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Crítica | Os Arcos Dourados de Olinda

Foto do escritor: Vinicius Oliveira
Vinicius Oliveira
há 2 horas
2 min de leitura

Humor ácido e flerte com o absurdo norteiam documentário que já se consagra como um dos melhores e mais marcantes filmes brasileiros do ano.


Divulgação


Seria fácil desmerecer o cinema de arquivo como uma forma “preguiçosa” de se fazer filmes, já que ele se concentra na articulação entre imagens prévias (sejam fotos ou vídeos). No entanto, há um trabalho laborioso e criativo na montagem que cria sentido e uma narrativa específica através destas imagens oriundas das mais diversas fontes. Assim, uma obra como Os Arcos Dourados de Olinda se destaca primeiramente através da montagem dos arquivos que a compõem, mas esse é apenas o primeiro aspecto de muitos que brilha no filme.


Dirigido por Douglas Henrique e com uma trajetória já consagrada em vários festivais brasileiros, Os Arcos... reúne dois universos que aparentemente não têm nada em comum: o bairrismo pernambucano e a polarização ideológica entre capitalismo e comunismo. O que une esses dois universos, segundo Henrique? A história da falência do primeiro McDonalds em Olinda, em meio à disputa pela prefeitura da cidade entre Jacilda Urquisa (PMDB) e Luciana Santos (PCdoB) no início dos anos 2000. O que parecia ser uma mera anedota na história olindense se converte na mais perfeita representação da resistência contra o imperialismo ianque nesta narrativa, que, entre ecos de realidade e ficção, atinge patamares tão absurdos que é impossível não se deixar levar por ela.


Como dito antes, o trabalho de montagem (também assinado por Henrique, que além disso co-roteiriza o filme junto com Arnon Hochman) é o primeiro aspecto que salta aos olhos diante da coesão com a qual o diretor trabalha as imagens e vídeos de arquivo. O começo pode até parecer desorientador, retornando à queda da União Soviética para contextualizar o conflito comunismo vs capitalismo antes de focalizar em Olinda e seu panorama político na virada do século. Mas não tardamos a sermos conduzidos por essas imagens, sobretudo com o emprego da narração fabulosa de Giordano Castro, a qual evita o tom acadêmico pedante típico de algumas obras desse formato em prol de um registro sardônico e ácido que colabora ainda mais para o aspecto satírico da obra.


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Com isso, não é difícil imergir numa narrativa que constantemente flerta com o absurdo, saltando entre as imagens das campanhas de Jacilda e Luciana e as fotos e registros no McDonalds da cidade, inaugurado numa avenida que era polo das figuras marginalizadas olindenses. É como se a fina ironia que permeia o curta-metragem só existisse porque tal ironia já está presente nos fatos aqui narrados, independentemente da abordagem aqui adotada. Até o bairrismo pernambucano, o qual normalmente me irrita um bocado na vida real, ganha uma lógica e emprego aqui que fazem todo sentido, especialmente pelo tratamento ácido que Henrique confere à história que conta.


Bastam alguns minutos para entender porque Os Arcos Dourados de Olinda tem se revelado um verdadeiro fenômeno a cada festival em que é exibido. O longa de estreia de Douglas Henrique faz desse pedaço da história de Olinda um microcosmo das disputas ideológicas que engolfam o mundo há mais de um século. Entre o orgulho olindense e pernambucano e as críticas ácidas ao soft power estadunidense, o resultado final é um dos melhores e mais divertidos filmes brasileiros do ano.


Nota: 4.5/5

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