top of page

Início > Críticas

​

Crítica | Living

Ávila Oliveira

05 de mar de 2023 · 3 min de leitura

Adaptação cativante prova que o carpe diem do Kurosawa segue atemporal e infalível

Foto: Divulgação


Williams (Bill Nighy) é um funcionário público veterano, e uma peça importante dentro da burocracia de Londres que luta para se reconstruir após a Segunda Guerra Mundial. Williams passa seus solitários dias soterrado em papeladas de seu trabalho, sem qualquer perspectiva de futuro, sem qualquer ânimo para viver e sem qualquer motivação para fazer outra coisa além da sua travada rotina. Após um diagnóstico médico que o faz pensar sobre seus dias restantes de vida, o velho homem busca novos horizontes e novas maneiras de aproveitar suas horas, e entre prazeres e obrigações ele descobre que o grande feito da sua vida ainda está por vir e esteve sempre bem próximo.


O roteiro do japonês Kazuo Ishiguro é baseado no filme Ikiru (1952) do aclamado diretor Akira Kurosawa e consegue adaptar com sucesso a história para o contexto inglês pós-guerra. E por mais que o filme de Kurosawa seja um fenômeno de unidade estilística – uma das grandes qualidades do diretor – a adaptação consegue trazer um frescor em relação à obra original. Começando pelas abordagens usadas nos filmes e como se apresentam desde o momento inicial. Enquanto o filme de Kurosawa imprimia uma versão mais pessimista e logo no frame inicial estampa uma lâmina de raio-x exibindo a doença do protagonista, o sensível diretor sul-africano Oliver Hermanus opta por introduzir o enredo principal através de um carismático personagem secundário que, assim como o espectador, vai se aprofundando na história principal à medida em que vai conhecendo os demais personagens.


Acho que na verdade esse é o grande triunfo de Living, fazer com que o enredo parecesse mais adorável do que ele realmente é. Ikiru é, apesar de bastante sentimental, uma lição de moral essencialmente pessimista e com várias visões negativas e críticas em relação à sociedade e ao ser humano moderno/pós-moderno. E Living consegue mudar o tom e introduzir mais alívios cômicos mesmo mantendo todas as críticas e pontos de vista negativos. O serviço público é visto como uma grande máquina ultrapassada e enferrujada, o homem é um ser indiferente, e o sistema capitalista não permite que todos gozem dos mesmos prazeres em vida. A sociedade é mecânica, engessada aversa a qualquer mudança, a qualquer tentativa de melhora que fuja do padrão preestabelecido pelo “sistema”. Estamos muito distantes dos anos 50?

Foto: Divulgação


Hermanus filma de uma maneira precisa e purista com poucos cortes e usa uma estética plástica bem estruturada numa fotografia que trabalha com primor sombras e blocking. A fotografia opera em uníssono com a direção de arte de Helen Scott que mostra uma Londres sisuda e imponente. O filme não é em preto e branco, mas foi filmado com uma paleta bem reduzida, trabalhando quase sempre em tons de branco e cinza para se contrapor com as sombras constantemente presentes.


Não menos importante, Bill Nighy está incontestável no papel principal. O ator consegue permear pelos diferentes momentos do filme sem perder o pesar no olhar, sem perder a vaga esperança de que seus finitos dias se prolonguem mesmo sabendo que isso é inevitável. Ao mesmo em que a atuação de Nighy parece ser a peça central de um grande quebra-cabeças, ela também parece ser a imagem que é forma quando todas as peças estão no lugar.


Living tem duas difíceis missões: a de mostra sentimento num mundo sem expressões e sem demonstrações e cada vez mais acostumado com isso; e a de remontar um filme de um dos maiores diretores da história do cinema, e o longa se sai muito bem nelas. Não é todo filme que consegue contemplar temas tão universais como a morte, propósito de vida e legado pessoal com tanta graça e com tanta elegância. Nunca é tarde para se debruçar e refletir na velha história do homem que começou a viver quando descobriu que estava morrendo.


Nota: 4/5

LEIA TAMBÉM

CRÍTICAS

Crítica | Tudo Pode Ser Visto (Mostra de SP 2026)

CRÍTICAS

Crítica | NAZA

CRÍTICAS

Crítica | O Bosque Selvagem

MAIS RECENTES

NOTÍCIAS

Lista | Os melhores filmes vistos na 50ª Mostra de SP

NOTÍCIAS

Criadores de 'Delegado' revelam que série chegou a ter arcos para...

NOTÍCIAS

Lázaro Ramos diz que Feito Pipa propõe uma "pedagogia do afeto" ao...

