Crítica | NAZA
Premiado em Veneza, documentário expõe os bastidores da máquina de guerra israelense em Gaza

Em determinado momento de NAZA, novo documentário de Yuval Abraham e Rachel Szor, um dos israelenses entrevistados comenta que, quando estudava o Holocausto, não conseguia compreender como os alemães eram capazes de conviver com tamanho horror. Agora, ele sabe.
Eu, por outro lado, sempre tive um questionamento distinto. Nascida e criada no Nordeste brasileiro, sem qualquer ascendência judaica, cresci me perguntando como o mundo permitiu que aquele genocídio acontecesse. Agora, eu também sei.
NAZA é o termo utilizado pelos setores de inteligência militar de Israel para designar o número de civis mortos como consequência dos ataques destinados a aniquilar integrantes do Hamas. A proporção pouco importa: um integrante para cinco, dez, vinte ou cem civis. Tampouco há tempo para verificar se o suposto alvo realmente está naquele local. A probabilidade de sua presença é considerada suficiente para justificar o risco. Pouco importa, ainda, se os civis são crianças, mulheres ou idosos. NAZA, afinal, é apenas um número.
O nome dado a essa métrica deriva da expressão hebraica Nezek Agavi, utilizada para designar “danos colaterais”. Uma abreviação que transforma vidas humanas em uma unidade de cálculo, convenientemente desprovida de qualquer vestígio de humanidade. A vida, em sua incansável poesia mesmo diante dos assuntos mais terríveis, quis que, coincidentemente, o nome também evocasse uma combinação entre NASA (inteligência aeronáutica dos EUA, principal parceiro militar de Israel) e Gaza.
A poesia também se faz presente na maneira como os documentaristas decidem revelar os bastidores desses números. Responsáveis também pelo premiado No Other Land, Abraham e Szor utilizam com maestria as possibilidades da linguagem audiovisual para explicitar o absurdo do que acontece no Oriente Médio. Sem recorrer a montagens extravagantes, reconstituições animadas e sequer a uma trilha sonora expressiva, constroem uma obra crua, cuja austeridade dialoga perfeitamente com a brutalidade dos acontecimentos relatados.
O documentário é estruturado em torno de entrevistas conduzidas por Abraham com 24 pessoas que trabalham ou trabalharam nos setores militares e de inteligência de Israel. São indivíduos que participaram, em diferentes níveis, das operações responsáveis pela morte de milhares de palestinos na Faixa de Gaza. Sob a condição de anonimato, têm suas vozes digitalmente alteradas e seus rostos ocultados em contraluz, restando apenas silhuetas diante da câmera.
Os encontros acontecem durante a noite, em terraços de Tel Aviv. A escolha atende à necessidade de proteger a identidade das fontes, mas adquire uma dimensão simbólica profunda: vemos figuras envoltas em sombras, movidas por uma cegueira moral, sob um céu negro que materializa as trevas que descrevem.
Aliado a isso, o silêncio ensurdecedor que acompanha todo o longa é igualmente eloquente, obrigando-nos a permanecer com o eco daquelas duras afirmações. A ausência de uma trilha sonora que ofereça ao espectador qualquer orientação emocional impede que a indignação encontre o conforto de uma catarse.
Na maioria das vezes, as afirmações mais aterradoras sobre o extermínio da população palestina são intercaladas com cenas rotineiras da capital israelense, estabelecendo um contraste que explicita a profunda assimetria entre as duas realidade. Um agente descreve o bombardeio quase arbitrário de prédios residenciais em Gaza, enquanto, pela janela de outro edifício, observamos um casal trocando carícias diante da televisão. Esse confronto, recorrente ao longo do filme, produz uma ironia que poderia até ser cômica, não fosse o embrulho permanente no estômago que impede qualquer esboço de sorriso.
As entrevistas, assim como os registros do cotidiano de Tel Aviv, são filmadas do alto de terraços na cidade. "Daqui vemos toda a cidade, mas ninguém pode nos ver", comenta um dos entrevistados, numa analogia involuntária à lógica de vigilância descrita pelos militares. O som de aviões e helicópteros sobrevoando a população, os alarmes disparados e até as interrupções no fornecimento de energia deixam evidente que há uma guerra em curso. Entretanto, estar sob um céu limpo, diante de uma cidade iluminada, moderna, intacta e funcional, reforça ainda mais a desproporcionalidade das ações descritas.
Em outros momentos, a montagem intercala os depoimentos com declarações antigas e recentes do genocida Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro israelense, evidenciando as contradições e a hipocrisia de seu discurso. Um entrevistado descreve uma operação responsável pela morte de centenas de pessoas; em seguida, um corte apresenta Netanyahu descrevendo o que caracteriza um "terrorista". A justaposição dispensa explicações.
Essas escolhas fazem de NAZA um documentário artisticamente sofisticado e tecnicamente exemplar. Entretanto, esse está longe de ser seu maior mérito.
