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  • Foto do escritorVinicius Oliveira

Crítica | Assassino Por Acaso

Identidade, desejo e o star power de Glen Powell num dos melhores filmes do ano

Foto: Divulgação


Viver é um constante encenar-se. Quem somos nós perante o mundo, as pessoas à nossa volta? Quais máscaras escolhemos a depender dos ambientes onde estamos? No cinema de Richard Linklater a identidade é sempre um tema recorrente, seja na dimensão romântica da trilogia Before, no amadurecimento de Boyhood ou até no ato de borrar as linhas entre diferentes personas de O Homem Duplo.


Em Assassino por Acaso, essa temática já é apresentada nos primeiros momentos, quando vemos o protagonista Gary Johnson (Glen Powell) a discutir com seus alunos na faculdade que dá aulas em Nova Orleans. Mais do que num aspecto didático e verborrágico, porém, o filme consegue apresentar esse jogo de identidades e personas através da vida monótona de Gary. O próprio fato dele colaborar com a polícia da cidade em casos de flagrantes já é por si só um bom indicativo de que dentro dele pulsa o desejo por uma vida diferente, de ser outra pessoa, e essa oportunidade aparece quando ele precisa personificar diferentes “assassinos profissionais falsos” para pegar esses suspeitos em flagrante. Mas quando seu caminho se cruza com a de Madison Figueroa (Adria Arjona) e ela se apega a uma de suas personalidades como assassino — o sedutor e charmoso Ron —, logo Gary se vê dividido entre o homem que é e o que deseja ser.


Linklater é um exímio artesão de roteiros, e o de Assassino por Acaso, coescrito com Powell, consegue essa proeza de convergir discussões psicológicas, filosóficas e existenciais que poderiam se perder em sua densidade, tratando-as com uma notória acessibilidade e simplicidade (que não é o mesmo que simplismo). O próprio aspecto didático do filme, exemplificado nas cenas de Gary dando aulas, é por si só muito bem-encaixado no decorrer da trama pra discutir e prenunciar aspectos dela. A maneira como Gary navega entre diferentes personalidades — e gradualmente se vê mais confortável como a de Ron — é organicamente alocada numa embalagem da comédia romântica/policial e até do neo-noir, com o uso de elementos como o voice over e a femme fatale .

Foto: Divulgação


Mas mesmo ao agregar referências de diversos gêneros e propostas, Linklater evita um erro comum do cinema contemporâneo: cair num lugar de autoconsciência quase cínica, onde o filme precisa demonstrar a todo instante que sabe com que gêneros está trabalhando e que, portanto, está acima deles. O que acontece aqui é o contrário: Assassino por Acaso abraça o absurdo de sua premissa (ligeiramente baseada numa história real, inclusive) e a trata com sinceridade, como atesta o próprio uso do voice over . Assim, tornam-se críveis as transformações e oscilações de Gary no que se refere à(s) sua(s) personalidade(s) — com um interessante jogo metalinguístico sobre a própria natureza do que é atuar —, bem como o culminar da obra, que rejeita um moralismo pedante para honrar a jornada de seus personagens principais.


Outro fator importantíssimo para que essa jornada seja abraçada por nós, espectadores, vem justamente através do talento de Glen Powell, que consegue sair aqui da sombra que o vinha acompanhando nos seus últimos filmes: um galã carismático condenado a personagens de uma nota só. É possível se maravilhar com o carisma e charme do ator em seu Ron ou outra das personas, mas Powell — que já vem trabalhando com Linklater há quase 20 anos — tem a oportunidade de transitar entre diferentes identidades, sumindo por trás de personalidades tão distintas (e um subestimado trabalho de maquiagem) e constatando que é sim um dos nomes mais interessantes e talentosos de sua geração.


Da mesma forma, Adria Arjona é um deleite em seu papel de femme fatale, brincando com as expectativas de Gary/Ron e do público durante o segundo e terceiro atos. Inclusive, é através da química ardente e cheia de desejo e tesão do casal principal que o filme encontra um dos seus maiores trunfos, além de reverberar a ideia de encenação aqui proposta; prova disso é a brilhante cena em que eles precisam “atuar” numa discussão conforme um dirige ao outro quanto ao que dizer e como reagir.


Nessa tensão quanto a quem somos vs. quem desejamos ser e o preço que estamos dispostos a pagar por isso, Assassino por Acaso me lembrou inclusive — e digo isso com muita humildade — o meu conto A Outra Ana . Claro que Linklater é um artista muito mais talentoso que eu, visto que sua versatilidade e capacidade de hackear os códigos de Hollywood é o que faz dele um dos melhores e mais brilhantes diretores estadunidenses dos últimos 30 anos. Assassino por Acaso é outro ponto forte de sua carreira, apresentando uma temática que lhe é tão cara (e que poderia facilmente alienar o público) numa embalagem nova e fresca e desde já despontando como um dos melhores filmes do ano.


Nota: 4,5/5

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