrevista ao Indiewire , os cocriadores Mickey Down e Konrad Kay disseram que concebem os finais das temporadas como potenciais finais da série, já que a renovação não é exatamente uma garantia. Ao conversar com meu amigo do OP Filipe, comentei que isso me dá a percepção de que eles buscam se arriscar mais ainda, já que em tese não têm o que perder. E para uma obra que se passa num universo repleto de instabilidades, fins e recomeços sempre tão intensos, agressivos e dramáticos, faz todo o sentido que essa seja a abordagem adotada. Situando-se num período indeterminado após o evento chocante que encerrou a segunda temporada — a saber, a rasteira que Harper (Myha’la) tomou de Eric (Ken Leung) e sua demissão da Pierpoint —, este novo ano centra-se sobretudo na figura de Yasmin (Marisa Abela), que está envolvida em um escândalo relacionado ao misterioso desaparecimento de seu pai (Adam Levy), que vai sendo progressivamente explicado em flashbacks. Enquanto isso, Robert (Harry Lawtey) está trabalhando junto ao bilionário aristocrata Henry Muck (Kit Harrington), cuja empresa está sendo arduamente defendida pela Pierpoint mesmo em meio a diversas controvérsias que envolvem até o governo britânico. Já Eric desfruta de plenos poderes na empresa, mas atravessa um divórcio e revela uma face cada vez mais patética, e Harper, mesmo aparecendo bem menos do que nas temporadas anteriores, ainda é a mente ardilosa (e convenhamos, um tanto sociopata) que amamos odiar... ou odiamos amar. Uma das coisas que mais me cativam em Industry é como a série é uma rara produção audiovisual contemporânea que não está preocupada em tomar o espectador pela mão e explicar didaticamente seu universo e as motivações e conflitos de seus personagens. Sim, às vezes o jargão financeiro é demais e podemos ficar à deriva (o que na temporada passada foi um problema, a meu ver), mas ele não é o mais importante aqui. Como nas já referidas Mad Men, HACF e Succession , o mais importante é como os arcos dos personagens evoluem — ou regridem — dentro deste universo específico. Foto: Divulgação/ HBO Sem subestimar seu público, a série se permite crescer, inclusive a partir dos erros das temporadas passadas, e essa evolução orgânica é nítida em cada um dos oito episódios deste novo ano, que não só disputam entre si os postos de melhores da série, como certamente alguns deles figurarão nas listas dos melhores de 2024. Isso não é pouca coisa quando o cenário que temos é de séries que precisam provar seu valor já na primeira temporada (ou no primeiro episódio) para não sofrerem com o fantasma do cancelamento. Alguém consegue imaginar séries como Família Soprano, A Escuta ou Breaking Bad tendo a chance de crescerem temporada após temporada na lógica atual dos streamings? Por que eu não. Nesse sentido, não tenho como não puxar a sardinha para a HBO, cuja confiança em Down e Kay é refletida no fato da série ter migrado da exibição às segundas-feiras — um segundo escalão da emissora, por assim dizer — para o horário nobre das 22h de domingo. Tal confiança é recompensada com uma temporada que engole as duas primeiras (que já eram ótimas, apesar de problemas pontuais) com uma facilidade assombrosa. E uma significativa parte da força da série vem do tripé direção-roteiro-atuações. O primeiro episódio é um retorno avassalador, que mal nos dá tempo de respirar antes de jogar na nossa cara mortes, demissões e tanto mais. O roteiro transita entre a inacessibilidade dos jargões financeiros e a crueza ácida dos diálogos dos personagens, que são vividos magistralmente por um dos elencos mais notáveis da atualidade. Seja nas novas adições (Kit Harrington atua melhor aqui do que atuou nas oito temporadas inteiras de Game of Thrones, e Sarah Goldberg é deliciosamente cretina) ou no maior destaque aos veteranos, como Leung e Sagar Radia (que faz o divertidamente detestável Rishi), há uma sinergia poderosa entre esses atores e atrizes. Mesmo que os personagens enfiem facas nas costas uns dos outros — e acredite, isso acontece várias vezes —, essas relações são honestas, orgânicas e dolorosamente reais. Obviamente o maior mérito vai para o trio principal. Harry Lawtey (que eu não consigo não ver como um jovem Christian Bale) faz do seu Robert uma surpreendente âncora moral nessa temporada, mesmo que constantemente falhe contra