Entrevista | “Os verdadeiros monstros estão entre nós”: Takehiro Hira fala sobre “Monarch: Legacy of Monsters”
- Vinicius Oliveira

- há 2 horas
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Ator japonês discutiu o drama humano na série, ambientada no universo da franquia Monsterverse.

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[Contém spoilers da primeira temporada e dos episódios já lançados da segunda temporada.]
Em um mundo no qual monstros colossais se digladiam entre si, que lugar o ser humano ainda é capaz de ocupar? Essa pergunta é talvez a essência de Monarch: Legacy of Monsters, série da AppleTV que integra a franquia Monsterverse e cuja segunda temporada está atualmente em exibição. Ambientada após os eventos de Godzilla (2014), a série acompanha os meios-irmãos Cate (Anna Sawai) e Kentaro (Ren Watabe), os quais descobrem a existência um do outro após o desaparecimento do pai Hiroshi (Takehiro Hira), o qual manteve em segredo por décadas a informação de que tinha duas famílias.
A partir daí, os irmãos são auxiliados pela ex-namorada de Kentaro, May (Kiersey Clemmons), para descobrirem os segredos do pai, os que o leva a se envolver tanto com a Monarch, a misteriosa organização que monitora monstros como Godzilla e King Kong – os quais são chamados de Titãs –, quanto com um velho amigo de Hiroshi, o coronel Lee Shaw (Kurt Russell). Enquanto isso, no passado, um jovem Lee (Wyatt Russell) conhece os cientistas Keiko (Mari Yamamoto) – futura mãe de Hiroshi – e Bill Randa (Anders Holm), e suas descobertas e investigações não apenas ajudam a fundar a Monarch, como reverberam nos eventos do presente.
O Oxente Pipoca teve a oportunidade de entrevistar Takehiro Hira para falar mais sobre sua participação na série. O ator de 51 anos nasceu em Tóquio e já conta com vinte anos de carreira, e entre seus papéis de destaque estão a série britânica Giri/Haji (que conta com um elenco tanto britânico quanto japonês) e mais recentemente Xogum, pela qual foi indicado ao Emmy de Melhor Ator Coadjuvante – e onde também contracenou com Anna Sawai, que ganhou o Emmy de Melhor Atriz pela série.
Questionado sobre o dilema enfrentado por Hiroshi a respeito das duas mulheres que amou e as duas famílias que constituiu, Hira destacou que, embora fosse fácil julgar seu personagem por estas ações, era importante lembrar que ele vem de uma longa linhagem de abandonos: primeiro por sua mãe, que supostamente morreu (embora descubramos ao final da primeira temporada que ela ficou presa por décadas no Axis Mundi, um mundo no interior da terra de onde vêm os Titãs); depois por Lee, também perdido no Axis Mundi; e então por seu padrasto Bill, que o negligenciou e o abandonou para seguir na sua busca pelos Titãs (e também por descobrir que Keiko teve um caso extraconjugal com Lee).
“Acho que ele simplesmente procurou por qualquer tipo de amor ou carinho que pudesse conseguir. Tanto com sua esposa no Japão quanto nos EUA, acho que ele foi sincero naquele momento, ele amava aquelas mulheres e não estava tentando enganar ninguém, mas ele simplesmente não pensou muito, apenas, seguiu seu instinto”, disse Hira. Para o ator, a descoberta por parte de Hiroshi de que sua mãe Keiko traiu Bill com Lee no passado o enfureceu, mas não era algo pelo qual ela pode culpá-la, já que também fez a mesma coisa.

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Devido às origens japonesas de Godzilla, há um esforço constante em Monarch não só de ambientar parte da sua trama em Tóquio – onde Hiroshi viveu parte da sua vida, e onde vivem Kentaro e sua mãe, assim como May – mas também de constituir uma parte significativa do elenco com atores japoneses ou de ascendência japonesa. Para Hira, como os atores e atrizes japoneses são bilíngues, conseguiam se sentir à vontade para falar tanto em japonês e inglês, mas era inegável que ao falarem em sua língua nativa se sentiam “mais próximos do coração”.
Ele inclusive relatou uma anedota ligado ao quinto episódio da atual temporada, o qual foi intitulado Furusato em referência a uma antiga canção de ninar japonesa. Segundo ele, a ideia para usar a música partiu de Mari Yamamoto (intérprete de Keiko). “Então não se trata só da língua, mas da música, aquela música antiga que praticamente todo mundo no Japão conhece, que ressoa tanto em nós. Então, foi um momento realmente especial no final da vida de Hiroshi. A família se reuniu e não só conversou em japonês, mas também cantou a música que costumava cantar quando eram crianças”, afirmou.
Por fim, Hira refletiu sobre mesmo como numa série onde se vê monstros e criaturas como Godzilla, King Kong ou Titã X (o “antagonista” da segunda temporada), questões ligadas à nossa realidade ainda se fazem presentes. “Nós japoneses às vezes usamos o Godzilla como metáfora para a sociedade, especialmente depois da guerra e depois daquela história do Godzilla ter ingerido radiação e tudo mais. E acho que na série a gente estava lutando ou tentando descobrir o que o Titã X ou aqueles monstros queriam fazer, mas, no final, os verdadeiros monstros estão entre nós”, pontuou Hira. Para o ator, a luta dos personagens contra a ganância corporativa da Apex Cybernetics, empresa rival da Monarch no universo da franquia, e a busca constante das pessoas por mais poder ao ponto de se tornarem mais monstruosas que os próprios monstros do universo, revela muitas metáforas sobre nosso mundo atual.
A segunda temporada de Monarch: Legacy of Monsters segue em exibição, com os episódios saindo toda quinta-feira às 22h.



















