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Crítica | Lanternas (1ª temporada)

Foto do escritor: Vinicius Oliveira
Vinicius Oliveira
há 9 horas
5 min de leitura

Série equilibra (ou ao menos tenta equilibrar) mistério investigativo, desenvolvimento de personagens e mitologia cósmica.

Divulgação


É uma escolha deveras interessante a de pegar o Lanterna Verde, um dos heróis dos quadrinhos com a mitologia mais vasta (e maluca), e adaptá-lo numa pegada mais “pé no chão” como proposto nesta primeira temporada de Lanternas. À primeira vista pode se pensar numa escolha deliberada para distanciar a figura do herói da sua única tentativa de adaptação em live-action, o tenebroso filme de 2011. Mas a própria escolha da trinca de criadores – Chris Mundy (que trabalhou em True Detective e Ozark e assina como showrunner aqui), Damon Lindelof (Lost, The Leftovers e Watchmen) e Tom King (que escreveu HQs como The Vision, Batman e Supergirl: Woman of Tomorrow) – já é um indicativo das diferentes fontes das quais Lanternas bebe, as quais podem ser agrupadas em três: mistério investigativo, drama de estudo de personagem e sci-fi cósmico.


Em essência, a série acompanha o consagrado Lanterna Verde Hal Jordan (Kyle Chandler) e seu aprendiz John Stewart (Aaron Pierre), que partem para investigar um massacre numa cidadezinha do interior do Nebraska. A relação entre os dois, porém, está longe de ser amistosa: primeiro Lanterna terráqueo e humano da história, Hal não está nada disposto a dividir espaço com John, tampouco lhe passar o bastão. O próprio John, treinado incansavelmente desde a infância para ser um Lanterna, tem suas próprias motivações nessa parceria com Hal. Mas à medida que o mistério que investigam progride e revela novas facetas – sobretudo na forma de ameaças extraterrestres –, ambos são forçados a tomarem decisões difíceis que reverberam através do tempo.


Desde seu primeiro episódio, é perceptível que a dinâmica de Hal e John (e por extensão de seus intérpretes) é o coração da série e sua maior força. Parceiros policiais que não se bicam, mas que eventualmente desenvolvem algum tipo de respeito um pelo outro, estão longe de ser uma novidade no subgênero do buddy cop, mas aqui é uma decisão revigorante que também possibilita o desenvolvimento de ambos os personagens. Eles são aproximados pelas questões que envolvem suas masculinidades, mas também contrastados por elas – bem como pelo componente racial, como evidente no terceiro episódio.


Onde Kyle Chandler brilha com esse tipo arrogante, debochado e insubmisso (mas com diversas fragilidades e nuances sendo reveladas aos poucos, sobretudo no ótimo penúltimo episódio), Aaron Pierre tem um papel mais difícil de entregar um personagem que está constantemente se controlando e policiando para não transparecer suas vulnerabilidades e se provar, mas eventualmente pode se abrir e encontrar seu próprio caminho. Apesar disso, diria que o maior destaque da série seja Kelly McDonald como a xerife Kerry, que entre apoiar os dois Lanternas e precisar se opor pelos vínculos com seus misteriosos sogros, Will (Garret Dillahunt) e Zoe (Poorna Jagannathan), revela-se a personagem mais interessante e rica da temporada.

 

O mistério investigativo, se não exatamente revolucionário ou disruptivo, também ajuda a trazer um certo frescor dentro das narrativas de super-herói. Há inevitáveis semelhanças com True Detective e Watchmen, que certamente advêm dos envolvimentos de Mundy e Lindelof, sobretudo na dinâmica de detetives e o desdobramento do mistério em camadas, bem como a ambientação numa cidade do Meio-Oeste estadunidense, que ajuda a tornar o escopo mais acessível e a explorar mais do desenvolvimento dos personagens. Isso, porém, não vem sem um certo preço.

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Mesmo em seus melhores momentos, é inegável a tensão que Lanternas enfrenta ao priorizar o aspecto mais “mundano” da sua narrativa com a vastidão da mitologia que está adaptando. Não que a série tivesse a obrigação de adaptar ao pé da letra os elementos cósmicos e espaciais que envolvem o universo dos Lanternas para ser boa, mas é perceptível como em diversos momentos a série apela para os recursos mais simples possíveis, como, por exemplo, os diversos diálogos expositivos que tentam transmitir um pouco da estranheza que permeia tal universo, relegando a momentos pontuais (como no quinto e sétimo episódios) soluções visuais que parecem mais em consonância com a mitologia do personagem. A superabundância destes diálogos ao longo da temporada é perceptível demais para ser ignorada, e ainda que funcionem para os momentos voltados à psique e desenvolvimento dos personagens, não deixam de se apresentar como uma estratégia um tanto preguiçosa e conveniente quando se trata da apresentação desta mitologia.


É como se a série ainda estivesse presa àquela lógica que domina as adaptações de super-heróis nos últimos 20 anos, que precisam traduzir tudo para o “realista” de forma a ser palatável para o público médio, reagindo com um certo cinismo e até vergonha ao que é mais cartunesco (por exemplo, nas piadinhas com o fato de se ter esquilos ou até um planeta nas fileiras dos Lanternas). Essa decisão até faria sentido uns 10 anos atrás, mas em meio à saturação do gênero na atualidade são justamente obras como Superman, que inaugurou este novo universo da DC do qual a série faz parte, que apresentam possibilidades de se traduzir o material-fonte para o audiovisual sem renegar seu lado mais lúdico e fantástico. Pode até ser que isso se dê por questões orçamentárias – afinal de contas, uma série raramente dispõe do orçamento de um filme – mas, como apontei no primeiro parágrafo, parece uma forma de evitar que o público reaja da forma como reagiu ao filme de 2011 e sua overdose de CGI.


Mas talvez essa questão pudesse até ser relevada não fosse a mudança de ritmo e tom que a série imprime entre seu quinto e sexto episódios. Sem dar maiores spoilers, basta dizer que no quinto episódio vemos um grande clímax para aquilo que vinha se desenrolando, e a partir do episódio seguinte temos uma outra linha narrativa que já havia prenunciada num foreshadowing ao final do primeiro episódio e que, embora em tese seja uma continuidade do que vimos na primeira metade da temporada, é basicamente um recomeço. A abertura dessa linha narrativa não é o que me incomoda – me fez pensar inclusive na saudosa primeira temporada de True Detective e como ela mostrou os mistérios por baixo da superfície após resolver seu “caso principal” também no quinto episódio –, mas a sensação é que três episódios se mostram bem pouco para dar conta de tudo que a série quer mostrar nessa segunda metade da temporada, e com isso vê-se resoluções convenientes, um ritmo atropelado e um uso mais esquemático e protocolar dos personagens. Mais uma vez, é nítido como a redução do tamanho das temporadas de séries na era dos streamings prejudica a estrutura delas; consigo visualizar perfeitamente uma temporada de 10 episódios conseguindo solucionar boa parte desses problemas.


Apesar desses percalços, Lanternas oferece um renovo para um herói pelo qual sempre tive grande simpatia. Talvez ainda precise de mais coragem para abraçar certas estranhezas inerentes à sua mitologia, mas mesmo nessa abordagem mais realista (e com as limitações que a acompanham) consegue trazer os holofotes para os Lanternas e nos animar para seu futuro no audiovisual. Se for com mais cores e sem vergonha de um certo ridículo – e numa temporada com mais episódios e um maior orçamento –, melhor ainda.


Nota: 3.5/5

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