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  • Foto do escritorAianne Amado

Crítica | Triângulo da Tristeza

O meme da “crítica social f***” em divertidos – e às vezes sofríveis – 147 minutos

Foto: Divulgação


Crítica social e cinema andam juntos desde cedo. O audiovisual é um recurso excelente para expor contradições e injustiças da vida contemporânea para um grande número de pessoas de maneira provocante e atraente, sendo essa temática responsável por alguns dos melhores e mais icônicos filmes da história. Nos últimos anos, mais especialmente desde o fenômeno de Parasita (Bong Joon-ho, 2019), uma versão específica dessa crítica tem se popularizado: a narrativa eat the rich, isto é, uma tentativa de retaliação contra a burguesia, seja apontado a podridão da classe, seja projetando uma vingança aparentemente legítima nos personagens da trama. The White Lotus, Entre Facas e Segredos, O Menu e Morte Morte Morte são alguns exemplos bastante atuais dessas histórias – todas elas contadas com um tom satírico que, acertadamente, tem se tornado parte dessa estética, contribuindo para evidenciar os absurdos da vida ostensiva.


Recente adição a esse interessantíssimo grupo é Triângulo da Tristeza, triplamente indicado ao Oscar nas categorias de Melhor Filme, Melhor Direção e Melhor Roteiro, estes últimos para o sueco Ruben Östlund. O filme estreou em maio do ano passado, em pleno Festival de Cannes, e desde então vem chamando atenção pelo humor ácido e irreverente. Mas existe um limite claro entre a sátira bem construída e um amontoado de esquetes, e Triângulo da Tristeza se arrisca demais entre as duas searas.

Foto: Divulgação


Dividido em três partes conectadas pelos personagens e não muito mais que isso, o filme começa nos apresentando à tão cobiçada e desconfortável vida de dois jovens e ricos modelos, Carl (Harris Dickinson) e Yaya (Charlbi Dean). Em três sequências de puro desconforto cômico, Carl participa de uma audição bizarra; é solicitado para mudar de assento num desfile, cedendo o privilégio da primeira fila para alguém mais no auge dos 15 minutos de fama que ele; e se vê numa discussão com Yaya que se inicia sobre pagar a conta e termina com o que de fato esse relacionamento tem de lucrativo (em todos os sentidos que essa palavra pode expressar) para ambos. Tudo nesta primeira parte é excelente, do timing da direção e da química entre os atores até o diálogo propositalmente vazio, passando por uma montagem que sustenta o silêncio até quase ficar incômodo.


Começa a segunda parte. Carl e Yaya estão num iate, mais posando que vivendo. A esse ponto, já estamos investidos no romance instagramável dos dois e ansiosos para saber onde esse amor funcional nos levará… e aí o filme esquece deles. O foco muda e passa a ser a relação dos excêntricos hóspedes com a tripulação, que subservientemente aceita cada ordem, por mais extravagante e humilhante. Thomas Smith (Woody Harrelson), um comunista declarado que usa o álcool como antídoto para sua contradição de trabalhar para o 1%, é o capitão do navio, que tem como evento de gala um jantar com sua presença. Chegando a hora da tão aguardada cerimônia, com hóspedes em suas melhores roupas e tripulação em melhores sorrisos servis, a embarcação vai ficando mais e mais instável, o que é muito bem representado pela movimentação de câmera mimetizando as ondulações turbulentas. Recapitulando: estamos claustrofobicamente restritos a uma embarcação de médio porte no meio do mar, com pessoas desprezíveis, num movimento oscilante e nauseante. Agoniante o suficiente? Não para Östlund, que acrescenta uma sequência escatológica de uma literal enxurrada de vomito e merda.

Foto: Divulgação


Aos olhos desta crítica – que deve confessar, tem estômago fraco e nunca foi muito fã do uso do nojo para chocar – é aí que o filme sai da esfera da sátira e entra na do ridículo. É nítida a intenção do cineasta em contrapor a aparência limpa e imaculada da elite com toda a podridão que verdadeiramente tem por dentro, mas o exagero e o absurdo em tudo que permeia essa cena causa muito mais que a repulsa esperada, se tornando quase insuportável de assistir. Mas a sequência é tão longa que, depois que você decide encará-la, ainda dá tempo de se acostumar e, pior ainda, se entediar. Lembro de, sentada na sala de cinema, desejar estar em casa, apertando o botão de adiantar essa que, certamente, foi pensada com a pretensão de ser uma das cenas mais icônicas do ano.


As desventuras no iate desembocam na terceira e última parte, com parte dos hóspedes e da tripulação náufragos numa ilha aparentemente deserta. Dinheiro, títulos e seguidores não importam aqui, e os papéis se invertem: agora, quem comanda é Abigail (incrivelmente interpretada por Dolly de Leon), ex-cozinheira da embarcação e única com qualquer habilidade de sobrevivência ali. No maior chavão freiriano, a oprimida passa a oprimir e rebaixar os demais sobreviventes, utilizando comida, conforto e sexo como moeda de troca nesse novo sistema em que ela é a capitã, talvez para dar o troco… ou talvez porque todo ser humano é mesmo podre.


O Triângulo da Tristeza é equilátero: formado por três partes completamente diferentes – desde a paleta de cores ao ritmo de montagem – unidas por uma temática e alguns personagens que por vezes o próprio filme esquece que tem. Isso não é necessariamente ruim, mas também não é exatamente bom. Ao final, nos resta uma salada (mal digerida, diga se de passagem) de caricaturas e sátiras sociais que querem dizer muito mas não conseguem de fato exprimir nada do que já não tenhamos visto melhor antes.


Nota: 3/5

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