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Crítica | Tudo Pode Ser Visto (Mostra de SP 2026)

Vinicius Oliveira

31 de out de 2026 · 4 min de leitura

Nathan Fielder e Lance Oppenheim embaralham os limites entre o documental e ficcional para escrutinar a vida de Elizabeth Holmes num filme que faz jus à sua reputação.


Divulgação


Quando assisti Jogo de Cena, de Eduardo Coutinho, fiquei fascinado pela maneira como o diretor borrava os limites entre o gênero do documentário e da ficção ao trazer mulheres comuns contarem suas experiências de vida, apenas para que víssemos atrizes famosas como Fernanda Torres, Andréa Beltrão e Marília Pêra para contar as mesmas histórias daquelas mulheres. Naquela linha tênue entre o “real” e a ficção, a quem pertenciam tais histórias? Como discernir o que era verdadeiro e o que era encenado?


Desde então, docudramas, como Jogo de Cena ou Close-Up de Abbas Kiarostami, se tornaram um dos meus subgêneros favoritos, e é possível considerar Tudo Pode Ser Visto como parte dessa seara. O documentário dirigido por Nathan Fielder e Lance Oppenheim busca retratar os últimos 34 dias de Elizabeth Holmes, bilionária conhecida pelo escândalo com a sua empresa Theranos, e de sua família antes dela ser presa. Entretanto, o acesso praticamente irrestrito de Fielder ao cotidiano da família o leva a se inserir cada vez mais naquela dinâmica enquanto tenta extrair de Holmes a verdade sobre o caso da Theranos.


A questão é: há uma verdade para ser extraída, ou múltiplas? Nesse sentido, é justo que o filme se concentra mais numa espécie de pós-verdade, já que quanto mais Fielder escrutina Holmes e seu marido, Billy Evans, mais fica evidente a disputa de narrativas. O comediante canadense, conhecido por seu humor desconfortável em séries como Nathan For You, The Curse e O Ensaio, se vale desse desconforto para extrair algum nível de sinceridade das falas e ações do casal, operando nas sutilezas e brechas para conseguir “atos falhos” deles, como na cena em que a montagem alterna os relatos de Holmes e Evans sobre o primeiro encontro deles. Fielder, se não exatamente um personagem no filme (pelo menos não na primeira parte), evita a figura tipicamente invisível dos documentaristas para se integrar àquela rotina, mesmo com os conflitos e contradições decorrentes daquele nível de envolvimento.


A direção de Fielder e Oppenheim reforça esse desconforto com a ênfase em planos fechados e closes que se centram nos detalhes reveladores das expressões – ou da falta de detalhes, como o foco nos vívidos e perturbadores olhos azuis de Holmes, que, junto com seu sorrisinho, nunca nos permitem saber se ela de fato acredita que é inocente em todo o escândalo da Theranos ou se está mentindo para Fielder e para o público. O melhor de tudo é que, para quem já assistiu as séries dele, sabe da sua capacidade de extrair verdades desconfortáveis com seu olhar inquisitivo e disruptivo para as condições humanas, de modo que ver suas interações com Holmes é como assistir a um gênio encontrar uma rival à altura (e, intencionalmente ou não, a aparente tensão sexual que surge entre os dois em determinados momentos se converte numa das ideias mais inusitadas e hilárias do filme).


Divulgação


Mas, surpreendentemente, Holmes é talvez eclipsada pelo próprio Evans à medida que o filme avança, e isso não parece acidental. Não só porque o filme avança para além da prisão da bilionária, mas porque gradativamente descortina o lado manipulador e sorrateiro de Evans, cuja relação com Fielder se torna mais e mais friccional à medida que o documentarista se torna investido em entender até que ponto ele tomava decisões em nome de Holmes e por que fazia isso. O fato de Evans se tornar cada vez mais confortável diante das câmeras – culminando numa cena em que ele revela sua admiração por uma figura... controversa, para dizer o mínimo – é, dentre outras coisas, um atestado do poder da câmera de Fielder e Oppenheim em se imiscuir com a realidade dos seus personagens, que parecem esquecer de que estão sendo gravados para um documentário.


Mas se mencionei antes obras como Jogo de Cena para indicar a relação de Tudo Pode Ser Visto com o docudrama, é porque, na ausência de Holmes em cena, Fielder simplesmente resolve dobrar a aposta e trazer uma atriz conhecida para preencher essa ausência. Não revelarei a identidade da atriz (embora não seja nenhuma surpresa para quem já acompanha o caso de Holmes), mas é fascinante como não só ela precisa incorporá-la para reencenar eventos específicos que os diretores não haviam gravado, mas se junta ao próprio Fielder para descobrir a verdade por trás das motivações de Evans (como na cena citada no parágrafo anterior), além de ser confrontada por sua própria performance, numa sobreposição de camadas que diluem por completo esses limites entre documentário e ficção.


Emergindo como uma obra surpresa neste ano e rapidamente se tornando um dos marcos culturais de 2026, Tudo Pode Ser Visto pode não surpreender quem já tem um repertório do docudrama, mas isso em nada mina o impacto de mergulhar nessa experimentação fílmica de Nathan Fielder e Lance Oppenheim. Se ao final do filme parecemos saber menos sobre Elizabeth Holmes e Billy Evans do que quando começamos, de certa forma parece ser esse o objetivo dos diretores: brincar com as noções de verdade num mundo onde mais importa a narrativa, e brincar com as formas do documentário e da ficção para nos dar a possibilidade de estabelecermos nossa própria verdade. Se por vezes a expressão “já nasceu clássico” é usada levianamente para filmes que não a merecem, definitivamente não é o caso aqui, já que estamos diante de uma das experiências mais insanas e distintas do cinema recente.


