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  • Foto do escritorVinicius Oliveira

Crítica | Hacks (3ª temporada)

Um fabuloso terceiro ano de reinvenções e ápices criativos

Foto: Max/ Divulgação


Ao final da segunda temporada de Hacks, dois anos atrás, Deborah Vance (Jean Smart) dizia a Ava (Hannah Einbinder) para as duas trilharem caminhos separados, dando a entender que a trajetória das duas juntas chegava então ao fim, e com isso a série também se encerrava. Muitos (como eu) foram tomados de surpresa pelo que parecia a finalização precoce de uma das melhores comédias da atualidade. Mas não foi o caso, e nesta terceira temporada não apenas temos um recomeço para a série, mas um novo conjunto de episódios que consegue superar com folga os das temporadas passadas, que já eram deliciosamente espetaculares.


Se situando um ano após os eventos da temporada anterior, temos aqui Deborah desfrutando de toda a sua glória, adulada e cortejada por fãs (com direito a um “come to Brazil” logo nos primeiros minutos) e marcas. Enquanto isso, Ava conseguiu trabalho como roteirista numa série de sucesso e seu namoro com Ruby (Lorenza Izzo) nunca esteve melhor. Mas basta que os caminhos das duas se cruzem mais uma vez para que toda a faísca da parceria profissional e platônica delas seja reacendida, especialmente quando Deborah entra na disputa para apresentar um talk show , seu maior sonho há anos.


Esta terceira temporada não demora a reconectar as protagonistas, mostrando como elas funcionam tão bem juntas. No entanto, não esconde a quantidade de vezes em que Deborah foi até mesmo abusiva com Ava, de modo que, mesmo se tratando de um recomeço, fica a pergunta: os velhos hábitos custam a morrer? É claro que a resposta a essa pergunta vem embalada na veia cômica e ácida da série, que parece mais afiada do que nunca. Desde gags visuais — como Ava cortando uma fatia gigantesca de um bolo feito por Tom Cruise — até linhas mordazes — como aquela em que Deborah diz que sua irmã pode ficar com o “feriado” do 11 de setembro —, Hacks nunca foi tão engraçada e ousada, jamais perdoando nada nem ninguém, a começar pelas próprias protagonistas.


É até curioso pensar que em tempos onde as linhas onde comédia e drama são muitas vezes borradas e as premiações fazem malabarismos para encaixar séries em categorias que não parecem as corretas para elas ( The Bear , eu te amo, mas essa é para você), é refrescante ver como Hacks se assume orgulhosamente como uma comédia até os ossos. Isso não quer dizer, porém, que o drama não esteja presente, como visto numa brutal discussão no último episódio. Além disso, a ênfase no envelhecimento de Deborah — que, porém, é tratada com uma naturalidade e frescor tão raros na TV quando se trata de personagens de terceira idade — ganha ainda mais força quando pensamos nos problemas de saúde de Jean Smart que ocasionaram o atraso da temporada.

Foto: Max/ Divulgação


Smart, inclusive, vem com força para seu terceiro Emmy. Uma atriz por quem é impossível não nutrir admiração e que coleciona papéis icônicos como Deborah coleciona as maiores bugigangas possíveis, ela encontrou aqui em sua protagonista aquele tipo de “papel da vida”, entregando-se de corpo e alma à personagem. Um dos maiores méritos da série é de não esconder as contradições e a “feiura” de Deborah: ela é uma mulher problemática, rude, muitas vezes preconceituosa e de comportamentos tóxicos e abusivos, e há até mesmo um episódio dedicado a isso na temporada (o penúltimo, um dos melhores da série). A comédia aqui não serve para isentar ou aliviar suas ações, mas as ressalta na medida em que expõe as facetas mais iluminadas e comoventes dela, construindo uma figura complexa por quem é impossível não se apaixonar e torcer — e novamente, o penúltimo episódio é uma amostra perfeita disso, com direito a um final lindo e emocionante que me deixou com lágrimas nos olhos.


De outro lado, porém, Hannah Einbinder entrega uma Ava melhor do que nunca, a qual também é pontuada por suas contradições — a militância performática, a falta de noção, a ingenuidade e mais. Seu timing para o humor físico e constrangedor é certeiro (como não sentir dor física ao vê-la fazendo a pior proposta de casamento do mundo?), mas ela mais uma vez comprova sua latitude dramática, seja nos momentos em que aconselha Deborah (e é aconselhada de volta) ou na dor e indignação pungentes que revela no último episódio.


Poderia falar muito mais de como o elenco da série é simplesmente maravilhoso, desde o principal até os convidados. Se por um lado vemos pouco de subtramas dos personagens como coadjuvantes, como Marcus (Carl Clemons-Hopkins, o único que senti um tanto subaproveitado na temporada), vemos aqui também uma evolução da dupla Jimmy (Paul W Downs) e Kayla (Megan Stalter), que, se antes era um ponto fraco da série — mais por causa dela do que dele —, agora se torna um dos seus pontos mais fortes, tanto pela química e dinâmica dos dois quanto pela forma como espelham a relação de Deborah e Ava, tanto nos altos quanto baixos.


Com um final que me deixou de queixo caído e sedento pela próxima temporada, Hacks entrega não só sua melhor temporada, como também a minha favorita do ano. Se antes temíamos pelo encerramento de um ciclo, aqui deixamos na expectativa de para onde vai a dinâmica das duas protagonistas, que é mais uma vez renovada. Uma coisa é certa: quaisquer que sejam os riscos tomados por essa série, eu estou confiante de que ela nunca perderá a qualidade nem se quiser.


Nota: 5/5

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