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Crítica | Primetime (Mostra de SP 2026)

Vinicius Oliveira

27 de out de 2026 · 4 min de leitura

Robert Pattinson encarna a sede punitivista e revanchista de um Estados Unidos pós-11 de setembro em thriller psicológico com ecos de sátira

Imagem: Divulgação
Imagem: Divulgação

Em determinada cena de Primetime, Chris Hansen (Robert Pattinson) está em um avião quando é abordado por um passageiro (Creed Bratton) que elogia efusivamente seu trabalho com o programa How to Catch a Predator, onde Hansen arma ciladas para pedófilos que acham que estão se encontrando presencialmente com suas vítimas. Após ouvir sua história de como fez o programa acontecer, o passageiro então diz, com seriedade, que se fosse ele no lugar de Hansen mataria aqueles pedófilos, e lhe pergunta: “você não sente vontade de fazê-los sangrar?”. Ao que o protagonista responde: “acho que o que faço com eles é muito pior”.


Essa cena, que não deve ter mais do que cinco minutos, é a síntese perfeita do que Lance Oppenheim busca trabalhar em Primetime. Desde seus primeiros minutos, quando vemos Hansen repetir em voz alta as mensagens que um dos pedófilos encaminhava à sua vítima – que, na verdade, é o vigilante online Xavier Von Erck (Matthew Maher), o qual trabalha junto ao apresentador para expô-los –, Oppenheim põe estes personagens e suas ações sob o escrutínio da própria mídia com a qual trabalham, à medida que eles têm a oportunidade de alçar voos mais ambiciosos com a inserção de How to Catch a Predator no horário nobre, competindo com as séries da época, como Lost.


O uso de variadas lentes, paletas de cores e telas permite que Oppenheim transforme o que poderia ser um drama biográfico qualquer num thriller psicológico e estudo de personagem aterrador – e sem respostas fáceis. A proposta estética trabalhada por ele junto ao diretor de fotografia, David Bolen, faz do filme um verdadeiro caleidoscópio, onde o tom opaco das cores confere um aspecto quase onírico (ou de pesadelo), como nas cenas em que Hansen confronta os predadores, com uma textura quase tátil oriunda do trabalho com a digitalização em 16mm. As variações de cores permitem ao público mergulhar na psique destes personagens, como quando o protagonista é diretamente confrontado por um dos seus predadores e seu rosto é mergulhado em sombras – num breve instante de hesitação e medo – antes de ser banhado em luz – para indicar sua retomada de controle.


Além disso, Oppenheim constantemente insere tomadas que aludem às gravações em vídeo dos anos 2000, mesmo em momentos em que não há nenhuma câmera para gravar a estes personagens. Em determinado momento, Hansen diz a Dan Plumm (Sjyler Gisondo), um dos atores que “interpretam” as vítimas do programa, que nada do que ele faz é atuação, mas o vemos constantemente encenar perante espelhos antes de suas entradas triunfais, ou mesmo trafegar entre diferentes timbres e expressões a cada interação sua – como quando tenta apaziguar sua amante. O que não fazemos todos os dias senão atuar uns para os outros? Quem somos de verdade? Em tempos de mediação constante pelas redes sociais, quantas personas somos capazes de ter?


Imagem: Divulgação
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Mas mais do que um estudo de personagem que brinca com a linha tênue entre realidade e ficção (algo mais do que propício para um cineasta que se consolidou primeiro no documentário), Primetime captura um sentimento geral dos EUA no rescaldo do 11 de setembro, algo expresso pelas várias inserções de trechos de jornais e mídias das operações no Iraque e no Afeganistão, bem como do julgamento de Saddam Hussein. A fala do passageiro na cena descrita acima reflete o desejo punitivista e revanchista de uma população, que então se encontra na justiça (ou vigilância) oferecida por Hansen em seu programa. 


Afinal de contas, não há lugar melhor para canalizar nossos ódios e ressentimentos do que nos meios midiáticos, e no filme esses meios ainda são entrelaçados com a violência inerentemente estadunidense - como na cena em que a produtora de Hansen, Andie Bender (Merritt Wever), pede para que se coloquem câmeras nas armas dos policiais antes de capturarem um predador. Com isso, o filme ganha um ar quase satírico ao propor a leitura dessa realidade por intermédio da instituição jornalística e todos os seus podres e contradições, evidenciando-se como um filho distante de Rede de Intrigas.


Nesse sentido, a escalação de Robert Pattinson parece a mais perfeita possível, já que qualquer um que viu um vídeo do “verdadeiro” Chris Hansen se depara com o ego megalomaníaco do homem. A versão fílmica pode até ser suavizada em alguns pontos (principalmente na relação com a família distante), mas Pattinson abraça o complexo de salvador do personagem sem deixar de dar certa margem para a ambiguidade sobre se ele acredita mesmo no que está fazendo ou se é um cínico. No entanto, o papel parece tão feito sob medida para ele que não é difícil de pensar que é “mais” um que ele faz na sua já brilhante carreira, de modo que nem consigo enxergá-lo como o verdadeiro destaque do filme, especialmente considerando o trabalho de Wever como uma mulher acomodada a um sistema tão cínico e desumano que rejeita qualquer possibilidade de redenção, e de Gisondo como a figura mais “empática” da obra, mas que mesmo que siga um arco bem clichê de tocar o abismo e escolher se recuar, ainda assim convence enquanto alguém que vai se encontrando nesse universo por intermédio da atuação e da performance.


