Crítica | A Voz de Hind Rajab
- Vinicius Oliveira

- há 3 dias
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Docuficção dilacerante materializa as milhares de crianças palestinas mortas por Israel em uma só

Foto: Divulgação
Parece mais um dia normal no Centro do Crescente Vermelho da Cisjordânia – ou tão normal quanto possível, considerando que eles vêm recebendo chamadas de vítimas em Gaza que foram redirecionadas para lá desde o começo do conflito – quando um dos atendentes, Omar (Motaz Malhees) recebe a chamada de uma mulher em desespero, presa dentro de um carro com sua família sob os tiros de um tanque israelense. No telefone, Omar ouve o exato momento em que a mulher é morta, deixando-o visivelmente abalado, mas em seguida ouve a voz de uma criança que também estava no carro – Hamood, ou Hind Rajab – e junto com os colegas tenta fazer de tudo para que ela receba a assistência de alguma ambulância que possa chegar ao local sem ser alvejada pelas tropas israelenses.
Claro que quem já acompanhou a história real de Hind – cujos áudios com a equipe do Centro viralizaram nas redes sociais, sendo (mais uma) denúncia das atrocidades cometidas pelo exército israelense – já sabe como ela vai terminar. O que a diretora Kaouther Ben Hania pretende aqui é lançar luz sobre essa história a partir de uma perspectiva mais ficcional, ou melhor dizendo, docuficcional. Embora as figuras reais sejam interpretadas por atores e atrizes, os áudios que ouvimos de Hind são realmente dela.
É uma decisão que pode ser lida como moral ou eticamente discutível, caso se alegue a natureza privada das chamadas e a exploração da dor (e tragédia) de uma criança de cinco anos. Mas em que pese o por quê da equipe do Centro ter decidido soltar os áudios na internet conforme atendiam Hind – e honestamente, num contexto brutal de guerra onde há imensa manipulação midiática, que outra forma haveria de se tentar fornecer assistência e justiça a essa criança? –, Hania busca trabalhar um novo olhar sobre uma história que ganhou alcance global, borrando as linhas entre a realidade e ficção para construir seu cinema-denúncia.
Assim, é um longa seco, sem floreios formais, que se vale da câmera de mão de Hania para capturar os atores e atrizes majoritariamente em planos fechados que intensificam seu desespero à medida em que tentam vencer toda a burocracia e entraves existentes para mandar uma ambulância que está a apenas 8 minutos de Hind. Há algumas escolhas que considero estranhas, como a sobreposição das vozes reais dos atendentes com as do elenco conforme interagem com a menina, mas essa escolha se paga na cena em que vemos numa câmera as gravações reais enquanto os atores reencenam “ao vivo” o mesmo instante.

Foto: Divulgação
Menos eficaz é o drama que o texto de Hania tenta construir a partir das tensões e conflitos entre os atendentes, em especial Omar e Mahdi (Amer Hlehel), responsável pela coordenação com os setores que podem garantir a liberação da ambulância. Não apenas pelo seu caráter um tanto didático quanto aos entraves existentes em meio à guerra para possibilitarem a ajuda humanitária necessária, por se tornarem repetitivos depois de um tempo, quase como se faltasse inspiração à diretora/roteirista para criar um estofo que acrescente às cenas com Hind – as quais são inegavelmente mais poderosas justamente por emergirem da realidade.
Mas justamente quando o filme parece chegar a um certo ponto exaustão em razão do caráter repetitivo dessas cenas, ele alcança um clímax que dificilmente sairá da cabeça do espectador tão cedo. Sem misericórdia, apenas apresentando os fatos inegáveis: a compreensão de que não só a vida de Hind e de seus familiares foi perdida, mas também daqueles deslocados para ajudá-la. O sentimento de impotência que emerge a partir dessa reconstituição dos fatos é avassalador; não sou dos que acham que a quantidade de lágrimas derramadas é indicador de qualidade de um filme, mas fazia tempo que não me sentia tão dilacerado e arrasado com o final de uma obra como aconteceu aqui.
Talvez por isso Hania escolhe terminar não enfocando a morte de Hind, mas sim sua vida. Os relatos de sua mãe sobre o amor dela pelo mar, as gravações caseiras, tudo isso dá uma dimensão ainda mais potente da perda dessa vida, e de como ela partiu em meio ao desespero. O mais doloroso e revoltante é saber que Hind está longe de ser a única: das dezenas de milhares de palestinos mortos desde a invasão de Israel em 2023, cerca da metade são mulheres e crianças. Não se trata apenas de crimes de guerra, mas da destruição de um futuro. Destruição esta materializada no corpo (e na voz) de Hind.
Nota: 4/5



















