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Crítica | Godzilla Minus Zero

Vinicius Oliveira

03 de nov de 2026 · 4 min de leitura

Sequência amplia o drama humano e escopo monstruoso, mesmo com menor participação de seu protagonista e estrutura por vezes similar ao primeiro filme.


Divulgação


Com mais de 70 anos de história, Godzilla já ganhou inúmeras versões e representações no cinema, mas poucas arrebataram tanto o imaginário popular como Godzilla Minus One, que, dentre seus muitos feitos (incluindo um marcante Oscar de Melhores Efeitos Visuais), conseguiu trazer uma lufada de ar fresco para o personagem, cuja imagem no Ocidente nos últimos anos estava atrelada unicamente à medíocre franquia do Monsterverse. Com o sucesso instantâneo de Minus One, uma sequência era inevitável, e ela chega 3 anos depois na forma de Godzilla Minus Zero.


Dessa vez, Takashi Yamazaki nos leva para o Japão de 1949, dois anos após o destrutivo ataque de Godzilla no país, e cuja população mal se recupera deste ataque e das consequências da guerra quando uma nova ameaça irrompe e põe todos em perigo. Enquanto o doutor Kenji Noda (Hidetaka Yoshioka), agora diretor do Centro de Resposta a Desastres em Larga Escala, tenta conter essa nova ameaça ao lado da prodígio Makoto Aoyama (Masami Nagasawa), o casal Kōichi (Ryunosuke Kamiki) e Noriko Shikishima (Minami Hamabe) apenas tentam criar sua filhinha Akiko (Sae Nagatani), mas logo são tragados para esse conflito, especialmente quando se descobre que Noriko tem um papel crucial para que os planos de Noda deem certo.


Como de praxe no universo de kaijus da Toho (sobretudo as produções envolvendo Godzilla), Yamazaki amplia o escopo ao inserir pelo menos mais um monstro do cânone, que figura como o principal antagonista da vez, o que logo coloca Godzilla na posição de anti-herói que ele passou a assumir várias vezes ao longo dos anos. Apesar da identidade da nova criatura ter sido mantida em segredo no material de divulgação do filme, não é fácil chegar à conclusão de quem se trata, mesmo antes de assisti-lo; e de fato, Yamazaki já começa o longa nos lançando no meio da destruição causada por ela e destacando seus poderes singulares.


Ao longo da sua primeira metade, Godzilla Minus Zero enfoca os esforços das autoridades japonesas em conter essa ameaça, ao mesmo tempo em que lidam com a relação ambígua com o exército americano. Que Godzilla surgiu como uma metáfora para os efeitos da bomba atômica no Japão não é uma surpresa para ninguém, mas é até surpreendente o quanto Yamazaki se mostra incisivo e crítico à essa presença americana no país mesmo após a guerra (o que cria uma curiosa ligação com o excelente Shin Godzilla, de Hideaki Anno). Esses comentários são expressos sobretudo através do arco de um dos novos personagens do filme, ainda que suas motivações acabem ficando deslocadas dentro da obra – mas ao menos rendam uma cena fantástica que parece até uma adaptação do meme “Go ahead and destroy the financial district, Godzilla. Make the people happy”.


Divulgação


Mas assim como em seu antecessor, Yamazaki está muito mais interessado em trabalhar com a escala humana dessa tragédia, seja com alguns flashbacks pontuais que nos levam de volta a momentos durante e logo após o primeiro filme ou com as próprias consequências destes eventos nas vidas dos personagens, como é o caso de Kōichi e Noriko. Se o primeiro protagonizava Minus One com seu conflito interno entre seguir suas ordens enquanto kamikaze e tentar sobreviver em meio ao desastre que assolava o Japão, agora é Noriko quem assume maior protagonismo a partir de uma determinada revelação que explica sua sobrevivência no filme anterior, e que ajuda a demarcar o evento catalisador da segunda metade deste longa. Diria até que Minus Zero é mais maduro no seu drama humano, articulando melhor os elementos melodramáticos com o qual trabalha. Até a participação da pequena Akiko funciona aqui, com Sea Nagatani entregando uma das melhores performances mirins do cinema recente.