Nota: 5/5

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Nathan Fielder e Lance Oppenheim embaralham os limites entre o documental e ficcional para escrutinar a vida de Elizabeth Holmes num filme que faz jus à sua reputação.


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Quando assisti Jogo de Cena, de Eduardo Coutinho, fiquei fascinado pela maneira como o diretor borrava os limites entre o gênero do documentário e da ficção ao trazer mulheres comuns contarem suas experiências de vida, apenas para que víssemos atrizes famosas como Fernanda Torres, Andréa Beltrão e Marília Pêra para contar as mesmas histórias daquelas mulheres. Naquela linha tênue entre o “real” e a ficção, a quem pertenciam tais histórias? Como discernir o que era verdadeiro e o que era encenado?


Desde então, docudramas, como Jogo de Cena ou Close-Up de Abbas Kiarostami, se tornaram um dos meus subgêneros favoritos, e é possível considerar Tudo Pode Ser Visto como parte dessa seara. O documentário dirigido por Nathan Fielder e Lance Oppenheim busca retratar os últimos 34 dias de Elizabeth Holmes, bilionária conhecida pelo escândalo com a sua empresa Theranos, e de sua família antes dela ser presa. Entretanto, o acesso praticamente irrestrito de Fielder ao cotidiano da família o leva a se inserir cada vez mais naquela dinâmica enquanto tenta extrair de Holmes a verdade sobre o caso da Theranos.


A questão é: há uma verdade para ser extraída, ou múltiplas? Nesse sentido, é justo que o filme se concentra mais numa espécie de pós-verdade, já que quanto mais Fielder escrutina Holmes e seu marido, Billy Evans, mais fica evidente a disputa de narrativas. O comediante canadense, conhecido por seu humor desconfortável em séries como Nathan For You, The Curse e O Ensaio, se vale desse desconforto para extrair algum nível de sinceridade das falas e ações do casal, operando nas sutilezas e brechas para conseguir “atos falhos” deles, como na cena em que a montagem alterna os relatos de Holmes e Evans sobre o primeiro encontro deles. Fielder, se não exatamente um personagem no filme (pelo menos não na primeira parte), evita a figura tipicamente invisível dos documentaristas para se integrar àquela rotina, mesmo com os conflitos e contradições decorrentes daquele nível de envolvimento.


A direção de Fielder e Oppenheim reforça esse desconforto com a ênfase em planos fechados e closes que se centram nos detalhes reveladores das expressões – ou da falta de detalhes, como o foco nos vívidos e perturbadores olhos azuis de Holmes, que, junto com seu sorrisinho, nunca nos permitem saber se ela de fato acredita que é inocente em todo o escândalo da Theranos ou se está mentindo para Fielder e para o público. O melhor de tudo é que, para quem já assistiu as séries dele, sabe da sua capacidade de extrair verdades desconfortáveis com seu olhar inquisitivo e disruptivo para as condições humanas, de modo que ver suas interações com Holmes é como assistir a um gênio encontrar uma rival à altura (e, intencionalmente ou não, a aparente tensão sexual que surge entre os dois em determinados momentos se converte numa das ideias mais inusitadas e hilárias do filme).


Divulgação


Mas, surpreendentemente, Holmes é talvez eclipsada pelo próprio Evans à medida que o filme avança, e isso não parece acidental. Não só porque o filme avança para além da prisão da bilionária, mas porque gradativamente descortina o lado manipulador e sorrateiro de Evans, cuja relação com Fielder se torna mais e mais friccional à medida que o documentarista se torna investido em entender até que ponto ele tomava decisões em nome de Holmes e por que fazia isso. O fato de Evans se tornar cada vez mais confortável diante das câmeras – culminando numa cena em que ele revela sua admiração por uma figura... controversa, para dizer o mínimo – é, dentre outras coisas, um atestado do poder da câmera de Fielder e Oppenheim em se imiscuir com a realidade dos seus personagens, que parecem esquecer de que estão sendo gravados para um documentário.


Mas se mencionei antes obras como Jogo de Cena para indicar a relação de Tudo Pode Ser Visto com o docudrama, é porque, na ausência de Holmes em cena, Fielder simplesmente resolve dobrar a aposta e trazer uma atriz conhecida para preencher essa ausência. Não revelarei a identidade da atriz (embora não seja nenhuma surpresa para quem já acompanha o caso de Holmes), mas é fascinante como não só ela precisa incorporá-la para reencenar eventos específicos que os diretores não haviam gravado, mas se junta ao próprio Fielder para descobrir a verdade por trás das motivações de Evans (como na cena citada no parágrafo anterior), além de ser confrontada por sua própria performance, numa sobreposição de camadas que diluem por completo esses limites entre documentário e ficção.


Emergindo como uma obra surpresa neste ano e rapidamente se tornando um dos marcos culturais de 2026, Tudo Pode Ser Visto pode não surpreender quem já tem um repertório do docudrama, mas isso em nada mina o impacto de mergulhar nessa experimentação fílmica de Nathan Fielder e Lance Oppenheim. Se ao final do filme parecemos saber menos sobre Elizabeth Holmes e Billy Evans do que quando começamos, de certa forma parece ser esse o objetivo dos diretores: brincar com as noções de verdade num mundo onde mais importa a narrativa, e brincar com as formas do documentário e da ficção para nos dar a possibilidade de estabelecermos nossa própria verdade. Se por vezes a expressão “já nasceu clássico” é usada levianamente para filmes que não a merecem, definitivamente não é o caso aqui, já que estamos diante de uma das experiências mais insanas e distintas do cinema recente.


Nota: 5/5

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