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  • Foto do escritorVinicius Oliveira

Crítica | A Hora Da Estrela

Relançado nos cinemas, filme seminal de Suzana Amaral emprega um olhar irônico e melancólico ao clássico de Clarice Lispector

Foto: Vitrine Filmes


“Me diga uma coisa: você é feliz?”, pergunta Glória (Tamara Taxman) em determinado momento a Macabéa (Marcélia Cartaxo), a protagonista de A Hora da Estrela. Ao que esta responde apenas: “feliz serve pra quê?”. Essa simples troca de diálogos resume muito da essência do filme, que adapta o último romance lançado por Clarice Lispector em vida. Relançado nos cinemas em uma versão remasterizada pela Sessão Vitrine Petrobrás, o longa de estreia de Suzana Amaral é talvez um dos grandes clássicos do nosso audiovisual, conquistando diversos prêmios, inclusive o Urso de Prata de Melhor Atriz para Marcélia no Festival de Berlim em 1986.


Longe de apresentar um fio narrativo sólido, A Hora da Estrela segue as desventuras de Macabéa, uma jovem e ingênua alagoana de 19 anos que se muda para o Rio de Janeiro após a morte da tia que a criava. Enquanto trabalha como datilógrafa e alimenta sonhos de ser artista um dia — mesmo sendo desprezada pela sua origem nordestina, sua aparência e seu semianalfabetíssimo —, ela se envolve com Olímpico de Jesus, também nordestino como ela, mas a relação não demora a apresentar suas fraturas.


O olhar feminino de Suzana Amaral para conduzir essa história é fortemente carregado de uma ironia nas escolhas estéticas e formais que nos guiam através da jornada de Macabéa, seja nos diálogos curtos e ácidos, no humor seco e nas quebras de expectativa (a cena da personagem “flertando” com o guarda da estação de metrô é excelente nesse sentido). Mas essa ironia não esconde — e não me parece querer esconder — a profunda melancolia que cerca essa personagem. Na verdade, é justamente por ir por um caminho mais “cômico” (entre aspas pois o filme passa longe de ser uma comédia) que Suzana denuncia ainda mais gravemente as opressões que afligem nossa protagonista.

Foto: Vitrine Filmes


Assim, há algo de mordaz e também de doloroso em ver o quanto Macabéa sofre e o quanto parece muitas vezes alheia a esse sofrimento, em especial aqueles causados pelas pessoas próximas a ela, como Glória e Olímpico. Mas é um grande mérito da direção de Suzana e da atuação de Marcélia que a personagem nunca é relegada a uma posição de “coitadismo”. Pelo contrário, há uma vida pulsante nela, o desejo de crescer, de experienciar o que desejada. É fácil ver porque Marcélia foi contemplada com o urso de Prata logo em seu papel de estreia: ela confere diversas nuances a Macabéa, dotando-a de uma agenda própria (em especial em relação à sua sexualidade, a despeito da opressão que lhe é imposta por ainda ser virgem) e também de contradições e falhas — como na cena em que se recusa a ser chamada de baiana por Glória, por achar que “todo baiano é macumbeiro”.


É justamente por ser tão perceptível em Macabéa sua autonomia e vivacidade, em contraste com uma postura conformista e passiva em diversos momentos, que o final dela é ainda mais trágico — mesmo que, novamente, seja carregado da mais fina ironia, dada as predições feitas pela cartomante Carlota (Fernanda Montenegro numa curta, mas marcante aparição). Apesar de alguns leves tropeços na direção da cena final em si, toda a sequência climática do filme captura perfeitamente a maneira como ele trilha um caminho que é até meio cínico, mas possui profunda empatia pela sua protagonista, que se constitui como uma das melhores criações do nosso cinema. De quebra, ainda nos permitiu vislumbrar pela primeira vez o imenso talento de Marcélia Cartaxo, que segue sendo uma das melhores atrizes brasileiras vivas.


Nota: 4/5





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