CATEGORIAS

Notícias
Críticas
Análises
Awards Season
Crias do Brasil
Listas
Entrevistas
Festivais

NEWSLETTER

image.png

Cinema brasileiro, festivais e temporada de premiações direto no seu e-mail

MAIS LIDAS NO MÊS

01

NOTÍCIAS

Lázaro Ramos diz que Feito Pipa propõe uma "pedagogia do afeto" ao...

02

NOTÍCIAS

Uma adaptação de Os Imortais, de Paulliny Tort, está em...

03

NOTÍCIAS

Lista | Os melhores filmes vistos na 50ª Mostra de SP

Crítica | Living

5 de mar. de 2023
3 min de leitura

Atualizado: 8 de out.

Adaptação cativante prova que o carpe diem do Kurosawa segue atemporal e infalível

Foto: Divulgação


Williams (Bill Nighy) é um funcionário público veterano, e uma peça importante dentro da burocracia de Londres que luta para se reconstruir após a Segunda Guerra Mundial. Williams passa seus solitários dias soterrado em papeladas de seu trabalho, sem qualquer perspectiva de futuro, sem qualquer ânimo para viver e sem qualquer motivação para fazer outra coisa além da sua travada rotina. Após um diagnóstico médico que o faz pensar sobre seus dias restantes de vida, o velho homem busca novos horizontes e novas maneiras de aproveitar suas horas, e entre prazeres e obrigações ele descobre que o grande feito da sua vida ainda está por vir e esteve sempre bem próximo.


O roteiro do japonês Kazuo Ishiguro é baseado no filme Ikiru (1952) do aclamado diretor Akira Kurosawa e consegue adaptar com sucesso a história para o contexto inglês pós-guerra. E por mais que o filme de Kurosawa seja um fenômeno de unidade estilística – uma das grandes qualidades do diretor – a adaptação consegue trazer um frescor em relação à obra original. Começando pelas abordagens usadas nos filmes e como se apresentam desde o momento inicial. Enquanto o filme de Kurosawa imprimia uma versão mais pessimista e logo no frame inicial estampa uma lâmina de raio-x exibindo a doença do protagonista, o sensível diretor sul-africano Oliver Hermanus opta por introduzir o enredo principal através de um carismático personagem secundário que, assim como o espectador, vai se aprofundando na história principal à medida em que vai conhecendo os demais personagens.


Acho que na verdade esse é o grande triunfo de Living, fazer com que o enredo parecesse mais adorável do que ele realmente é. Ikiru é, apesar de bastante sentimental, uma lição de moral essencialmente pessimista e com várias visões negativas e críticas em relação à sociedade e ao ser humano moderno/pós-moderno. E Living consegue mudar o tom e introduzir mais alívios cômicos mesmo mantendo todas as críticas e pontos de vista negativos. O serviço público é visto como uma grande máquina ultrapassada e enferrujada, o homem é um ser indiferente, e o sistema capitalista não permite que todos gozem dos mesmos prazeres em vida. A sociedade é mecânica, engessada aversa a qualquer mudança, a qualquer tentativa de melhora que fuja do padrão preestabelecido pelo “sistema”. Estamos muito distantes dos anos 50?

Foto: Divulgação


Hermanus filma de uma maneira precisa e purista com poucos cortes e usa uma estética plástica bem estruturada numa fotografia que trabalha com primor sombras e blocking. A fotografia opera em uníssono com a direção de arte de Helen Scott que mostra uma Londres sisuda e imponente. O filme não é em preto e branco, mas foi filmado com uma paleta bem reduzida, trabalhando quase sempre em tons de branco e cinza para se contrapor com as sombras constantemente presentes.


Não menos importante, Bill Nighy está incontestável no papel principal. O ator consegue permear pelos diferentes momentos do filme sem perder o pesar no olhar, sem perder a vaga esperança de que seus finitos dias se prolonguem mesmo sabendo que isso é inevitável. Ao mesmo em que a atuação de Nighy parece ser a peça central de um grande quebra-cabeças, ela também parece ser a imagem que é forma quando todas as peças estão no lugar.


Living tem duas difíceis missões: a de mostra sentimento num mundo sem expressões e sem demonstrações e cada vez mais acostumado com isso; e a de remontar um filme de um dos maiores diretores da história do cinema, e o longa se sai muito bem nelas. Não é todo filme que consegue contemplar temas tão universais como a morte, propósito de vida e legado pessoal com tanta graça e com tanta elegância. Nunca é tarde para se debruçar e refletir na velha história do homem que começou a viver quando descobriu que estava morrendo.


Nota: 4/5

LEIA MAIS SOBRE

CONTINUE LENDO

CRÍTICAS

Crítica | Quero Ser Como Você (Mostra de SP 2026)

CRÍTICAS

Crítica | Amadeo e o Hipotético Mundo Novo (Mostra de SP 2026)

CRÍTICAS

Crítica | A História Mais Triste do Mundo (Mostra de SP 2026)

bottom of page