seus demônios e suas contradições. Myha’la, como dito, aparece bem menos, mas a atriz aproveita cada segundo em tela para compor uma personagem muito difícil de ser apreciada, mas que para mim é uma herdeira direta dos grandes anti-heróis da prestige TV como Tony Soprano, Don Draper ou Walter White (acha exagero o que eu estou falando? Veja a cena dela com Eric no final do terceiro episódio). E Marisa Abela aproveita com todas as forças o maior protagonismo de Yasmin, transportando-nos para o drama e os traumas de sua personagem, bem como a maneira como ela responde a esses traumas para tentar impor esse controle àqueles à sua volta, apenas para se revelar alguém quebrada — e então partir seu coração numa cena seguinte, deslumbrando-nos com cada nuance dessa figura tão complexa que interpreta. Com um final de fazer cair o queixo pela coragem — pense em Shut the Door. Have a Seat de Mad Men, ou quando todos os personagens de HACF se mudaram do Texas para San Francisco —, a terceira temporada de Industry se coroa como um exercício fascinante de crescimento e maturidade artística, que devia ser a regra na TV, mas infelizmente não é devido à gana capitalista dos streamings e emissoras. Quem dera toda série tivesse a oportunidade de aprender com seus erros e evoluir de tal forma como visto aqui. Não tenho dúvidas de que a próxima temporada pode ser ainda melhor que esta, mesmo que a série basicamente recomece do zero. Assim como não tenho dúvidas de que este novo ano fez e fará muita gente (como eu) enfim voltar a merecida atenção para Industry e ser completamente fisgado por ela. Nota: 5/5
- Crítica | Operação Natal
Apenas mais um filme hollywoodiano pré-moldado, cafona e em baixa saturação Foto: Divulgação Depois que o Papai Noel – codinome: Das Neves – é sequestrado, o Chefe de Segurança do Polo Norte (Dwayne Johnson) deve se unir ao mais infame caçador de recompensas do mundo (Chris Evans) em uma missão global e cheia de ação para salvar o Natal. Sou uma pessoa bastante deslumbrada com o espírito natalino em suas mais diferentes vertentes filosóficas, religiosas e comerciais que possam existir. Já assisti a incontáveis filmes natalinos entre clássicos que apenas melhoram com o tempo e outros mais alinhados ao doce descompromisso da Sessão da Tarde. Não sabia qualquer detalhe sobre essa produção quando cheguei para assisti-la, no entanto, sabia que não encontraria em Operação Natal uma experiência cinematográfica catártica, mas com certeza não esperava ser a farofa sem sal que é. Se o roteiro se contivesse no sequestro do Papai Noel, como apresenta a sinopse, e buscasse – por mais tola que fosse – a justificativa mais fácil para o desenrolar de tal apuro, talvez o resultado não fosse tão prejudicado como acabou por acontecer. Os roteiristas preferiram, além de manter a esperada tolice natural de uma história envolvendo Papai Noel e sequestro, colocar inúmeros elementos e personagens mitológicos que transformou o filme num emaranhado cafona de sub narrativas desinteressantes, sem graça e de motivações fraquíssimas (várias cenas são até bem constrangedoras). Foto: Divulgação Não vou ser hipócrita e fingir que não dei uma risadinha ou outra das muitas canastrices que os protagonistas exibem em cena, mas além nem aquém do que se espera do formato. Feche os olhos e aponte para as filmografias de Dwayne Johnson e de Chris Evans e as chances de você encontrar outros papéis exatamente iguais a este são de quase 100%. Mas infelizmente o restante do elenco parece não corresponder aos personagens medianos que lhes são oferecidos, e entregam atuações bem fora dos esquadros do gênero: ação com humor completamente esquecível. Além disso, o filme é mais uma vítima do filtro de baixa saturação que impede o público de ter uma visão clara do que está acontecendo – o que, na verdade, nem sempre é uma coisa ruim porque vários dos efeitos visuais são vergonhosos. Mas num filme natalino se espera brilhos, luzes e cores vibrantes, mas o que se ganha aqui é mais um borrão escuro, manchado e sem expressividade. Pouco provável que este passe por uma revisão minha, no entanto, se um dia eu me aventurar a tal, o bom é saber que pode ser uma experiência toda nova porque provavelmente semana que vem já terei esquecido de absolutamente tudo que vi nessas duas horas. Nota: 1,5/5












