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Entrevista | Allan Deberton, Teca Pereira e Lázaro Ramos falam sobre “Feito Pipa”

Vinicius Oliveira

28 de out de 2026 · 5 min de leitura

Diretor e elenco vieram a São Paulo promover o filme, que representa o Brasil na corrida pelo Oscar e estreia no dia 5 de novembro

Imagem: Divulgação
Imagem: Divulgação

Escolhido pela Academia Brasileira de Cinema para ser o filme selecionado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, Feito Pipa chega aos cinemas na próxima quinta-feira, 5 de novembro. Dirigido por Allan Deberton (Pacarrete, O Melhor Amigo), o filme é estrelado por Yuri Gomes como Gugu, um menino queer do sertão cearense cuja convivência afetuosa com a avó Dilma (Teca Pereira) é afetada pela debilitação da saúde dela por conta do Alzheimer, enquanto lida com a relação tensa e conflituosa com o pai Batista (Lázaro Ramos), uma figura moldada pelo machismo e a masculinidade tóxica.


O Oxente Pipoca teve a oportunidade de assistir ao filme no Festival do Rio (confira a crítica aqui) e na Mostra de São Paulo, onde ele também foi tema de um dos painéis do Encontro de Ideias (confira a matéria aqui). Também conversamos com Allan, Teca e Lázaro, que falaram sobre as possibilidades de se usar a fabulação para discutir assuntos mais sérios e pesados, a construção de Dilma e sua doença e de como o filme oferece outras formas de se discutir machismo, homofobia e masculinidade. Confira a entrevista abaixo:


Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Allan, conversando com alguns colegas após a cabine do filme hoje, estávamos falando sobre como você consegue inserir esses elementos de fábula mesmo numa ambientação naturalista. Pensando no que foi discutido no painel sobre o filme semana passada, a respeito da importância de se pensar nas representações do Nordeste, como esses elementos fabulares podem ajudar a pensar outras formas de se representar o sertão e o Nordeste? Especialmente no caso de “Feita Pipa”, que trabalha com essa representação de uma criança queer em pleno sertão.

Allan Deberton: Se você pega a história pela história, o roteiro, Feito Pipa é um tanto duro. A gente coloca ali questões muito profundas, muito complexas para uma criança carregar em tela, mas é muito importante trazer, no lugar imagético, no lugar de sentimento, esse colorido que está com personagem, que tem ali uma questão de identificação com o universo dele.


É um colorido que é da avó, da Dilma, que é da vida, um colorido de atitude. E então não haveria uma outra forma de estar fazendo Feito Pipa que não fosse com essas cores e com essas músicas. Eu acho que fazendo isso, a gente vai de encontro a um cinema que convida as pessoas para o filme, para aqueles personagens, para a dança que ele propõe.


Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Teca, sua interpretação mexeu muito comigo porque tenho uma avó com demência e Alzheimer, então ver essa questão da deterioração da personagem me tocou muito. Como foi construir esse processo de deterioração, sobretudo pensando em como isso afeta o relacionamento afetuoso dela com Gugu?

Teca Pereira: Como é uma coisa muito delicada e eu já havia feito uma fase terminal da doença num outro filme [Kasa Branca], a Dilma era muito importante para mim, por causa dessa dificuldade com a parcela dela que vai ficando sem memória. Ela vai se entregando um pouco, mas se entregando muito pouco, porque ela é de uma alegria muito grande, e para mim – que não sou avó, mas adoro crianças – essa coisa com o neto foi importante. 


Eu tive ajuda de um médico neurologista, porque é delicado isso, eu precisava compor a Dilma com aquela a pausa que ela dá cada vez. Então, eu fui acompanhada por esse médico, que me mostrou inclusive algumas pessoas em algumas fases para eu construir também algumas fases da Dilma. Eu precisava desse feedback como atriz, porque foi um trabalho não trabalhoso, mas foi bem trabalhado, e era doloroso, ao mesmo tempo eu tinha que passar pela experiência daquelas pessoas que tinha visto nos filmes que o neurologista me mostrou, para sentir mesmo.


E aí eu abracei a Dilma de uma maneira, e eu tenho muito dela, que é a alegria, a vivacidade, ela é uma pessoa livre totalmente e ela deixa o neto dela livre também. Porque a liberdade é a coisa mais importante ali; mesmo doente, ela continua livre, ela está em algum lugar, mas está levando aquilo gradativamente.


Imagem: Divulgação
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Lázaro Ramos (Oxente Pipoca): Lázaro, seu personagem tem uma construção muito interessante, que evita clichês sobre pais abusivos e violentos, mas que enfoca essas mini-violências. Uma das minhas cenas favoritas é aquela em que Batista mal esconde a decepção quando descobre o sexo do bebê no chá revelação. Você também comentou no painel sobre fazer um personagem que não grita ou é explosivo, então como foi construir as nuances deste pai? O que você pensou que poderia trazer de diferente em termos de representação paterna, especialmente de paternidade negra, no cinema?

