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  • Foto do escritorCaio Augusto

Crítica | Garra de Ferro

Luta, dor e encenação

Foto: Divulgação


Em seu mais novo filme, o diretor Sean Durkin embarca no universo da luta livre e explora a história da família Von Erich. Liderados pelo pai Fritz Von Erich (Holt McCallany) e pela mãe Doris Von Erich (Maura Tierney), os irmãos Kevin (Zac Efron), Kerry (Jeremy Allen White) e David (Harris Dickinson). Juntos, os irmãos são pressionados a cumprir o legado de seu pai trazendo para casa o título mundial de luta livre, e na busca por esse objetivo eles precisam lidar com uma "maldição" que os atormentou ao longo de vários anos.


Por se tratar de um filme que aborda a luta livre, certamente ele possui dezenas de cenas no ringue, e a forma que Durkin filma essas cenas flertando com a teatralidade do wrestling e optando por dosar muito bem um sentimento de melancolia ao manifestar a dor em meio a diversão. Se O Lutador (2008), de Darren Aronofsky expõe os extremos entre a vida de lutador e o mundo real de um personagem em decadência, Garra de Ferro tem o seu foco nos diferentes tipos de oponentes que são enfrentados pela família Von Erich, seja a masculinidade, a tradição ou a frustração.


Um dos grandes méritos do filme é como ele reverencia e traça um paralelo com o aspecto da encenação que é utilizado na luta livre. Quando vemos Kevin demorando a se levantar ao ser derrubado no ringue a fim de convencer o espectador de forma dramática, ele pode estar encenando tanto para o torcedor do ringue quanto para o espectador do filme, de modo que também somos provocados a imaginar a encenação em cenas fora do ringue. Além de testemunharmos os lutadores combinando movimentos e coreografias antes da luta, Garra de Ferro mantém firme o método que é conhecido como "kayfabe", que é o entendimento implícito entre os lutadores e os fãs de que os eventos encenados e roteirizados devem ser aceitos como reais. E isso é cinema em sua mais pura essência. 

Foto: Divulgação


Temos como um dos principais oponentes dos nossos lutadores, a masculinidade tóxica com o pai Fritz Von Erich como a personificação disso, em que os homens da família vivem refém dessa ideia patriarcal que dita toda a criação dos Von Erich. Como se o pai quisesse descarregar toda a sua frustração nos filhos e que todo o seu objetivo de vida está resumido em criar esse legado de campeões. De forma que eles são privados de demonstrar fragilidade e até mesmo de chorar à medida que uma nova tragédia comete a família, pois eles foram criados com a ideia de que “Homem não chora”, como diz o próprio Kevin com os olhos cheios de lágrimas em determinado momento do filme.


Além de apresentar através de plano-detalhe o que se assemelha ao que atualmente são as famílias americanas que vivem os ideais trumpistas, como é visto na cena em que é mostrado um grande arsenal de armas expostas em vitrine na sala de casa. Esses elementos são apresentados ao espectador enquanto a direção parece tomar uma postura de distanciamento em relação a esses personagens, o que acaba funcionando bem em seus momentos mais melodramáticos quando estão fora dos ringues.


E são nessas nuances que percebemos pequenos detalhes como a masculinidade autoritária de Fritz, que pede demais de seus filhos e os coloca uns contra os outros; o estoicismo religioso tóxico de Dotty; o amor fraternal que os mantém unidos independente do que aconteça. E em meio a tudo isso o filme caminha até uma procissão de catástrofes, na qual tanto o espectador como os personagens são incapazes de sofrer por muito tempo, pois é preciso se colocar no lugar novamente para dar continuidade ao sonho do pai, pois é tudo o que importa aqui. É uma situação trágica, porém familiar para muitos garotos criados em um ambiente de masculinidade tóxica. 

Foto: Divulgação


Os filhos são obrigados a competir pela atenção do pai. Quando Kevin falha na luta livre, David se torna um candidato ao título mundial, enquanto o sonho olímpico de Kerry acaba e ele assume o esporte favorito de Jack. O desafortunado Mike apenas deseja tocar música com seus amigos em uma banda, enquanto os outros irmãos fazem o máximo para realizar esses sonhos. E nisso eles persistem em castigar seus corpos e reprimir qualquer sentimento de raiva, ressentimento, fracasso e o temor de desapontar o pai de várias maneiras. Um deles se recusa a admitir que suas lesões relacionadas ao esporte são sérias, mesmo após vomitar sangue na recepção do casamento de Kevin. Outro recorre ao álcool para lidar com as consequências devastadoras, lutando para escapar do controle mental exercido pelo pai. Até Mike que até então tinha vocação pra música se vê dentro do ringue, ainda que por um breve momento. 


A direção de Durkin garante que o amor compartilhado pelos irmãos Von Erich seja genuinamente palpável por quem assiste. Existe um afeto profundamente genuíno entre eles, um amor profundo pela luta livre e, sobretudo, uma devoção pela. A luta livre representa uma fuga da repressão, uma maneira de liberar inseguranças profundas e explorar oportunidades que lhes foram negadas. Pelas lentes de Durkin, os espectadores podem contemplar a paradoxal realidade da luta livre profissional - um espetáculo que é simultaneamente teatral e esportivo, artificial e autêntico, e frequentemente mais seguro dentro do ringue do que fora dele. Garra de Ferro tem estreia marcada nos cinemas para o dia 7 de março.


Nota: 4/5


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