Evito ao máximo recorrer ao uso de hipérboles em minhas críticas, por considerar que existe uma responsabilidade em atribuir às palavras seu devido peso e manter o compromisso com a honestidade em minhas avaliações. Isto posto, considero NAZA o documentário mais importante do século.

O filme já nasce simultaneamente como denúncia contemporânea e documento histórico, reunindo testemunhos detalhados sobre inúmeros crimes de guerra e contra a humanidade cometidos pelo governo de Israel. Invasão de privacidade, perseguição, ataques deliberados contra civis, utilização da fome como instrumento de guerra... É certo que qualquer pessoa atenta aos acontecimentos dos últimos anos já conheça essa lista. O que assombra, porém, é a dimensão do aparato político, militar e tecnológico desenvolvido para promover a destruição sistemática de uma população inteira, sob um pretexto que há muito deixou de se sustentar.
Tudo isso é narrado por pessoas que participaram ou ainda participam diretamente dessas operações, com uma naturalidade assustadora. Perguntas sobre os procedimentos de ataques se alternam com questionamentos acerca das motivações, dos sentimentos e do estado psicológico dos entrevistados. Fica evidente como a desumanização dos palestinos permite que indivíduos comuns participem de atrocidades sem reconhecer plenamente a gravidade de suas ações. Mecanismos semelhantes àqueles que, durante o Holocausto, reduziram os judeus à condição de seres inferiores, agora, são utilizados pelos próprios judeus para negar sistematicamente a humanidade do povo palestino.
Atualmente, o discurso de medo, urgência e vingança é associado ao emprego de tecnologias avançadas para rastrear suspeitos e coordenar ataques. Os sistemas de inteligência artificial apresentados no documentário são utilizados para rastrear, identificar e monitorar possíveis membros do Hamas em qualquer lugar que se encontrem. Em um dos relatos mais estarrecedores, a expectativa de uma criança pelo retorno do pai transforma-se em informação utilizada para determinar o momento de bombardear sua casa. A distância entre o sujeito que aperta o botão e o que tem é bombardeado transforma o genocídio em uma espécie de "videogame", como descreve um dos entrevistados. Não há pesar. Não há culpa. Há adrenalina, satisfação e a sensação de dever cumprido.
Em aproximadamente 80 minutos de filme, há um único choro: o de um pai palestino que, na sequência final, procura desesperadamente sua família entre os escombros de um edifício bombardeado. Pela primeira vez, ouvimos nomes ao invés de números. É também a única cena sob a luz do sol.
Depois de tanto tempo ouvindo relatos de tamanha insensibilidade, chega um momento em que deixamos de questionar a capacidade individual de empatia dos entrevistados e começamos a compreender a dimensão coletiva do problema. Estamos diante de uma sociedade profundamente adoecida, que desenvolveu mecanismos psicológicos de aceitação para conseguir conviver com o impensável. No fundo, parece haver a consciência de que aquilo que fazem é indefensável. Justamente por isso, recusam-se a alcançar esse fundo.
Permanecem na superfície, repetindo argumentos contraditórios e justificativas falidas, mas repetidos tantas vezes que passam a ser aceitos como verdades.
Por isso, merece enorme reconhecimento o trabalho de Yuval Abraham e Rachel Szor. Há, evidentemente, uma coragem extraordinária em denunciar um governo que não deixa dúvidas sobre sua hostilidade àqueles que o confrontam. Mais importante, porém, é a consciência crítica que os leva, mesmo sendo ambos israelenses, a se posicionar contra as atrocidades cometidas em nome de seu próprio país.
É importante destacar que em momento algum NAZA assume um caráter propagandístico. Não há discursos inflamados, apelos sentimentais ou tentativas de impor conclusões ao espectador. Há investigação, testemunhos e escolhas cinematográficas que permitem aos fatos revelar, por si mesmos, a dimensão do horror.
Da mesma forma, NAZA jamais nos convoca explicitamente a agir diante do que acabamos de assistir. Parece desejar, antes de tudo, que meramente tenhamos consciência dos mecanismos que tornam essa realidade ainda mais aterradora. Ao expor a poderosa infraestrutura política e tecnológica que sustenta a destruição de Gaza, o documentário deixa uma sensação esmagadora de impotência. O que pode uma pessoa comum fazer diante de uma engrenagem tão poderosa?
A própria existência do filme, contudo, oferece uma resposta. Abraham e Szor demonstram que, mesmo diante de estruturas aparentemente inabaláveis, ainda é possível agir. Seja boicotando empresas diretamente envolvidas na sustentação dessa violência, seja contribuindo com iniciativas de ajuda humanitária, seja utilizando nossas redes sociais para ampliar a atenção internacional sobre o genocídio palestino… ou, espero eu, escrevendo uma crítica que incentive outras pessoas a assistir a um documentário cuja importância ultrapassa, e muito, a sétima arte.
Nota: 5/5