Lázaro Ramos: Eu acho que tem duas coisas. Primeiro: é uma estratégia narrativa que vem do nosso roteiro e do nosso diretor. Ele não queria fazer personagens estereotipados, nenhum deles, queria que todos os personagens tivessem camadas, apesar de na minha primeira leitura eu pensar no personagem como um cara rígido, de cara fechada, com muito grito, pensando somente como um vilão. E foi muito legal passar por esse processo. 


E aí entra o segundo motivo: eu entendi que a gente já falou de vários desses temas em várias obras audiovisuais. A gente já falou de machismo, já falou de Alzheimer, já falou das questões queer. Mas com o que a gente pode contribuir de novo? Então, eu acho que esse é um dos elementos. 


É um filme que tem a pedagogia do afeto. A gente mostra que esse personagem tem afeto pelo filho, que ele gosta do filho, mas que tem uma rigidez por causa dos códigos de masculinidade que recebeu. E é muito legal isso, mas eu fiz uma construção de cena por cena. Porque a minha primeira abordagem às vezes era só dar um grito, ficar de cara fechada, expulsar o menino dali. Então, foi legal poder fazer um filme que você tem esse tempo dessa carpintaria, esse tempo das emoções, e o tempo das crianças foi muito respeitado para fazer o filme todo.


Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Penso nessas questões de padrões de gênero e da construção de seu personagem e do de Yuri [Gomes]. O Gugu é uma criança queer, mas que também gosta muito de futebol – por mais que seja um esporte atrelado a expressões desses códigos de masculinidade –, enquanto o Batista expressa abertamente esses códigos, mas não se interessa por futebol. Então como foi o processo de construção, sobretudo na sua relação com Yuri, que é pautada por afetos e também por conflitos? Como foi sair desse lugar de um certo binarismo de gênero e pensar a partir daí a dinâmica dos dois personagens?

Lázaro Ramos: Nossa, esse filme realmente foi um processo muito delicioso. A gente teve tempo de convivência, o período do ensaio foi longo e a gente todos os dias experimentava a cena em vários lugares. A gente buscava no estudo de cada cena e dizia assim: "Como é que a gente não é óbvio? Como é que a gente não inventa uma loucura, mas a gente consegue botar uma tintinha um pouco diferente?”. E eu acho que o filme foi bem-sucedido nesse sentido.


E aí é muito legal porque às vezes, quando se trabalha com criança, pensa-se que tem que usar somente a espontaneidade dela. E esse filme tem o espontâneo, mas tem muita técnica também, isso é importante falar. O Yuri é um menino talentoso, mas ele sabia o que é close, o que é a luz, que não pode olhar para a câmera, qual é o tempo de um set. Teve toda uma preparação também sobre o fazer cinema. E aí foi um processo que passou pelo emocional, mas muito pelo racional também.


E inclusive é um processo diferente dos outros filmes que eu fiz com crianças. A maioria dos filmes que eu fiz com crianças queria muito essa espontaneidade, que fizessem qualquer coisa, que tudo se adaptasse a ela. E esse processo não, e resultou num bom filme. É bom para a gente que mostrar também outros caminhos de como trabalhar com criança.


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O Oxente Pipoca teve a oportunidade de assistir ao filme no Festival do Rio (confira a crítica aqui) e na Mostra de São Paulo, onde ele também foi tema de um dos painéis do Encontro de Ideias (confira a matéria aqui). Também conversamos com Allan, Teca e Lázaro, que falaram sobre as possibilidades de se usar a fabulação para discutir assuntos mais sérios e pesados, a construção de Dilma e sua doença e de como o filme oferece outras formas de se discutir machismo, homofobia e masculinidade. Confira a entrevista abaixo:


Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Allan, conversando com alguns colegas após a cabine do filme hoje, estávamos falando sobre como você consegue inserir esses elementos de fábula mesmo numa ambientação naturalista. Pensando no que foi discutido no painel sobre o filme semana passada, a respeito da importância de se pensar nas representações do Nordeste, como esses elementos fabulares podem ajudar a pensar outras formas de se representar o sertão e o Nordeste? Especialmente no caso de “Feita Pipa”, que trabalha com essa representação de uma criança queer em pleno sertão.

Allan Deberton: Se você pega a história pela história, o roteiro, Feito Pipa é um tanto duro. A gente coloca ali questões muito profundas, muito complexas para uma criança carregar em tela, mas é muito importante trazer, no lugar imagético, no lugar de sentimento, esse colorido que está com personagem, que tem ali uma questão de identificação com o universo dele.


É um colorido que é da avó, da Dilma, que é da vida, um colorido de atitude. E então não haveria uma outra forma de estar fazendo Feito Pipa que não fosse com essas cores e com essas músicas. Eu acho que fazendo isso, a gente vai de encontro a um cinema que convida as pessoas para o filme, para aqueles personagens, para a dança que ele propõe.


Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Teca, sua interpretação mexeu muito comigo porque tenho uma avó com demência e Alzheimer, então ver essa questão da deterioração da personagem me tocou muito. Como foi construir esse processo de deterioração, sobretudo pensando em como isso afeta o relacionamento afetuoso dela com Gugu?