Entretanto, é inegável que há determinados momentos em que Yamazaki parece reciclar um pouco da estrutura de Minus One, sobretudo no que tange às grandiosas sequências de destruição por parte do(s) monstro(s). Se o drama humano em partes funciona por já conhecermos aqueles personagens do primeiro filme e nos importarmos com eles, o escopo de destruição parece obedecer à lógica do “quanto mais, melhor” que superabunda em sequências, sobretudo as ocidentais, e acaba retirando um certo frescor.


Contudo, é inegável que, quando o filme enfim entrelaça essas duas escalas – a micro dos humanos e a macro dos monstros –, ele atinge um nível próximo da perfeição, sobretudo nos cinquenta minutos finais. Yamazaki demonstra um controle notório da mise-en-scène, alternando entre as duas escalas por intermédio dos próprios planos – gerais para enquadrar os monstros em luta, fechados para registrar os efeitos desse combate sobre os seres humanos. E, embora haja bem menos de Godzilla aqui do que um filme com seu nome no título poderia sugerir, a presença do monstro mais icônico do cinema se encaixa bem nessa figura mais “anti-heroica” que não obedece a nenhuma lei senão as da natureza e dos deuses. Assim, os personagens humanos se veem forçados a existirem simultaneamente à margem e no centro dos eventos, conforme eles lidam com sua própria insignificância e pequenez, mas ao mesmo tempo conseguem agir para lutar por si próprios enquanto os monstros se digladiam.


Godzilla Minus Zero certamente gerará um sólido debate sobre se está à altura ou não do seu antecessor, ou até se o supera. Embora ache que ele não atinja o mesmo nível por perder um tanto daquele frescor que Minus One possuíam e por algumas decisões de roteiro que o sobrecarregam, é inegável que Takashi Yamazaki compreende e se vale dos códigos do universo de Godzilla e demais kaijus de uma maneira que Hollywood apenas sonha em compreender, criando um raro blockbuster que consegue ser eficaz tanto na grandiosidade da sua escala e das sequências de ação (cujo CGI continua a ser uma verdadeira maravilha) quanto do drama humano para nos importarmos com os personagens e não apenas com o choque de monstro oferecido pelo filme.


Nota: 4/5

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Crítica | Godzilla Minus Zero

há 15 horas
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Sequência amplia o drama humano e escopo monstruoso, mesmo com menor participação de seu protagonista e estrutura por vezes similar ao primeiro filme.


Divulgação


Com mais de 70 anos de história, Godzilla já ganhou inúmeras versões e representações no cinema, mas poucas arrebataram tanto o imaginário popular como Godzilla Minus One, que, dentre seus muitos feitos (incluindo um marcante Oscar de Melhores Efeitos Visuais), conseguiu trazer uma lufada de ar fresco para o personagem, cuja imagem no Ocidente nos últimos anos estava atrelada unicamente à medíocre franquia do Monsterverse. Com o sucesso instantâneo de Minus One, uma sequência era inevitável, e ela chega 3 anos depois na forma de Godzilla Minus Zero.


Dessa vez, Takashi Yamazaki nos leva para o Japão de 1949, dois anos após o destrutivo ataque de Godzilla no país, e cuja população mal se recupera deste ataque e das consequências da guerra quando uma nova ameaça irrompe e põe todos em perigo. Enquanto o doutor Kenji Noda (Hidetaka Yoshioka), agora diretor do Centro de Resposta a Desastres em Larga Escala, tenta conter essa nova ameaça ao lado da prodígio Makoto Aoyama (Masami Nagasawa), o casal Kōichi (Ryunosuke Kamiki) e Noriko Shikishima (Minami Hamabe) apenas tentam criar sua filhinha Akiko (Sae Nagatani), mas logo são tragados para esse conflito, especialmente quando se descobre que Noriko tem um papel crucial para que os planos de Noda deem certo.


Como de praxe no universo de kaijus da Toho (sobretudo as produções envolvendo Godzilla), Yamazaki amplia o escopo ao inserir pelo menos mais um monstro do cânone, que figura como o principal antagonista da vez, o que logo coloca Godzilla na posição de anti-herói que ele passou a assumir várias vezes ao longo dos anos. Apesar da identidade da nova criatura ter sido mantida em segredo no material de divulgação do filme, não é fácil chegar à conclusão de quem se trata, mesmo antes de assisti-lo; e de fato, Yamazaki já começa o longa nos lançando no meio da destruição causada por ela e destacando seus poderes singulares.


