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  • Foto do escritorÁvila Oliveira

Crítica | Bandida: A Número Um

Atualizado: há 2 minutos

Excelente condução e elenco brilhante fazem o espectador querer mais (porque de fato merecia)

Foto: Divulgação


Aos nove anos, Rebeca (Maria Bomani) é vendida pela avó para o bicheiro que comandava a Rocinha. Disputada por bicheiros e traficantes, a comunidade passa por mudanças de poder. Rebeca vira mulher do traficante chefe e, com a morte dele, sua sucessora.


Confesso que já tive minha cota de filmes brasileiros sobre tráfico, crime organizado e favelas. Entre produções aclamadas e comédias satíricas para lá de vergonhosas o tema, e suas infinitas possibilidades de abordagem, me cansou. E foi cheio de ressalvas que cheguei para a sessão de Bandida: A Número Um e para a minha surpresa fui completamente contrariado, ainda bem. Logo nos primeiros instantes é perceptível que o diretor João Wainer estava apresentando uma produção complexa no melhor sentido da palavra. Ao abrir com uma narração da protagonista numa cena em preto e branco e com enquadramentos fechados Wainer avisa ao público que apesar da temática agressiva esse é longa intimista, emotivo e perspicaz.


A direção de elenco fez um trabalho primoroso, e cada ator que aparece merecia um parágrafo de destaque para si, mas vou resumir nas duas forças imperantes: Maria Bomani e Jean Amorim. Não vou entrar em méritos feministas afinal este não é meu local de fala e não quero meter os pés pelas mãos, mas a história de uma mulher que direta e indiretamente comandou o tráfico de drogas, cenário literalmente dominado por homens, em uma das maiores favelas do Brasil é uma história de força e empoderamento, e para isso era necessária uma atriz que ao mesmo tempo que expressasse vulnerabilidade, expressasse também tenacidade. E Maria transmite todas as verdades e da personagem Rebeca sem qualquer amarra ou trava. Ela consegue ser agressiva, afável, sensual, impositiva em pouquíssimo espaço de tempo (o filme tem menos de uma hora e meia de duração) sem perder a coesão e rigidez. E entre os incontáveis nomes do elenco masculino, Jean Amorim rouba a cena. Até mesmo quando o personagem “Pará” não tem linhas de diálogo o olhar carismático e aficionado do ator brilham e se molda perfeitamente à vivacidade da atuação de Maria.

Foto: Divulgação


A condução de Wainer apresenta uma fluidez tão suave que faz o curto filme passar ainda mais rápido. Fico sempre receoso quando digo nos textos que tal cineasta parece brincar na direção porque pode soar como uma ação descompromissada ou sem cuidado, mas me refiro ao lado lúdico que o resultado apresenta, ao dinamismo apresentado em contrapartida às direções mais sistemáticas e rigorosas quanto ao estilo. Wainer usa imagens documentais reais dos anos 90 para ambientação, explora planos detalhes, câmera rápida, músicas como acessório móvel, e diversas outras convenções que operam numa sólida consonância para a criação de texturas e camadas do rico roteiro.


O maior obstáculo do filme é sem dúvidas a limitação da duração. Os dois primeiros atos conseguem se moldar aos seus 30 minutos de duração cada, porém o ato final merecia pelo menos mais uns 20 minutos de modo que a conclusão não ficasse corrida e engolindo detalhes essenciais para uma melhor desenvoltura de situações cruciais para o fechamento do enredo.


De toda forma, o resultado é superpositivo e traz consigo frescor ao subgênero de ação policial bem conhecido nosso. Além do frisson já esperado pelas sequências explosivas – que trazem um desenho de som claro e límpido –, o romance e a excitação são bem concebidos, o drama bem embasado, e o suspense segue um percurso estiloso e bem resolvido. É um filme que fala pouco, mas que diz muito e com eloquência.


Nota: 4/5

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