Teca Pereira: Como é uma coisa muito delicada e eu já havia feito uma fase terminal da doença num outro filme [Kasa Branca], a Dilma era muito importante para mim, por causa dessa dificuldade com a parcela dela que vai ficando sem memória. Ela vai se entregando um pouco, mas se entregando muito pouco, porque ela é de uma alegria muito grande, e para mim – que não sou avó, mas adoro crianças – essa coisa com o neto foi importante. 


Eu tive ajuda de um médico neurologista, porque é delicado isso, eu precisava compor a Dilma com aquela a pausa que ela dá cada vez. Então, eu fui acompanhada por esse médico, que me mostrou inclusive algumas pessoas em algumas fases para eu construir também algumas fases da Dilma. Eu precisava desse feedback como atriz, porque foi um trabalho não trabalhoso, mas foi bem trabalhado, e era doloroso, ao mesmo tempo eu tinha que passar pela experiência daquelas pessoas que tinha visto nos filmes que o neurologista me mostrou, para sentir mesmo.


E aí eu abracei a Dilma de uma maneira, e eu tenho muito dela, que é a alegria, a vivacidade, ela é uma pessoa livre totalmente e ela deixa o neto dela livre também. Porque a liberdade é a coisa mais importante ali; mesmo doente, ela continua livre, ela está em algum lugar, mas está levando aquilo gradativamente.


Imagem: Divulgação
Imagem: Divulgação

Lázaro Ramos (Oxente Pipoca): Lázaro, seu personagem tem uma construção muito interessante, que evita clichês sobre pais abusivos e violentos, mas que enfoca essas mini-violências. Uma das minhas cenas favoritas é aquela em que Batista mal esconde a decepção quando descobre o sexo do bebê no chá revelação. Você também comentou no painel sobre fazer um personagem que não grita ou é explosivo, então como foi construir as nuances deste pai? O que você pensou que poderia trazer de diferente em termos de representação paterna, especialmente de paternidade negra, no cinema?

Lázaro Ramos: Eu acho que tem duas coisas. Primeiro: é uma estratégia narrativa que vem do nosso roteiro e do nosso diretor. Ele não queria fazer personagens estereotipados, nenhum deles, queria que todos os personagens tivessem camadas, apesar de na minha primeira leitura eu pensar no personagem como um cara rígido, de cara fechada, com muito grito, pensando somente como um vilão. E foi muito legal passar por esse processo. 


E aí entra o segundo motivo: eu entendi que a gente já falou de vários desses temas em várias obras audiovisuais. A gente já falou de machismo, já falou de Alzheimer, já falou das questões queer. Mas com o que a gente pode contribuir de novo? Então, eu acho que esse é um dos elementos. 


É um filme que tem a pedagogia do afeto. A gente mostra que esse personagem tem afeto pelo filho, que ele gosta do filho, mas que tem uma rigidez por causa dos códigos de masculinidade que recebeu. E é muito legal isso, mas eu fiz uma construção de cena por cena. Porque a minha primeira abordagem às vezes era só dar um grito, ficar de cara fechada, expulsar o menino dali. Então, foi legal poder fazer um filme que você tem esse tempo dessa carpintaria, esse tempo das emoções, e o tempo das crianças foi muito respeitado para fazer o filme todo.


Vinícius Oliveira (Oxente Pipoca): Penso nessas questões de padrões de gênero e da construção de seu personagem e do de Yuri [Gomes]. O Gugu é uma criança queer, mas que também gosta muito de futebol – por mais que seja um esporte atrelado a expressões desses códigos de masculinidade –, enquanto o Batista expressa abertamente esses códigos, mas não se interessa por futebol. Então como foi o processo de construção, sobretudo na sua relação com Yuri, que é pautada por afetos e também por conflitos? Como foi sair desse lugar de um certo binarismo de gênero e pensar a partir daí a dinâmica dos dois personagens?

Lázaro Ramos: Nossa, esse filme realmente foi um processo muito delicioso. A gente teve tempo de convivência, o período do ensaio foi longo e a gente todos os dias experimentava a cena em vários lugares. A gente buscava no estudo de cada cena e dizia assim: "Como é que a gente não é óbvio? Como é que a gente não inventa uma loucura, mas a gente consegue botar uma tintinha um pouco diferente?”. E eu acho que o filme foi bem-sucedido nesse sentido.


E aí é muito legal porque às vezes, quando se trabalha com criança, pensa-se que tem que usar somente a espontaneidade dela. E esse filme tem o espontâneo, mas tem muita técnica também, isso é importante falar. O Yuri é um menino talentoso, mas ele sabia o que é close, o que é a luz, que não pode olhar para a câmera, qual é o tempo de um set. Teve toda uma preparação também sobre o fazer cinema. E aí foi um processo que passou pelo emocional, mas muito pelo racional também.


E inclusive é um processo diferente dos outros filmes que eu fiz com crianças. A maioria dos filmes que eu fiz com crianças queria muito essa espontaneidade, que fizessem qualquer coisa, que tudo se adaptasse a ela. E esse processo não, e resultou num bom filme. É bom para a gente que mostrar também outros caminhos de como trabalhar com criança.


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