Ao longo da sua primeira metade, Godzilla Minus Zero enfoca os esforços das autoridades japonesas em conter essa ameaça, ao mesmo tempo em que lidam com a relação ambígua com o exército americano. Que Godzilla surgiu como uma metáfora para os efeitos da bomba atômica no Japão não é uma surpresa para ninguém, mas é até surpreendente o quanto Yamazaki se mostra incisivo e crítico à essa presença americana no país mesmo após a guerra (o que cria uma curiosa ligação com o excelente Shin Godzilla, de Hideaki Anno). Esses comentários são expressos sobretudo através do arco de um dos novos personagens do filme, ainda que suas motivações acabem ficando deslocadas dentro da obra – mas ao menos rendam uma cena fantástica que parece até uma adaptação do meme “Go ahead and destroy the financial district, Godzilla. Make the people happy”.


Divulgação


Mas assim como em seu antecessor, Yamazaki está muito mais interessado em trabalhar com a escala humana dessa tragédia, seja com alguns flashbacks pontuais que nos levam de volta a momentos durante e logo após o primeiro filme ou com as próprias consequências destes eventos nas vidas dos personagens, como é o caso de Kōichi e Noriko. Se o primeiro protagonizava Minus One com seu conflito interno entre seguir suas ordens enquanto kamikaze e tentar sobreviver em meio ao desastre que assolava o Japão, agora é Noriko quem assume maior protagonismo a partir de uma determinada revelação que explica sua sobrevivência no filme anterior, e que ajuda a demarcar o evento catalisador da segunda metade deste longa. Diria até que Minus Zero é mais maduro no seu drama humano, articulando melhor os elementos melodramáticos com o qual trabalha. Até a participação da pequena Akiko funciona aqui, com Sea Nagatani entregando uma das melhores performances mirins do cinema recente.


Entretanto, é inegável que há determinados momentos em que Yamazaki parece reciclar um pouco da estrutura de Minus One, sobretudo no que tange às grandiosas sequências de destruição por parte do(s) monstro(s). Se o drama humano em partes funciona por já conhecermos aqueles personagens do primeiro filme e nos importarmos com eles, o escopo de destruição parece obedecer à lógica do “quanto mais, melhor” que superabunda em sequências, sobretudo as ocidentais, e acaba retirando um certo frescor.


Contudo, é inegável que, quando o filme enfim entrelaça essas duas escalas – a micro dos humanos e a macro dos monstros –, ele atinge um nível próximo da perfeição, sobretudo nos cinquenta minutos finais. Yamazaki demonstra um controle notório da mise-en-scène, alternando entre as duas escalas por intermédio dos próprios planos – gerais para enquadrar os monstros em luta, fechados para registrar os efeitos desse combate sobre os seres humanos. E, embora haja bem menos de Godzilla aqui do que um filme com seu nome no título poderia sugerir, a presença do monstro mais icônico do cinema se encaixa bem nessa figura mais “anti-heroica” que não obedece a nenhuma lei senão as da natureza e dos deuses. Assim, os personagens humanos se veem forçados a existirem simultaneamente à margem e no centro dos eventos, conforme eles lidam com sua própria insignificância e pequenez, mas ao mesmo tempo conseguem agir para lutar por si próprios enquanto os monstros se digladiam.


Godzilla Minus Zero certamente gerará um sólido debate sobre se está à altura ou não do seu antecessor, ou até se o supera. Embora ache que ele não atinja o mesmo nível por perder um tanto daquele frescor que Minus One possuíam e por algumas decisões de roteiro que o sobrecarregam, é inegável que Takashi Yamazaki compreende e se vale dos códigos do universo de Godzilla e demais kaijus de uma maneira que Hollywood apenas sonha em compreender, criando um raro blockbuster que consegue ser eficaz tanto na grandiosidade da sua escala e das sequências de ação (cujo CGI continua a ser uma verdadeira maravilha) quanto do drama humano para nos importarmos com os personagens e não apenas com o choque de monstro oferecido pelo filme.


Nota: 4/5

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