Primetime é um filme estadunidense por excelência, ao refletir essa sede de sangue compartilhada por toda uma nação, mediada pelas telas e por suas próprias instituições. O filme nunca parece interessado em oferecer uma resposta óbvia sobre até que ponto seus personagens realmente são comprometidos com a causa que dizem defender – e poderia ser fácil dizer que ele “passa pano” para os pedófilos expostos pelo programa de Hansen. Mas a verdade que ele traz é mais dura: a de que estamos dispostos a tudo, absolutamente tudo, em nome de um bem maior, quer acreditemos nesse bem ou não. E é dessas sementes dos EUA dos anos 2000 que nasceram o projeto fascista dos EUA dos anos 2020.


Nota: 4/5

 


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Imagem: Divulgação
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Essa cena, que não deve ter mais do que cinco minutos, é a síntese perfeita do que Lance Oppenheim busca trabalhar em Primetime. Desde seus primeiros minutos, quando vemos Hansen repetir em voz alta as mensagens que um dos pedófilos encaminhava à sua vítima – que, na verdade, é o vigilante online Xavier Von Erck (Matthew Maher), o qual trabalha junto ao apresentador para expô-los –, Oppenheim põe estes personagens e suas ações sob o escrutínio da própria mídia com a qual trabalham, à medida que eles têm a oportunidade de alçar voos mais ambiciosos com a inserção de How to Catch a Predator no horário nobre, competindo com as séries da época, como Lost.


O uso de variadas lentes, paletas de cores e telas permite que Oppenheim transforme o que poderia ser um drama biográfico qualquer num thriller psicológico e estudo de personagem aterrador – e sem respostas fáceis. A proposta estética trabalhada por ele junto ao diretor de fotografia, David Bolen, faz do filme um verdadeiro caleidoscópio, onde o tom opaco das cores confere um aspecto quase onírico (ou de pesadelo), como nas cenas em que Hansen confronta os predadores, com uma textura quase tátil oriunda do trabalho com a digitalização em 16mm. As variações de cores permitem ao público mergulhar na psique destes personagens, como quando o protagonista é diretamente confrontado por um dos seus predadores e seu rosto é mergulhado em sombras – num breve instante de hesitação e medo – antes de ser banhado em luz – para indicar sua retomada de controle.


Além disso, Oppenheim constantemente insere tomadas que aludem às gravações em vídeo dos anos 2000, mesmo em momentos em que não há nenhuma câmera para gravar a estes personagens. Em determinado momento, Hansen diz a Dan Plumm (Sjyler Gisondo), um dos atores que “interpretam” as vítimas do programa, que nada do que ele faz é atuação, mas o vemos constantemente encenar perante espelhos antes de suas entradas triunfais, ou mesmo trafegar entre diferentes timbres e expressões a cada interação sua – como quando tenta apaziguar sua amante. O que não fazemos todos os dias senão atuar uns para os outros? Quem somos de verdade? Em tempos de mediação constante pelas redes sociais, quantas personas somos capazes de ter?


Imagem: Divulgação
Imagem: Divulgação

Mas mais do que um estudo de personagem que brinca com a linha tênue entre realidade e ficção (algo mais do que propício para um cineasta que se consolidou primeiro no documentário), Primetime captura um sentimento geral dos EUA no rescaldo do 11 de setembro, algo expresso pelas várias inserções de trechos de jornais e mídias das operações no Iraque e no Afeganistão, bem como do julgamento de Saddam Hussein. A fala do passageiro na cena descrita acima reflete o desejo punitivista e revanchista de uma população, que então se encontra na justiça (ou vigilância) oferecida por Hansen em seu programa. 


Afinal de contas, não há lugar melhor para canalizar nossos ódios e ressentimentos do que nos meios midiáticos, e no filme esses meios ainda são entrelaçados com a violência inerentemente estadunidense - como na cena em que a produtora de Hansen, Andie Bender (Merritt Wever), pede para que se coloquem câmeras nas armas dos policiais antes de capturarem um predador. Com isso, o filme ganha um ar quase satírico ao propor a leitura dessa realidade por intermédio da instituição jornalística e todos os seus podres e contradições, evidenciando-se como um filho distante de Rede de Intrigas.


Nesse sentido, a escalação de Robert Pattinson parece a mais perfeita possível, já que qualquer um que viu um vídeo do “verdadeiro” Chris Hansen se depara com o ego megalomaníaco do homem. A versão fílmica pode até ser suavizada em alguns pontos (principalmente na relação com a família distante), mas Pattinson abraça o complexo de salvador do personagem sem deixar de dar certa margem para a ambiguidade sobre se ele acredita mesmo no que está fazendo ou se é um cínico. No entanto, o papel parece tão feito sob medida para ele que não é difícil de pensar que é “mais” um que ele faz na sua já brilhante carreira, de modo que nem consigo enxergá-lo como o verdadeiro destaque do filme, especialmente considerando o trabalho de Wever como uma mulher acomodada a um sistema tão cínico e desumano que rejeita qualquer possibilidade de redenção, e de Gisondo como a figura mais “empática” da obra, mas que mesmo que siga um arco bem clichê de tocar o abismo e escolher se recuar, ainda assim convence enquanto alguém que vai se encontrando nesse universo por intermédio da atuação e da performance.


Primetime é um filme estadunidense por excelência, ao refletir essa sede de sangue compartilhada por toda uma nação, mediada pelas telas e por suas próprias instituições. O filme nunca parece interessado em oferecer uma resposta óbvia sobre até que ponto seus personagens realmente são comprometidos com a causa que dizem defender – e poderia ser fácil dizer que ele “passa pano” para os pedófilos expostos pelo programa de Hansen. Mas a verdade que ele traz é mais dura: a de que estamos dispostos a tudo, absolutamente tudo, em nome de um bem maior, quer acreditemos nesse bem ou não. E é dessas sementes dos EUA dos anos 2000 que nasceram o projeto fascista dos EUA dos anos 2020.


Nota: 4/5

 


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