“As pessoas querem estar associadas a algo que gera dinheiro”: Boots Riley fala sobre fazer cinema político em Hollywood
Em entrevista ao Oxente Pipoca, cineasta contou como o sucesso de Desculpe te Incomodar facilitou a realização de novos projetos sem que precisasse abandonar as discussões políticas

Fazer um cinema abertamente político dentro de Hollywood ficou mais fácil para Boots Riley depois que Desculpe te Incomodar provou que também poderia dar retorno financeiro. Em entrevista ao Oxente Pipoca durante a 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, o diretor falou sobre como a reação e desempenho de seu primeiro longa mudou sua relação com a indústria e abriu espaço para projetos maiores como I Love Boosters, considerado por nós como um dos melhores exibidos no festival paulista.
Riley explicou que, depois que Desculpe te Incomodar foi lançado, fez sucesso e deu lucro, passou a ser mais simples conseguir apoio para realizar outros trabalhos. Ele afirma que há uma lógica bastante direta por trás dessa mudança: “as pessoas querem estar associadas a algo que gera dinheiro”.
“Essa foi, por assim dizer, uma mudança profunda que estava ocorrendo; e, com isso, creio que houve muita confusão, já que muitos pensaram se tratar de um filme de viés liberal. Foi apenas a partir da reação ao filme que as pessoas começaram a compreender qual era a sua proposta política, uma vez que organizadores estavam utilizando Desculpe te Incomodar no ambiente de trabalho — exibindo-o para as pessoas — a fim de convencê-las a votar pela greve; e houve relatos sobre isso. Então, quando Desculpe te Incomodar foi lançado e fez sucesso, ficou bem mais fácil viabilizar a produção de outros filmes; afinal, o longa deu lucro, e as pessoas querem estar associadas a algo que gera dinheiro”, afirmou o diretor ao Oxente Pipoca.
Boots Riley escreveu Desculpe te Incomodar durante o governo de Barack Obama, mas o longa foi filmado já na primeira presidência de Donald Trump. Segundo ele, essa mudança do clima político da época fez com que algumas das discussões presentes no roteiro ganhassem outro significado para o público. A repercussão o ajudou a perceber maneiras pelas quais uma obra poderia ultrapassar a própria sessão e participar de discussões políticas reais.
Essa preocupação continua presente em I Love Boosters. Seu novo filme acompanha o conflito entre um grupo de amigas ladras de lojas de roupas (Keke Palmer, Naomi Ackie e Taylour Page) e uma renomada estilista (Demi Moore). A crítica pode ser lida aqui.
Ao conversar com o Oxente Pipoca, o cineasta também rejeitou a ideia de que a função de uma sátira política seja simplesmente revelar uma realidade escondida. Segundo Riley, aquilo que é considerado “absurdista” em seus filmes faz parte da construção do seu argumento: de que a contradição principal do capitalismo – a exploração do seu trabalho – é absurda por si só. “Então, é isso que estou fazendo com essa questão. Grande parte do que é absurdo faz parte de um argumento maior. Não é apenas um ‘olhem só para mim, vejam como isso é absurdo’. É algo que tem um propósito; o conteúdo leva a algum lugar. A parte que traz um fundamento mais sólido é justamente a proposta que apresento sobre o que poderíamos fazer”, declarou o diretor.
I Love Boosters marca o retorno de Boots Riley à direção de cinema após Desculpe te Incomodar e depois da criação da série Sou de Virgem, que também possui todas as marcas discutidas neste texto.
A entrevista completa com Boots Riley está disponível aqui no Oxente Pipoca.











